Entre improviso, tensão e expansão, a Curva do 90 constrói em “Não Feche o Cruzamento” uma estreia que foge do convencional. - Foto por: Carlos Victor
De tempos em tempos, aparecem no horizonte novos grupos que não têm medo de ousar e se aventuram a fugir do convencional. Quebrar as fórmulas para desenvolver sua identidade parece ser o que move o primeiro EP da banda maranhense Curva do 90, Não Feche o Cruzamento, lançado no dia 17 de abril pelo selo Brisa Discos.
Natural de São Luís, o power trio é formado por Arthur Felipe (guitarra), Guilherme Campos (baixo) e Arthur José (vocal e guitarra), músicos que também atuam como banda de apoio para outros artistas. Assim como os baianos da Tangolo Mangos, no inventivo e pandêmico tngl_mngs.rar (leia mais), a liberdade para explorar ritmos, ambiências, efeitos e delays, transparece a cada uma das seis canções do EP de pouco mais de 33 minutos. Muitas delas são longas, passando dos oito minutos de duração e trazendo consigo referências do rock experimental, rock tuaregue, rock progressivo, psicodelia e do punk.
São justamente as curvas sonoras e as possibilidades de transcender ao longo de uma escuta atenta que o som se sustenta. “Expresso Mauritânia”, por exemplo, faz referência direta ao território do Saara Ocidental, e, por isso, me remeteu, em meio ao emaranhado sonoro que a compõe, recheado de referências locais e da influência do inventivo som do Mdou Moctar, banda formada na aldeia de Abalak, no norte do Níger, que esteve no C6 Fest.
O leque de possibilidades aberto por live sessions da internet, como Tiny Desk e KEXP, unido à criatividade do brasileiro e ao repertório de toda uma vida, ganha novas roupagens e caminhos sonoros. Essa mistura entre o progressivo e as raízes locais, presente em Não Feche o Cruzamento, faz com que eu acredite que fãs dos paraibanos da Papangu irão adorar conhecer o som do trio. Essa potência movimenta ‘Vira Canoa’, criando imagens mentais no horizonte, entre elementos percussivos incorporados ao longo da faixa, riffs tortos oriundos da improvisação e momentos de abstração.
“Sai do Celular” faz analogia tanto à evolução tecnológica quanto ao uso excessivo do aparato que muitas vezes nos impede de estar 100% concentrados nas conexões offline. Suas progressões e travas fazem uma espécie de joguete com o quanto a tecnologia, da mesma forma que nos conecta, nos aprisiona. A segunda parte da música conta com solos rebuscados e flutuantes de guitarra que nos levam diretamente à sonoridade dos anos 60 explorada por grupos como King Crimson.
“Pipolândia” deixa clara essa proposta de fundir elementos da percussão do jazz e do rock progressivo sem amarras, criando ambiências e compassos quase eletrônicos que nos levam às inventivas trilhas de jogos de videogame. Fãs de grupos como black midi e Black Country, New Road irão se surpreender positivamente.
Já “Estática” carrega a urgência punk e o caótico do pós-punk em uma faixa explosiva que vai se transformando ao longo da música, entre progressões, tensão e efeitos. Seu tom crítico é áspero e resiliente, e a quebra de fórmulas durante a faixa deixa o ouvinte curioso para saber para onde a música irá caminhar. O EP do Curva do 90 encerra com “Reflexos de Vidro”, uma faixa ao vivo que, por esse motivo, nos ajuda a entender a magia do encontro entre o trio e as possibilidades de abstração que permeiam os territórios musicais explorados.
This post was published on 8 de maio de 2026 12:09 pm
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