Referências a músicas brasileiras em Cyberpunk 2077 abrangem mais de 50 faixas

 Referências a músicas brasileiras em Cyberpunk 2077 abrangem mais de 50 faixas

(Reprodução Facebook – Grupo “CyberPunk Brasil 2077”)

Quando lançou Cyberpunk 2077 dois anos atrás, a CD Projekt RED recebeu inúmeras críticas por entregar um jogo com muitos problemas técnicos e distante do prometido. O suporte ao idioma português do Brasil, no entanto, sempre destoou de todos os defeitos que o título apresenta, incluindo mais de 50 referências a músicas brasileiras, levantamento exclusivo do Hits Perdidos.

Joguei Cyberpunk 2077 no lançamento, no PlayStation 4, e não cheguei a somar nem 10h de progresso devido aos problemas no jogo. Em 2022, agora com um PlayStation 5 e uma série de atualizações que corrigiram boa parte dos bugs, me embrenhei por quase 90h no título.

Ao longo dessa jornada, na qual as missões — especificamente as secundárias — eram o que mais me mantinham imerso no jogo, o nome escolhido para cada uma delas me chamava cada vez mais atenção.

Logo no final do primeiro ato da campanha principal — e aqui fica o aviso para potenciais spoilers — percebi que estava completando a “Dias de Luta, Dias de Glória”. Mais do que a alusão ao hit do Charlie Brown Jr., a nomeação se adequava à missão em si, na qual você joga, pela primeira vez, na pele do lendário personagem Johnny Silverhand.

Interpretado por Keanu Reeves, Silverhand é um astro do rock neste universo, líder da banda “Samurai” e também da luta armada contra grandes corporações que controlam Night City, a fictícia metrópole do jogo. Ele morre muitos anos antes do início de Cyberpunk 2077, após um ataque à empresa Arasaka. No entanto, seu espectro acaba indo parar na mente do protagonista, chamado V. “Dias de Luta, Dias de Glória” é a primeira vez que o jogador revive os últimos momentos do rockstar-revolucionário.


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Peça essencial no enredo de Cyberpunk 2077, Johnny Silverhand é interpretado por Keanu Reeves no jogo

Por quê existem referências a músicas brasileiras em Cyberpunk 2077?

Uma vez que Silverhand é peça essencial para o enredo de Cyberpunk 2077, a direção do jogo optou por reverenciar diversas músicas, principalmente do gênero rock, em varidas instâncias do jogo para criar uma linguagem temática. As menções aparecem principalmente no nome das missões, sejam elas primárias ou secundárias.

A equipe que traduziu o jogo adaptou esse estilo presente no idioma original. Neste trabalho de localização, o jogo apresenta referências a músicas brasileiras muito precisas, de acordo com cada missão. Cabe ressaltar que nem todas estão devidamente traduzidas, ora para manter o sentido original, ora por motivos que a reportagem não pode apurar.

A cadeia de missões secundárias que exige ao jogador eliminar ou capturar todos os ciberpsicopatas pela cidade, por exemplo, se chama “Psycho Killer, C’est Que c’est” no idioma original e local. Talvez porque não encontraram alternativa entre músicas brasileiras para substituir a referência ao maior sucesso do Talking Heads.

Outras menções mantidas em inglês são aquelas que fazem referência a músicas da fictícia banda Samurai, como “Chippin’ In”, “Never Fade Away”, “The Ballad of Buck Ravers” e outras. No entanto, missões como “The Hunt”, “A Cool Metal Fire”, “Pyramid Song” e outras não traduzidas, não se justificam da mesma forma.


 

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Ambientação de Night City, metrópole de Cyberpunk invadida por megacoporações

O Hits Perdidos buscou contato com a CD Projekt RED para sanar essas dúvidas, mas foi informado de que a equipe responsável pela localização não tem autorização para conceder entrevistas sobre o assunto.

