Ratos de Porão: João Gordo revisita erros, resgata o punk brasileiro e encara um país em colapso

João Gordo, do Ratos de Porão, fala sobre Feijoada Acidente?, conflitos do passado, solidariedade e o Brasil em tensão

Uma das maiores referências do punk e do hardcore brasileiro, Ratos de Porão, finalmente corrigiu um erro histórico: disponibilizar nas plataformas digitais o álbum Feijoada Acidente?. Lançado em 1995, o trabalho presta homenagem às influências do gênero e traz no título uma brincadeira com o álbum The Spaghetti Incident? (1993) do Guns N’ Roses.

“Esse disco retornou a gente às raízes punk. A gente estava meio perdido porque tentamos carreira internacional e não deu muito certo. A gente tinha lançado Just Another Crime in Massacreland, um disco em inglês, bem gravado, bem produzido, mas era meio esquisitão, muita mistura de estilo que as pessoas não entenderam muito.

E aí, voltar a tocar punk rock e hardcore foi extremamente importante pra gente retomar a nossa caminhada. E foi o primeiro disco do Pica-Pau. Depois desse lançamento veio um disco porradão que se chama Carniceria Tropical, contextualiza João Gordo.

Formado em 1981, o grupo em sua formação atual conta com João Gordo (vocais), Jão (guitarra), Boka (bateria) e Juninho (baixo), e tem se apresentado ao vivo com sua turnê de 40 anos, que também marca o lançamento do álbum Necropolítica, produzido durante a pandemia.


Ratos de Porão - João Gordo revisita erros, resgata o punk brasileiro e encara um país em colapso (2026)
Ratos de Porão disponibiliza “Feijoada Acidente?” (1995) nas plataformas digitais. – Foto: Divulgação/ONErpm

Entrevista: João Gordo (Ratos de Porão)

Feijoada Acidente? foi relançado nas plataformas digitais. O disco é uma celebração do punk e hardcore brasileiro, com diversos covers de artistas como Inocentes, Lobotomia e AI-5. Como você reflete sobre essa cena?

João Gordo: Esse disco veio em uma época estranha. Ele veio logo depois daquele disco Just Another Crime… in Massacreland!, que foi feito na gringa. Esse disco é muito estranho, meio lento, de metal, eu não gosto muito dele. Daí voltamos pro Brasil e pensamos: Temos que voltar ao básico. E aí a gente resolveu homenagear o punk brasileiro. O Guns N’ Roses tinha lançado o The Spaghetti Accident? e daí decidimos chamar o nosso disco de Feijoada Acidente? Daí tem duas versões: a gringa e a nacional, né?

O critério para escolher as bandas, cara, que foi bem estranho, porque falta a banda ali, né? Por exemplo, não tem Cólera porque na época eu era brigado com o Redson Pozzi (vocalista original do Cólera), velho. Fazia uns 10 anos que eu não falava com o Redson, eu não ia colocar música do cara, entendeu? E não tem Lixomania também, porque na época eu também estava brigado com sei lá quem, acho que com o Mirão (Miro de Melo, ex-baterista do Lixomania). Eu falei: “não vou dar esse boi pra esse cara”, tá ligado. Eu devia ter posto? Devia. Devia ter passado por cima disso aí. 

O trabalho arqueológico

Mas em compensação tem coisa muito obscura, velho. Tá ligado, tipo o AI-5… aí a gente teve que fazer uma reconstituição, uma arqueologia musical. Porque a fita que eu tinha deles tem uma hora ali que não dá pra entender nada que os caras fazem, tá ligado. Não dá pra entender base, letra, nada. Aí eu tive que inventar. Então eu compus um pedaço da música, aí o AI-5 morreu, voltou, e regravaram essa música e usaram a minha parte, né? Porque também os caras não lembravam. Então é isso aí, maior arqueologia musical.

E coisas como “Câncer”, do Hino Mortal, tá ligado? E pô, “Tenso”, do Patife Band… eu não sabia que essa música era do Arrigo Barnabé, tá ligado? Aí uma vez eu fui entrevistar ele e falei: “Pô, Arrigo, sabia que a gente fez uma do Patife?” Aí ele falou: “Essa música é minha!”. O cara é muito foda.

