No turbilhão de crises desse ano, o disco Good Good Things, lançado em junho pelo selo francês Heavenly Sweetness, é uma grata lembrança de que pelo menos algumas coisas ainda são flores. É o mais recente álbum de inéditas do produtor francês Max Guiguet, conhecido internacionalmente como Blundetto. O Hits Perdidos conversou com ele sobre esse lançamento.


Blundetto


Blundetto Good Good Things (18/06/2020)


Good Good Things by BLUNDETTO (Official)


Trazendo suas típicas releituras de elementos de reggae, soul e música afro-caribenha, o novo disco também se aproxima muito mais do Brasil: a primeira faixa do disco é uma versão soul de Menina Mulher da Pele Preta de Jorge Ben, em parceria com o mineiro Leonardo Marques, que também aparece em outra música do disco.

 

 

Good Good Things é também comemoração de uma data redonda: há exatos dez anos, Blundetto fazia sua estreia triunfal com Bad Bad Things. O disco apresentou ao mundo sua receita de soul internacional, trazida por um time que incluía a cantora marroquina Hindi Zahra e os metais da nova iorquina The Budos Band. De lá pra cá, Blundetto já lançou ao todo cinco discos com participações de músicos do mundo inteiro.



A abertura para sons do mundo inteiro é uma marca do estilo de Blundetto. Durante quase vinte anos, Max foi funcionário da histórica Radio Nova de Paris, onde pôde mergulhar a fundo nos arquivos e absorver uma quantidade enorme de influências. Os elementos não aparecem claramente separados, mas se fundem num todo, como se no fundo fossem a mesma coisa. 

“Eu escuto música assim: não é por causa da língua nem por causa do estilo”, conta Max. “Às vezes pra mim o reggae não é reggae, é apenas soul music, porque fala com a minha alma. A mesma coisa acontece com música brasileira, seja bossa-nova, música pop moderna… se é soul, é soul, é música da alma, que fala comigo e com meu coração. Mesmo se eu não entender português, ela consegue me tocar. Não me interessa fazer o reggae com todos os clichês, as viradas de caixa e por aí vai… fico entediado rapidamente”.

Como se faz uma música de Blundetto

Max é uma pessoa caseira. Nos dez anos de carreira, ele produziu quase tudo dentro de casa e nunca saiu em turnê. “Nunca fiz um show com bateria ou com banda completa. Quando eu toco essas músicas quero tocar todos os instrumentos, mas ao vivo não dá.” Blundetto sempre foi um projeto de estúdio. Em uma série de vídeos feita na época do Bad Bad Things, Max dá a receita pra se produzir uma música de Blundetto no quarto de casa.

 

 

Dez anos depois, o processo ainda é basicamente o mesmo. Mas existe também um time externo, parceiros que ajudam desde o começo a construir o som de Blundetto. “Eu tenho ideias boas, mas quando não consigo interpretar bem chamo um amigo para tocar”.

E, ao contrário dos outros discos, em Good Good Things a produção não terminou em casa. Ao todo, o disco foi gravado em dez estúdios diferentes, com arranjadores, um naipe de metais criado para a ocasião e várias regalias que a produção caseira não alcança.

Blundetto e Companhia

Ao longo dos anos, o time de parceiros foi aumentando. Porém alguns, como Jerome Caron – mais conhecido como Blackjoy – estão desde os primeiros dias. “O considero parte do projeto. Não mixo nenhuma faixa de Blundetto sem ele”, diz Max. Ele também ajuda na produção e nas relações públicas, fazendo contato com os convidados.

Um deles foi o rapper colombiano Crimeapple. “Escuto muito hip-hop de rua, e já conhecia o trabalho dele, mas nunca pensei que seria possível fazer algo juntos. Mas Jerome insistiu: ‘nós temos orçamento, porque não perguntar quanto é?’, e ele foi muito legal e não cobrou muito. Foi bem simples”, conta Max.

A pianista Kahina OualiClément Petit ficaram responsáveis pelos arranjos do Good Good Things. Clément é outro que está presente desde o primeiro disco, tocando violoncelo em algumas faixas e arranjando outras, mas nesse disco ele escreveu as partes de todas as faixas. E Kahina, além de também cantar em Barcelona, ajudou a lapidar as músicas.

“Eu sou muito básico fazendo música”, diz Max. “Faço as coisas de um jeito só, sem mudar muito os acordes. Kahina me ajudou a fazer isso, além de fazer os arranjos e encontrar as partes B das músicas. Ela ajudou muito nesse disco”.

Uma produção desse nível só foi possível porque Max conseguiu uma boa verba para bancar as horas em estúdio e os cachês dos músicos. E a ajuda veio por acaso, de um patrocinador inusitado.

