Em nosso caminho encontramos diversos obstáculos, passamos por várias experiências que acumuladas fazem com que carreguemos diferentes bagagens. Estas que nos inspiram e que fazem com que percorramos os mais diversos caminhos. Feito marcas e linhas invisíveis que nos ajudam a explicar quem fomos, somos e quem um dia iremos ser. Feito uma linha da vida em eterna construção. No meio disso tudo ainda temos as nossas emoções, paixões, entrega e tudo que faz com que nosso coração pulse e bata ainda mais forte. Esses caminhos do coração transparecem em “Linhas que Trago” da Sandyalê.

A cantora sergipana lançou o ótimo Árvore Estranha ainda no ano passado e entrou na nossa lista de 50 Melhores Álbuns de 2019. Um álbum bastante plural, orgânico e que viaja para dentro de si para trazer o recorte de uma fase de sua vida.

“A ideia estética do álbum foi abordar referências dos primórdios da música eletrônica do anos 60 e 70, onde existiam beats que eram executados por pessoas, ao vivo”, conta o produtor musical Dudu Prudente.

Sandyalê e São Paulo

A aspereza de São Paulo, o coração partido e a necessidade de abraçar a poesia acabaram inspirando Sandyalê a percorrer o caminho que vira a se tornar o tão sensível e empático Árvore Estanha.

As dores, os traumas, as passagens, transformações internas, impactos e um longo processo acabam adentrando na obra da artista. O disco fala com o mundo mas também abraça o Brasil de maneira bastante intensa. Foram dois anos de um processo longo em que todo cuidado se apresenta ao longo das faixas.

É bem provável que em algum momento da sua vida ou situação você tenha sentido desta forma em relação aos sentimentos e ela em suas letras, e texturas das faixas, teve todo o cuidado e sabedoria em compartilhar suas vivências de uma forma delicada e abrindo o coração.

A Simbiose da Árvore Estanha

Os ritmos e referências de toda uma vida também entram em coalizão para contar a história e a riqueza de referências deixa a viagem ainda mais acolhedora. Tem um pouco de krautrock e do post-punk, passando pelo trip-hop, pop alternativo, Lambe-Sujo, frevo e samba de coco.

Ela até cita Fishbach, Hiatus Kaiyote, The Dø e Charlotte Gainsbourg, Kraftwerk, Tangerine Dream e NEU! como artistas que ajudaram a moldar as raízes do seu segundo álbum.

O disco ainda conta com as colaborações de Fabrício Mota, Ana Carla Portela, Lauckson (Lau e Eu) e Elvis Boamorte nas composições.


Sandyale - Foto Por Luli Morante

SandyalêFoto Por: Luli Morante


Sandyalê “Linhas que Trago”

O videoclipe para “Linhas que Trago” também surge de um processo colaborativo. Ele nasceu em parceria com estudantes do curso de Cinema da Universidade Federal de Sergipe (UFS) como parte de um trabalho de conclusão de curso e foi fruto de financiamento coletivo.

“Compus a música sozinha no meu quarto, onde eu encontrava o refúgio para escrever e me perder na imaginação, nos pensamentos. Sofrendo um pouco, mas me refazendo e encontrando brechas para seguir adiante, apesar da falta, da saudade. A solitude foi o meu caminho nesse tempo”, revela Sandyalê.

O Clipe

As emoções e as metáforas entram em cena na produção audiovisual. As linhas da canção se materializam para dar vida aos caminhos e emaranhados do coração. A intimidade ganha as telas para que sintamos ainda mais intensamente o poder dos seus versos. A ambientação cria todo um clímax para o desenvolvimento da narrativa.

“O lance das linhas vermelhas, que simbolizam as veias do corpo, foi ideia minha que já veio de outra ideia que Dudu Prudente, produtor do disco, sugeriu para o show de lançamento, na hora em que cantasse ela.

