Se tem algo que fascina o ser humano é tentar compreender o rito da passagem do tempo. Seja ele através de cobranças, memórias, conquistas ou metas. Quem você é, ou foi, no fim faz parte de uma história que está em constante construção. Muitas vezes deixamos o brilho das conquistas ser ofuscado por nossos momentos mais difíceis – e isso é um erro. Mas saber reconhecer nosso valor e jornada é algo importante e que nos engrandece como seres humanos. Entre guitarras distorcidas, aventuras e uma amizade de longa data, o WRY completa 25 anos de fundação no atípico ano de 2020.

Se perguntarmos para o Mario com certeza ele irá dizer que tudo passou num piscar olhos. Que as histórias vividas ao lado da banda são incríveis e que o próximo disco vai ser o melhor. Talvez seja esse o segredo para tanto tempo estar empunhando uma guitarra e compondo novos sons. Tudo isso, claro, com mais experiência, técnica, conhecimento dos rumos, sonhos, e querendo a cada dia fazer melhor.

Tudo isso se constrói na estrada, em conversas, tendo aulas, frequentando o “rolê” independente e no caso deles: fazendo. Afinal Mario ao lado dos companheiros do WRY além de organizar o Circadélica, comanda o Asteroid e o novo estúdio Deaf Haus (que ficou pronto em 2018).

Um legado de uma história que começa em 1995, passa por Londres no auge do indie rock dos anos 00 mas que deixa definitivamente um legado cultural para Sorocaba (SP). Ajudando a fomentar novas gerações de músicos e artistas independentes que tem os mesmos sonhos e motivações que a banda em seu início. E talvez esse seja o resultado do trabalho, dedicação e amor a música.


Wry Foto_Por_Ana_Erica

WRY – Foto Por: Ana Erica


WRY “Travel”

Sorocaba esta que se refletirá bastante no novo disco do WRY. Como Mario conta em entrevista exclusiva para o Hits Perdidos, os discos do grupo sempre tentam dialogar com o momento, a realidade e o local em que estão inseridos. O que naturalmente faz com que a essência e a transgressão do seu som não fiquem datados como uma “era do rock”.

O som do WRY flerta com referências que passam pelo shoegaze, post-rock, indie rock, post-punk, dream pop, punk rock e o rock’n’roll mas sempre buscando se atualizar e na busca por novas referências. Trabalho esse que demanda pesquisa, prática, muita calma e amadurecimento.

Talvez o CEO do Spotify não fique muito feliz com isso mas música independente precisa de verdade para existir. Ou melhor dizendo, resistir. Ainda mais em tempos do desmonte do Ministério – que virou secretaria – da Cultura e de tantos vetos a projetos que beneficiem este importante setor da economia.

O Single

A luta de resistir e querer seguir em frente acaba transparecendo no novo single “Travel”. Aliás Mario nos revela que após os 4 anos de hiato da banda, logo na volta aos ensaios, a energia do encontro com os companheiros fez com que ele se sentisse rejuvenescido. E talvez esse seja um dos maiores motivos do porquê materializar isso em uma música.

Aceitar-se como diferente, continuar seguindo na direção dos seus sonhos apesar dos inúmeros obstáculos, e não ver o tempo passar, são sentimentos transcendem tanto no single como na filosofia da banda.

A música é rápida e conta com um pouco mais de 2:30 de duração. Entre guitarras altas, distorções, vocais melódicos e reverbs, o single flerta com os estilos que foram incorporados pelo WRY ao longo da sua trajetória como o post-punk e a nostalgia das chamadas “guitar bands”. “Travel” é visceral e se despe para se libertar das intangíveis amarras do tempo.

Ouça nas Principais Plataformas Digitais



Entrevista: Wry

Conversamos com o Mario para saber mais sobre os 25 anos do WRY, o primeiro disco em 11 anos, a fase inglesa da banda, o conservadorismo do interior paulista entre outras histórias.

São 11 anos desde o último álbum de estúdio e nesse meio tempo vocês se mantiveram ativos tendo lançando singles e vídeos. Quais são as expectativas para este novo lançamento?

Mario (WRY): “Isso! 11 anos da última vez que ficamos centenas de horas pra fazer um álbum. Eu acho que as pessoas vão gostar bastante. Na minha opinião suspeita (e de outras pessoas que já ouviram) é o melhor que já fizemos de longe. Foi resultado de um bom planejamento, e sem pressa.”

Como foi o planejamento e gravação? Aliás no meio do processo vocês ainda construíram o estúdio, contem mais sobre toda essa aventura.

Mario (WRY): “A gente tinha os três singles da “trilogia da cama” (risos) – como eu a chamei – lá de 2017 e 2018, mas comecei a ver que o disco teria uma vibe diferente. Essas três passeavam mais perto do dream pop, eu acho.

