Isaurian vai do post-metal ao shoegaze em “Chains of Blue”

Isaurian nasceu da vontade de Jorge Rabelo, guitarrista Optical Faze, de realizar um projeto paralelo. Para iniciar a jornada ele convocou o baixista Vicente Jr. e o tecladista Pedro Gabriel, parceiros de longa data no Optical Faze, e o baterista Guilherme Tanner (Galinha Preta).

O primeiro lançamento foi o EP All the Darkness Looks Alive que ajudou a definir e moldar conceitualmente os caminhos da banda. O registro contou com a produção e mixagem de Rhys Fülber (Fear Factory, Paradise Lost, Youth Code) e a fusão entre doom metal e shoegaze entrou no conceito e identidade do projeto. Jorge conta em entrevista exclusiva para o Hits Perdidos como bandas como Type O Negative, Deafheaven, Isis, Caspian e Earth.

Em 2017 a banda vai para São Paulo e no Dissenso Lounge grava seu segundo EP, Dead Flower of Youth, que é lançado oficialmente em 2018. Desta vez eles puderam trabalhar com o Matt Bayles (Mastodon, Caspian, Isis) que assina a produção e mixagem. No ano passado vieram alguns remixes e no início de 2019 vieram uma série de mudanças na formação.

As Mudanças no Isaurian

A banda que tem influências de Doom Metal, Gothic Rock, Post-Rock, Post-Metal e Shoegaze passou por mudanças significativas dentro da formação. Roberto Tavares assumiu a bateria, enquanto o até então baterista foi para as guitarras. Hoanna Aragão passou a dividir os vocais com Jorge…e assim o novo disco foi se desenhando.

O primeiro álbum cheio, Chains of Blue, foi composto ainda no ano passado. Gravado no Family Mob com o produtor americano Kevin Ratterman (Emma Ruth Rundle, Ray LaMontagne, White Reaper) que também assina a mixagem e masterização do registro. Eles contam que a experiência de trabalhar com um produtor com background do rock alternativo e folk foi uma experiência bastante agregadora.

Em apenas 6 dias eles gravaram as 9 músicas, e claro, muito material ficou de fora justamente pelo perfeccionismo que eles quiseram que o disco tivesse. Fato é que o resultado final é bastante relevante para a banda no quesito explorar novas sonoridades e possibilidades. Ouvir o disco deixa claro que existe potencial para abraçar novos públicos longe do nicho do metal. O que é ótimo para os brasilienses.


Isaurian de Brasília (DF) – Foto: Divulgação

Isaurian Chains of Blue (2020)

O choque de sonoridades já aparece logo na primeira faixa, assim como a referência maior da banda o Type O Negative. “Vanity Mirror” é uma balada com um pé no doom metal / gothic rock e outro no post-rock e impressiona justamente pelas camadas e intensidade. Um ótimo trabalho de mixagem, sabemos como poucos lugares param realmente para analisar o trabalho de engenharia de som mas o resultado final é excelente.

“Pythoness” é dark e ainda mais intimista. Com direito a arranjos de teclado, delírios de guitarras e o post-metal dá as caras criando camadas. Consequentemente, levando o ouvinte para um lugar distante. Temos o choque entre a agressividade do Deafheaven (chamado por alguns de Blackgaze), a plasticidade de grupos como Explosions In The Sky , MogwaiCaspian e backing vocals trazidos diretamente do gothic rock.

“Dead Garden” tem teclados em sua introdução que lembram até mesmo o orgão de uma igreja e o som logo muda de rotação através de suas guitarras quebradiças e derretidas. Abrindo portais para memórias e nuvens acizentadas aparecem no horizonte. Feito uma epopeia, a canção reveza momentos de calmaria e peso. Uma faixa sinfônica mas que não perde a sua plasticidade. Tem hora para os vocais se destacarem, para uma série de duelos de guitarras e até mesmo para contemplar a beleza do silêncio.

“Constant Glow” parece adentrar um lugar escuro de nossa própria mente. Até por isso sua letra é bastante confessional e acaba agregando elementos de doom metal e post-rock. Seu minuto final chega a lembrar até mesmo bandas de Space Rock.

O Lado B do disco

A profundidade literalmente acompanha a faixa “The Ocean”, uma faixa naturalmente confessional. As frequências se abaixam e é possível ouvir a bateria simulando o batida de um coração desacelerando.

Depois de ir para os oceanos: o destino é a costa em “To the Shore”. A faixa volta a trazer a combinação entre shoegaze, industrial e post-metal para a superfície sonora do som do Isaurian. A maré ainda cheia mostra que a tempestade ainda domina a trajetória por onde a embarcação tem que passar. Tormenta traduzida nos arranjos rasgados e na dramaticidade dos vocais épicos de Hoanna. São 7 minutos de duração.