Claro que eles executaram tudo de uma forma grandiosa, confesso que ia ficando emocionada a cada cenário novo. Eles ouviram, anotaram e acataram tudo que contei.”, conta a artista sobre a produção coletiva do clipe

“O coração é o que orienta, é a verdade, o íntimo é o meu caminho. Eu me coloco integralmente na minha expressão artística”, finaliza Sandyalê



* A ficha técnica completa você encontra no fim do post.

Entrevista: Sandyalê

Conversamos com Sandyalê para saber mais sobre suas conexões, transformações, aprendizados, raízes, videoclipe e muito mais.

O novo clipe vai ao mundo praticamente um ano após o lançamento de um álbum tão pessoal, ao mesmo tempo tão empático, e feito um caldeirão de misturas e ritmos. Como está sendo observar toda a colheita e impacto positivo deste trabalho?

Sandyalê: “Pra mim é um recomeço, sabe? Sei que o Um no Enxame existe e eu o trato como disco, apesar de ter 6 músicas e na época ter sido lançado como EP, mas vejo muito o Árvore Estranha como meu primeiro disco também. Complicado, né? (risos). Essa é a minha cabeça.

Estou numa constante fase de aprendizado e adaptações, e ainda me encontrando. Demorei muito pra lançar algo novo e tenho a sensação de ser um novo caminho mesmo, no qual quero seguir mais adiante, sem sair do trilho. O Enxame é um disco onde experimentei bastante coisa e o Árvore é um lance mais concreto, mais certo do que quero mostrar.

Tem sido muito gostoso ver a reação das pessoas com as músicas, senti uma aceitação maior com este trabalho, várias pessoas falaram que preferem esse disco e que me veem nele muito mais, e isso é real.

“Linhas que Trago” é minha canção preferida e de muitas pessoas também! Ela tem um lado pop apesar de ser cabeçuda com relação a letra, que não se repete, por ser crescente, sem voltas, com pitadas de metáforas, analogias e recheada de desprendimentos.”

O vídeo foi possível graças a um processo de financiamento coletivo e contou com a participação de universitários na execução. Conte mais sobre esse processo, as simbologias e metáforas da produção audiovisual e de agora depois de algum tempo da gravação poder lançar para o mundo.

Sandyalê: “Foi uma construção coletiva e muito criativa de todos os lados. A Laura [Tourinho], diretora do clipe, me mandou mensagem falando sobre a proposta e topei na hora.

Esse clipe é um trabalho de conclusão de uma disciplina do curso de Cinema da UFS, onde a turma toda participou, cada um na sua posição. A gente marcou um encontro no final do ano passado pra nos conhecermos e eu poder falar mais sobre a música e algumas ideias que já tinha em mente.

As Ideias, o Processo e a Produção do Videoclipe

O lance das linhas vermelhas, que simbolizam as veias do corpo, foi ideia minha que já veio de outra ideia que Dudu Prudente, produtor do disco, sugeriu para o show de lançamento, na hora em que cantasse ela. Claro que eles executaram tudo de uma forma grandiosa, confesso que ia ficando emocionada a cada cenário novo. Eles ouviram, anotaram e acataram tudo que contei.

Então, no clipe, tem uma cena com uma janela, algumas roupas penduradas em um cabideiro, que simboliza um quarto, onde o começo da música foi escrito. Na época escrevi tudo de uma vez, a música vem pra mim como algo que tenho que botar pra fora naquele exato momento em que estou sentindo.

Na harmonia, me inspirei na música “Maria dos Santos” de Alceu Valença, só mudei a ordem das notas. Mas é tudo Am, C, Em. Amo. A parte final da música eu escrevi já dentro do estúdio, na hora de gravar, pois sentíamos que faltava algo. Dudu me ajudou na melodia, na forma de cantá-la e interpretá-la.

A ideia do coração, feito em impressora 3D, foi deles…e ficou incrível, né? Parece de verdade. Diria que é o troféu do clipe!

