O capixaba André Prando tem aproveitado seu período de isolamento para jogar videogames, assistir séries e se desconectar como pode. E claro que sobre um tempinho para compor e de vez em quando participar de uma live como fez durante homenagem recente a Sérgio Sampaio. Fato é que ele já vinha trabalhando a algum tempo ao lado de parceiros como Luiz Gabriel Lopes (Confira Entrevista) e Biltre (RJ) em um novo projeto, o resultado dele será conhecido hoje em Premiere no Hits Perdidos.

Ele estava no meio de uma turnê do seu disco Voador (2018) quando os casos de COVID-19 começaram a aparecer no Brasil. Assim que o isolamento começou, o artista suspendeu toda sua agenda e se manteve em casa, estimulando que seus seguidores se atentassem e fizessem o mesmo.


André Prando - Foto Por Luara Zucolotto

André PrandoFoto Por: Luara Zucolotto


As Parcerias e o Momento

A intenção foi produzir canções tranquilas, positivas, reflexivas e, inicialmente, que fossem no formato voz e violão, mas durante o processo de produção as músicas foram ganhando novos elementos como relata o músico.

André Prando convidou amigos músicos para gravarem participações, cada um gravou seus instrumentos em casa, à distância, e enviaram os arquivos. Dessa forma, o EP traz arranjos variados, mantendo a estética acústica.

Seguindo esse mood, Prando deu ao trabalho o nome Calmas Canções do Apocalipse, com as músicas “Gatinho na Internet” (André Prando/Biltre) + “Dharma” (André Prando/Luiz Gabriel Lopes/Felipe Duriez) + “Clamor no Deserto” (Belchior).



Curiosidades e Referências

Foi ouvindo o LP Coração selvagem (1977) de Belchior que André teve a ideia de regravar “Clamor no Deserto”. O músico inclusive tem uma relação estreita com a obra do cantor já chegando a tocar canções durante o lançamento da biografia do músico cearense em Vitória (ES).

“Gatinho na Internet”

“Gatinho na internet” nasceu em 2019 com o refrão composto por mim, inspirado na sequência desanimadora de catástrofes ambientais, episódios políticos e comportamentais polarizadores que temos vivido nos últimos anos. O teor irônico da música traz a crítica social com doses de humor, e então surgiu a ideia de convidar os amigos da banda Biltre para fazerem a música em parceria.

Juntos, continuamos o processo de composição – via Whatsapp – e finalizamos durante o período de quarentena. A princípio não havia data de lançamento definida, apenas a ideia de lançá-la como single/feat em algum momento. A música entra no EP, com minha interpretação solo, mas futuramente será lançada em nova versão junto com a banda Biltre.

Detalhes da Gravação

“Foi uma música desafiadora de conseguir finalizar, já que ela fala de notícias ruins que vemos diariamente e que, a cada dia, se multiplicam. Vide a situação política que estamos vivendo enquanto passamos por uma pandemia mundial… é inacreditável. Como não surtar?

A música brinca um pouco ao abordar memes e passar por essa reflexão, já que as crises são reais… a crise política, a crise sanitária, a crise de ansiedade. Sempre me preocupo em falar de nosso tempo, mas pensando que a música precisa fazer sentido futuramente – não só como um recorte de uma época. Então a letra deixa as aflições em aberto para diferentes interpretações também.

É uma música que todo mundo aqui em casa participou, tem a voz da minha esposa Luara Zucolotto e os miados dos nossos gatos Larika e Chapado. À distância, recebi participação especial de Carlos Sales na percussão, Jackson Pinheiro no baixo (Jackson também é o responsável pela edição e mixagem do EP) e um destaque especialíssimo para Rick Ferreira na guitarra e no pedal steel guitar – gravar com Rick foi a realização de um sonho pra mim! Um dos maiores guitarristas da música brasileira.

Foi o primeiro músico a tocar o pedal steel no Brasil, gravou com vários artistas lendários, Belchior, Erasmo Carlos, Zé Ramalho, mas o destaque especial é a discografia e parceria com Raul Seixas. Nos conhecemos através do próprio Carlos Sales e, antes mesmo do EP, já estávamos preparando algo incrível, que iremos lançar em breve. Mas aí já é outra história…”, lembra André Prando

“Dharma”

“Foi a primeira música que entrou no repertório e é uma parceria com Luiz Gabriel Lopes (artista
mineiro integrante da banda Rosa Neon, e ex-membro da banda Graveola). Nossa amizade já vem de alguns anos e ele já havia feito participação especial no disco Voador (2018), cantando “Na paz do caos”. O processo de composição de “Dharma” começou em 2019, também via Whatsapp. Os últimos versos e intenções foram fechados já durante a quarentena, o que fez com que a música trouxesse uma mensagem que abraça o momento atual.

