No dia 10/09 fará um ano que o mundo perdeu o genial Daniel Johnston. Marcado pela sensibilidade em suas músicas, o músico só foi “descoberto” no fim da década de 80 quando lançou seu sexto álbum de estúdio Hi, How Are You (1989).

Kurt Cobain, inclusive era fã, e de tanto usar a camiseta do álbum acabou chamando a atenção dos fãs de Nirvana e aproximando a atenção tanto da mídia como dos fãs.

Mas a vida do Daniel Johnston não foi nada fácil. Nascido em Sacramento, na Califórnia, mas criado no Texas, o músico que era o caçula de uma família de 5 filhos sofreu muito por conta do transtorno bipolar e esquizofrenia; problemas que o acompanharam ao longo da vida.

Em compensação seu talento para dizer muitas coisas através de uma música distorcida, com letras impactantes e texturas lo-fi acabou chamando bastante a atenção. A maioria dos seus materiais foram produzidos em casas em fitas cassete. Muitos destacam suas composições como puras e até mesmo ingênuas mas talvez a beleza delas esteja justamente nisso. O que por sua vez acabou o transformando em uma espécie de artista cult e com DNA indie.


Daniel Johnston SXSW 2008

Foto tirada em Austin em uma das edições do festival South By Southwest (2008). – Foto: Arquivos


Daniel Johnston Além da Música

Além da música, Daniel Johnston também se dedicou as artes visuais com ilustrações que chegaram a exposições e grandes galerias de arte. Em 2012, inclusive, ele chegou a lançar seu primeiro livro de quadrinhos Space Ducks – An Infinite Comic Book of Musical Greatness que acompanha um disco e um App.

Se despediu dos palcos em 2017 de maneira digna com direito a turnê. Ele acabou falecendo no ano passado devido a complicações cardíacas mas sua luta contra as doenças psicológicas foi o ponto central da sua vida; e o fato de produzir arte ajudou o músico durante esta constante batalha.

Para quem quer saber mais sobre a sua vida vale procurar pelo premiado documentário The Devil and Daniel Johnston (2006) do diretor Jeff Feuerzeig. Em 2015 foi lançado outro documentário, desta vez curta, Hi, How Are You Daniel Johnston? dirigido por Gabriel Sunday e teve como produtores executivos nomes como Lana Del Rey e o rapper Mac Miller.

True Love Will Find You In The End

O tributo da midsummer madness nasceu no começo da pandemia de maneira acidental. Em Março 2020, no início da pandemia de Covid-19, Rafael Genu (baixista da Pelvs), morando com a família em Milão, Itália, teve a ideia de regravar “True Love Will Find You in the End” do Daniel Johnston com amigos, todo mundo junto, só que à distância.

Ele reuniu diversas entre tentativas e entregas. A versão final inclui Rafael Genu, Gustavo Seabra e Clínio Carvalho, todos da Pelvs, Marcelo Colares do Cigarettes, Adriano Caiado da Moon Pics, Gerson Alves da Early Morning Sky e Alessandro Travassos do Valv. Cada um deles gravou seus takes em casa, em vídeo, sem muita preocupação com o áudio. Algo que segue fielmente o estilo do músico norte-americano.

O Processo

Segundo Rodrigo Lariú, do midsummer madness, a ideia era ter saído antes mas isso não tira o brilho do projeto.

Ele complementa: “A ideia inicial era criar apenas um vídeo. Mas as versões solo de cada participante ficaram tão legais, que resolvemos transformar as faixas num EP com 7 faixas.

Isso também causou o enorme atraso de quase 5 meses no lançamento do material. A ideia inicial do Genu era lançar a música no auge da pandemia, principalmente para ele, morador de Milão, uma das cidades mais duramente atingidas no início da crise.”

Em uma pandemia onde só no Brasil já passamos dos 102 mil mortos e mais de 3 milhões de infectados o tributo consegue conectar seis músicos e envolve gravações feitas em Milão, Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, Itaperuna e Brasília.



A Solidariedade em Tempos de Coronavírus

Lançado apenas em versão digital, o EP está disponível no Bandcamp e também nos serviços de streaming. Toda renda gerada no Bandcamp e no streaming será doada para o Grupo GAS. O grupo que trabalha com pessoas que vivem na rua em São Paulo, que talvez sejam as vítimas maiores e invisíveis da pandemia.

“A ideia de doar foi minha. Achei importante porque apesar de eu estar sendo afetado pela pandemia, minha condição ainda é privilegiada e segura. Tem gente que não tem casa, não tem como se proteger.