Esse disco saiu na Itália, saiu em um monte de lugares. Só faltava no digital, tinha um monte de gente cobrando, tá ligado. E as pessoas estão gostando, né? Acho que tem no YouTube também. O pessoal mais novo fica mais nessa de plataforma.”



Inclusive, a minha música favorita do disco eu acho que é essa do AI-5. 

João Gordo: “John Travolta”, né? Pô… Eu vou fazer 62. Eu conheci os caras do AI-5 em 79. Conheci o Clemente em 79. Anos 70… você não era nem uma estrelinha no céu quando eu tava lá com 13 anos conhecendo os caras, tá ligado. Eu era amigo do Sid, o baixista do AI-5. Ele trabalhava na Wop-Bop Discos, que foi a primeira loja alternativa da Galeria do Rock, que vendia disco punk.”

Dentre essas bandas, qual foi a mais importante pra você, na sua formação musical?

João Gordo:Eu era muito fã de Inocentes, cara. Pra mim era a principal da época. Depois veio Olho Seco, veio Cólera… 

Pô, lembrei dos Cascavelletes, cara. O Cascavel é foda. Sabe como eu conheci os Cascavelletes? Eles estavam tocando no Madame Satã numa quarta-feira, não tinha ninguém. Tava eu e mais uns amigos. Os caras só tinham fita demo. O Flávio Basso, o Júpiter Maçã né, vestido de Syd Vicious, os outros três de terninho… e os punks tudo louco. Foi legal pra caralho. Eu comprei a fita e fiquei ouvindo, ouvindo, ouvindo… decorei todas as músicas. Depois fiquei amigo dele, da irmã dele. Resolvi fazer essa homenagem nessa época.”

Nesse repertório, chama atenção também uma música que infelizmente ganhou notoriedade de um jeito negativo de novo, que é Garotos Podres e o “Papai Noel, Velho Batuta”. Eles foram indiciados pela polícia no final de 2025 por causa dessa música.

João Gordo: “Isso é ridículo. Muita gente inclusive acha que essa música é nossa por causa dessa gravação, nem sabe que existe Garotos Podres. E se os caras começarem a pegar letra e querer cobrar, eu tô fodido, velho. Tenho coisa mais explícita ainda. Isso é foda. O que vale hoje é a narrativa, não precisa ser verdade.”

Vocês eram uma banda de crossover numa época em que metal e punk não conversavam muito no Brasil.

João Gordo: A gente é traidor do movimento até hoje. Mas hoje isso é papo de bolsominion, chamando a gente de traidor. A gente sempre foi diferente do público. Quando todo mundo era punk rock, a gente falou que tocava hardcore: “traidor do movimento”. Quando todo mundo virou hardcore, a gente virou metal. Isso antes do crossover. O que me influenciou a virar metal foram bandas inglesas, o metal punk. Discharge, Antisect, Onslaught, tá ligado? Nos Estados Unidos tinha DRI, Corrosion of Conformity… aí deram o nome de crossover.”

Você teve duas oportunidades recentes de tocar no Allianz Parque: com o Ratos durante o Knotfest 2024 e também uma participação no show do Planet Hemp. Você comentou que foram experiências muito diferentes por conta do público. O que você acha desse Brasil tão dividido?

João Gordo: O mundo tá dividido. Bem contra o mal, cada um acha que tá do lado certo. O povo tá muito louco. Isso é coisa de terceira guerra mundial pra cima.

A gente tocou entre Mudvayne e Slipknot. Nu metal direitista pra caralho. Durante nosso show deu pau na iluminação, calibraram a luz do Slipknot enquanto a gente tocava. Ficamos no escuro, mas o som tava ótimo. Tinha uns 70% ali querendo que acabasse logo, mas a câmera dava close na nossa camiseta “bilionários não deveriam existir” e na bandeira do MST. Isso deixou os bolsominions loucos.

Eu lavei a alma com o Planet Hemp. Ninguém esperava. Nem eu esperava que eles iriam me convidar, foi de última hora. Tava até meio triste. Pô, os caras são meus amigos, não vão me convidar pra ir? 

O impacto foi uma coisa meio Queen, ta ligado? Entrei com 60 mil pessoas, fiquei chocado. Já toquei pra muita gente, mas nunca assim, nunca fui ovacionado. Na verdade eu já tomei ovada. Foi muito louco. E os caras são muito meus amigos, os Planet Hemp. A gente tem um monte de história junto.”

