Ali Prando discute os “Paradigmas do Pós-humanismo” sob a ótica punk de Björk.

Nascida na pequena Reykjavík (Islândia) a música sempre esteve presente em sua vida. Não só ela, como a arte em geral.

Sua carreira começou muito cedo, aos 11. Tendo estudado clássicos do piano na escola, ela logo despertou interesse de gravadoras. E adivinhe? Seu primeiro disco, aos 12, foi logo de Platina na Islândia (1977).

Depois muita coisa aconteceu.

Tendo atuado em algumas bandas punks na adolescência como Spit and Snot, Exodus (Pós-Punk), Tappi Tíkarrass, KUKL (Pós-Punk), ela nunca perdeu o espírito de vanguarda, e contestação.

Embora seu reconhecimento global tenha vindo com projetos mais adiantes, ela nunca perdeu essa verve de seus primeiros dias. Seja como The Sugarcubes ou sua carreira solo Björk, a artista sempre foi combativa e criou através de seu universo bastante peculiar, narrativas.

Com muita personalidade, e crítica ao mundo, ela acabou se tornando um Ícone Pop.

Björk: O Legado

Aos 53 anos, com mais de 30 anos de carreira, e sempre se reinventando e trazendo novas pautas para os holofotes.

Seria uma ótima maneira de falar sobre a carreira da Björk.

O mais interessante é justamente ver como ela trouxe há quase 10 anos (Biophilia / 2011) à tona temas que hoje vemos sendo debatidos em seminários, congressos, academia, manifestações e agendas sociais.


BJÖRK - Ali Prando

BJÖRK é tema de estudo do pesquisador Ali Prando


Para muitos sua figura e provocações causam certo estranhamento. Para outros, adoração.

De fato a islandesa não dá ponto sem nó. Sabe provocar, adianta tendências e traz para sua pauta sempre temas e discussões relevantes.

Se nos anos 80 era uma rebelde punk, esse espírito nunca cessou.

Ela aprendeu com o tempo a fazer de “seu punk” um estilo de vida. Contestadora ela sempre transgrediu através de suas linguagens. Que não se abstém apenas ao plano da música. Mas que reverbera em outras artes, expressões e imaginário da cultura POP.

Sua Complexidade

Ao longo de sua trajetória ela vive se reiventando.

É provocadora feito Marina Abramović. Transgressora e feminista como Kathleen Hanna, Ari Up e Patti Smith. Tecnológica feito nossos tempos, ela traz pensamentos de obras como The Minority Report, Androides sonham com carneiros elétricos? e 1984 para o centro da discussão.

O campo do figurino, artes visuais, estilo de vida e sua sexualidade se convergem.
Feito um “animal spirit”, a tornando um Ícone Pop digno de estudo.

Björk: Paradigmas do Pós-humanismo

O pesquisador Ali Prando, fascinado por todo este universo criou um curso. Inicialmente para integrar a exposição Björk Digital que chegou ao fim no último fim de semana no MIS. Mas que devido ao sucesso, tem ganho desdobramentos.

As narrativas transmidiáticas abordadas no estudo acabam indo de encontro com o momento. Este onde mudanças de mentalidade, abordagem e diversos questionamentos tem sido constantes.

O que certamente gera debate (e por consequência impasses). Até por isso colocar em pauta é tão preciso. Revisitando não só uma obra mas como uma pessoa em contínua transformação artística e pessoal.

O Curso

Ali Prando discute os “Paradigmas do Pós-humanismo” sob a ótica punk de Björk

Durante os dias 02, 09 e 16 de Setembro ele ministrará um curso no Tapera Taperá. Localizado no centro de São Paulo, ele levantará discussões relevantes sobre todo este universo. O valor do investimento é de R$160 e você saberá mais informações no final do texto.

Conversamos com o blogueiro, pesquisador e amante da cultura pop para entender mais sobre suas empreitadas. Esta que não é sua primeira aventura no universo de cursos envolvendo o POP.

Seu primeiro tento foi o curso Politizando Beyoncé: Raça, Gênero e Sexualidade. Este que versa sobre estudos de mídia, estudos raciais e transviados.

Na época o curso foi considerado pelo HuffPost como “tudo o que você precisa e não sabia”.

