“Irê Irê” é uma composição coletiva, resultante do encontro em formato de residência no Estúdio em São Paulo, que reuniu os artistas Zé Krishna (Índia – Pirenópolis), Chico Corrêa (Paraíba), Victoria dos Santos (SP), Pedro Miranda (DF) , Renato Galvão (DF) e Kastrup (RJ).

Aproveitando a oportunidade de estarem todos juntos na mesma cidade, por ocasião de uma Feira de Negócios de Música (SIM São Paulo) em dezembro de 2018, o produtor musical Guilherme Kastrup provocou o encontro inédito do grupo em seu estúdio Toca do Tatu na capital paulista , para um dia de convivência e criação coletiva.

“A música poderia ser construída em conjunto, sem barreiras, de forma intuitiva com a soma das referências multi culturais transmitidas através da arte e expressão de cada um”, disse o coletivo.

O Poder da Improvisação em “Irê Irê”

A base instrumental foi criada através de improvisação livre, e durante os fluxos de propostas sonoras a cantora, compositora e percussionista Victoria dos Santos incorporou a citação do Canto Tradicional do Candomblé Keto para o orixá Ogum, Ogundê.

A pós produção ficou por conta dos produtores musicais Kastrup e Pedro Miranda, que assinam também a mixagem e masterização.

Após finalizada, a música ganhou a animação do artista visual e animador Marcio Mota (DF), que reuniu a simbologia dos Orixás de matrizes africanas aos ícones da cultura Indiana na construção das imagens, referências trazidas na música por Zé Krishna.


Irê Irê - Foto Por: Caio Alarcon

Irê IrêFoto Por: Caio Alarcon


Segue entrevista breve com os artistas Kastrup, Pedro Miranda e Chico Correa.

Na sua opinião, qual importância de criar projetos como esse(coletivos/colaborativos) nos tempos atuais?

KASTRUP: “Nós estamos em um período de reformulação total da nossa sociedade. Paradigmas antigos estão desmoronando enquanto novos paradigmas surgem e se fortalecem, em meio ao caos do fim dessa nova era.

A compreensão do coletivo, de que somos todos parte de sistemas interligados, é das coisas mais importantes do nosso tempo. A criação coletiva de IRÊ IRÊ celebra isso. A música natural e improvisada , resultado desse encontro e colaboração espontânea, entre esses artistas maravilhosos e abertos a congregação.”

PEDRO MIRANDA: Os “tempos atuais”, em grande verdade, mostra o quanto sempre foi importante o aspecto coletivo das criações – aqui digo criações em todo âmbito de manifestação/expressão humana, a sociedade é criada diariamente, a partir desta visão.

Pensar junto a criação é um exercício de se enxergar enquanto indivíduo e saber onde se colocar dentro do todo. Como todas as demais linguagens humanas, a criação é o reflexo do que é o tempo atual. 

Pensando em Período de Pandemia, onde a gente tem que fazer tudo solo e de casa, os trabalhos como esse ,de encontro, ficam mais valorizados ainda!
VICTORIA DOS SANTOS: Nas tradições que me inspiro e sou, continuidade tudo se faz com coletivo, acho que o futuro é esse.

CHICO CORREA: “Sempre me encantou os encontros, o criar coletivo, que tira você da sua zona de conforto, enriquece sua expressividade artística. Eu trabalho com projetos coletivos, residências artísticas há mais de uma década, e cada encontro é um momento de escuta, de tentar achar espaço dentro da proposta do coletivo, o que às vezes significa fazer menos e por o ego no bolso.

Para os tempos atuais: precisamos andar juntos, dialogar e construir uma realidade mais humana, igualitária…das artes, a música me parece ser a que proporciona essa conexão de imediato.”

Como você vê hoje feiras de negócios de música feitas de forma online? É produtivo e multiplicador na sua opinião?

KASTRUP: “IRÊ IRÊ nasceu como fruto paralelo da feira SIM São Paulo. Foi, nesse caso, resultado da circunstância do encontro físico promovido pela feira. Estamos agora em um outro momento.

A pandemia nos obriga a pensar novas soluções e oportunidades. Especialmente agora com o tamanho do prejuízo e desmonte dos nossos meios de produção habituais na cultura, precisamos com urgência criar novas formas de encontros e produção. É um desafio.

Mas acredito que vamos desenvolver boas novas formas, se utilizando de recursos online, não apenas para suprir a falta do encontro físico, mas TB desenvolver novas possibilidades.

PEDRO MIRANDA: “Ainda pensando na expressão humana através da criação, acredito na internet como uma grande chave para que possamos nos conectar num espaço onde o próprio espaço não existe. Que invenção, não é mesmo? Talvez à primeira vista seja a maior solução para não precisarmos de grandes teorias filosóficas para poder abstrair o espaço e o tempo na prática.

Apesar da invenção, somos de carne e osso. O contato humano é insubstituível, na minha opinião. Mas quem sabe, se aumentarmos a distância, tirarmos o fator “pessoal”, não deixamos esses espaços mais democráticos, sim?

VICTORIA DOS SANTOS: É muito bom pra quem tem condições de trabalhar de casa, não é?

CHICO CORREA: “Não sei dizer ainda, para mim o mais forte das feiras sempre foram os encontros, a convivência no espaço físico e as relações que você não consegue desenvolver no virtual.
Imagino que neste momento tudo está se redefinindo, não sei se participaria de feiras virtuais neste momento, ainda estou buscando me encontrar profissionalmente neste novo contexto.”