Patrocinado por um clube de cannabis

“Os dez anos de Bad Bad Things precisavam de uma celebração, pois estamos curtindo sempre com o mesmo time, com o mesmo selo. Pensamos em fazer um álbum de remixes, mas estávamos um pouco perdidos”, revela Max. “Foi aí que recebemos um telefonema de Stefan, um antigo colega de Jerome, que hoje administra um clube de fumantes de cannabis em Barcelona, chamado La Créme Gracia.”

“Stefan nos falou que a música de Blundetto, especialmente o Bad Bad Things, tocava muito na playlist do clube, os fumantes gostam de escutar essa música. Vai saber porquê… Então Stefan sugeriu fazer algo juntos, pois pela legislação espanhola os clubes de fumantes não podem ter fins lucrativos. E assim surgiu a idéia de fazer um álbum para o clube celebrando os dez anos.”

O patrocínio de um clube de fumantes de cannabis parecia ser a escolha ideal para um disco de Blundetto, que aborda o tema diretamente em todos seus discos. Foi assim que chegaram rapidamente ao nome do disco Good Good Things, como uma espécie de brincadeira que deu certo por se remeter ao primeiro disco.

Good Good Things para amantes de coisa boa

A arte da capa do disco ficou nas mãos de Mossy Giant, ilustrador holandês responsável por toda a identidade visual do La Créme Gracia. Um arabesco intrincado de flores, fumaça e cogumelos quase entrega o óbvio, mas evita o clichê. Isso é um ponto importante tanto no som de Blundetto quanto na clientela do clube.

Segundo Max, “o que Stefan gosta no clube não é o clichê da música de fumantes, como um dub muito lento ou coisas do tipo. Eles gostam de se abrir para o mundo, escutam salsa, música brasileira, hip-hop, todo tipo de coisa, porque hoje em dia os fumantes são todo mundo. Médicos, estudantes, donas de casa, é pra todo mundo. E assim é também com a música”.

 

 

Também por isso, Good Good Things é mais explícito nesse aspecto que o normal. Todo o time embarcou no espírito do clube. A faixa com participação de Crimeapple chama-se “Barcelona”, e claramente é contada do ponto de vista de um frequentador do clube. O cantor Biga Ranx, parceiro frequente de Max [e que também lançou um disco em julho], aparece no disco mas assina como Telly Gracia, em homenagem ao clube. 

Os Laços com o Brasil

O novo disco também estreita oficialmente os laços de Max com o Brasil. A paquera, entretanto, era mais antiga. Em 2017, circulou no Facebook um vídeo filmado na boate Roots and Culture, em Fortaleza, onde vários casais dançavam agarradinhos ao som de Above the Water, faixa de Blundetto com participação de Biga Ranx do disco World Of. Biga encontrou o vídeo, mostrou a Max e os dois ficaram entusiasmados.

“As pessoas dançavam como nunca vimos ninguém dançar, bem devagar e até congelando nos breques da música. Foi uma sensação estranha: faço música na França para pessoas que eu acho que estão sentadas, relaxando, talvez fumando, mas então percebi que também dava pra dançar minha música: você só precisa dançar bem devagar.”



A Versão de Jorge Ben

O vídeo em Fortaleza foi a inspiração para Slow Dance, seu penúltimo disco lançado em 2018. Mas enquanto Slow Dance tinha um foco muito maior em reggae e suas variações, Good Good Things abraça a música brasileira de vez. Mantendo o costume de abrir o disco com um cover, o escolhido da vez foi Jorge Ben.

“Ouvi muito Jorge Ben nos últimos dois anos. Menina Mulher da Pele Preta é uma música de amor, e quis começar o disco com uma música que fale de amor.” Max não hesitou frente à tarefa de fazer uma versão dessa música: “Gosto do desafio de uma música de peso. Discordo da idéia de que não se deve mexer em clássicos, acho que na música todo mundo pode tentar algo”.

A Parceria com Leonardo Marques

E o time do disco ficou completo com o mineiro Leonardo Marques. Max já conhecia seu álbum Early Bird, que havia sido lançado pelo selo franco-belga 180g. “Senti uma conexão com ele, como se estivéssemos fazendo a mesma coisa. Não é o mesmo tipo de música, mas são as mesmas texturas e sons, me identifiquei bastante”. Além de cantar a versão de Jorge Ben, Leonardo também assina a faixa Atrás Desse Céu.



As Outras Parcerias do Disco

Merece destaque também a participação de Hindi Zahra, que cantou duas faixas do Bad Bad Things e volta trazendo sua voz suave em mais duas faixas do novo álbum. Como de costume, as faixas com Hindi Zahra são bem mais puxadas para o lado do reggae.

Outro velho amigo que retorna é Chico Mann, conhecido da cena novaiorquina por seu trabalho com a Antibalas Afrobeat Orchestra. Cantando em espanhol com sua voz característica, firme e aguda, faz dueto consigo mesmo numa faixa dançante – porém, claro, não muito rápida.