Confira a entrevista exclusiva para o Hits Perdidos onde ele comenta mais sobre os Paradigmas do Pós-humanismo.

A partir de que momento decidiu estudar e relacionar o trabalho da Björk a seus estudos acadêmicos?

Ali: “Eu fui uma criança muito orientada pela MTV no começo dos anos 2000. Passava horas assistindo videoclipes, vendo programas sobre cinema, arte, a indústria do audiovisual etc.

Lembro de ter visto ao vivo o beijo de Madonna em Britney Spears, com as duas simulando uma espécie de casamento LGBTQ – quando esse debate ainda nem existia.

Lembro também do breakdown de Britney Spears e todo o assédio dos paparazzi, quando as câmeras fotográficas começaram a ser acopladas nos celulares.

Houve também a performance de ‘Paparazzi’ no VMA com Lady Gaga sangrando, emulando o assassinato de Lady Di. Cito esses exemplos porque acredito que eles mostram a elasticidade política da cultura POP.

A Cultura Pop

No final das contas, são os artistas POP que norteiam nossa cultura e mostram quais são os valores éticos e estéticos de nossa época. Ícones POP são como flautistas de Hamelin que nos guiam, nos mostram o que e como desejar, mostram nossos medos, anseios e ambições.

Björk em Sua Vida

Acredito que foi nessa época que comecei a escutar Björk, a partir de videoclipes como “All is Full of Love”, “Pagan Poetry”, “Cocoon”.

Os visuais e texturas musicais que ela apresentava eram bastante diferentes das estrelas POP hegemônicas da época, e talvez tenha sido isso que me encantava.

Assim como David Bowie e Madonna, a cada disco/era lançada, Björk assume uma persona e explora as máximas disso – seja desenhando uma deusa cyberxamânica, a deusa gaia, ou um ciborgue.

A obra de Björk parece mais do que nunca inesgotável por todos os diálogos que estamos travando em relação ao pós-humanismo, aos limites do corpo e também a nossa relação com o meio ambiente.

Seria a Björk um ícone pop “Anti-Pop”?

Não acredito que Björk seja anti-POP – talvez mais recentemente, ela tenha se afastado do circuito mainstream.

Mas são várias as entrevistas onde ela mesma se afirma enquanto artista POP, contrariando inclusive seus próprios fãs que a colocam como ícone alternativo.

Esse diálogo é importante, porque mostra que Björk não cede aos clichês e obviedades musicais e estéticas, e mais do que isso, ela não subestima a inteligência de seu público.

Oferecendo sempre produtos audiovisuais complexos e muitas vezes de difícil digestão – Björk está interessada em expandir nossos sentidos, em oferecer paisagens sonoras inovadoras, criar instrumentos e tecnologias que levem a música POP mais longe.”

Como vê o avanço da cibercultura e o interesse da população a coisas que lá atrás pareciam tão distantes, como o cyberpunk de livros e filmes, e o pós-humanismo?

Ali: “Somos todos ciborgues e talvez nunca tenhamos sido qualquer outra coisa. Pois desde sempre, nós interagimos com máquinas, dispositivos e instrumentos que fazem com que nossos corpos não terminem em si mesmos.

Desde hominídeos que utilizavam varas para caçar, até o contemporâneo, com nossos aplicativos instalados em nossas cognições.

A Ciborguização

Quando nós interagimos com fármacos, gadgets, telas, estamos nos ciborguizando e diluindo as polaridades fictícias entre humano e máquina, natureza e cultura, natural e artificial – o ciborgue torna-se então nossa condição, nossa ontologia.

Em outras palavras, nós sempre estivemos conectados à diversas tecnologias. Nossos gêneros e seus processos de ficções biopolíticas dependem em grande nível da produção tecnológica simbólica.

Quando menciono tecnologia, gosto de tratar esse termo de maneira expandida, isto é, pensar a linguagem, os códigos semióticos e técnicos que nos ajudam a visualizar o mundo.

O que me interessa agora, mais do que nunca, é disputar a tecnologia:

Quem é que tem feito uso das tecnologias?

Para quem e como essas tecnologias são feitas?

Como subverter as tecnologias e não (re)produzir sistemas de opressão aos sujeites que já são subalternizados?

