Ana Paia lança single duplo

Corações partidos, melodias reflexivas, ambientação, lo-fi, densidade e sentimentos à flor da pele, a segunda onda do emo que começou a se desenhar no fim dos anos 80 mas que se estabeleceu nos anos 90, trouxe essas características para o primeiro plano.

Foi diretamente das garagens, e quartos, que aquela atmosfera começou a cativar o surgimento de novas bandas que foram cada vez mais trazendo elementos de outros estilos para compor sua sonoridade.

A Segunda Onda do Emo

Se a primeira onda ainda estava atrelada ao hardcore mais raivoso, a segunda mostrou a possibilidade de ir para um território, digamos assim, mais próximo do rock alternativo e abraçando os interiores dos EUA; tendo como uma das cenas mais relevantes a de estados como Illinois, Texas e Washington, locais bem distantes de berços do hardcore como Califórnia e Massachusetts. E o resgate de uma nova geração por essas características acaba ganhando um revival interessante ao longo da última década.

Dessa leva bandas como Sunny Day Real Estate, American Football, Piebald, Cap’n Jazz, Joan Of Arc, Elliott, Jawbreaker, Braid e Texas Is The Reason acabaram sendo destaques. Elas acabaram sendo responsáveis para que o estilo não parece de evoluir, alguns até acreditam que estamos vivendo a quinta onda do emo, embora acredite que só mostra como um gênero musical está sempre em constante transformação quando cruza no caminho de um jovem.

Acelerando um pouco a linha do tempo….

Para não ficar nos alongando muito nisso vamos acelerar um pouco a linha do tempo e chegar no começo dos anos 10’s. Uma nova geração começou a ganhar relevância através de bandas como Tigers Jaw, This World Is a Beautiful Place And I Am No Longer Afraid To Die, Foxing, Pianos Become The Teeth, Balance and Composture, Modern Baseball, Old Gray, La Dispute, Title Fight. O Tumblr ajudou muito na disseminação dessas bandas (alguém ainda usa?).

Entre outras que podem até não seguir esta linha mas que tem uma aproximação com a cena podem ser citadas Basement, Citizen, Superheaven, Turnover, Pity Sex bandas que até tem algumas características do emo mas que flertam com o Alternative Rock, Grunge, Post-Rock, Punk Rock, math-rock e até mesmo o pop.

Fato é que esse resgate destas bandas somado a procura pelas que as influenciaram incentivou uma geração que tem dado o que falar como é o caso de destaques dos últimos anos como Soccer Mommy, snail mailJulien Baker, Alvvays, Frankie Cosmos, Hatchie, Courtney Barnett acabaram somando outras referências como o Dream Pop mas sem perder a essência do emo.

Assim chegamos aqui….


Ana Paia - Foto Por Ana Flavia

Ana PaiaFoto Por: Ana Flavia


Ana Paia “Admitir / Eu Sinto Muito”

Me estendi falando um pouco da música produzida fora do Brasil mas de fato é impossível desassociar e influência diretamente. Essas influências acabam reverberando nos acordes da artista Ana Paia de Sorocaba (SP) mas também ao longo de toda um cenário que foi se construindo no underground brasileiro. Assim como “na gringa”, no Brasil também a internet acabou conectando e ajudando no intercâmbio de experiências. Os tempos mudam mas o sentimento é o mesmo.

Em uma fase de transição sonora, a artista lança hoje um single duplo contando com duas canções do ano passado mas que ainda não estavam finalizadas. Tanto “Admitir” como “Eu Sinto Muito” giram em torno da temática do término de relacionamento e todas as suas dores inerentes ao processo de desapego.

Assim como o contexto dos primeiros dias das bandas que citamos, seu processo de criação é bastante orgânico e caseiro o que deixa toda a sensação de demotape. A pré produção e gravação foram feitas por David Consani e Ítalo Ribeiro (Lastro), já a mixagem e Masterização ficaram sob a responsabilidade de Bruno Fontes e Marcel Marques (Lobotomia).

O Lado A

O lado A, “Admitir”, acompanha um videoclipe e teve a captação, edição e finalização realizadas por Mayara Marques. A faixa também conta com a participação do seu pai que toca trompete. A inspiração para a experimentação, segundo Ana Paia, veio justamente do American Football, uma das suas maiores influências.

A nostalgia, o sofrimento, as cicatrizes e suas memórias reverberam através de suas melodias e guitarras estridentes. Jovial, pueril, intensa e leve feito um sentimento que se desprende da alma. O trompete da toda uma sensação de estar rebobinando um filme.



O Lado B

Já “Eu Sinto Muito” chega a lembrar um pouco a atmosfera das contemporâneas Julien Baker, e Snail Mail, justamente por suas melodias e tom de voz mais intimista. Suas linhas circulares mostram como os pensamentos, e a cabeça, dão voltas em círculos ao longo da busca pela superação.

Ouça: Deezer | Youtube



Entrevista: Ana Paia

Conversamos com a Ana Paia para entender mais sobre o lançamento, influências e momento de mudanças.

