O mundo em colapso, os valores invertidos, niilismo, conflitos internos, confusão, nostalgia, tensão e se colocar nas trincheiras para o combate. É esse o espírito de Noites Infinitas, sexto álbum do WRY de Sorocaba (SP) que lança o material através do selo OAR (Boogarins, Particle Kid) após uma série de três singles revelados.

O cenário no horizonte é um Brasil passando por um momento difícil politicamente, socialmente e economicamente. O país vive um período onde sentimentos como revanchismo, e a ascensão de valores que sempre estiveram por aqui, mas que antes eram motivo de chiste, vem sendo revitalizados. Onde o absurdo é normalizado e o amanhã é repleto de incertezas.

A esperança por dias melhores não morre, como diz o segundo single do grupo, mas por muitas vezes ela é questionada durante nossos dias mais pessimistas. O disco coloca a tona nossas oscilações entre pedais de distorção, arcos e canções que se dividem entre o português e o inglês.

A Sorocaba do WRY

Conflitos que se estendem também para Sorocaba como já citado em entrevista exclusiva com Mario Bross durante o lançamento do single “Travel”.

“Parece que a gente acordou pra uma realidade, que pelo menos eu, não estava enxergando. Isso depois da eleição do Bolsonaro e do cancelamento do festival Circadélica. Percebi o quanto é perigoso ter ideias diferentes do normal numa cidade em que 74% votou no Messias.

Em todo esse período eu estava no Asteroid, um dos oásis na cidade, e sei das histórias de muita gente. Sou amigo de muitas pessoas que sofrem o preconceito de gênero e o racismo, por exemplo. Lembro lá no começo do bar, quando as gays dando mãos estava se tornando algo tão normal na cidade e de repente vem toda essa avalanche de pensamentos de extrema direita e as pessoas começaram a ter medo de novo, de simplesmente, andar de mãos dadas.”, conta Mario, vocalista, guitarrista e sintetizadores do WRY

A Resistência

“O Asteroid sofreu com gente tacando ovos, para você ter uma ideia. Fora essas experiências de outras pessoas, nós tivemos a nossa com o festival cancelado e as crises de ansiedade que vieram junto. Hoje estamos melhores e acho que ninguém tem que mudar de ideia, deve-se seguir em frente e fazer as coisas de uma forma que não terá como ser represada mais e eu acho que dá.

Sempre vai existir a contramão, de um jeito ou de outro, então é importante nunca abaixar a cabeça e enfrentar com sabedoria. Vai ter a hora que você precisa ficar quieto, e vai ter a hora que você vai gritar. Tem que saber controlar essa ansiedade, que sei que é um trabalho um tanto difícil.”, complementa o músico que também é um dos proprietários da casa de shows e organizador do festival Circadélica


WRY - crédito Ana Erica

WRYFoto Por: Ana Érica


Os 25 Anos do WRY

O WRY que conta com 25 anos de resistência, e teve seu início no lendário Junta Tribo II (1994), voltou em 2014 revigorado. Inclusive o último álbum lançado pelo grupo paulista foi há 11 anos, She Science (2009), mesmo neste período tendo lançado uma série de singles, EP e tendo lançado uma compilação.

No momento que coloquei a guitarra em punho e dei o primeiro acorde parecia que eu tinha rejuvenescido. Foi uma sensação incrível, da qual eu nunca vou esquecer. Eu me expressei verbalmente na hora pros caras da banda.

As referências dos primeiros dias de nomes como My Bloody Valentine, The Jesus And Mary Chain e Sonic Youth continuam a reverberar em Noites Infinitas. Mas isso não significa que o WRY parou no tempo e o amadurecimento no disco mostra como a banda soube se reinventar e experimentar no outras referências e sonoridades.

O Post-Punk, o Shoegaze, o Alternative Rock, as baladas e a música eletrônica parecem conviver em harmonia dentro dos arranjos e possibilidades artísticas do grupo.

Sempre vale lembrar o período que o WRY viveu em Londres, onde foi residente em um bar e teve a oportunidade de tocar ao lado de bandas indies dos anos 2000 em seu auge como The Subways, The Cribs, ASH e The Joy Formidable. Também trabalhou com Tim Wheeler (Ash) e Gordon Raphael (The Strokes).

A Discografia

Além do sexto álbum de estúdio, Noites Infinitas, o grupo já lançou os discos: She Science (2009); o álbum de covers National Indie Hits (2008); Flames in the Head (2005); Heart-Experience (2000); Direct (1998).

Os EPs: Deeper in a Dream (2014); Whales and Sharks (2007); Come and Fall (2004). A compilação Whales, Sharks and Dreams (2015) e os singles “Under your Skin” (2018); “She’s Falling” (2017); “Life is Like a Dream” (2017); “Sister/Different from me” (2007).

WRY Noites Infinitas

Noites Infinitas começou a ser composto a partir de 2017, com algumas coisas que vieram um pouco antes. Todo o material foi ensaiado no próprio estúdio da banda, Deaf Haus, onde foram feitos os arranjos e aconteceu a gravação. Podendo realizar o processo com tempo, uma oportunidade que muitas bandas não têm, o aperfeiçoamento se reflete na maturidade da entrega final.