No mais, de minha parte, foi tudo solto. Como as linhas que trago… tenho uma onda com a dança livre, influência do Butoh e me divirto bastante. Quando vi o primeiro corte do clipe, chorei. Aí já dá pra saber como tem um significado grande pra mim.”

Você compôs a canção ainda quando estava em São Paulo, cidade que muitas vezes pode ser hostil para quem chega cheio de sonhos. Conte mais sobre sua passagem pela cidade, descobertas e aprendizados que teve.

Sandyalê: “Verdade! E eu cheguei carregada de sonhos. Era minha primeira vez em Sampa e eu já cheguei pra ficar, mesmo sem saber que tinha ido pra ficar. No começo foi tudo uma maravilha, eu amava viver cada dia tendo uma novidade, um local novo pra conhecer, novas amizades a se fazer, coisas a se conquistar, arte pra consumir.

Ao mesmo tempo, sofri uma separação nesse primeiro ano de mudança, o que não foi fácil de digerir, pois a separação veio muito por causa da distância. Apesar dos pesares, somos parceiros e amigos até hoje e até sempre, o que me deixa feliz e aliviada, pois o que mais temia era perder esse lado de amizade e trabalho que é muito forte entre a gente. As coisas foram se resolvendo e eu fui vivendo.

O Disco, o Gato e São Paulo

Então uma forma que encontrei de amenizar meu sofrimento foi escrevendo e colocando tudo pra fora, seja em forma de canção, poesia ou um simples desabafo, e tudo isso virou música. Quem me ajudou muito nesse processo foi meu gato Mingau, que adotei pra me fazer companhia naquele apartamento frio e escuro, e por amar animais né? Sentia muita falta, aqui em Aracaju tenho uns 20 gatos! (risos) Mingau foi um grande aliado, parceiro de choros e acolhedor de abraços.

Inclusive esse disco eu dedico a ele, que já não está mais presente na Terra. Quando o perdi, passei por uma leve depressão, e, de verdade, faltava pouco pra terminar o disco… Só terminei pra honrar todo o bem que ele me fez e o tanto que ele se doou a mim. Esse disco é muito pessoal e muito forte pra mim.

Tem canções que eu choro quando canto/escuto, no show de lançamento aconteceu. O que me deixa um pouco desconfortável… ao mesmo tempo é um livro aberto né? No qual pessoas se identificam e vivem as letras, dançam a melodia e choram junto.

Então acho que São Paulo me fez muito bem mas me fez muito mal também, e decidi voltar. Eu me sentia muito sozinha, não consegui me adaptar muito às pessoas e a rotina da cidade, e também vi que não é necessário estar lá para se fazer música. Eu aprendi e vi de perto como se deve trabalhar… na verdade ainda estou nessa fase de aprender e absorver, mas, com isso tudo, decidi voltar pra minha cidade que tanto amo.”

O Brasil tem essa beleza de ter muitos ritmos, tradições, misturas e diferenças locais. Como é o caso do “Lambe Sujo”, gostaria que contasse mais para os leitores sobre o ritmo e falasse mais sobre a riquíssima música sergipana. Quais artistas te inspiram? E quais acha que deveríamos conhecer?

Sandyalê: “Pense num país rico de cultura! E o Nordeste é gigante né, carregado de manifestações culturais, recheadas de história.

Lambe-Sujos

A manifestação cultural dos Lambe-Sujos surgiu lá por 1860, bem antes da abolição da escravatura no Brasil e é a representação da batalha de dois grupos: de um lado os Lambe Sujos, que representam os negros escravizados; do outro os Caboclinhos, representando os indígenas.

O enredo é de que os negros raptaram a princesa indígena e os indígenas, por sua vez, bolam um plano de resgate. Os Lambe-Sujos se pintam com carvão e melaço, usando gorro e bermuda vermelha, enquanto os Caboclinhos se pintam com terra roxa misturada com água e vestem cocares. A festividade dura todo o dia, nos municípios de Itaporanga D’Ajuda e Laranjeiras, e acaba na tradicional batalha entre os dois grupos, da qual os caboclinhos sempre saem vitoriosos. Para quem assiste, é difícil sair da festa sem ser pintado pelos Lambe-Sujos! (risos).