A reta final se encaminha com “Reaching Hands” onde Hoanna assume os leading vocals para mostrar a sua potência vocálica que até lembra a Amy Lee. Algo que é compartilhado na faixa que conta até mesmo com guturais e nos remete as faixas mais transgressoras que consagraram o Deafheaven.

“With Solance” volta a trazer arranjos delicados e um dueto bonito – e emotivo – nos vocais. Os teclados, guitarras e bateria atuam em marcha e a canção delira em sua reta final.

Mas quem fecha mesmo o debut do Isaurian é a faixa título “Chains of Blue”. Bastante emotiva, e de peito aberto, o canto lírico ganha protagonismo; e de forma serena, e bela, o disco se despede.

Entrevista: Isaurian

Conversamos com o Jorge para saber mais a respeito do novo álbum da Isaurian.

O som do Isaurian funde Doom Metal, Gothic Rock, Post-Rock, Post-Metal e Shoegaze. Quais foram as principais referências para a consolidação da sonoridade da banda? Como observam a evolução e entrosamento a cada lançamento?

Isaurian: “A referência principal sempre foi Type O Negative. A ideia de uma sonoridade doom com mais sensualidade e mais gótico, algo que tem sido raro hoje em dia. Mas aos poucos fomos trazendo elementos diferentes e algumas referências mais contemporâneas, especialmente no aspecto de produção.

Deafheaven, Isis, Caspian e Earth são nomes que vêm em mente. “Paradise Lost” é uma referência constante no aspecto de arranjos no nosso lado mais metal. Acho que o jeito que a banda foi formada, nossa amizade e nossas afinidades torna tudo bem fácil no aspecto de entrosamento.

Todos respeitam a visão criativa do Isaurian e trazem suas particularidades e influências. Toquei com o Pedro e o Vicente por 17 anos no Optical Faze. Tudo isso facilita demais. O 1º EP foi uma experiência mais solo e mais catártica, então ele é um pouco mais cru e frio em alguns aspectos. No Dead Flower of Youth e no Chains of Blue dá pra sentir nossa identidade se formando e nosso entrosamento aumentando.”

A banda passou por uma série de mudanças, como acreditam que isso se refletiu no novo lançamento?

Isaurian: “Todas as mudanças foram absolutamente cruciais pro resultado do disco. O Guilherme, que tocou batera nos dois primeiros EPs, estava com vontade de tocar guitarra fazia um tempo. Eu imaginei que o nosso entrosamento ia continuar com ele como meu parceiro de guitarra e eu estava certo. Ele tem um talento bem natural para arranjos.

O Roberto fez um ensaio com a gente e nem testamos mais ninguém. O entusiasmo dele com o som e com o instrumento são fora do comum, e ele conseguiu dar bastante a cara dele nas linhas de bateria.

A Hoanna, nem se fala. Ela é um talento nato e raríssimo, talvez a voz mais linda e completa que já ouvi e já cantou com vários músicos bem respeitados. Nos aproximamos inicialmente por pura afinidade musical e a contribuição dela vai muito, muito além das melodias que ela criou pras músicas. Vai muito além da música, na verdade.”

Como foi para vocês gravar o registro em apenas 6 dias? Tiveram uma preparação prévia? A ideia de gravar em fita foi justamente para entregar o registro ainda mais fiel as apresentações?

Isaurian: “Nossa preparação foi ensaiar o máximo possível antes de ir pra SP. Não pudemos ter o Kevin na sala com a gente durante a pré-produção, então foi só ensaiar, ensaiar, ensaiar. Gravar em 6 dias foi intenso. Foi o bastante e nos organizamos para que nenhum aspecto do disco ficasse ‘nas coxas’. Tivemos que abrir mão de algumas coisas, claro. Não deu pra fazer um laboratório sonoro, mexer com timbres, sons, passar um ou dois dias experimentando pedais, amps, plug-ins.

A gente queria gravar as 9 músicas e queria um tempo razoável para gravar os vocais. Gravar em fita e parcialmente ao vivo (gravamos takes completos com guitarra, baixo e bateria) foi uma experiência massa porque nos obrigou a ser mais precisos do que nunca.

Esse disco, dentre todos os nossos registros, é o que representa mais puramente nossa performance como banda. Eu, particularmente, gosto quando uma banda soa diferente em estúdio da experiência ao vivo. Não melhor ou pior, mas diferente. Mas esse processo de gravação certamente vai nos ajudar a ser melhores e mais precisos ao vivo, independentemente da abordagem.”

