Com muito fuzz e distorção, El Negro se aventura em “Tudo Vai Mudar”

O espírito inflamável e inconsequente do rock’n’roll é o que faz com que ele permaneça sempre tão jovem e conectado as novas gerações. Ver festivais como o Lollapalooza no último fim de semana no qual os grandes destaques foram justamente novas bandas de rock em um line-up onde outros estilos vão ganhando cada vez mais espaço – é de fato um belo termômetro para ver o poder de massa do estilo.

Que por mais que cada vez mais tenha menos espaço na mídia mainstream e até mesmo em grandes premiações (como Grammys e VMA’s da vida) ainda contagia. Ver artistas como Pearl Jam, Royal Blood, The Killers e Red Hot Chilli Peppers roubando a cena entre os melhores shows da edição brasileira do festival só prova ainda mais o ponto de que o gênero musical ainda tem força com o público de massa  – que por outro lado deveria frequentar mais shows independentes.

Potência, mistura, riffs cativantes, texturas e um bom punch de cartas na manga. Estes são os ingredientes presentes no segundo disco dos gaúchos do El Negro, Tudo Vai Mudar.


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Os gaúchos do El Negro lançaram seu segundo disco neste mês de março. – Foto Por:  Doni Maciel

O trio gravou seu primeiro registro em 2012 – e lançou clipe de “Pé no Talo”, este que teve a masterização do norte-americano Jim Diamond (ex-baixista do The Dirtbombs e produtor dos dois primeiros discos dos The White Stripes).



Em sua formação o power trio conta com Mumu (vocal e guitarra), Fabian Steinert (baixo) e Leandro Schirmer (bateria). Eles que tem gravado seus registros no estúdio Toca do Bandido, no Rio de Janeiro, e produziram seu último registro com Felipe Rodarte.

O som da banda flerta com diversas eras do rock e eles até admitem esse teor de abraçar diversos estilos na panela. Gêneros como heavy metal, punk, grunge, blues não ficam de fora e são cartas na manga para a caldo engrossar. O interessante é o equilíbrio do peso conforme a temática das canções.

“As músicas usadas no álbum são sobras do primeiro ou ideias que foram surgindo durante a tour para Argentina, onde conhecemos bastante bandas novas e toda uma nova cena de som pesado”, conta Mumu.

Sobre as letras, o espírito do disco e as gravações o vocalista ainda comenta:

“Falamos com metáforas simples, muitas vezes de coisas da natureza sobre o caos da
cidade, sempre com uma pegada forte”. Tudo Vai Mudar foi gravado em duas etapas, entre setembro de 2016 e junho de 2017. A primeira, no Rio, tendo à disposição mais de 50 guitarras diferentes e diversos pedais raros; a segunda, em Porto Alegre, onde fizemos alguns overdubs de voz e guitarra”.

El Negro – Tudo Vai Mudar (24/11/2017)

Como dito anteriormente o álbum foi gravado no estúdio Toca do Bandido e foi produzido por Felipe Rodarte. O registro ainda conta com participações de Jan Santoro (Facção Caipira), Carlos Carneiro (Bidê Ou Balde) e Tacho Cruzeiro (Cruzas) e foi lançado através do selo Toca Discos. São 27 minutos de duração e nove canções que te deixam eletrizado – e querendo mais.



O álbum se inicia com uma mensagem de esperança como a própria banda afirma em “Tudo Vai Mudar”. É o casamento entre o blues, com direito a baixo funkeado e espírito rock’n’roll que músicos como Gary Clark Jr. carregam em seus trabalhos. Acredito que irá agradar a fãs de Prince e a quem curtir o swing do hip-hop.

“Tudo vai Mudar” que além de ser uma música é o nome do álbum, é uma espécie de grito de otimismo em meio a um cenário de erosão musical e um mar de desinteresse seja musical, político ou interpessoal. – relata Mumu em entrevista para o Hits Perdidos

“Vai brilhar” tem aquele resgate dos anos 90 com o baixo – em seus slaps – a lá Faith No More, Living Colour e Red Hot Chilli Peppers. Uma faixa sobre o constante processo de transformação que estamos vivendo que desenboca em riffs que nos levam direto para a década de 60. Com um misto de american roots, country e rock’n’roll.