Qual foi o seu primeiro contato com música e quais suas principais referências? Conte também um pouco sobre o momento que está vivendo dentro da sua carreira?

Ana Paia: “O primeiro contato foi com meu pai, ele é músico, tinha um grupo de pagode e desde criança eu via ele tocando cavaquinho, violão, entre outros instrumentos, tipo muitos instrumentos mesmo (risos). Minhas referências são Snail Mail, Turnover, American Football, Wagner Almeida, entre outras bandas emo dos anos 90.

Ahh tá sendo bom, to conseguindo produzir algumas coisas mais lofi, com a ajuda da minha namorada, gravamos um Epzinho e lançamos dois clipes caseiros, e agora com os lançamentos desses singles “Admitir” e “Eu Sinto Muito”, com uma puta produção, sinto que as coisas estão correndo bem, e vai dar tudo certo.”

Os singles tem toda essa vibe coração partido, guitarras que ficam nessa vibe entre Soccer Mommy, Turnover e Snail Mail, com essa levada do emo dos anos 90 de bandas como Jawbreaker e os trabalhos dos irmãos Kinsella. Conte mais sobre os backgrounds, referências, curiosidades sobre este lançamento.

Ana Paia: “Eu criei a base da Admitir pensando numa coisa mais “pesada”, mostrei pro meu amigo David que tocava guitarra na minha banda, e a gente pirou junto, no início tava bem mais forte a pegada da música, mas aos poucos a gente foi deixando mais soft e tals, e desde o início que compus essa música, eu já pensava em colocar um trompete, eu sempre quis muito ter um trompetinho em uma música minha, tipo “The Summer Ends” do American Football, “Fightboat” do TWIABP, entre outras referências como Foxing e TTNG, e o mais legal é que quem gravou o trompete foi meu pai, como eu já disse, ele é músico, antes tocava com os amigos e agora toca na igreja, então foi uma boa, ele manja pra caramba.”

Aliás como o movimento dessa nova geração de artistas como Julien Baker, Snail Mail, Dream Wife tem te inspirado? Você também tem um elo forte com o pessoal do coletivo Geração Perdida, existe um intercâmbio entre vocês? A internet de alguma forma te ajudou bastante nesse processo de pesquisa?

Ana Paia: “Eu ouço bastante e gosto pra caramba desses artistas/bandas, de alguma maneira tento captar um pouco disso, mas na hora que to compondo não fico pensando muito nisso, não fico “ahh agora essa música vai ser inspirada na Snail Mail”, eu deixo rolar, e acho massa quando rola de alguém falar que lembrou de tal banda.

Eu curto demais o trampo da galera da Geração Perdida, já toquei com o Vitor Brauer, fui convidada pra participar de uma música do Wagner Almeida, essa amizade surgiu pela internet mesmo, com todos eles, e é massa quando eles vem tocar pra cá, já que eu nunca fui pra BH, é a cidade que eu mais tenho vontade de visitar e tocar. E sim, a internet me ajudou/ajuda bastante, através dela eu descubro vários artistas tanto daqui do Brasil como fora, como foi no caso da Geração Perdida.”

O som do EP é bastante orgânico e lo-fi, isso é algo que pretende manter nos próximos trabalhos ou pensa em incorporar mais elementos?

Como está sendo o momento do agora?

Ana Paia: “Acho massa essa vibe lofi, mas nos próximos trabalhos pretendemos incorporar mais elementos, fazer algo mais bem produzido. Bom, agora estamos planejando um próximo EP, e logo vamos começar as gravações das músicas novas, eu to bem empolgada, e acredito que vai ficar uma pegada diferente das músicas já lançadas.”

O trompete em “Admitir” foi gravado pelo teu pai, conte mais sobre essa história e o quão emocionante é poder ter ele ao lado neste lançamento.

Ana Paia: “No dia que gravamos foi interessante, eu mostrei pra ele algumas referências, e na hora de compor eu deixei ele se expressar e fazer do jeito dele né, no início eu gostei, passou dias/meses eu ficava ouvindo e não tava gostando, desanimei demais porque pra mim tava parecendo hino de igreja (risos).

Quando mandei pro Bruno até brincamos que era um trompetinho emo gospel, mas no fim depois da mágica do Marcel e do Bruno eu voltei a gostar dele na música, ficou bom demais. Mostrei pro meu pai e a reação dele foi engraçada, falou que lembrava músicas dos anos 70, curtiu pra caramba o resultado.”

O clipe também foi gravado em apenas dois dias, como foi a produção? 

Ana Paia: “Foi gravado aqui em casa, a Mayara ficou responsável pela gravação e edição, e minha irmã e o David pelo cenário, mas a May ajudou em tudo na verdade (risos), a gente não tinha um plano esquematizado pras cenas, que eu me lembre, foi cada um dando uma ideia e assim fomos vendo como ficaria, minhas cenas favoritas são as do projetor, foi legal produzir esse clipe com meus amigos. Agradeço demais a Mayara por ter gravado o clipe, como por ter feito a capa do single.”