Como foi o desafio tanto para vocês como para o Kevin Ratterman (White Reaper, Ray LaMontagne) em trazer diferentes referências na hora de produzir? Quão acreditam que isso agregou para o resultado final? Acreditam que conseguirão dialogar com mais públicos fora no nicho do Metal?

Isaurian: “O Kevin tem no DNA dele a cena musical de Louisville, bem centrada em folk rock. Ele passou 25 anos gravando vários artistas locais antes de se mudar pra Los Angeles. Então ele tem uma identidade como engenheiro e produtor muito clara. Ele conhece um tanto bom de metal, até de Meshuggah ele disse que gosta, mas ele fez questão de perguntar pra gente referências nossas. Conhecendo a discografia dele, eu sabia que naturalmente suas referências estariam no disco de alguma forma.

Dos discos que ele produziu, nossa referência mais clara era o On Dark Horses, da Emma Ruth Rundle. Eu sempre gostei da ideia de fazer um disco pesado com um produtor que não é especializado em metal. Costuma resultar em coisas no mínimo interessantes. E eu acho que, se conseguirmos divulgar o disco do jeito certo, podemos conquistar ouvidos fora do círculo metal, sim. Sons como “With Solace”, “The Oceans”, “Constant Glow” e a faixa título têm pegadas bem distintas de qualquer nicho tradicional de metal.”

A reclusão em casa tem no geral atrapalhado planos das bandas mas por outro lado fazendo com que se mantenham produzindo mais conteúdo seja para futuros lançamentos, como também para se comunicar com os fãs (lives, bastidores, playlists, lifestyle…). Como está sendo para vocês?

Isaurian: “Estamos sentindo bastante falta de ensaiar. Queríamos ter mantido o ritmo para chegarmos redondos nos shows pós-lançamento. Agora teremos que tirar o atraso nesse aspecto assim que as coisas normalizarem o bastante pra ensaiar, mesmo que os shows só aconteçam ano que vem.

Eu entendo a importância das redes sociais e da presença online para uma banda prosperar, especialmente uma 100% independente como nós, mas é meio que um esforço grande pra mim entrar nessas ondas como forma de promoção.

Live é um negócio que saturou rapidinho, já tem um tempo que ninguém aguenta mais live pipocando no feed do Instagram. Acho que o processo de lançamento do disco, a oportunidade de lançar uns singles e tudo mais, nos ajudou a manter uma presença online mais orgânica e sem forçação de barra.”

Remixes e versões alternativas não são uma grande novidade para vocês, como “The Elder” e “Golden Sky” em um passado não tão distante. Vi até que recentemente vocês até lançaram uma demo para “The Rhythm of the Night” da Corona, como foi essa experiência?

Isaurian: “Eu sempre curti bastante essa ideia de remixes. Gosto dos inusitados, tipo o de “Golden Sky”, que é basicamente um techno pesadão com samples da música original, e dos mais tradicionais, tipo o de “The Elder”, que o John Ross, um cara que sou fã desde a primeira banda dele chamada Challenger, topou fazer pra gente. Inclusive, recomendo demais os dois projetos atuais dele, Wild Pink e Eerie Gaits.

Dos remixes, o que tenho mais orgulho é o do Justin K. Broadrick pra “Hologram”. Ele pegou a música e transformou em outra, mas mantendo muito da essência dela. Jesu é uma influência direta do Isaurian, e sou fã também de Godflesh e Final há muitos anos. Foi uma honra tê-lo já no nosso primeiro lançamento.

Quanto a “Rhythm of the Night”, a ideia surgiu durante o isolamento. Ia ser só uma brincadeirinha, coisa minha e da Hoanna, mas gostamos bastante de como ficou e lançamos em versão demo, mesmo. De certa forma, é uma homenagem ao bom Corona contra o mau Corona. E foi uma forma bem divertida de manter a banda ativa e presente durante essa porra de pandemia. Até que é um feito razoável transformar um eurodance vibrante num som doom de quase 7 minutos. Acho que o ‘ritmo da noite’ é doom, mesmo. “



Quais artistas, e universos, fora do óbvio acabam influenciando vocês mesmo que indiretamente de alguma forma?

Isaurian: “Fora do campo musical? Tim and Eric, O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford, A Bruxa, Francisco de Goya.

No aspecto musical, algumas coisas mais fora da curva esperada no Isaurian que me influenciam constantemente são Mellowdrone, Brian Eno, Andrew W.K, sons anos 80/synthwave, coisas assim. Já se passaram 40 anos desde 1980, hein? Puta que pariu.”

Ouça Isaurian no Spotify


This post was published on 3 de julho de 2020 1:06 am

Rafael Chioccarello

Editor-Chefe e Fundador do Hits Perdidos.

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