“Dharma” fala sobre mudança, sobre o processo de reaprender, sobre como nossas intenções e ações conspiram para o funcionamento da vida e que, logo, você colherá a energia que você emana. Ela traz um bom sentimento de que as coisas que estamos passando serão, de alguma forma, aprendizado para nós e que ficaremos bem.

Por isso batizei de “Dharma” – conceito oriental de múltiplos significados, que pode ser entendido como “o que se faz e que se colhe de bom”. Diferente do Karma, que é relacionado ao que se faz e que se colhe de negativo. A música tem participação especial de Felipe Duriez, músico carioca incrível, tocando guitarra slide lindamente, bem na vibe George Harrison.”


André Prando - Foto Por: Luara Zucolotto

André Prando em seu quarto em mais um dia da QuarentenaFoto Por: Luara Zucolotto


Entrevista

Conversamos com o capixaba André Prando para saber mais sobre o EP, parcerias, cover de Belchior, capa, curiosidades e saber mais sobre como ele tem passado a Quarentena.

Como foi o quebra-cabeças de fazer um EP de Quarentena mas pensando que este material ficará para a posteridade? Quais foram os cuidados que teve e como está sendo para você criar no meio de tanta instabilidade?

André Prando: “Falar sobre nosso tempo é uma preocupação que tenho sempre na minha obra, sabe? Nossos passados, nosso tempo, nosso futuro, utopias. Acho que a arte tem um papel importante ao estimular essas reflexões. Dito isso, sempre me preocupo em não deixar que as composições soem rasas ou sem sentido no futuro, pescar os trending topics e surfar nisso é uma façanha e admiro quem sabe fazer bem, mas acho perigoso em muitos sentidos. Não foi o caminho que trilhei.

Trabalhar um EP que passeia pela temática do isolamento social, da crise política, da crise sanitária, etc, foi uma tarefa de extremo cuidado. Ser mal interpretado num momento tão sério e delicado de nossa história seria um tiro no pé. Mas foi um processo natural, as 2 músicas autorais já estavam em andamento, então o isolamento trouxe o toque final a elas, sabe? Um direcionamento final, uma reflexão pro nosso futuro incerto, que demanda um olhar atento no hoje. Como sempre, gosto de criar poesias de diferentes camadas de interpretação, possibilitando outras leituras em futuras épocas. Pra você ter ideia, até o último minuto antes de finalizar as mixagens eu tava mexendo em letra e regravando coisa (risos).

Os Lampejos

Criar nesse momento é um lampejo, não acho certo dizer que está sendo produtivo, a sensação é apenas de estar sobrevivendo. Tenho aproveitado o tempo quando a cabeça possibilita, pois “ter tempo” agora não é necessariamente tempo “vago”… é um momento de incertezas, as vezes a gente se sente só atordoado mesmo. Não posso dizer que esteja fazendo planos pra nada, por aqui em casa, estamos vivendo um dia de cada vez. Ter que se virar pra dar jeito de pagar as contas é uma preocupação real. Tentando entender o processo e pra onde estamos caminhando como humanidade, ao invés de assistir todos os noticiários freneticamente, estamos vendo moderadamente e refletindo muito mais.”

A Letra de “Gatinho na Internet” acaba mostrando uma perspectiva leve e pesada ao mesmo tempo. Feito um ponto de equilíbrio. No fato de retratar o peso das notícias mas lembrando das distrações. Mas pude reparar que você transformou toda essa tensão em uma espécie de reggae / country solar, a ideia foi mesmo experimentar novas referências?

Além de memes, fotos de gatinho, o que tem feito para equilibrar o peso das coisas? Como vê a necessidade de exercitar o diálogo, ter empatia e o fenômeno recente de retomada das amizades que não tinha contato a tempos? Como vê as mudanças no campo das relações interpessoais?

André Prando: “Quando comecei a composição, tinha feito só o refrão e a ideia era uma melodia sertaneja raiz que despencava pro ritmo reggae, meio Chitãozinho e Xororó misturado com Peter Tosh. O clima meio cômico/inusitado já começou por aí!

O ponto de partida da letra foi a séria frustração “tô cansado da rotina me bombardeando bad” e o passo seguinte foi imaginar “o que as pessoas tem feito pra suportar isso?”, dessa forma a música traz, desde soluções sérias e existenciais, formas leves de alienação e abstração – ferramentas para não surtar. Mas o papo todo da música é seríssimo, é irônico, frustrante, cômico, mas é seríssimo. Eu adoro isso.

