FBC apresenta fase mais agressiva da carreira ao incorporar rock e hardcore em novo álbum. - Foto por: Renan 1RG
Novo álbum do FBC aposta no rock e hardcore para entregar sua obra mais política e ambiciosa.
Quando soube que FBC iria lançar um disco voltado para o rock e o hardcore em pleno ano de eleições presidenciais, a única certeza era: seria inflamável. TAMBORES, CAFEZAIS, FUZIS, GUARANÁS E OUTRAS BRASILIDADES, projeto que reúne participações de nomes como Djonga, MC Taya e produção musical de BAKA, foi disponibilizado em pleno Dia do Trabalhador — e não foi por mero acaso.
O músico, que ao longo da sua discografia surpreende por diversificar referências sonoras e desenvolver conceitos que incorporam as mazelas dos tempos, desta vez mira em uma narrativa que ajuda a explicar o momento que estamos vivendo enquanto nação. Segundo ele, o disco é dividido em quatro eixos de leitura do país: a mobilização coletiva e a herança ancestral; a produção que se ergueu sobre exploração; a violência estrutural que nunca sai de cena; e o consumo popular fabricado pela indústria cultural.
Ao longo das 13 canções — sendo três delas releituras de João Bosco (“GÊNESIS”, “O RONCO DA CUÍCA” e “TIRO DE MISERICÓRDIA”), algo que ele faz pela primeira vez em sua discografia —, o músico desenvolve um personagem que atravessa três atos, como arcos de um anime, indo do nascimento à morte.
O sétimo álbum de estúdio também veio acompanhado, em abril, da filiação de Fabrício Soares Teixeira, nome de batismo do rapper, ao partido União Popular.
O fundador do lendário grupo de rap mineiro, DV Tribo, coletivo formado por Djonga, FBC, Hot, Clara Lima e Oreia, após debutar solo, lançou discos consistentes no rap nacional, como o álbum de estreia S.C.A. (2018) e PADRIM (2019). Ao longo do tempo, foi experimentando sonoridades em diferentes ritmos, mantendo a mensagem política como elo com o público sem perder o espírito do faça você mesmo.
Em parceria com VHOOR, no pós-pandemia, e com um orçamento de aproximadamente R$ 12 mil, Baile, disco que resgata o Miami Bass e a cultura dos bailes funk dos anos 2000, amplificou o alcance da sua obra, se tornando um dos discos mais aclamados de 2021. Sua forte mobilização nas redes sociais e trocas com os fãs permitiram que a narrativa fosse amplificada e que turnês pelo país fossem possíveis.
Quando todos esperavam que o músico iria voltar a produzir um disco de rap, ele foi lá e ousou novamente com O AMOR, O PERDÃO E A TECNOLOGIA IRÃO NOS LEVAR PARA OUTRO PLANETA (2023), disco que vai dos primórdios do funk às texturas sintéticas que desembocam na house music. Ele mesmo na época cravou que era o disco mais ousado e que sempre quis fazer.
Em meio à falta de posicionamento de boa parte dos novos nomes da cena, em 2025 foi a vez de Assaltos e Batidas, onde FBC marca um retorno às origens do rap clássico e ao estilo boom bap. O registro não se limita ao estilo e traz ao longo da jornada elementos do jazz, metal, funk, e da MPB. No filme, que acompanha o disco, assistimos ao personagem Magrão, um jovem da favela seduzido pelo crime, confrontado pela militância e afundado em escolhas que refletem a lógica imposta por um sistema excludente. A narrativa se desenrola com estética cinematográfica e linguagem pensada para o público.
É justamente a partir da denúncia, reflexão e transformação social que o músico utiliza o rap como a sua linguagem.
Esse raciocínio continua de forma inteligente, tendo o rap como ponto de convergência de sua discografia. Em TAMBORES, CAFEZAIS, FUZIS, GUARANÁS E OUTRAS BRASILIDADES, ele mantém essa ânsia e se empenha em não se repetir.
Esse espírito de vanguarda transparece ao longo do disco, que carrega muito da nossa tradição literária e do pensamento de intérpretes do Brasil como Darcy Ribeiro. Em O Povo Brasileiro (1995), ele propõe uma leitura profunda sobre quem somos — algo que ecoa aqui na ancestralidade, na vivência das ruas e na retomada do rock como ferramenta de contestação.
O músico aproveita para utilizar narrativas do entorno, seja do ritmo e consumo acelerado de informação — e desinformação — amplificada nas redes sociais, passando pelo discurso de ódio, obliteração dos direitos civis e ascensão do conservadorismo nas mais diversas frentes da sociedade.
Com isso, exemplifica ao público as raízes do buraco onde nos enfiamos, em meio à violência policial, destruição de lares, avanço da extrema-direita, descaso com a periferia e o uso do pão e circo como massa de manobra.
Referências como Rage Against The Machine, Refused, Planet Hemp, Ratos de Porão, Black Flag, Bad Brains, Dead Kennedys e até mesmo de Red Hot Chili Peppers aparecem ao longo da narrativa. Esse misto de identidades também aparece nos elementos que vão agregando para expandir a narrativa e a identificação, como é o caso de “O RONCO DA CUÍCA” que traz o triângulo, do baião, para o centro, entre guitarras, batuques e rimas agressivas.
A dinâmica do sucesso no mundo digital, guiada pelo algoritmo, entre expectativas e emulação de desempenho, sob uma ótica destrutiva de sonhos — atravessada por comparações e frustrações —, transborda de forma visceral em “Sorriso Capitalista”, como um choque direto.