Já “Tiro de Canhão” fala sobre o poder transformador das pequenas coisas e pessoas que entram na nossa vida de supetão. A construção de seus riffs de guitarra parecem inclusive cantar seus trechos. Gosto muito dos teclados e do espírito livre – e desprendido – da canção que viaja para longe.

Com um espírito robótico feito Nine Inch Nails, “Estrela Negra” chega abelhuda e flerta com o stoner rock dos anos 90, este eternizado por grupos com Kyuss e Fu Manchu. Tem uma veia mística que tem reverberado na geração criativa brasileira de “roque chapado“.

O caos no meio das discussões sem fim nas redes sociais – e mesas de bares – onde todo mundo que ter a palavra mas não quer ouvir: é a grande crítica da composição.

The Hives, T-Rex, Iggy Pop, Kiss, Bowie e tantos outros estão presentes na áurea dançante e empolgante por trás de “Eu Quero Ver Você Dançar para Valer”. Você só quer dançar, borrar a maquiagem feito o New York Dolls e ir para o centro da pista durante aqueles dois minutos de duração da faixa.

É o momento mais leve do disco e dialoga bem com as bandas que surgiram de 00 para cá de garage rock. A canção ainda conta com a participação de Carlinhos da icônica banda de rock gaúcho Bidê Ou Balde.

A experimentação ganha espaço na sexta faixa, “Rosa Negra”, onde o piano aparece pela primeira vez no registro. A cidade grande e aqueles espírito de aprisionamento é dissecado na letra e a construção da faixa mostra que no disco deles tem espaço para tudo. A participação especial na faixa na guitarra e na voz fica por conta do Jan Santoro, da banda carioca Facção Caipira.

Uma curiosidade: A caixa da bateria usada nas gravações foi um presente do
Chad Smith (RHCP) para o estúdio onde foram feitas as gravações.

Em “Deserto” eles optam por fazer o casamento entre o grunge e o chamado desert rock. Assim contendo riffs soturnos de Stone Temple Pilots e riffs rasgados – e quentes – que consagraram grupos como o Queens Of The Stone Age. É sobre ter sonhos, ir em direção deles e se perder dentro do “deserto” dos pensamentos.

O lado mais rockeiro “casca grossa” esta presente em “Com As Quatro Patas”, faixa inclusive que conta com a participação de Tacho Cruzeiro, da banda argentina Cruzas, e faz aquele balanço entre o heavy metal, punk e energia motorheadiana.

O baixo lembra bastante a levada de Matt Freeman do Rancid dentro da composição. A canção fala sobre tomar ações e seguir teu rumo em direção ao que acredita ser o certo, não deixando as oportunidades se perderem pelo caminho.



A canção escolhida para fechar o disco foi justamente “Atrás das Nuvens”, esta que surgiu de um convite da Adobe para o desenvolvimento de um videoclipe. Ela fala sobre os sonhos e querer algo melhor para o futuro. Eu acredito que irá agradar a fãs dos sergipanos do The Baggios.


El Negro - capa Tudo Vai Mudar por Leo Lage


O segundo álbum do El Negro de Porto Alegre (RS) te deixa com o gostinho de “quero mais”. Em 27 minutos e com rápidas 9 faixas, o registro gravado no estúdio Toca do Bandido mostra a potência de ótimos riffs, com o espírito de liberdade aliado a uma mensagem positiva de seguir em frente e correr atrás de seus sonhos.

É rock’n’roll, não precisa se explicar muito e acredito que irá agradar a quem curtir baixo no talo, referências de heavy metal, stoner, grunge, punk, blues e a quem apreciar o resgate de várias décadas do rock. Um dos destaques do disco é justamente a dançante e energética “Eu Quero Ver Você Dançar para Valer” que em apenas dois minutos tem o poder de incendiar uma festa.

Entrevista

Conversamos com o guitarrista e vocalista Mumu para saber mais sobre o disco e os próximos passos do El Negro.