A Riqueza da Cultura Sergipana

Daí a ideia de colocar essa referência na música se dá por conta do grave dos tambores, que parece um coração batendo, potencializando a analogia da canção. A Cultura Sergipana é rica e diversificada, reúne elementos da cultura indígena, africana e europeia.

Existem muitas outras manifestações do folclore sergipano, como o Reisado, Parafusos, Cacumbi, Taieira, Samba de Parêia, São Gonçalo, Chegança… Dentre os artistas daqui, mais ligados à essas manifestações, eu posso citar Dona Nadir da Mussuca, Seu Diô da Areia Branca e As Catadoras de Mangaba.

Dos artistas contemporâneos, gosto muito de Tori, Isis Broken, The Baggios, Alex Sant’anna, A Banda dos Corações Partidos, Anne Carol, Luno, Táia, El Presidente, Lacertae, Taco de Golfe, Cidade Dormitório, enfim… tem muito artista, tradicional e contemporâneo, fazendo música boa, made in Sergipe!”

No disco você doa muito de si e se desprende para falar sobre seus sentimentos em relação ao universo. Como é a sua relação com a música?

Sandyalê: “A música tem um papel muito importante na minha vida, nos meus dias. Quando estou feliz ou triste, me expresso através dela, como se fosse uma necessidade mesmo. Acredito no alto poder de cura que não só a música tem mas arte como um todo. Já me livrou de depressão, já fez abrir o meu coração, minha cabeça e até minha vida né?

Eu era uma menina muuuuito tímida, que sofria com paranóias de rejeição, achava que ninguém gostava de mim, tinha poucos amigos, porém bons. Na escola, achava que os professores não gostavam de mim, não saia muito de casa, era bem estranha (risos).

Isso foi mudando ao longo dos anos desde que comecei a cantar, me expressar e o principal, me aceitar. A música salva vidas… é incrível como ela tem o poder de mover o mundo, poder de união. Foi amor à primeira vista e desde então não faço mais nada além de música.”

Ficha técnica do videoclipe Linhas que Trago

Direção Geral: Laura Tourinho
Assistente de Direção: Douglas Barros
Roteiro: Laura Tourinho, Douglas Barros, Clicio Souza, Milena Araujo, Ravel Araujo e L.F Barreto

Equipe de Produção

Direção de Produção: Laura Tourinho e Douglas Barros
Produção Executiva: Douglas Barros e L.F Barreto
Produção de Locação: Matheus Dantas Gonçalves
Na Produção de Objetos: Stella Leal, Giu Salustiano, Matheus Costa, Andeusa e Milena Araujo
Produção de Set (Platô): Gardênia Souza

Equipe de Fotografia

Direção de Fotografia: Clício Souza
Primeiro Assistente: Maria Paula Barreto
Segundo Assistente: Andrei Ferreira
Operador de Steadicam: Asafe Reuel
Gaffer: Ravel Araujo
Fotografia Still: Luli Morante, Aryadne Coutinho, Laiz Conze e Bruno Daza

Equipe de Arte

Direção de Arte: Midiane Santos e João Henrique Freiras
Cenografia: João Henrique Freitas
Assistente de Cenografia: Dayane Lorena
Maquiagem e Cabelo: Milena Araujo e Waslhey Nicolau
Figurino: Andeusa e Milena Araujo

Equipe de Finalização

Produtor de Finalização: Ravel Araujo
Montagem: Laura Tourinho e Douglas Oliveira
Edição de Cor: Andrei Ferreira
Making off: Laiz Conze
Produção de Objeto 3D: Caio Leone Fonseca Casanova Soeiro
Alimentação: Sara Andrade Florêncio, Quentinha da Dona Bia
Apoio: Cósmica Ateliê, EstúdioAju, TV UFS.
Professor-orientador: Bruno Daza