Relação entre os nomes das missões e seus objetivos

Uma das missões secundárias mais cativantes em Cyberpunk 2077, “Vou de Táxi” consiste em resolver uma série problemas envolvendo a IA da rede de transporte Delamain — uma espécie de Uber sem motorista, com carros controlados por sistema automatizado e até equipados com armas, caso o usuário seja assinante do plano mais avançado. A famosa faixa da Angélica se encaixa perfeitamente ao tema.

A cadeia de tarefas desta missão varia desde convencer um dos veículos a não se jogar de um precipício — devido à falha na IA, ele tomou conhecimento da realidade e se sente insignificante —, até resistir a investidas de um carro contra seu personagem — pois ele está revoltado contra o controle de Delamain. Na conclusão desta série de incumbências, é possível preservar a “falha” na IA e libertar os carros da rede Delamain que os explora.

Nem todas as missões secundárias, no entanto, envolvem muitos objetivos a se cumprir ou escolhas diferentes para conclusão. É o caso de “Desejo Ardente”, no qual você deve transportar um transeunte rapidamente a um hospital. O cidadão fez um implante no pênis e está pedindo socorro na rua porque parece que a ideia não deu muito certo. A menção à música de Carlos Alexandre é genial para a ocasião.

Outra missão secundária, uma das melhores do jogo, se divide em três partes. As duas primeiras fazem referência às faixas do Los Hermanos, “Cara Estranho” e “De Onde Vem a Calma”, respectivamente. Caso avance até a última parte, em “Perdoa” — nome de diversas músicas brasileiras —, o jogador presencia uma das experiências mais desconfortáveis de Cyberpunk 2077: o assassino Joshua se crucifica em uma demonstração de redenção pelo que fez, registrando o momento em uma neurodança — gravação da experiência de uma pessoa que pode ser vivenciada por consumidores.

Em “Amigo é Coisa pra se Guardar”, menção ao clássico do MPB, o jogador participa do funeral do personagem que o acompanha desde o início do jogo, Jackie Welles. Morto após a missão na qual V acaba obtendo a personalidade do Silverhand em sua cabeça, seu velório é um dos pontos mais dramáticos da campanha principal de Cyberpunk 2077.


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Personagem Jackie Welles em Cyberpunk 2077

As mais de 50 referências a músicas brasileiras em Cyberpunk 2077

Após finalizar a campanha principal de Cyberpunk 2077 e muitos objetivos secundários, busquei uma lista completa de todas as missões no jogo, mas só as encontrei no idioma original. Por meio do próprio jogo, identifiquei mais de 50 referências.

É possível, portanto, que existam muito mais do que estas. Até porque, o jogo possui seis finais diferentes, e o nome das missões de epílogo de cada um deles podem mudar de acordo com o caminho que o jogador decide tomar — até o fechamento desta matéria, realizei apenas três dos seis finais possíveis.

Veja abaixo o título de cada missão no jogo, em ordem alfabética, procedido pelo compositor, grupo de artistas ou banda que possui uma música com o mesmo nome ou relacionado.