Mudando um pouco de assunto, mas ainda falando de coisas bem punk rock: todo fim ano existe a repercussão do Natal da Solidariedade Vegan, que você e sua esposa organizam. Como foi a edição de 2025?

João Gordo: Foi bem legal, cara. Tocou Asteroides Trio, o Dinho Ouro Preto cantou Ramones, foi um evento muito louco. Esse pessoal é tratado como lixo, tá ligado? Aí você dá atenção, chama pelo nome, dá pulseirinha VIP, olha no olho, faz festa… os caras ficam felizes pra caralho, o astral vai lá em cima.

E isso não tem nada a ver com Jesus, com religião. É pela gente mesmo. A gente não faz isso com medo de ir pro inferno — a gente quer ir pro inferno. Não quer trombar Malafaia, Feliciano, esses crentes escrotos. É um ato de solidariedade ao próximo, não cristão. Muito louco isso.”

Esse projeto já acontece desde a pandemia. Como ele surgiu?

João Gordo: Foi quando bateu a pandemia e sobrou comida lá no Bixiga, no nosso antigo restaurante. A Vivi (Viviana Torrico, Produtora cultural e esposa do João Gordo) levou umas coxinhas de jaca pra galera que ficava embaixo da ponte no Glicério. Ela voltou chorando, falando que não tinha comida pra todo mundo.

Ela sempre foi assim, solidária desde adolescente. Aí a gente resolveu fazer alguma coisa. Eu nem era mais vegano, mas a solidariedade era. Fizemos umas 78 marmitas com dinheiro do nosso bolso, com ajuda da Matilha Cultural.

Desde então a gente assumiu um compromisso que não tem mais como sair. A gente vive pra isso. Trabalha pra isso. É loucura, mas é necessário.”

É um trabalho incrível e ainda pouco falado. 

João Gordo: Porque é underground, antifascista… mas não anti-religião. Não somos anti-religião. Eu sou pró-macumba, adoro macumba. Mas esse bagulho de nazi-cristão, essa mistureba escrota de hoje… esses caras que acham que são israelenses… é ridículo demais. Eu fico com os afros que são muito mais legais.”

Nesse tema de influências afro-brasileiras, ano passado saiu o primeiro disco da banda do teu filho (Pietro Benedan, baterista), a Naimaculada, banda que recebe o nome inspirado em um terreiro em Osasco. Queria saber tua opinião sobre o disco.

João Gordo: Não é meu gosto musical. Eu sou radical, gosto de coisa podre. Mas admito que a banda é extremamente profissional. Os moleques tocam pra caralho.

Eu acho muito legal ele não ter seguido minha linha, fazer algo completamente oposto: progressivo misturado com MPB, blues. Claro que eu fico enchendo o saco pra ser mais pesado, mas dou meus conselhos.

É uma banda muito interessante, pós-pandêmica. Molecada que ficou trancada jogando videogame, ouvindo música, fazendo som de 12 minutos cheio de partes. É progressivo mesmo. Tem tudo pra dar certo.”

Tem algum artista mais jovem que chamou sua atenção no punk ou hardcore brasileiro?

João Gordo: Eu sou um velho podre, gosto de coisa velha e podre. Gosto de Podridão, que é uma banda de death metal. Facada, que é uma banda de grindcore. Mas tem umas bandas boas mais jovens aí. O Asfixia Social é muito interessante… Eu ouvi uma tal de Bebê Feio, achei o nome engraçado, dei uma escutada e achei legal também. Tem muita coisa interessante nova. O Brasil é foda, tem banda boa de tudo quanto é estilo. Difícil lembrar tudo agora.”

Falando de música brasileira, um dos projetos mais divertidos da sua carreira foi o Brutal Brega. Como isso começou?

João Gordo: Na pandemia eu engordei pra caralho, cheguei a 180 kg. Mas fiquei fazendo música. Fiz o Brutal Brega com o Valdério Santos, fiz o Asteroides Trio, fiz o Lockdown com o Antonio Araújo que era do Korzus… gravei tudo em casa.