Confira o Clipe de “Irê Irê!”



Ficha Técnica

Composição: Chico Correa, Kastrup, Pedro Miranda, Renato Galvão, Victoria dos Santos e Zé Krishna
Victoria dos Santos (Voz)
Zé Krishna (Guitarra e Voz)
Chico Correa (Sytnths)
Pedro Miranda (Baixo)
Renato Galvão (Bateria)
Kastrup (MPC)
Citação: Canto de Ogum / Ogundê (Domínio Público)
Produção Musical: Guilherme Kastrup e Pedro Miranda
Gravado por Caio Alarcon e Kastrup no Estúdio Toca do Tatu (SP)
Mixado e masterizado por Pedro Miranda no Estúdio Naquele Lugar (Brasilia/DF)

OS ARTISTAS DO PROJETO

MARCIO H. MOTA

Marcio H Mota é artista visual, mestre em Arte e Tecnologia pela UnB e professor de escola pública do DF. Em seu trabalho poético, tem dado enfoque na luz como matéria plástica e no desenvolvimento de Kino Estruturas (estruturas pensadas como meios sinestésicos para a criação audiovisual com vídeo projeção). Recentemente começou a pesquisar e trabalhar com a arte da animação figurativa.

KASTRUP

Produtor, músico, reconhecido pela criação do projeto A Mulher do Fim do Mundo, que uniu a legendária Elza Soares à inquieta turma da cena musical contemporânea de São Paulo como Kiko Dinucci, Romulo Fróes, Rodrigo Campos e Marcelo Cabral, e do qual, além da produção do premiado álbum (ganhador do Grammy Latino, APCA, Prêmio da Música Brasileira) assina também a direção geral e produção musical do espetáculo, que ficou em tour mundial de 2015 até 2018.

Lançou em outubro de 2018 seu segundo álbum autoral Ponto de Mutação, que repercutiu muito positivamente na imprensa e no público. Obra que é plataforma digital imersiva, projeto que contou com mais 25 colaboradores entre artistas visuais, músicos e produtores.

Kastrup vem, ao longo dos mais de vinte anos de carreira, contribuindo com seu talento de baterista, percussionista e produtor musical para o trabalho de diversos artistas do Brasil e do mundo como Arnaldo Antunes, As Bahias e a Cozinha Mineira, Selma Uamusse (Moçambique), Chico César, Ney Matogrosso, PAUS (Portugal), Selton (Itália), Zeca Baleiro, entre outros.

ZÉ KRISHNA

Zé Krishna é compositor, guitarrista, violonista. Nascido em Nova Delhi, Índia, Zé é filho de pai indiano e de mãe brasileira. O artista é graduado em música pela Universidade de Brasília – UNB e pela Escola de Música de Brasília – EMB, participou do International Association of Schools of Jazz – IASJ na Áustria, em 2012, e participou do intercâmbio em Cincinnati – Ohio para se aprofundar no Jazz.

Já se apresentou com grandes artistas como Paulo André, Hamilton Pinheiro, Oswaldo Amorim, Leonel Laterza, David Liebman, Phil Degreg, Renato Vasconcellos, Pedro Vasconcellos, Leander Motta, Dudu Maia, Wilson Bebel, Chugge Khan, entre outros. Gravou em 2009  o projeto Fusão Brasil-Índia ao lado da Chugge Khan Band. Atualmente lançou o álbum  EK com a banda Zé Krishna e Amigos Eternos.

VICTÓRIA DOS SANTOS

Victória, brasileira, nasceu na coxia cresceu no carnaval, dedica-se ao tambor e vive na música de SP. Diretora da Bateria do Bloco Agora Vai e ritmista na escola de samba Vai Vai.

Percussionista atuante com Jards Macalé, Drik Barbosa, Kastrup, Ava Rocha, Rodrigo Campos, Curumin canta Geovana, Inimigos do Batente e participações com Linn da Quebrada, Mateus Aleluia e Aláfia. Criadora do grupo de pesquisa Mbeji (tambor e voz) que participou em 2017 do Festival do Caribe em Cuba.

Acompanha a cantora moçambicana Lenna Bahule em seu projeto vocal Nômade.
Compositora, tem apresentado seu show autoral Tambor, Coxia e Carnaval com repertorio de pesquisa pessoal trazendo influência acerca da música negra de ritual, tradicional e autoral do Brasil, África e Cuba.

CHICO CORREA

Artista e produtor musical referência na música eletrônica contemporânea no país. Desenvolve sonoridades a partir de cultura tradicional e musica eletrônica ha mais de 15 anos, desde seus projetos pessoais: ChicoCorrea&ElectronicBand, BerraBoi a colaborações com outros artistas. Guitarrista e membro do grupo paraibano Seu Pereira e Coletivo 401, alem de produtor musical dos discos da banda. Já atuou nos grupos Cabruera, Totonho e os Cabra e BaianaSystem.

Produtor de remixes para os artistas: Dani Nega e Craca, Leo Leobons, BaianaSystem, Samba de Coco Raizes do Arcoverde, Coco do Tebei, Tavares da Gaita, e colaborador do Produtor Japones Makoto K.

Atualmente produzindo discos para os artistas: Jessica Caitano (PE), Radiola Serra Alta (PE) entre outros.