Australianos do Speed estreia no Brasil na segunda edição do NDP Fest. - Foto por: Jack Rudder
A Speed, banda australiana de hardcore, desembarca pela primeira vez no Brasil para um show em São Paulo e falou sobre o impacto do álbum “Only One Mode”, a cena hardcore mundial e a nova geração de bandas.
Um dos grandes expoentes da nova cena australiana de hardcore, Speed toca pela primeira vez no Brasil neste domingo (15). Formada em 2019, eles vêm como atração principal do 2º NDP Fest, festival que celebra o segundo aniversário da produtora New Direction Productions.
O evento ainda reúne Path of Resistance (EUA), Clique (EUA), Distante (Argentina), além das bandas brasileiras, Bayside Kings (Brasil), Eskröta (Brasil) e Last Warning (Brasil).
Natural de Sydney, a ascensão do grupo a nível global tem chamado a atenção e eles nos garantem que estão muito animados para tocar no Brasil. O grupo é formado pelos irmãos Jem e Aaron Siow, e carrega no peso, riffs e breakdowns, seu espírito hardcore.
Sua guinada foi meteórica se pensarmos que o EP de estreia, Gang Called Speed, foi lançado apenas em 2022, e logo depois, em 2024, veio o álbum de estreia, Only One Mode, que lhes rendeu o NSW Music Prize 2025 e o ARIA Award de Best Hard Rock/Heavy Metal Release, além de indicações em premiações nacionais australianas.
Pudemos conversar com os integrantes, que contaram mais sobre a nova geração de bandas australianas.
Aaron Siow: “Estamos muito animados. Essa viagem para nós… na verdade eu sei com certeza que ninguém da banda nunca esteve na América do Sul antes — seja para tocar ou mesmo para passear.
É engraçado que vamos terminar a turnê no Brasil. Existe aquele meme mundial do “come to Brazil”, mas para ser sincero, apesar do meme, ao longo dos anos sentimos muito carinho vindo daqui — não só do Brasil, mas também de lugares como México e Colômbia.
Eu sei que muita gente diz que é só um meme, mas a gente realmente sente que é algo real. Estamos muito animados para ir. Mal podemos esperar.
Também acho que temos uma conexão cultural especial com o Sudeste Asiático. Não quero parecer ignorante dizendo isso, mas mesmo sem ainda ter ido até aí, sinto que pode haver várias semelhanças entre as culturas — especialmente dentro da cultura hardcore. Cenas que talvez não sejam tão visíveis globalmente.
Então sim, estamos muito animados para ir, conhecer as pessoas, tocar shows, experimentar a cultura — e, egoisticamente falando, também estou muito animado para comer.”
Aaron Siow: “Sim, começamos em 2019.
Na verdade, eu e meu irmão começamos a banda. Eu sou o baixista e, curiosamente, essa é a minha primeira banda. De todos os integrantes, eu sou o único que nunca tinha tocado em banda antes.
Meu irmão, o Jem, é o vocalista. A gente queria montar uma banda juntos havia muitos anos.
Todos os outros já tinham tocado em bandas antes. A banda anterior do Jem era o Endless Heights, em que ele tocava guitarra. O Josh também tocou em várias bandas. O Kane e o Dennis estavam em uma banda chamada Relentless. O Kane tocava baixo nessa banda, nem era guitarra. E o Dennis tocava bateria.
Com o passar dos anos, a banda anterior do Jem era talvez um pouco menos hardcore em termos sonoros, e nós dois queríamos muito montar uma banda de hardcore mais direta.
Na época em que começamos, por volta de 2019, a nossa cena tinha passado por uma fase um pouco mais fraca. Acho que globalmente várias cenas tinham diminuído, e foi isso que sentimos na Austrália.
Um dos meus colegas de casa na época dirige a Last Ride Records, e ele estava tentando organizar shows, mas dizia coisas como: “Cara, estou tentando fazer um show a cada dois meses, e mesmo assim não consigo montar um line-up empolgante com bandas novas.”
Então pensamos que era o momento certo para começar essa banda.
O Jem escreveu as músicas quase como se fosse um manual para eu aprender a tocar baixo, porque eu nunca tinha tocado nenhum instrumento antes. Depois chamamos nossos melhores amigos para participar — Josh, Dennis e Kane — pessoas que conhecemos há muitos anos.”
Josh Clayton: “Tem sido incrível.
Nós decidimos fazer um LP, mas na verdade isso nunca fez parte do plano original do Speed como banda. A gente sempre foi levando as coisas um disco de cada vez.