O Brutal Brega começou quando o Valdério mostrou umas versões punk de música brega, tipo “Fuscão Preto”, aí eu falei: “Isso não é pra você cantar, isso é pra eu cantar!” Escolhi músicas dos anos 70 que eu já sabia cantar e ele fez as versões. Fizemos uma trilogia: brega, MPB e agora nós estamos terminando o samba. O disco de samba vai ser o mais legal, parece um disco de Oi! misturado com samba setentista. Tem Originais do Samba, Agepê. Mas tem umas coisas um pouco mais recentes como “Dança da Vassoura” do Molejo.

Tem a ideia de fazer umas vinhetas punk rock de propaganda antiga também. Vai ter vinheta do Café Seleto, Cremogemas… Saudosismo pra velho como eu, que não envelheceu, que só envelheceu a carcaça. É diversão garantida.”



Falamos sobre seus projetos durante a quarentena, mas e a retomada aos palcos depois da pandemia? Sei que você teve problemas de saúde.

João Gordo: “Foi meio difícil, cara, porque eu estava gigante e estava meio que morrendo. Eu senti que a minha vida estava se esvaindo, que eu não conseguia fazer mais nada, cara. Aí teve uns shows lá na Iglesia, cada semana foi um disco, foi legal. Eu estava gigantaço, cara, tá ligado? Aí depois teve uns shows assim… teve um show no Knotfest da Colômbia. Depois teve um Rock in Rio.

Aí eu falei: “pô… resolvi parar de beber e fazer regime. Tudo bem.”

E agora o Ratos segue firme e forte, fazendo shows. Fizeram shows em vários lugares no ano passado né?

João Gordo: Tem uns rolê muito doido, cara. Turnê no México, velho. Inglaterra também. Os lugares são foda. A turnê do México é muito louca, cara, parecia aqueles lugares de “Um Drink no Inferno”. Tipo a 200 km do Texas, umas coisas assim.”

E o que a gente pode esperar então de vocês? Você falou um pouquinho dos projetos solo que você tem gravados aí para o futuro, mas pra vocês, projetos para 2026 em diante no Ratos?

João Gordo: Cara, maior bando de preguiçoso, cara. Ninguém quer saber de ensaiar, tá ligado? Então você pode ver que os discos têm um espaço no mínimo de quatro anos. Ou mais.

Disco novo dos meus projetos, cara, tem aí… vai sair em vinil do João Gordo, vai sair o novo disco do Asteroides Trio, que é um disco de psychobilly, que esse é muito louco. Esse aí é o extremo, cara. Esse é o fundo do poço da desgraceira, só fala de droga e capeta. O disco inteiro, todas as letras, muito engraçado, pensamento antigo anos 70, droga antiga. Tem até um glossário no disco porque senão o pessoal não pega pra entender aquilo lá tudo, cara. Esse vai sair agora. Chama Alucinógeno Infernale, tá ligado? Toda a temática é de black metal, mas é psychobilly.

Vai sair em vinil também minha parceria com o Babylons P também, que é um DJ de dubstep amigo meu. Ele tocava guitarra numa banda alternativa antiga chamada Elma. A gente fez uma mistura de dubstep com sludge. Tem participação do Andreas Kisser, participação do Moisés do Krisiun, participação do meu filho Pietro tocando bateria. Bem interessante. Já saiu faz algum tempo, mas vai sair em vinil agora.

E também… caralho… Tem mais alguma coisa, cara. Eu faço uma coisa em cima da outra, tá ligado? E é foda, né? Você não sabe quanto de vida você tem mais, cara. Então vamos fazer um monte de coisa. “O João Gordo atira pra tudo que é lado.” Foda-se, cara.”



Para encerrar, pelo nome do nosso site, a gente gosta de dar luz pra bandas que a gente acha que não receberam o reconhecimento que deveriam. Tem alguma banda que surge na cabeça quando você escuta isso?

João Gordo: “Patife Band, do Paulinho Barnabé. Até mesmo Cascavelletes também, que teve uma época de sucessinho, até música de novela. E muitas bandas de metal também que não decolaram. Tipo o Korzus, que é uma puta banda foda e nunca teve um reconhecimento legal.

As únicas bandas que são reconhecidas internacionalmente aqui são o Ratos, Sepultura, lógico, Krisiun que faz turnê pra caralho, Nervosa, Crypta… tá ligado? Mas é muito pouco ainda, cara.”

error: O conteúdo está protegido!!