[Hits Perdidos] Antes de mais nada gostaria de comunicar em primeiríssima mão que o clipe para “Cinza”, faixa do homônimo álbum de estreia lançado em 2014, foi selecionado para passar no Udigrudi da Play TV como “Favorito do Hits Perdidos“.

Gostaria que contassem mais sobre todo esse processo que demorou 3 anos para ficar pronto. Tanto tempo para ver ele pronto não deixou vocês ansiosos e cheios de expectativas?
EL NEGRO: “Esse processo foi bem tranquilo pois já filmamos as cenas sabendo que a edição seria o trunfo do vídeo e como se tratava de desenhar encima de cada um dos 24 frames existentes em cada segundo do vídeo, poderia demorar anos.

Tivemos que controlar a ansiedade e de seis em seis meses dar uma conversada, olhar pequenos gifs de alguma parte para ver como estava ficando. O Pedro Bortolini nos deixou bastante informados do que estava acontecendo, o que fez com que tudo fluísse tranquilamente.”



[Hits Perdidos] O álbum fala sobre a cidade, seu caos mas também se propõe a discutir vários temas, queria que falassem mais sobre essas novas composições.

EL NEGRO: Sim, o El Negro fala muito sobre o paradoxo que é gostar de morar no caos urbano e ao mesmo tempo amar a natureza pois alguns integrantes cresceram perto de rios e cachoeiras mas hoje vivem em uma cidade onde tem muitos congestionamentos e perigo. Isso sempre esteve presente nas letras da banda.

Outras questões foram levantadas nesse segundo disco, “Tudo vai Mudar” que além de ser uma música é o nome do álbum, é uma espécie de grito de otimismo em meio a um cenário de erosão musical e um mar de desinteresse seja musical, político ou interpessoal.

O disco fala também de relacionamentos, onde muitas vezes acabamos nos machucando para descobrir o que estamos querendo saber ou viver. Fala também que muitas vezes o que mais importa é chutar o balde e dançar para valer e também sobre olhar para a vida em diferentes ângulos pois muitas vezes estamos eclipsados e não conseguimos enxergar muito a não ser que alguma mudança seja feita.”

[Hits Perdidos] Como surgiu o convite e como rolaram as gravações na Toca do Bandido?

EL NEGRO: “A banda fez um show em SP e o Yuri Nishida, que tocou em diversas bandas com NX Zero entre outras, acabou gostando e nos colocando em contato com o produtor Tomás Magno.

Ele deu alta força pra banda ajudando a produzir algumas faixas novas do que viria a ser o segundo disco mesmo ele na terra da garoa e a gente em Porto Alegre. Como ele faz parte da equipe da Toca do Bandido, acabou nos levando pra gravar dois singles por lá com a produção do Felipe Rodarte que gostou e nos convidou pra gravar todo o disco em outra oportunidade.

A Toca tem um selo para novas apostas que se chama “Toca Discos” que tenta dar sequencia na visão que o Tom Capone tinha sobre o rock no país e o El Negro acabou tendo o disco Tudo vai Mudar lançado por esse selo.”

[Hits Perdidos] Pude ver que logo no primeiro single da banda lá em 2012 puderam trabalhar com o Jim Diamond (ex-baixista do The Dirtbombs e produtor dos dois primeiros discos dos The White Stripes). Como foi essa experiência?

EL NEGRO: “O baterista Leandro Schirmer foi para Detroit em 2010 fazer um trabalho de produção com a banda Canja Rave e acabou conhecendo e trabalhando com o Jim no Ghetto Studio.

Quando estávamos finalizando o primeiro disco surgiu a ideia de fazermos uma masterização totalmente analógica pois o som estava quente e com algum ar vintage e logo comentamos de fazer por lá o que deu muito certo pois deu uma cara que nenhum equipamento moderno nos daria.

Acompanhamos muito algumas bandas novas de rock e como elas estão atentas em ferramentas que podem seduzir o ouvinte seja fazendo algo totalmente novo ou dando dois passos para trás.


Dan

[Hits Perdidos] Vejo o som de vocês com baixo alto, o que me agrada bastante. Inclusive em duos contemporâneos como Royal Blood esse tipo de escolha tem ganho cada vez mais espaço. Outro fato que observei é que vocês se preocuparam em misturar uma porção de estilos para criar camadas e sensações. Como foi para vocês casar tantas referências e instrumentos no decorrer do álbum?

