Recentemente circulou um vídeo no twitter que me chamou a atenção. Era um rapaz japonês que toca violão com um canal chamado Miyabossa, num video caseiro onde ele aparece com seu violão enquanto lê alguns papéis na sua frente.

Depois de uma introdução no violão acompanhada de alguns sons guturais, começa a cantar: “eu viciado em putaria / ela quer namorar comigo / calma bebê / eu não quero compromisso”. A música é “Tome na Pepeka”, composição de Biel Xcamoso produzida pela dupla Shevchenko e Elloco com participação de MC Lucy, um clássico do bregafunk recifense.



O Encontro da Música Brasileira e o Japão

Não é difícil encontrar no Japão quem seja apaixonado pela música brasileira. A relação musical entre os dois países é bastante antiga: na década de 1950 o próprio Luiz Gonzaga gravou algumas versões das suas músicas em japonês com a cantora Keiko Ikuta, que foi ao Rio de Janeiro fazer alguns compactos de forró para o público asiático.



A era da internet, como era de se esperar, criou seus próprios clássicos. Muitos devem lembrar do pagode japonês do Grupo Y-No, completamente equipado com banjos estilo Almir Guineto e repiques de mão, arriscando composições originais com letra em português – ou ainda a refinadíssima versão coreana de Asa Branca feita com instrumentos tradicionais do país. “Asa Branca” parece ser uma música particularmente popular, e não é difícil encontrar várias versões de músicas de Tom Jobim e até Raul Seixas.

Miyabossa

Mas a versão voz e violão de Schevchenko e Elloco me pegou de surpresa. Por isso, procurei conhecer o dono do canal Miyabossa. Ele já aparentava ser bastante simpático e comunicativo interagindo com as pessoas que comentam nos seus vídeos, mas descobri também uma pessoa muito atenta e informada. Nossa conversa fluiu naturalmente entre Shevchenko e Elloco e a poesia japonesa medieval.

Miya é funcionário de uma agência de publicidade, e só tem tempo de tocar violão nos finais de semana ou quando chega cedo do trabalho, mas a música é uma paixão antiga. Sempre gostou de cantar quando criança e comprou seu primeiro violão aos 13 anos de idade.

O gosto pela música brasileira veio quando descobriu Garota de Ipanema, um disco de Nara Leão gravado no Japão com banda japonesa para o público japonês na década de 80. Desde então ele nunca mais parou de escutar e estudar a música do Brasil.



A primeira postagem de seu canal, Miyabossa, dez anos atrás, é uma versão de Travessia, de Milton Nascimento, cantada na rua com um grupo de amigos. No começo, a maior parte dos vídeos eram de músicas que giravam em torno da bossa-nova, alguns sambas e a MPB clássica. “A bossa-nova é uma música de fundo comum em cafés japoneses”, diz Miya. “Muitas pessoas ouvem e tocam música brasileira”.

A Diversidade do Repertório de Miyabossa

Mas ao longo do tempo Miya começa a se afastar do repertório “bossa-nova exportação” que toca no mundo inteiro. Um dos vídeos mais assistidos do seu canal é uma versão de “Deixa Acontecer” do grupo Revelação. Há uma boa seleção de pagodes, com Exaltasamba, Jorge Aragão, Fundo de Quintal e Alexandre Pires. Nos comentários, muitos brasileiros surpresos com a familiaridade de Miya com o repertório e o cuidado em tocar todos os temas e melodias da música original.



E foi nessas interações que Miya conheceu o funk. “Foi uma solicitação de um brasileiro que estava assistindo meu canal no YouTube. Era uma música chamada “Parado no Bailão”, do MC L da Vinte. Eu não conhecia o funk, então não conhecia o funk brasileiro.” O encontro casual gerou muitos frutos: além do clássico do funk carioca, Miya gravou duas versões de clássicos de Shevchenko e Elloco, MC Abalo e até um trap de Jovem Dex.

As Diferentes Frequências

Parece um grande salto para um amante da bossa-nova, mas de alguma forma ouvir versões voz e violão da nova música eletrônica brasileira ao lado de clássicos de João Donato, João Gilberto e Jorge Aragão tocadas por alguém que observa a cultura brasileira de longe dá a impressão de que afinal não se tratam de coisas tão distantes. As bases eletrônicas transpostas para o violão não soam tão diferente de sambas de Dorival Caymmi ou Baden Powell.

E embora seja modesto, já que a música não é sua profissão, ele atribui o sucesso dos vídeos ao cuidado com a parte instrumental. “Eu acho que existem muitas pessoas que podem fazer a mesma coisa em um nível superior. Mas não acho que elas usam essa capacidade para essas coisas, então acho que estou recebendo atenção.”

A Paixão de Miya pelo Brasil

O motivo que fez Miya se interessar pela nossa música mostra as representações típicas tanto do Brasil quanto do Japão: a sociedade japonesa é rigorosa, e as pessoas encontram paz no espírito brasileiro simples e alegre. Mas a escolha do funk revela algo mais: a sexualidade das letras e da coreografia envolve todos, até mulheres e crianças. Isso, segundo Miya, seria impensável no Japão de hoje.

“As pessoas que gostam de brega podem pensar em pessoas puras naquela época, mas os japoneses no passado usavam muitas expressões sexuais que foram sendo proibidas com o tempo”, diz. Ele cita o exemplo do Kojiki e do Manyoshi, dentre as mais antigas obras da literatura japonesa, o primeiro uma coletânea de contos mitológicos e o segundo um cancioneiro publicado no século 8.

O Tabu do Sexo

Segundo o Kojiki, as ilhas japonesas são fruto da relação sexual entre dois deuses, e em Manyoshi aparecem várias alusões ao ato. “Mas o Japão moderno evita a interpretação sexual tanto quanto possível. Acredita-se que as antigas canções japonesas devem estar de acordo com a estética e os costumes ocidentais modernos. Na cultura ocidental moderna e bem-comportada, muito se perdeu”.

No período político extremamente conservador que vive o Brasil, o moralismo japonês não parece tão distante, embora Shevchenko e Elloco ainda tenham seu espaço garantido. Me parece improvável que, como a poesia japonesa de 15 séculos atrás, apareça alguma interpretação comportada do bregafunk. Mas bem que dá pra imaginar os deuses criando o arquipélago japonês ao som de “Ploc Ploc No Teu Grelo”.