Nessa época, fora o Ítalo, que é formado em escola de música, eu, o Lu e o William, entramos para uma escola de música para aprender mais teoria e prática musical. Durante 12 meses fiz duas aulas por semana, e isso abriu minha cabeça. E mais todo o aprendizado de ver as bandas tocando no Asteroid. Tudo isso formou uma ideia na minha cabeça e planejei o álbum.

Fizemos duas demos, mudei melodias, letras, troquei algumas de língua, repensamos estruturas harmônicas, algumas coisas mudaram e outras mudaram e voltaram à ideia original. Logicamente tudo isso com o estúdio pronto.

Gravamos o disco em 2019, tendo concluído o estúdio em 2018, se não me engano. Então foi com muita paciência, sem preguiça, criatividade solta e controlando a tal da ansiedade. De todos, acho que esse foi o álbum que mais tivemos cuidado ao gravar.”

A história do WRY talvez seja uma das mais curiosas e fascinantes do underground brasileiro e tem toda essa magia de ter morado em Londres e conhecido e tocado com diversos artistas que renderam ótimas histórias. Se puderem destacar algumas para os leitores seria incrível para que entendam mais sobre esta fase britânica do WRY.

Mario (WRY): “É uma história louca, no mínimo, e de coragem também. Principalmente quando olho pra trás e vejo a gente caminhando pelas ruas de Londres pela primeira vez, depois de mudar pra lá com a mala e cuia. Pobres da periferia de Sorocaba, o dinheiro era muito bem contado.

Acho que os show que fizemos com o The Subways, The Rakes, The Cribs e Ash foram marcantes. E depois quando assinamos com a Club AC30 e entramos naquele circuito shoegaze, dream pop e post-punk. Foi nessa época que conhecemos o Kevin Shields (My Bloody Valentine) e tivemos a oportunidade de curtir com ele no Buffalo bar, onde trabalhei, e no backstage de cinco shows da banda em Londres e Manchester.

A banda ainda viu um show do WRY e o Kevin Shields chegou pra mim e disse ter se inspirado e pensado numa nova música durante um dos nossos sons. Foram oito anos na cidade, são muitas histórias.

O Buffalo Bar

Como disse, eu era do Buffalo Bar, trabalhava e tinha uma noite semanal por lá. Então conheci muita gente, seja durante a noite, seja como batendo altos papos no escritório. The Horrors tinha uma noite lá. The Kooks tocou na minha noite no mesmo ano que foram headliners do Glastonbury. Suicide tocou lá.

The Libertines fez um show secreto e histórico e eu sentei na mesma mesa do Paul Cook dos Sex Pistols. Até o Kiefer Sutherland curtiu uma noite lá e eu tive que escondê-lo no escritório porque o povo não deixava ele em paz. Nossa, são muitas histórias, sério!

O Buffalo Bar foi o lugar pra estar durante um bom tempo, e eu estava lá também. Foi por isso que abrimos um bar no Brasil, eu amei trabalhar lá! O Lu e o João (nosso técnico de som) também faziam som na casa.”

Vocês tem resgatado uma série de vídeos e memórias dos arquivos nas redes sociais, como tem sido a recepção destes materiais para os fãs mais novos? Aliás como sentem a recepção deles? É uma troca que também agrega de que forma para o trabalho de vocês?

Mario (WRY): “Eu sempre senti, e não sei se estou sendo ingênuo, que nosso som combina com os momentos que lançamos. Ele acaba agradando também fãs bem jovens que gostam desse tipo de música e eu acho que o novo vai ser do mesmo jeito.

Sinto que muitos desses jovens, por sei lá qual motivo, pensam que queriam estar lá naquele vídeo antigo. Tipo eu, quando sinto que queria ter tido 15 anos em 1977, chegando aos 25 em 1987 (risos). Seria um sonho!

Musicalmente, é claro, porque eu adoro o futuro. Então, postar coisas da nossa história passada agrega muito, dá mais valor. Ninguém mais vai fazer isso, com exceção de produtores no underground. A gente não vê nem livros ou documentários suficientes pra contar sobre o mainstream rock brasileiro que rolou entre 82 e 87, imagem da gente que está no underground.

Eu guardo tudo do WRY e não guardo à toa, uma hora vou fazer algo com tudo isso. Acho que é bom saber das histórias das bandas que vieram antes de quem está agora, e antes da gente. É importante saber sobre quem pavimentou o caminho, quem influenciou quem.”

Em conversas em off vocês contam como o som de vocês muitas vezes engloba diversos gêneros musicais como o post-punk, o indie rock, o shoegaze entre outras referências. Gostaria que contassem um pouco mais sobre essas misturas e que influências entraram forte durante a produção do novo álbum?

Mario (WRY): “Acho que devido ao que aconteceu no período pós-explosão do punk, todos esses gêneros que você falou se conversam. O que os americanos começaram a chamar de “alternative” era o mesmo que os britânicos chamavam de “indie”. E daí vem o noise nos Estados Unidos e o shoegaze em Londres.