  1. A Dois Passos do Paraíso – Blitz
  2. A Gente Colhe O Que Planta – Fábio Junior
  3. Além do Horizonte – Jota Quest
  4. Amigo É Coisa Pra Se Guardar – Milton Nascimento (“Canção da América”)
  5. Amigo VelhoFalamansa
  6. Anarkilópolis – Raul Seixas
  7. Andarilho da Luz – Flávio Venturini
  8. Balada do Louco – Os Mutantes (também interpretada por Ney Matogrosso)
  9. Bichos EscrotosTitãs
  10. Boneca Cibernética – Mamonas Assassinas (“Robocop Gay”)
  11. Cara Estranho – Los Hermanos
  12. Chopis Centis – Mamonas Assassinas
  13. Colhendo Tempestades – Nenhum de Nós
  14. Da Lama Ao Caos – Chico Science & Nação Zumbi
  15. De Onde Vem A Calma – Los Hermanos
  16. Desejo Ardente – Carlos Alexandre
  17. Diamante de Mendigo – Raul Seixas
  18. Dias De Luta, Dias De GlóriaCharlie Brown Jr.
  19. Encruzilhada – Peão Carreiro e Zé Paulo
  20. Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua – Sérgio Sampaio
  21. ÊxtaseGuilherme Arantes
  22. Festa Estranha com Gente Esquisita – Legião Urbana (“Eduardo e Mônica”)
  23. Fuscão Preto – Bandeirante (interpretada por Almir Rogério e Trio Parada Dura)
  24. Horizonte Distante – Los Hermanos
  25. Menina Veneno – Ritchie
  26. Metamorfose Ambulante – Raul Seixas
  27. Mulher de Fases – Raimundos
  28. Natureza Humana – Sérgio Lopes
  29. Noite Preta – Vange Leonel
  30. Nós Vamos Invadir Sua Praia – Ultraje a Rigor
  31. O Beco – Paralamas do Sucesso
  32. Paranoia – Raul Seixas
  33. Perdoa – Roberto Carlos, ANAVITÓRIA e Grupo Raça
  34. Polícia Para Quem Precisa – Titãs (“Polícia”)
  35. Quem Quer Criar Desordem – Titãs (“Desordem”)
  36. Rebelde Sem Causa – Ultraje a Rigor
  37. Rua dos Bobos – Vinícius de Moraes (“A Casa”)
  38. Segredos – Frejat
  39. Sociedade Alternativa – Raul Seixas
  40. Sujeito de Sorte – Belchior
  41. Tá Pra Nascer Um Homem Que Vai Mandar em Mim – Valesca Popozuda
  42. Tempo Perdido – Legião Urbana
  43. Tente Outra Vez – Raul Seixas
  44. Teto de VidroPitty
  45. Tiro, Porrada e Bomba – Valesca Popozuda (“Beijinho no Ombro”)
  46. Tropa de Elite – Tihuana
  47. Um Certo Alguém – Lulu Santos
  48. Um Lugar do Caralho – Jupiter Maçã (também interpretada por Wander Wildner)
  49. Um Pouco de Malandragem – Cazuza & Frejat (“Malandragem”, interpretada por Cássia Eller)
  50. Vamos Virar Japonês – Ultraje a Rigor
  51. Vida Passageira – Ira!
  52. Vou de Táxi – Angélica
  53. Welcome to TerreiroGangrena Gasosa

Referências extras

As menções a músicas brasileiras em Cyberpunk 2077 não estão distribuídas apenas nos nomes das missões do jogo. Durante a missão “A Gente Colhe o Que Planta”, a personagem Wakako recepciona V com um “Advinha doutor, quem tá de volta na praça”, referência direta a “Ex-quadrilha da Fumaça”, do Planet Hemp.

As reverências ao Brasil também não se limitam a musicas nacionais. Ao completar a série de contratos do Dino Dinovic, o jogador recebe um carro como recompensa, por meio de uma missão chamada “‘Celera, ‘celera muito”, meme icônico de uma senhora com medo ao atravessar de carro uma rua alagada.

Já na missão secundária “Alô Criançada, Ozob Chegou”, além da menção à música de abertura do programa do palhaço Bozo, há a presença de um personagem brasileiro. Ozob, um palhaço com um granada no lugar do nariz, foi criado por Deize Pazos, o Azaghal do Nerdcast, para partidas de RPG de mesa do Nerdcast RPG, e incluso pela CD Projekt RED em Cyberpunk 2077. Azaghal também é o responsável pela dublagem de Ozob no jogo.

Em “Um Lugar do Caralho”, o jogador interage com o “Capitão da Rua 6”, cuja dublagem é uma paródia ao jeito de falar e jargões do Jair Bolsonaro. O personagem é uma espécie de miliciano patriota. O objetivo aqui é completar uma série de tarefas de tiro ao alvo para obter uma arma como prêmio, ou meter bala em todo esse grupo de nacionalistas e tomar a recompensa para si, o que é muito mais divertido.



