O Bad Canadians nasceu das amizades e dos encontros que a vida proporciona. O projeto inicialmente concebido por Roberto Salgado e Eddie Fontenele também é o resultado de um sonho que nasceu ainda na adolescência. Ambos frequentaram o mesmo colégio onde foram introduzidos no mundo da música; “Dividíamos o walkman no recreio com os K7 s de grunge até os CDs de punk e hardcore da Galeria do Rock. A primeira banda que tivemos formamos juntos, tinha o Eddie na guitarra e o Roberto na bateria.”

A vida tratou de afastar eles por um tempo, por conta de outros projetos, Roberto tem mais projetos que muito músico da cidade, mas no fim de 2017 aconteceu o encontro. Eddie tinha na bagagem novas composições e ideias, desta forma eles se juntaram ao baixista Guga Kerr e ao guitarrista Paulo Alves e o rascunho do que se tornaria a Bad Canadians saiu do papel.

Embora inicialmente a proposta sonora não fosse o punk/hardcore, e sim o Stoner Rock, o resultado do som acabou mesclando como base a influência de grupos como Queens Of The Stone Age, Algiers e Cloud Nothings. O que certamente contribuiu para enriquecer a sonoridade do primeiro EP.

Whatever Came First foi gravado no Estúdio Aurora com produção do Aécio de Souza e do Carlos Eduardo Freitas. Mas sempre as primeiras demos, EPs e até mesmo discos, marcam uma fase de consolidação de identidade. Algo que eles mesmo admitem ter escalado algumas etapas em seu segundo registro de estúdio.


Bad Canadians

Bad CanadiansFoto Por: Gabriela Delgado (Cosmogonia)


As Mudanças na Sonoridade

Do som mais quebradiço e lisérgico do primeiro tento,  eles trouxeram referências de grupos de orgcore (entenda o que é), post-hardcore, emo e punk rock. Partiram para outra fase e como referências entraram no páreo Hot Water Music, Gaslight Anthem, Against Me!; e o som de veteranos como Bruce Springsteen e Social Distortion.

O choque entre duas gerações do punk rock norte americano, por assim dizer. Mas e o Bruce nessa história toda? Bom o Bruce é a principal referência para o álbum The 59′ Sound (leia mais) do The Gaslight Anthem, um álbum sobre entender a perspectiva dos 30 anos. Como provocação, digo que o rock paulistano em sua maioria hoje em dia é composto por bandas nesta faixa etária.

Eles mesmos notaram evolução nas letras e amadurecimento na construção das músicas. “O Carlão, durante a produção, até brincou dizendo que as músicas estavam parecendo Kings of Leon, o que não era ruim. Foi essa sonoridade que a banda batizou de rockinho gostoso, ou: os punk rock 2000 que cresceram a apresentada no segundo EP, This SIde of the Road.”, contam os integrantes da Bad Canadians

De certa forma aquele punk e grunge que ouviam nos tempos de escola acabou por sua vez adentrando com mais força na sonoridade e na parte lírica da banda.

Bad Canadians “St. Lonesome Bay”

Com a proposta sonora definida eles se deslocaram para o estúdio Reampin, do Rafael Prego, com a ajuda do Bruno Peras (Dinamite Club, Running Like Lions, Gabriel Thomaz Trio). No segundo semestre do ano passado, começaram a ensaiar o que se tornaria novo single, “St. Lonesome Bay”.

O Bad Canadians revela que se trata de uma composição antiga assinada por Eddie repaginada pela banda e que já integrava o repertório desde o ano passado.

“O Peras, como um brilhante coach vocal, melhorou bastante a performance de voz e ajudou a criar as linhas melódicas e os coros de backing vocal. Ao mesmo tempo, a banda começou a fazer reuniões de pré-produção muito mais frequentes para experimentar idéias e caminhos diferentes. Principalmente no estúdio caseiro improvisado na casa do Eddie (e no estúdio do Eddie pode tudo). Isso resultou em uma uma banda melhor preparada na hora de gravar.”, contam os integrantes



O som traz as guitarras melódicas do hardcore e post-hardcore, o vocal rouco e o refrão não demorando para chegar, acompanhado do sing-alongs, lembram mesmo a referência do Hot Water Music, principalmente nas faixas nas quais Chuck Ragan assume como protagonista.

A esperança de sair de uma fase ruim acaba transparecendo em seus versos. As memórias, auto-sabotagens e arrependimentos ecoam no horizonte. Naquele melhor estilo: mar calmo não faz bom marinheiro. Este espírito que se reflete no debut do supracitado The Gaslight Anthem, Sink or Swim (2007). É por meio das viradas de seu leme que a faixa tenta ancorar as emoções.

A Esperança

“Acreditamos que a mensagem que o Eddie, como autor da canção, quer passar com o que canta nela é a de se identificar como a parte de um todo, que não se está sofrendo sozinho, e que ao entender que você faz parte desse todo e que pode se relacionar com outras pessoas e se espelhar nelas. Você já da um passo para conseguir sair desse casulo e desse momento ruim em que talvez você esteja enterrado.

A música fala sobre reconhecer que a gente pode reacender uma chama de esperança e mantê-la acesa (na medida do possível, dentro da sua própria realidade particular). Passar adiante o que recebemos como encorajamento para sair dessa situação e nos tornar mais fortes.”

Porque lançar Agora?

“Embora lançada em plena quarentena, a música já estava pronta antes de sermos surpreendidos pela pandemia que forçou a todos ao distanciamento social. Porém, inclusive pelo que a música fala ter uma certa relação com o nosso momento atual e conversar forte com as aflições que todos estão (estamos) passando. Decidimos seguir com o cronograma. Estávamos, inclusive, para iniciar as gravações de um clipe para ela; mas esses planos tiveram que ser cancelados.”

O Clipe de Quarentena

Cada dificuldade em tempos de Quarentena vira uma oportunidade. Como reunir a banda fisicamente se tornou um desafio a parte eles resolveram registrar cenas da banda tocando cada um na sua casa para representar o momento. Tanto na significância do isolamento como par dialogar com a letra.

O D.I.Y. também é uma marca deste processo. Eddie foi o responsável pela edição do material bruto.

“O Eddie sendo o videomaker amador brilhante que é, ainda botou as imagens para tocar na TV de tubo de um um fliperama antigo e mesclou as cenas distorcidas com as mais límpidas, retratando esse nosso novo cotidiano recluso.”, conta o Bad Canadians

Segundo os integrantes cada um buscou em suas casas elementos que melhor refletissem o seu íntimo nesse período de quarentena.

“O Eddie mostra o esforço para seguir tocando e compondo. O Paulo apresenta objetos, discos, livros, instrumentos e memorabilia que foi colecionando ao longo dos anos; sua únicas companhias hoje, já que ele mora sozinho. O Guga está com a esposa no apartamento na Rua Augusta e mostra como um lugar sempre tão movimentado está com uma clima desolado.

Já Roberto, na casa dos pais, mostra um ambiente mais caseiro, a ideia de lar, e relembra seus discos, CDs, quadrinhos e até o anime da infância que está revendo para tentar trazer um pouquinho de esperança através da nostalgia.”, finaliza o grupo paulistano