To falando tudo isso pra dizer que a sonoridade do WRY sempre oscilou dentro dessa salada boa na qual a música rock se transformou nos anos 80 e 90, mas eu acho que sempre de uma forma original.

Principalmente porque a gente começou a banda sem sequer saber tocar muito bem os acordes na guitarra, que a gente chamava de “notas”. Acabamos criando uma identidade com isso, talvez. O disco novo vai ser assim, vai ter essa mistura que o rock alternativo permite, soa novo e dialoga com o atual, sem perder a essência do som da banda.”

Como vocês observam o mercado brasileiro e estrangeiro em relação ao nicho em que estão inseridos? Como enxergam as possibilidades?

Mario (WRY): “A recepção dos selos ao disco foi algo que nunca sentimos antes, então esperamos que vai ser legal. Porém, outra coisa que a vida nos ensinou é ficar com o pé no chão, tentar não criar muitas expectativas mas viver muito bem o presente, sentir o prazer de gravar, sentir o prazer de ouvir o que as pessoas tem a dizer sobre o som novo. Viver o momento mesmo, sem perder o foco.”

O disco carregará os ares de uma Sorocaba conservadora e trará temas como a ansiedade à tona. Contem mais sobre o contexto em que está inserido e o que acreditam que é necessário fazer para seguir na contramão de tudo isso?

Mario (WRY): “Parece que a gente acordou pra uma realidade, que pelo menos eu, não estava enxergando. Isso depois da eleição do Bolsonaro e do cancelamento do festival Circadélica. Percebi o quanto é perigoso ter ideias diferentes do normal numa cidade em que 74% votou no Messias.

Em todo esse período eu estava no Asteroid, um dos oásis na cidade, e sei das histórias de muita gente. Sou amigo de muitas pessoas que sofrem o preconceito de gênero e o racismo, por exemplo. Lembro lá no começo do bar, quando as gays dando mãos estava se tornando algo tão normal na cidade e de repente vem toda essa avalanche de pensamentos de extrema direita e as pessoas começaram a ter medo de novo, de simplesmente, andar de mãos dadas.

A Resistência

O Asteroid sofreu com gente tacando ovos, para você ter uma ideia. Fora essas experiências de outras pessoas, nós tivemos a nossa com o festival cancelado e as crises de ansiedade que vieram junto. Hoje estamos melhores e acho que ninguém tem que mudar de ideia, deve-se seguir em frente e fazer as coisas de uma forma que não terá como ser represada mais e eu acho que dá.

Sempre vai existir a contramão, de um jeito ou de outro, então é importante nunca abaixar a cabeça e enfrentar com sabedoria. Vai ter a hora que você precisa ficar quieto, e vai ter a hora que você vai gritar. Tem que saber controlar essa ansiedade, que sei que é um trabalho um tanto difícil.”

O single bate bastante na tecla sobre sobre persistir e continuar. O que mais motiva vocês a seguir em frente nestes 25 anos de estrada? E o que continuar fazendo música representa para vocês?

Mario (WRY): “Eu acho que tem a ver muito com o clássico “viver o momento” que falei antes. Quando eu canto essa música, eu lembro de 2014, quando a banda voltou e eu estava ansioso pensando em como seria ensaiar pela primeira vez depois de quatro anos e mais velho.

No momento que coloquei a guitarra em punho e dei o primeiro acorde parecia que eu tinha rejuvenescido. Foi uma sensação incrível, da qual eu nunca vou esquecer. Eu me expressei verbalmente na hora pros caras da banda.

Porque fazer música?

Você não precisa fazer música esperando que vai ficar famoso, que vai tocar no festival X ou Y ou que vai ter sua música na novela. O fato de você colocar ao vivo aquele momento artístico, seja num show ou ensaio, já tem que ser prazeroso. Se não for, alguma coisa está errada.

Gravar uma música que vai existir pra sempre, mesmo que seja pra você mostrar para os novos que te rodeiam ou para um grande público no Spotify, já tem que te dar uma sensação gostosa. Todo o resto, o sucesso financeiro ou de internet, é bônus! Acho que já respondi, né?”

Se pudessem escolher um show para voltar e fazer de novo, qual seria e por que? E qual o disco favorito de cada um dentro da discografia?

Mario (WRY): “Rafa, eu acho que a gente sempre tenta dar o máximo. É uma pergunta difícil, mas talvez seriam os shows em que eu estava doente, e que se não tivesse, seriam melhores pra mim (risos).

Que foram: o único que fizemos no Z, em 2019, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, em 2017 e um de 2015 que fizemos em Leiria, em Portugal. Nesses quatro eu tive crise de rinite alérgica! (risos), E sobre os favoritos de cada, todos falaram aqui que é o disco novo!”