MITOMANO ® é o nome do projeto do músico César Munhoz. Mesmo sendo para lá de experimental seu conceito, ele ainda é pop e repleto de referências que vão do audiovisual, passando pela música, cultura pop ao cotidiano…e talvez essa seja a graça.

Sua obra não traz limites para as narrativas e talvez isso se explique pelas origens do projeto, já que Munhoz criou enquanto trabalhava com trilhas sonoras de cinema, o que fez com que a narrativa transmidiática fizesse parte do seu conceito.

Aliás, isso também acaba transparecendo no conceito das suas apresentações. Podendo trazer diferentes experiências, desde projeções audiovisuais ao formato virtual, como é o caso da atual realidade da “música ao vivo”. O formato sempre variando de palco para palco, o que certamente garante que você nunca verá o mesmo show e isso é algo no mínimo interessante.

As Origens do MITOMANO ®

MITOMANO ® surgiu em 2009 e segundo Munhoz “como um experimento sobre mídia, ansiedade e culto à personalidade. Chegando aos 30 anos cercado por câmeras e sons de bipes”. Punk, house e o vocal experimental de artistas como Daniel Johnston e Gwilly Edmondez acabam fazendo parte do imaginário e conceito.

O efeito surpresa também transparece em sua sonoridade, visto que cada som pode beber de uma referência distinta, essa abertura também possibilita diversas experimentações, entre misturas ritmicas e multiculturais.

“O próximo single, a princípio, vai puxar para o Kraftwerk e danças circulares indígenas. As músicas puxam todas pra ritmos diferentes, mas a maioria delas segue a estrutura de canção pop, de ter estrofe, refrão, essas coisas.”, conta MITOMANO ® em entrevista exclusiva para o Hits Perdidos

MITOMANO ® “Zeitgeist Diarrhea”

Mas enquanto o próximo single não chega, nem a série de shows que ele promete realizar durante este último trimestre de 2020, César lança hoje através de um videoclipe “Zeitgeist Diarrhea”.

“O tema da música, é a diarréia de informação que a gente engole e passa pro outro sem pensar. Acho que a gente anda viajando demais na maionese do ruído e esquecendo as conexões verdadeiras com as pessoas, e com a gente mesmo. Toda época tem isso, não é privilégio nosso.

Mas isso não tira da gente a responsabilidade de parar um pouco, ficar em silêncio, e ir além da superfície de bobagem. Mas também quis falar sobre como é bom às vezes passar a madrugada se distraindo na Internet e enchendo a cabeça de coisas novas. Acho que dá pra fazer os dois sem virar zumbi.”, reflete Munhoz.

A Experiência e o videoclipe

Por conta do conceito onde a experiência transmidiática faz parte, o clipe acompanha a tensão e o surrealismo distópico da faixa. MITOMANO ®  até parece estar à beira de um ataque de nervos em uma faixa que funde rock industrial, house, new wave e até mesmo a aspereza e a fúria do punk rock.

Entre o DEVO, o PULP, Prodigy, Nine Inch Nails, e como ele mesmo revela, a natureza selvagem dos Titãs que reverbera tanto nas guitarras como em sua letra provocadora. A experiência cinematográfica provocadora também tem um senso de humor surrealista e peculiar, algo que dialoga com os universos de Radiohead e Björk.



Entrevista: MITOMANO ®

Conversamos com César Munhoz aka MITOMANO ® para saber mais sobre a concepção do projeto, proposta, significado do nome e sobre sua crônica a respeito diarréia de informação dos nossos tempos.

Conte mais sobre o surgimento, conceito e o desenvolvimento do projeto ao longo desses 11 anos. O que mudou? Você também faz shows em diversos formatos e a experiência não se restringe apenas a música, como funciona isso?

César Munhoz aka MITOMANO ®: “Em 2009 eu tava compondo e produzindo bastante música pra filme, comerciais e moda, cursando uma pós em Cinema e estudando os artistas da performance dos anos 60 e 70. Tipo o Chris Burden, que passou dias fechado dentro de um armário, conversando com as pessoas pelo buraco da fechadura. A Marina Abramovic e o Ulay, que terminaram o namoro deles no meio da muralha da China e transmitiram tudo ao vivo pela TV. O Fluxus e a Yoko Ono, que criavam jogos que todo mundo podia usar pra fazer arte sem grandes recursos, enfim…

Juntei tudo isso que eu tava fazendo e estudando num show com música, vídeo projeções e situações surreais. Tipo cantar música romântica com a base errada gritando na cara das pessoas, shows inteiros sem roteiro, outros com roteiro detalhado e cronometrado, parar a música pra ir no banheiro, cantar Justin Bieber acapella em festival de rock, enfim… todo mundo sai do show com uma história pra contar.

Sobre o que mudou… hoje eu gosto de propor shows que tenham uma linha central mais definida. “Zeitgeist Diarrhea”, por exemplo, vai virar uma ópera, com histórias que se cruzam, números musicais com narrativa etc. Mas a experimentação no limite do risco, o espaço pro improviso e o surreal continuam.”

É inevitável a pergunta mas o nome do projeto já te trouxe problemas ao longo dos últimos anos? Aliás de onde veio sua origem?

César Munhoz aka MITOMANO ®: “Escolhi esse nome, que se pronuncia “mitômano”, inspirado num elemento da psiquê humana que faz com que a gente se perca nas próprias fantasias a respeito da vida. Acho que todo mundo tem isso em certo grau e é nesse nível que eu quero me conectar com as pessoas. Meu compromisso é com o surreal, com a catarse, com estabelecer uma conexão de troca de alegria, de vida, de belezas diferentes e de não ter preguiça de pensar.

O nome mexe muito com as pessoas. E como me apresento em locais bem diferentes um do outro (casa de shows, galeria, festivais, balada e também faço muito show na rua), é normal alguém chegar achando que é uma coisa e é outra. Em 2012 fiz um show num espaço de coworking e teve um cara que veio achando que eu ia falar de mitologia, tipo uma palestra. No final ele tava tão perplexo, confuso que a gente ficou um tempão conversando, eu ganhei um amigo e cumpri o objetivo de estabelecer uma troca que foi além do ruído.”

Ao meu ver o som tem um pouco de Prodigy, um pouco de Nine Inch Nails e fica no elo entre o industrial mas sem deixar de flertar até mesmo com o punk e particularmente em “Zeitgeist Diarrhea”, vi um pouco do PULP e Devo, a ideia é mesmo essa constante mistura e tensão? Aliás como tem visto essa loucura de informações e ao mesmo tempo passividade dos nossos tempos?

César Munhoz aka MITOMANO ®: “Adoro as bandas que você citou e reconheço as influências. Também tava ouvindo muito Titãs da época do Tudo ao mesmo tempo agora e do Cabeça Dinossauro enquanto trabalhava na música. O próximo single, a princípio, vai puxar para o Kraftwerk e danças circulares indígenas. As músicas puxam todas pra ritmos diferentes, mas a maioria delas segue a estrutura de canção pop, de ter estrofe, refrão, essas coisas.

Sobre o tema da música, é a diarréia de informação que a gente engole e passa pro outro sem pensar. Acho que a gente anda viajando demais na maionese do ruído e esquecendo as conexões verdadeiras com as pessoas, e com a gente mesmo. Toda época tem isso, não é privilégio nosso.

Mas isso não tira da gente a responsabilidade de parar um pouco, ficar em silêncio, e ir além da superfície de bobagem. Mas também quis falar sobre como é bom às vezes passar a madrugada se distraindo na Internet e enchendo a cabeça de coisas novas. Acho que dá pra fazer os dois sem virar zumbi.”

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