Há ainda missões como “Amigo Estou Aqui” e “Peguem o Pombo!”, que remetem às músicas do filme “Toy Story” e à abertura da animação “Dick Vigarista & Muttley”, respectivamente, e também uma música brasileira na trilha sonora do jogo. “Selva Pulsátil“, faixa do grupo carioca DEAFKIDS, foi composta originalmente para Cyberpunk 2077 — a banda é creditada pelo o pseudônimo de “Tainted Overlord” no jogo, bem como todos os demais artistas que compuseram para o soundtrack do game.

Considerações sobre Cyberpunk 2077 em 2022

Cyberpunk 2077 conseguiu em 2022 o que almejava em 2020. Após um série de atualizações de conteúdo e correção de bugs, a jogabilidade se tornou mais fluída e estável, ao menos em consoles da nova geração e em PCs com hardware de ponta.

Mas é inegável que o retorno do título aos holofotes se deve, principalmente, ao hype do anime “Cyberpunk: Mercenários” (ou “Edge Runners”), lançado na Netflix em setembro. No mesmo mês, a CD Projekt RED anunciou ter vendido mais de 20 milhões de cópias do jogo, e pouco depois anunciou ter batido a marca de mais de 1 milhão de jogadores ativos no título por quatro semanas consecutivas.

Cyberpunk é um subgênero de ficção ciêntifica que apresenta um futuro distópico repleto de alta tecnologia e baixa qualidade de vida, contando com diversas obras de sucesso em vários formatos de mídia, como literatura, cinema, jogos eletrônicos e outros.

Apesar de apresentar problemas, Cyberpunk 2077 retrata bem este subgênero em sua ambientação e oferece uma experiência divertida. Jogado em primeira pessoa com opção de terceira pessoa ao pilotar veículos, o game traz elementos de RPG que se adequam bem à proposta de ação e aventura em mundo aberto, possibilitando diversas variações de builds (construções de personagem).

Desta forma, é possível fazer com que V seja um destrutivo combatente melee (que utiliza armas corpo-a-corpo), ou um atirador hábil capaz de deitar um exército inteiro sozinho, ou um espião silencioso que rouba um megaprédio sem deixar rastro algum, ou um hacker avançado que desativa sistemas de segurança complexos e elimina inimigos poderosos com uma simples invasão em cibernéticas, e muitas outras possibilidades.


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Arte de Cyberpunk 2077

As cibernéticas, aliás, são uma excelente forma de variar a forma de jogar. É possível, por exemplo, adicionar um implante na perna que concede pulo duplo ao jogador; juntas biônicas que reduzem o coice de armas; ossos de titanium que aumentam sua capacidade de carga; um braço mecanizado que aumenta muito o dano de socos, entre outros.

O problema aqui é a ausência de uma consequência, uma vez que implantes cibernéticos proporcionam um aumento de ciberpsicose como regra deste universo, mas no jogo não afetam o personagem em nada além dos benefícios que concedem.

O gerenciamento de inventário é outra questão delicada. É necessário trocar, vender e desmontar trajes e armas que você coleta constantemente, pois há um limite de carregamento. Como os inimigos sempre dropam equipamentos de qualidade variada (e muitas vezes superiores até mesmo a armas lendária que você possui), sempre é preciso analisar as melhores opções e ajustar o inventário, o que se torna maçante ao longo do progresso.

Itens consumíveis são praticamente descartáveis, uma vez que oferecem bônus quase idênticos e pouco impactantes para a jogabilidade. Existem também muitos arquivos de texto com lore do jogo, que embora interessantes, se repetem nas fases e ora ou outra faz o jogador abandoná-los. O enredo da campanha principal não chega ao brilhantismo de outras obras do mesmo gênero, mas é compensado por narrativas de missões paralelas espalhadas por Night City.

E você: jogou Cyberpunk 2077? Encontrou alguma outra referência brasileira que não mencionamos na reportagem? O que acha do jogo?

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Gabriel Bonafé

Ainda ouve a trilha do SOTN, aprendeu que cerveja e videogame combinam desde quando jogava KOF nos fliperamas e defende que games indies são mais autênticos. Não zerou todos Final Fantasy, mas tem certeza de que o Barret é muito melhor do que o Cloud.

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