Partindo desse espírito, tive a ideia de convidar os amigos da banda Biltre pra fazer a composição em parceria! Acho que eles são os melhores em trazer o cômico pra assuntos variados na música. Já queríamos fazer algo juntos! Foi perfeito. Nossa ideia inicial era compor, gravar e lançá-la como single/feat em algum momento. Não tínhamos um plano muito certo. Coube perfeitamente na ideia do EP, daí ela entrou com minha interpretação solo, mas futuramente será lançada em nova versão junto com a banda Biltre também.

A Sonoridade

Sobre a sonoridade, eu gosto de experimentar vários ritmos sempre que possível, pincelei isso no “Voador” (2018) e quis fazer isso no EP também. No fim das contas, acho que ficou com uma pegada reggae/xóte. Quando convidei o Rick Ferreira pra participar da faixa com seu lendário pedal steel, ele chegou a comentar que achou inusitada a ideia de usar pedal steel em uma levada reggae – pois não é muito comum – refletiu, experimentou e chegou com ideias maravilhosas! Ele é uma referência incrível, né? Tinha certeza que seu toque seria especial.

Particularmente, pra não pirar com a sequência incessante de notícias desastrosas, eu tento me informar com doses controladas. Não fico vendo noticiário freneticamente não, sabe? Até o momento eu tava totalmente focado na produção do EP, isso me ocupou bastante durante as primeiras semanas de isolamento… Rolava terapia antes da quarentena, tenho feito leitura de livro em voz alta com minha esposa, muitos filmes, séries (recomendo Mr. Robot! Terminei ontem!), jogando videogame (atualmente jogando Final Fantasy 7), tenho tocado bastante, fazendo lives, compondo uma coisinha ou outra… e absorvendo memes sempre que possível.

O Isolamento Social

Durante o período de isolamento social, manter contato com as amizades e familiares é importantíssimo, cada um reage ao isolamento de uma forma, então é necessário esse cuidado. Refletir sobre a pandemia e as incertezas de amanhã, naturalmente, nos faz acessar diferentes nuances que há entre nossas relações e isso faz com que a gente aprofunde assuntos e preocupações com nossos próximos também, o desafio é isso acontecer por telefone ou mensagens, né? Mas isso tudo passa pela cabeça.

Eu, como artistas e comunicador, tenho considerado a importância de me posicionar sobre os assuntos, sobre conversar com meu público, promover reflexões, através da música ou através de papo mesmo, nas lives, nas postagens, etc. Acho que estamos na travessia de um novo momento que requer mais conexão coletiva, mais empatia, mais cuidado com o mundo.”


André Prando - Foto Por: Luara Zucolotto

André Prando em sua rotina entre Memes, Videogames e Gatinhos – Foto Por: Luara Zucolotto


De onde veio a ideia de regravar uma canção do Belchior? Como foi o processo de construção da versão? O que trouxe de referências e elementos para o resultado final?

Inclusive você tocou no lançamento da biografia do músico em Vitória e já teve clipe inspirado em música do cearense…de que forma você se conecta com as canções do músico? E como acredita que a letra de “Clamor do Deserto” encaixou no conceito do EP? 

André Prando: “Belchior é uma grande referência, amo muito. Letra de mensagem clara, cantor de intensa sensibilidade, romântico, político, cotidiano… esses aspectos me inspiram. Um dos maiores compositores da música brasileira pra mim.

Foi ouvindo o LP “Coração selvagem” de Belchior, como é de costume ouvir música com minha esposa nos cafés da manhã, que tive um insight ao ouvir a música “Clamor no deserto”. A música, somada com as outras duas composições que estavam em andamento, encaixava-se perfeitamente com uma mensagem aflita, porém esperançosa, de que um novo entendimento de vida é necessário: “um novo momento precisa chegar / eu sei que é difícil começar tudo de novo / mas eu quero tentar”. Foi mais ou menos nesse momento que fechei a ideia do que seria o EP.

Eu já sabia tocar ela, mas comecei a trabalhar numa ideia pro violão de base que misturava a onda de “Walk on the wild side” (Lou Reed) com Baba O’Riley (The Who); pra percussão eu queria uma coisa etérea, com diferentes timbres, com entradas, saídas, intensidades, respiros…

Curiosidade

Daí pensei no amigo Carlos Sales, pois semanas antes (na semana que antecedeu o início da quarentena), eu fui fazer um show no RJ com o Posada e fiquei na casa do Carlitos – foi nessa ocasião que ele me apresentou ao Rick Ferreira, inclusive! – aí ouvi algumas coisas lindas que ele estava produzindo e a percussão foda ficou na minha cabeça.