Quando fizemos o álbum, pensamos: “Ok, precisamos realmente mandar uma mensagem clara de que é isso que somos.” Somos uma banda de hardcore e vamos fazer um disco de hardcore.
E a recepção foi muito boa.
Lançamos o álbum e basicamente não paramos mais de fazer turnês desde então. Estamos rodando o mundo todo e parece que as pessoas se conectam com ele da mesma forma em todos os lugares.
Tem músicas ali que nem imaginávamos que seriam as mais populares e que hoje são praticamente obrigatórias no setlist.
Então tem sido muito gratificante e também muito humilde ver como as pessoas respondem ao disco.”
Josh Clayton: “É muito legal ouvir você falar dele dessa forma, porque o Elliott é nosso melhor amigo. Eu conheço o Elliott desde que tinha uns 13 anos. Ele e o Jem — nosso vocalista, irmão do Aaron — estudaram juntos no ensino médio. Basicamente crescemos juntos fazendo música. Já toquei em bandas com ele e, inclusive, gravei uma demo com ele outro dia.
Ele foi a pessoa do nosso grupo de amigos que aprendeu a gravar música. E desde então continuou sendo essa pessoa. Com o tempo ele acabou se tornando o cara de referência no hardcore de Sydney para gravar discos, por isso ele tem esse currículo que você mencionou. Então fazer o LP com ele foi algo óbvio para nós, porque ele fala a mesma língua que a gente.
Musicalmente falando, tivemos todas as mesmas experiências juntos. Ele é praticamente uma extensão da banda. A gente faz tudo com ele porque ele nos entende, sabe exatamente o que fazer, e também porque gostamos de trabalhar com nossos amigos.
Tivemos a sorte de levar essa banda para lugares que nunca imaginávamos, então parte dessa experiência é também levar nossos amigos junto nessa jornada. E fazer com que o mundo escute as gravações dele também é uma parte muito importante disso.”
Aaron Siow: “Sim, sim.
Um apelido que eu tenho para o Elliott é “Kenny Breakdowns”.
Ele é tipo o Kenny Beats do hardcore na Austrália, porque está basicamente em todas as faixas.”
Aaron Siow: “Já tocamos lá algumas vezes.”
Josh Clayton: “Sim, a última foi a mais louca, né?”
Aaron Siow: “Acho que foi no ano passado, certo? O Outbreak é um festival em que já tocamos três vezes. Tocamos duas vezes na edição principal e também tocamos uma vez na edição de outono.
E, honestamente, a cada ano, cada vez que tocamos lá — independentemente da edição — fica cada vez melhor.
Para mim, o Outbreak é um dos grandes festivais essenciais do hardcore, porque a cena lá é absurda. O entusiasmo das pessoas e a energia são sempre incríveis.”
Josh Clayton: “Sim, é quase incomparável, na verdade. Pelo menos para nós.
Temos uma conexão muito especial com o Reino Unido. Não sei exatamente de onde isso vem, para ser sincero. Sempre brincamos que talvez seja uma coisa meio Commonwealth, mas desde a primeira vez que tocamos lá fomos muito bem recebidos.
E toda vez que voltamos é uma festa. Às vezes essa festa fica um pouco violenta em alguns momentos, mas na maior parte do tempo é simplesmente muito divertido.
O Outbreak é insano.
Estar em um festival assim é incrível porque tem muita gente disposta a se divertir. E, além disso, como tem tantas bandas boas no line-up, você acaba tendo muitos amigos ali também — gente no palco com você, gente nos bastidores.
Então sempre nos divertimos muito tocando no festival e também simplesmente ficando por lá com os amigos e com todo mundo que está presente. É sempre incrível.
Eu quase tive um ataque de pânico naquele dia porque estava muito animado. Bebi café demais e fiquei correndo pelo festival. Entre todas as bandas, devia ter umas 100 pessoas com quem já tínhamos feito turnê nos últimos dois anos. Então era tipo: a cada lugar que você ia, encontrava alguém. “Caramba, você está aqui!”, “Você também está aqui!”. Foi meio avassalador.
Mas festivais assim também são legais porque você tem uma espécie de panorama de quão grande o hardcore está no momento. Eu vejo festivais como o Outbreak meio que como um indicador da força desse momento atual do hardcore. Especialmente naquele último que tocamos — estar do lado de fora, olhar para frente e ver aquela quantidade de gente — eu pensei: “Cara, isso aqui cresceu muito.”
Josh Clayton: “Com certeza é o maior momento que o hardcore já viveu, pelo menos até onde eu sei.
Desde que eu comecei a me interessar por hardcore, nunca vi algo desse tamanho.