EL NEGRO: “A banda é um trio justamente para que o baixo tenha a sua devida importância. Gostamos muito dos trios dos anos 70 como Cream e também o Black Sabbath que embora seja um quarteto tem na parte instrumental um trio.

Acreditamos que além de existir algo heróico entre três pessoas apenas tocando seja fácil a comunicação entre as partes. No show de lançamento de Tudo vai Mudar colocamos mais uma guitarra para fazer a parte dos overdubs do disco e gostamos bastante pois o alicerce ja estava construído e os arranjos também. Ou seja, o baixo continuou sendo o motor da banda.

Quanto a misturar estilos temos esse cuidado pois já escutamos muitas coisas, já passamos pelo punk, pelo heavy metal, blues, grunge e sempre que da colocamos algo que levamos conosco desses estilos de alguma forma no El Negro, seja em algum arranjo de voz, em algum vídeo, cartaz para um show etc. Tudo sem forçar uma barra para misturar coisas e ser genuíno pois na banda a música que manda.”

[Hits Perdidos] O registro conta com participações especiais dos músicos como Jan Santoro (Facção Caipira), Carlos Carneiro (Bidê Ou Balde) e Tacho Cruzeiro (Cruzas). Como surgiram as parcerias e como foram as gravações?

EL NEGRO: “O Carlinhos como mora em Porto Alegre conhecemos a mais tempo e ele sempre falou que gostava do El Negro, portanto foi algo natural o convite para participar de “Eu quero ver você dançar pra valer” onde ele acabou produzindo o videoclipe que será lançado nos próximos dias.

O Jan está sempre gravando na Toca do Bandido e por diversas vezes ele acabou nos escrevendo alguma coisa em relação a algum lançamento que tínhamos feito e dias antes de irmos para o Rio gravar enviei para ele um arquivo com as demos das músicas para ele. Ele escolheu “Rosa Negra” e a gravação foi muito legal pois podemos experimentar muitos instrumentos até definir em um clima descontraído e sem pressa.

Já o Tacho Cruzeiro é um amigo que conhecemos quando o El Negro foi para Buenos Aires para fazer alguns shows. Tocamos em Burzaco na zonal sul junto com a Cruzas que é uma banda que tem o som denso e pesado e quando ele veio de férias para Porto Alegre gravamos a participação dele em “Com as Quatro Patas” no nosso estúdio que é o Panama Estúdio Pub.”


SINGLE
Capa do single “Tudo Vai Mudar”

[Hits Perdidos] Se o som de vocês fosse um Drink, o que levaria dentro?

EL NEGRO: “Acho que dentro teria Fernet + Jack Daniels + Coca e o drink sombrio com um mexedor de caveirinha se chamaria EL NEGRO.”

[Hits Perdidos] Por mais que o disco contenha sobras do primeiro disco, como observam a evolução musical de vocês? Quais os próximos passos do El Negro?

EL NEGRO: “Tentamos fazer um segundo disco sem aquela coisa de amadurecer demais porém novas texturas foram testadas até pelo fato de termos mais de 80 guitarras a disposição na Toca e muitos pedais que antes ja usávamos mas que na hora de gravar apresentavam diferentes sonoridades como Big Muff, Fuzz, distorções variadas.

O som do disco ficou mais parelho que o primeiro pois o estúdio tinha muita qualidade mas na parte da composição a gente queria fazer rock na essência como sempre fizemos. É isso que faz a banda existir, tocar e fazer o nosso rock independente do que venha a acontecer com mercado e o mundo pois era isso que os nosso heróis sempre fizeram já que na hora que a gente coloca uma musica pra tocar a gente se esquece de tudo em volta mesmo por alguns minutos.

Os próximos passos do El Negro é divulgar o disco Tudo Vai Mudar em 2018, seja fazendo shows ou lançando material referente as músicas. Acredito que no final desse ano ja iremos dar uma olhada em novas músicas que já estão sendo feitas.”

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