Vejamos, por exemplo, o uso da realidade virtual por Björk. Os mercados que mais se utilizam da tecnologia da realidade virtual são o imobiliário, os games e a pornografia.

Quando Björk utiliza essa tecnologia para criar videoclipes, ela está colocando o VR em disputa, se alinhando a empresas que podem criar um uso emancipatório disto, entende? Björk continua uma grande punk vanguardista.”

Você já ministrou outro curso (‘Politizando Beyoncé: Raça, Gênero e Sexualidade’’, que versa sobre estudos de mídia, estudos raciais e transviados).

Parece gostar de relacionar a cultura pop as correntes filosóficas e movimentos sociais.

Se fosse desenvolver um curso relacionando algum artista ou personalidade brasileira, qual seria ele (a) e qual a motivação? 

Ali: “Que pergunta! Essa rende uma discussão bem longa…(risos).

Eu sempre gosto de partir dos visuais e depois interseccioná-los às teorias. Não me interessa nenhum pouco “colonizar” os artistas através das minhas teorias ou das teorias que eu acesso – seja Achille Mbembe, Judith Butler, Paul B Preciado ou Donna Haraway.

O que me interessa é mensurar a elasticidade política desses artistas e pensar conceitos da filosofia contemporânea e feminista que penso serem importantes para entender esse período histórico.

Os Estados Unidos tiveram um investimento pesado em cultura POP. E também por isso, colonizaram e construíram todo um imaginário coletivo – que é justamente o ponto de partida do meu trabalho atualmente.

São vários os artistas brasileiros que me inspiram e eu me sinto muito afortunado de ter alguns deles por perto, muitas vezes .

O Pop Brasileiro

O POP brasileiro tem crescido bastante, a indústria do videoclipe no Brasil tem ganhado força (mesmo que com cada vez menos incentivo, os cortes hegemônicos na indústria da música, no audiovisual, no cinema, na pesquisa) e talvez, em pouco tempo, a gente possa começar a pensar sobre como os artistas daqui influenciam nossa cultura, quais são as éticas e estéticas, etc.

Luiza Lian, Letrux, Ava Rocha, Rincon Sapiência, Pabllo Vittar, Jaloo, MC Tha, Maria Beraldo, Thiago Pethit são todos artistas que aparecem muito nas minhas falas e que tem afectos e devires que dialogam bastante comigo.”


Pesquisador Ali Prando criou o curso 'Björk - Paradigmas do Pós-Humanismo'

Pesquisador Ali Prando criou o curso ‘Björk – Paradigmas do Pós-Humanismo’


Sobre x ministrante:

Ali Prando é filósofo pesquisador pelo CNPq das temáticas de gênero, sexualidade e feminismo, principalmente através de perspectivas de Judith Butler.

Atua também como blogueiro e jornalista nos portais Disco Punisher e What Else Mag, onde entrevistou mais de 200 ícones pop – de Caetano Veloso a Charli XCX, de Elza Soares a Pabllo Vittar, de artistas da nova MPB e MPBicha.

Os Cursos

No Brasil, criou o curso Politizando Beyoncé: Raça, Gênero e Sexualidade. Este que versa sobre estudos de mídia, estudos raciais e transviados, e foi considerado pelo HuffPost como “tudo o que você precisa e não sabia”.

Criou também Björk – Paradigmas do Pós-humanismo.exe sobre tecnocultura, ciborguização dos corpos e distopias futuristas.

Björk: Paradigmas do Pós-humanismo foi criado especialmente para integrar a exposição internacional Björk Digital. A mostra passou por Sydney, Barcelona, México, Moscou e ficou em cartaz no Museu da Imagem e do Som em São Paulo até o dia 18 de agosto.


 Björk - Paradigmas do Pós-humanismo.exe


Serviço:

Björk: Paradigmas do Pós-humanismo.exe

Por: Ali Prando | @discopunisher

Dias 02, 09 e 16 de Setembro

Segundas-feiras, das 19 às 22h

Investimento: R$ 160,00

Tapera Taperá | @taperatapera

Endereço: Av. São Luís, 187 – 2º andar, loja 29 – República, São Paulo

Mais informações: (11) 3151-3797