Mas também me lembra um pouco da época em que nós começamos a entrar na cena. Nós começamos a ouvir hardcore lá pelo meio dos anos 2000, e naquela época também era enorme.
Momentos como esse são muito empolgantes.
Onde quer que você esteja no mundo, sempre dá para encontrar hardcore. E tem muitas coisas legais acontecendo em várias escalas diferentes.
Desde as menores cenas DIY, que estão mais legais do que nunca, até festivais gigantes como Outbreak ou Sound and Fury.
Tudo isso é muito incrível.
Também tem muita gente nova chegando pela primeira vez. Como o Aaron mencionou antes, houve um período na Austrália em que simplesmente não estavam surgindo novas gerações de jovens do hardcore.
E agora, por exemplo, nós organizamos um show em Sydney no fim de semana e metade das pessoas lá tinha menos de 18 anos.
Então é muito empolgante ver gente nova chegando e interpretando o hardcore à sua própria maneira.
As gerações mais novas lidam com o hardcore de uma forma diferente da nossa, e isso é algo interessante.
Ao mesmo tempo, sempre existe um pouco de ansiedade sobre como o significado do hardcore pode acabar sendo diluído ou mudado.
Acho que essa é uma preocupação válida.
Mas, ao mesmo tempo, todos nós estamos muito confiantes e otimistas sobre o rumo das coisas.
Sentimos que, na maior parte do tempo, as pessoas têm as intenções certas. Claro que existem pessoas de fora que talvez não tenham as intenções certas e querem se envolver, mas, no fim das contas, estamos em um período de mudança.
Enquanto a ética do hardcore for mantida, tudo vai continuar sendo incrível.
E se um dia a cena diminuir de novo, tudo bem também. Essas coisas sempre vêm e vão em ondas.
Mas, no momento, estamos todos muito entusiasmados com o hardcore — e vamos continuar assim. Sempre fomos assim.”
Josh Clayton: “Boa pergunta. Não sei… em termos criativos, a gente é bem fechado. Somos basicamente nós cinco e o Elliott — de quem estávamos falando antes — que dão qualquer tipo de contribuição criativa.
Ainda não chegamos naquele ponto de pensar em expandir isso e procurar colaborações externas. Mas também não descartamos essa possibilidade.
Existem muitas pessoas no hardcore que eu considero músicos lendários. Tem gente como o Justice, do Angel Du$t e do Trapped Under Ice. Tem o Brendan, do Turnstile. E também pessoas de gerações mais antigas, como Mike Dijan, do Crown of Thorns.
Todas essas pessoas são artistas que eu admiro muito criativamente. Então eu nunca descartaria a possibilidade de escrever ou criar algo junto com eles. Mas ainda não é algo que a gente tenha sentado para discutir de verdade. Então é difícil dizer se existe alguém específico com quem queremos colaborar, mas certamente não é algo fora de cogitação.”
Pelo nome do nosso site, a gente gosta de dar visibilidade a artistas que achamos que não receberam o reconhecimento que mereciam. Que artistas vêm à cabeça de vocês quando pensam nisso?
Josh Clayton: “Vou te dizer: a banda que mais me empolga na Austrália no momento lançou uma demo há mais ou menos duas semanas — talvez uma semana. Eles se chamam Spirit, são de Melbourne.
Quatro amigos nossos bem antigos tocam nessa banda. O som deles é um hardcore bem pesado, meio no estilo de Cleveland. Eles ainda são muito novos, acho que pouca gente conhece a banda ainda, mas eles são incríveis. Acho que muita gente vai curtir.”
Aaron Siow: “Cara, eu preciso mencionar esses caras. Eles têm recebido um pouco mais de atenção recentemente, mas vou reforçar mesmo assim: Scram. São uns moleques lá do norte, de Queensland. Eles devem ter acabado de fazer 18 anos.
Eles lançaram uma demo recentemente e estão mandando muito bem. A banda está realmente estourando agora. Inclusive eles abriram um show do Turnstile no começo do ano, quando o Turnstile passou por Brisbane, o que é algo absurdo para uma banda tão nova. Então, confiram Scram.”
Josh Clayton: “Sim, Scram é muito bom.”
O show da Speed no Brasil acontece neste domingo (15) no NDP Fest, em São Paulo.
Data: 15 de março de 2026
Local: Espaço Usine (antigo Clash Club)
Endereço: Rua Barra Funda, 973 – Barra Funda, São Paulo/SP
Ingressos: https://fastix.com.br/events/ndp-fest-2026
This post was published on 11 de março de 2026 5:20 pm
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