Sempre fui fã dele e a gente já queria gravar coisa juntos há mó tempão, foi perfeito; durante a gravação eu imaginei o drama e psicodelia dos cellos do amigo italiano Federico Puppi, que já havia gravado comigo no “Voador” (2018) na faixa “O mundo com tudo que há”. O arranjo dos cellos foi todo dele, ele é incrível; e por fim, como de costume, quis fazer arranjos de vozes com muitas camadas; o processo de pensar a versão foi mais ou menos esse.”

“Dharma” por sua vez é quase um mantra, de certa forma se conectando com “Voador” neste aspecto. Fala sobre compreensão e o papel dos amigos. De certa forma é um reflexo do isolamento, da saudade da prosa e de lidar com os encontros que a vida proporciona? Conte mais sobre esta parceria com o Luis Gabriel Lopes.

André Prando: “Minha amizade com o LG vem de alguns anos, a gente se identifica bastante como compositor, como cantautor, como trovador que viaja e ama se apresentar no formato acústico, além do entendimento de nosso papel de artista que tem poder transformador e energético na sociedade. Sempre nos encontramos na estrada, em festivais, feiras de música, shows de outras pessoas, etc. Quando a gente sabe que vai cruzar o mesmo espaço a gente sempre providencia o encontro, gosto muito da presença e da troca que rola com ele.

Nosso primeiro registro juntos foi em “Na paz do caos”, música minha que está no “Voador” (2018) e que ele cantou uma participação linda. Além de “Dharma” temos uma outra música em parceria guardada e a vontade de seguir fazendo coisas juntos.

O Processo de Composição

O processo de composição de “Dharma” começou em 2019, via Whatsapp. Eu tinha um mapa inteiro da música e melodia, sem letra, o LG colocou a letra e juntos fomos mexendo aqui e ali na letra, até chegar no resultado final. Os últimos versos e intenções foram fechados já durante a quarentena, o que fez com que a música trouxesse uma mensagem que abraça o momento atual. Então, sim, ela já abordava o tema das relações que nos fazem aprender, mas durante a quarentena essa intenção ficou ainda mais forte, com uma mensagem que traz um pouco de esperança, de entendimento que estamos passando por processos de reaprendizagem.

Foi a primeira música que gravei pro EP e até esse momento a ideia era fazer tudo acústico, o clima dessa canção ditou isso. Daí durante a gravação eu fiz os temas melódicos de fundo e pensei “isso seria bonito com um slide”… daí convidei o querido amigo Felipe Duriez pra gravar guitarra slide. Adorei a pegada George Harrison que ele trouxe! Sou fã. A partir daí, abri a cabeça pra possibilidade de ter participações no EP. Daí as faixas seguintes vieram mais recheadas. Mas adorei deixar “Dharma” soar mais simples.”


André Prando Calmas Canções do Apocalipse


A capa é um caso a parte. Conte mais sobre como foi brincar com esse universo de gatinhos e memes. 

André Prando: “Não costumo querer imprimir isso sempre, mas minha ideia pra capa foi condensar cada música do EP em uma arte só. Eu já queria trabalhar um lançamento usando colagens e cheguei a convidar a Jéssica Lobo – artista capixaba que trabalha lindamente com colagens – mas na época ela não estava disponível. Então convidei o Caramuru Baumgartner, um dos artistas que mais admiro e que também fez a capa e as artes do “Voador” (2018). Ele é um ilustrador genial, mas sei que é um artista muito versátil que adora experimentar diferentes linguagens, então adorou o desafio de trabalhar com colagens!

O centro da arte ilustra bem a música “Gatinho na internet”, meus gatos Larika & Chapado estão ali presentes, minha foto (feita pela minha esposa Luara Zucolotto) ilustra o desespero ao ver notícias desastrosas no celular, a textura do celular e a câmera é uma referência ao “monolito” e ao HAL do filme “2001: Uma Odisseia no espaço” que também é uma releitura do Big Brother de George Orwell, as constelações no céu são de câncer (eu) e capricórnio (minha esposa), o ambiente em que eu me encontro é desértico, meio apocalíptico, como um grito, um “Clamor no deserto”, a arte tenta passar uma ideia de centralização, equilíbrio, como referência ao Karma / “Dharma”. Caramuru captou e expressou perfeitamente os meus sentimentos nessa arte.