Assim como o ciclo da violência policial, vivido na periferia todos os dias, na lógica do dente por dente, reverbera na sagaz “Homo Sacar”, parceria afiada com Djonga. O aumento do conservadorismo, pensamentos fundamentalistas e perda de peso na mensagem, também aparecem em uma das rimas mais potentes do single em que o parceiro de DV Tribo caneta: “Eu também li João 8:32 a culpa não é de quem ensina, a culpa é de quem não aprende / tipo os que jura que ouviu meu rap / e parece ter crescido na Alemanha do terceiro reich”.
“Não caia na história do Deus, Pátria e Família…Não vote em milico… se for votar em fascista, não vote em ninguém”. É o que ecoa “NÃO VOTE EM NINGUÉM”, uma das faixas que explora o espírito anarquista do punk rock. Sem papas na língua, FBC não tem medo de chamar a extrema-direita de câncer da nação.
Neste bloco, ele não tem medo de como diriam os Titãs, “dar nome aos bois”. Após, na anterior, pedir para não votar no partido PL, em “Lesa Pátria” o recado é ainda mais literal: “Bolsonaro cuzão, comédia, vacilão, ele é contra os direitos humanos mas muda de opinião, Eduardo Bananinha e Bolsonaro chupam o saco do Trump lesa pátria do caralho”. O tom de protesto se estende ainda para um dos congressos mais conservadores das últimas décadas que aprova, do dia para a noite, projetos que lesam o povo brasileiro e brecam pautas progressistas.
O modus-operandi é descrito linha após linha em “Quinta Coluna” que coloca a bancada da bala e seus similares no mesmo balaio de operar contra os interesses da classe trabalhadora e dos mais necessitados de políticas públicas. Entre pensamentos retrógrados, conservadorismo nos costumes, corrupção normalizada e impunidade como sua maior bandeira.
Inclusive, a pauta da anistia para os condenados pela tentativa de golpe de Estado do 08/01 é rebatida em “Bandido Bom”, faixa que faz uma singela homenagem ao guitarrista e ativista Tom Morello. Nela, diversos crimes e escândalos da direita brasileira são desarquivados ao longo dos seus versos.
Da falácia da ascensão social ao legado do colonialismo — atravessando capitanias hereditárias, a política do café com leite e a corrupção de bilionários contemporâneos —, a estrutura social brasileira se mantém. Esse cenário, marcado pela precarização do trabalho, pela persistência da meritocracia e pela impunidade de quem não teme violar a Constituição de 1988, reverbera em “Guilhotina”. Faixa que faz alusão justamente ao período da revolução francesa que quebrou com o regime vigente e virou exemplo para revoluções posteriores ao longo da nossa história.
Algumas faixas depois, “Canudos”, faz referência justamente à Guerra de Canudos (1896-1897), conflito no sertão da Bahia entre o Exército Brasileiro e seguidores de Antônio Conselheiro. Por lá, a comunidade de Belo Monte, formada por milhares de sertanejos pobres, foi destruída após quatro expedições militares, resultando em um massacre de cerca de 25 mil pessoas em prol dos donos de latifúndios que comandavam a região. Apenas um dos conflitos que tentou romper com estruturas, mas que foi perpetuado pela violência, tornando-se o maior massacre da história do país.
Na faixa, FBC e MC Taya, em seus versos, fazem um paralelo sobre crimes que acontecem no cotidiano para silenciar quem contesta, como o caso da morte de Marielle Franco, a violência sistêmica nas favelas, entre fuzis, massacres genocidas como o do Carandiru e as “marcas da revolta”, como já diria a banda punk Agrotóxico.
Em tom de massacre, “Os Porcos Vem Aí” denuncia a violência policial mais uma vez sem papas na língua, denunciando as entranhas da podridão do sistema. “Ódio Social” olha para as origens de resistência, citando pensadores, forças políticas e movimentos revolucionários apagados ao longo da nossa história.
“Consciência de classe no Brasil é coisa de rico / Se o povo não se revolta / a revolta é contra o povo”, destila FBC nos versos de “Ódio Social”.
É impossível ouvir “Tiro de Misericórdia” sem lembrar do manguebeat de Chico Science & Nação Zumbi, que já foi até mesmo chamado por Marcelo D2 como um dos verdadeiros arquitetos da música brasileira durante seu histórico acústico da MTV. Uma homenagem ainda mais significativa, se lembrarmos que em 2026 o último disco de estúdio de Chico Science & Nação Zumbi, Afrociberdelia, completa 30 anos. As analogias, entre ancestralidade, religiosidade, violência e denúncia social reverberam nos versos repletos de dor, descaso e revolta do rapper mineiro.
Esse espírito de contestar, dar nome aos bois e tentar explicar como chegamos aqui é emancipador para um ouvinte atento. O processo de democratizar o acesso à informação parece eterno ainda mais quando a memória e os consequentes apagamentos históricos, entre sangue, lágrimas e fuzis foram deixados para trás desde a chegada dos europeus no continente. Um poder que se perpetua nas mãos de quem controla os meios de produção há gerações — marcadas por sangue.
Um disco que clama pela mobilização em um dos anos mais importantes da nossa ainda jovem democracia. Deixa claro a importância de eleger não apenas representantes para o Executivo, mas também de usar a urna eletrônica para que tenhamos um congresso atuante em prol das necessidades do povo brasileiro.
Deixa nos comentários sua leitura do disco.
This post was published on 4 de maio de 2026 7:10 pm
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