A produção é assinada por Mario Bross, já a mixagem e masterização foram feitas por João Antunes entre janeiro e março de 2020. Quando me perguntam sobre o que faz um disco ser bom uma das minhas respostas é: refletir o tempo e conectar-se com o ouvinte. Algo que vai muito além do gosto ou preferência musical, algo importante como arte.

Esperar um disco com toda essa carga, e contexto, ser solar seria um erro. Assim como enquadrá-lo como gélido e pessimista.

A Viagem no Tempo

A luta de resistir e querer seguir em frente acaba transparecendo no single “Travel” que abre Noites Infinitas. Aliás Mario nos revela que após os 4 anos de hiato da banda, logo na volta aos ensaios, a energia do encontro com os companheiros fez com que ele se sentisse rejuvenescido. E talvez esse seja um dos maiores motivos do porquê materializar isso em uma música.

Aceitar-se como diferente, continuar seguindo na direção dos seus sonhos apesar dos inúmeros obstáculos, e não ver o tempo passar, são sentimentos transcendem tanto no single como na filosofia da banda.

A música é rápida e conta com um pouco mais de 2:30 de duração. Entre guitarras altas, distorções, vocais melódicos e reverbs, o single flerta com os estilos que foram incorporados pelo WRY ao longo da sua trajetória como o post-punk e a nostalgia das chamadas “guitar bands”. “Travel” é visceral e se despe para se libertar das intangíveis amarras do tempo.

A Ressaca

Parece ter uma grande névoa no horizonte para falar sobre o futuro em “Tumultos, Barulho e Confusão”, e a sensação de ressaca é iminente.

Niilista por natureza, a canção busca forças para seguir em frente após o golpe. Com direito a paredes de guitarras ásperas (com pedal que faz ela soar como synths), arco e metáforas acertadas para mostrar o clima de confusão. Entre longas, e dolorosas, batalhas e a busca iminente pela sonhada liberdade. Por mais poética que ela pareça no presente momento.

“Morreu a Esperança” é fundamental dentro do trabalho e ajuda a guiar o ouvinte dentro da narrativa. É a mais politizada e deixa claro o contexto do Bolsonaro e a onda de ódio representada em sua imagem.

Ela vem com riffs soltos para dar a tensão, mostrar o descontentamento e a amargura. O rock oitentista, do Dream Pop ao post-punk transparece com intensidade, raiva e o espírito rebelde. Uma canção que encantará a fãs de The Cure, The Drums, The Vaccines, The Clash, Cólera Plebe Rude.

Os Conflitos

“I Feel Invisible” ainda duvida do que está acontecendo ao seu redor de uma forma plástica e nostalgica como é ouvir um disco do Spiritualized, inclusive com arranjos que poderiam ter a assinatura de Jason Pierce. A metáfora com o carnaval para simbolizar a vontade de fugir, e esconder as emoções, ganham uma dramaticidade e um espírito de vanguarda que marcou a carreira de bandas como R.E.M..

O destempero e a energia das bandas dos anos 90, como The Breeders e Second Come, reverbera em “Man In The Mirror” que parece revistar o espírito do álbum National Indie Hits (2008). Olhar para si e se ver perdido entre não conseguir enxergar a luz no fim do túnel e a busca incansável pelo equilíbrio. Vive a amargura de dias mais soturnos mas não joga a toalha.

O flerte com a música eletrônica já aparece em “Morreu a Esperança” mas em “Uma Pessoa Comum” fica ainda mais evidente. Estar preso em círculos e lidando com a polarização da sociedade, nos mais diversos assuntos, e esferas, se evidencia em sua letra que estende a mão ao invés de entrar em conflito. Com direito a riffs que me deram vontade de ouvir Stone Roses na sequência.

Morreu (mesmo) a Esperança?

Os conflitos transparecem ao longo da sua narrativa, sim, e mostram como muitas vezes podemos estar a beira de um ataque de nervos e imerso em pensamentos niilistas…mas é um disco sobre compreender a sobrecarga do momento e juntar forças para além de demonstrar qual lado da história está. Noites Infinitas prepara as trincheiras para o combate.

Os versos de “Absoluta Incerteza”, que tem percussão que até me lembra um pouco algo que o Primal Scream faria, deixa isso claro, e a aura do U2 e RIDE, em “Weapon In My Hand”, mostram como a esperança resiste mesmo com o espírito ainda combalido. A tríade da esperança se complementa com “I Can Change” com acordes que combinam a leveza do My Bloody Valentine e referências do belo Dream Pop em uma faixa que parece falar sobre o sonho por tempos melhores e narra o levantar da cabeça.

As frequências passeiam por mares profundos em “Desculpe-me Por Ser Assim” que irá encantar a fãs de The Cure, reavalia planos e mesmo fechando o disco com vibrações mais baixas….vislumbra no horizonte dias melhores.