O contato com o GAS veio através do Caio Augusto Braga, diretor do filme Guitar Days. O irmão dele é quem coordena o GAS.”, conta Rodrigo Lariú do midsummer madness

A arte da capa foi feita por João Pesce (Young Lights) e Chandra Drummond. Cada single tendo uma capa exclusiva com elementos que compõe a arte da capa final de forma que “una” todas.


Daniel Johnston midsummer madness true love will find you in the en


Pedimos para cada um dos participantes contar um pouco sobre o impacto da obra do Daniel na vida deles.

Alessandro Travassos (VALV)

“A Obra do Daniel Johnston surgiu pra mim depois de uma perda significativa e ajudou a recuperar uma certa inocência e perspectiva otimista num futuro que eu achava muito enevoado.”

Adriano Caiado (Moon Pics)

“Eu o descobri quando ouvi o primeiro álbum do Beach House, em que eles fazem um cover de “some things last a long time”. Desde então eu acho que já ouvi quase tudo que ele já escreveu. O maior impacto que ele teve em mim foi sobre a profundeza interminável e inigualável do valor humano na produção independente e lo-fi.”

Gerson (Early Morning Sky)

“Simplicidade e genialidade diante de um mundo que idolatra o árduo, o difícil e o complexo é uma grande inspiração. A diferente forma de Daniel Johnston via o mundo, com sua delicadeza e seus desafios mexe diretamente no como tratar a vida adulta.
Uma capacidade de tornar o simples encantador, o cantar sobre trechos de canções pré-gravadas, o violão ou o piano fora de sincrônia, quase um propósito de vida e de como tocar ela em frente diante das dificuldades.”

Clinio Carvalho (Pelvs, Snooze)

“Conheço bem pouco o trabalho do Daniel, mas não deixei de lamentar muito a sua passagem. Porém o que mais me impressiona na historia de vida dele é a sublimação através da musica.”

Pandit Pam Pam (participa na versão do The Cigarettes)

“Como algumas pessoas da minha geração, acabei lendo sobre o Daniel antes de escutar (no caso através de livro clássico chamado Alternative Record Guide, publicado em 1995). E 1995 é o ápice da tal cultura lo-fi e para esta estética o Daniel é basicamente Deus.

Obviamente o que já era incrível, ganhou outros contornos com o documentário (Devil And Daniel Johnston) e desde então ele é um artista muito importante na minha vida, apesar de não escutar tanto quanto antes.

A Stephanie Toth me deu uma fita K7 original de presente dele que é um tesouro que eu guardo a sete chaves. Eu acho que o Colares me chamou para participar desse projeto porque sabe que eu gosto do trabalho do Daniel.”

Qual disco ou música mais o marcou ou ajudou a enfrentar alguma situação da vida e porque?

Alessandro Travassos (VALV)

“O que mais me marcou na obra do Daniel é que ele usa a música pra dizer as coisas que ele não conseguiria dizer num discurso ou de forma ordinária. Ele transformou sentimentos e palavras inocentes em músicas delicadas e poderosas. É extremamente difícil pra mim falar sobre a obra dele.”

Adriano Caiado (Moon Pics)

“Acho que a música que mais me marcou dele até hoje é “walking the cow”, me lembra muito o mito de sísifo e a natureza cíclica interminável da expressão humana na produção e experiência musical. Uma sina. Enquanto músico, você existe em função da música e não o contrário.”

Gerson (Early Morning Sky)

“A canção mais encantadora, simples, juvenil e cheia boas lembranças é “Honey, I Sure Miss You”. Altamente recomendada para dias felizes e tristes!” 

Clinio Carvalho (Pelvs, Snooze)

“Como pouco conhecedor da historia musical dele, posso afirmar que a musica que mais me marcou foi True Love porque me deu a oportunidade de tocar de forma compartilhada com meus amigos essa canção, que é tão simples e tão densa ao mesmo tempo. me remeteu à celebre frase do que fecha o ciclo dos Beatles e que encerra o ultimo álbum dos caras, Abbey Road.”

Pandit Pam Pam (participa na versão do The Cigarettes)

“Para não focar em momentos tristes e ainda no tema: “Speeding Motorcycle”. A minha esposa Bianca comprou uma moto e sempre tive um bloqueio com esta forma de transporte por um trauma de um Tio que sofreu um acidente que colocou ele em uma cadeira de rodas pelo resto da vida.

Resisti por um tempo de andar de moto e eventualmente topei uma volta; instintivamente comecei a cantar alto “Speeding Motorcycle” do Daniel como um verdadeiro mantra para a situação. Esta música possui diversas camadas (como a versão dos Pastels) e passou a ter o significado de pura alegria em estado bruto, de sentir o vento no rosto e buscar a felicidade de uma maneira simples do lado de quem você ama.”