Schlop transforma gravações caseiras em álbum inspirado na cena indie dos anos 90
O projeto Schlop lança o álbum cachorros e madames no fim do mundo, um trabalho que mergulha na tradição das guitar bands e da cena indie brasileira dos anos 90.
De músicas que nasceram dentro de um quarto a uma transformação sonora construída em parceria com outros músicos, é assim que podemos resumir os últimos três anos do projeto liderado por Bella Pontes, Schlop.
O projeto iniciado pela compositora passeia pela sonoridade e pelo legado das guitar bands dos anos 90. Designer, uma das responsáveis pelo Mapeamento de Casas de Shows e novas cenas, e atualmente também integrante da banda Wilza, Bella se mantém bastante ativa na cena independente paulistana.
Lançado na sexta-feira (13/5), cachorros e madames no fim do mundo reúne gravações que começaram de forma caseira, registradas ainda no celular da artista. Agora, ao lado da banda e do produtor Antonio Valoto (Supersonic), o material ganha novas versões de músicas já apresentadas anteriormente no disco Canções de Amor para o Fim do Mundo (2023) e no EP Senhoras e Senhores, Cachorros e Madames (2024).
O álbum também inclui os singles “São Paulo Te Amo Mas Tá Foda Demais” — uma resposta paulistana para “New York I Love You But You’re Bringing Me Down”, do LCD Soundsystem — e “Marquinho Van Halen”, além da inédita “Rima Triste”.
Para este novo capítulo, além de Bella — responsável por vocais, guitarra e sintetizadores — integram a formação da Schlop: Lucia Esteves (guitarra), Antonio Valoto (bateria, backing vocal, sintetizadores e guitarra) e Alexandre Lopes (baixo).
Apostando na estética das guitar bands e no universo indie de grupos como Pin Ups e Pavement, é inevitável lembrar de Guitar Days, documentário que deu visibilidade a uma cena brasileira majoritariamente ignorada pelo mainstream nas últimas três décadas.

Guitar Bands no Brasil: o submundo das bandas independentes
Há cerca de dez anos, Caio Augusto Braga, ao lado de Magoo Felix e Maurício Palhano, embarcou em uma jornada pelo país para produzir o documentário Guitar Days – An Unlikely Story of Brazilian Music.
O filme conta a história da cena indie rock brasileira desde os anos 90 — uma geração que decidiu fazer rock barulhento e cantar em inglês à margem da visibilidade do mainstream.
O termo guitar bands ficou associado a uma geração de bandas independentes brasileiras que, principalmente nos anos 90 e 2000, misturaram indie rock, noise pop e lo-fi. Mesmo com pouca visibilidade no mainstream, essa cena ajudou a formar parte importante da cultura alternativa do país.
Mas que, nem por isso deixaram de ser importantes para a formação de uma cena musical importante em território tupiniquim. Se você já leu o maravilhoso livro RCKNRLL do Yuri Hermuche (Firefriend), saberá mais ou menos do que estamos falando.
Entrevistas com artistas como Brincando de Deus, Câmera, The Cigarettes, The Concept, CSS, Thee Butchers Orchestra, Dead Poets, Far From Alaska, Fish Magic, Garage Fuzz, Hateen, IML, Killing Chainsaw, Lava Divers, Loomer, Low Dream, Loyal Gun, Maria Angélica, Mickey Junkies, PELVs, Pin Ups, Second Come, Shed, Single Parents, The Soundscapes, Stellar, Travelling Wave, Twinpine(s), Valv, Wry entre outras, aparecem ao longo da trama.
Na época, o diretor Caio Augusto Braga resumiu o espírito do filme:
“Talvez eu esteja falando dos renegados do rock nacional — aqueles que não eram reconhecidos como artistas da música brasileira porque decidiram cantar em inglês. É um filme sobre princípios, sobre a questão elementar do rock e da juventude: fazer o que se quer, independentemente de pagar as contas ou não.”
E continua:
“Em uma sociedade onde o culto à celebridade se mistura cada vez mais com a cultura, buscar expressão artística sem promessa de exposição ou retorno financeiro não é apenas atitude — é um ato heroico.”
A frase envelheceu bem.
Hoje, no lugar das celebridades, temos uma infinidade de influencers — muitos surgindo do nada, com fama difícil de explicar — que acabam sendo mais valorizados do que artistas.
No texto A Era do Artista Influencer, discutimos justamente esse cenário: um momento em que se exige dos músicos um acúmulo cada vez maior de funções e performance digital para que qualquer trabalho — artístico ou não — ganhe visibilidade.
Schlop lança Cachorros e Madames no Fim do Mundo, álbum inspirado nas guitar bands dos anos 90
Com os esboços das canções criados de forma solitária durante os tempos incertos da pandemia, o processo de revisitar essas músicas ajudou Bella a expandir ainda mais suas linhas criativas.
“É um registro de que, mesmo quando o mundo parece acabar, sempre há espaço para uma nova rima, um novo arranjo e um ‘até logo'”, reflete Bella.
Essa aura faça você mesmo, somada à colaboração entre amigos, amplia as possibilidades das composições. Com novas referências e maior amplitude sonora — seja pelo peso das guitarras, seja pelas rimas — as músicas ganham nova vida.
As ironias aparecem logo na primeira frase entoada em “Clássicos”. Brincando com estéticas e com a quebra de normas vigentes, assim como fizeram bandas como Sleater-Kinney, Babes in Toyland, Pixies e Nirvana, o tom diverte enquanto alfineta o entorno com uma sequência de indiretas.
A bem-humorada “Marquinho Van Halen” parece homenagear um cachorro homônimo do baixista do Van Halen, falecido em 2020. A faixa aposta em guitarras e linhas de baixo mais elaboradas para brincar com o espírito hard rock do apelido do bichano. Entre latidos, grunhidos e distorções, o espírito punk aparece com naturalidade.
Já “Trilho do Trem” desacelera o clima mais desordeiro do disco e carrega ansiedade, impaciência e marcas do isolamento. A introspecção se constrói em uma bateria mais contida e em um baixo tensionado, que explode na segunda metade da faixa.
Nas mãos da Schlop, “New York, I Love You But You’re Bringing Me Down”, clássico do LCD Soundsystem, ganha uma resposta direta à cidade de São Paulo. A crítica passa pela crise imobiliária, desigualdade social, trânsito sem fim, violência urbana e descaso político — sem esquecer do preço cada vez mais alto da cervejinha cotidiana.
Única faixa totalmente inédita do material, “Rima Triste” aponta caminhos para o futuro da banda. Com guitarras carregadas de delay, sintetiza o espírito das guitar bands: sentimentos à flor da pele, descontentamento e a vontade constante de colocar a guitarra nas costas e sair pelo mundo.
Entre as mais Pavement do disco, “Canção do Fim do Mundo” surge quase como um pequeno cataclisma dentro da narrativa do álbum. Questionamentos, reflexões e poesia aparecem em meio a fragmentos que convidam até mesmo a um inevitável air guitar.
Esteticamente noventista, “O Rei do Velotrol” parte da inocência infantil para o embate, com direito a solo de guitarra e uma forte sensação de nostalgia.
Quem encerra o álbum Cachorros e Madames no Fim do Mundo é “Peixe Fora d’Água”., reflexão sobre pertencimento e deslocamento social — além da vontade permanente de quebrar o status quo.
