C6 Fest 2025 no Ibirapuera: destaques, problemas e os melhores shows do fim de semana
C6 Fest 2025 teve Air, Nile Rodgers & Chic e Wilco como nomes de peso
A terceira edição do C6 Fest aconteceu na última semana, tendo como casa mais uma vez o Parque Ibirapuera. Dos festivais que acontecem por lá desde a privatização de diversas áreas da sua extensão, é o que melhor aproveita o espaço e proporciona, apesar de onerosa, a melhor experiência em termos de festival na cidade. Pontos como a pontualidade das apresentações, diversas opções gastronômicas, banheiros limpos, curadoria que foge do óbvio e a narrativa de contar a história da música, do passado ao contemporâneo, fazem parte do DNA do evento que neste ano chegou a sua terceira edição.
Porém, nem tudo são flores. Antes mesmo de acontecer, após divulgar os horários, houveram muitas reclamações nas redes sociais. Um fato positivo é que eles ouviram os fãs e melhoraram a grade de shows, mas, claro, ter que sacrificar algum show que quer ver muito é algo que o brasileiro já está acostumado.
Neste ano tivemos a presença de alguns artistas que se destacaram no TikTok e uma aproximação ao pop por parte de alguns artistas que não agregaram muito a este mesmo DNA exaltado. Como, por exemplo, o pop genérico do Beach Weater e o viral insosso do Stephen Sanchez. Destaques nacionais emergentes como Agnes Nunes e o mega grupo de rap paulistano Maria Esmeralda mais uma vez tiveram os piores horários. São tentativas de tentar atrair um público um pouco diferente pro festival, conhecido por ter muitos influenciadores, e celebridades, perambulando por lá.
O que pode melhorar na próxima edição
Na prática, o público teve um grande obstáculo. A distância entre palcos. A Tenda Metlife ficava bastante longe da Arena Heineken, e por mais que nas redes sociais do C6 Fest 2025 tivesse um mapa explicativo, e funcionários para orientar, muitos que chegaram ficavam um pouco perdidos – e era comum ver reclamação de desistir de um show pela distância. O local patrocinado por uma seguradora, inclusive, com seu bolsão de isolamento, atrapalhava até mesmo a saída mais rápida do palco que lotou em alguns momentos.
Uma impressão que tive é que o festival levou shows que teriam públicos maiores para uma tenda pequena. Como se subestimasse a capacidade deles venderem ingressos. Se isso já aconteceu com o Pavement, no ano passado, o erro voltou a se repetir em apresentações de nomes como Wilco e Gossip. Talvez um palco intermediário, pudesse solucionar essa equação, ou até mesmo a redução do número de atrações por dia.

Como foram os shows do C6 Fest 2025
Sábado no C6 Fest 2025 (24/05)
O dia começou com Agnes Nunes na Tenda Metlife em show marcado pela sua excelente extensão de voz e raízes brasileiras. A baiana de Feira de Santana trouxe ao longo do seu repertório “Esperar Pra Ver”, da Evinha, resgatado recentemente pelo rapper fluminense BK’ e “Mama África” com direito a elogios a Chico César. A faixa é uma canção que aborda a figura da mãe como um símbolo de força e resistência, e de fato sua participação no festival tem justamente este papel.
Com integrantes de Bangalore e Nova Deli, na Índia, o Peter Cat Recording Co. foi uma das gratas surpresas no line up do C6 Fest 2025. O quinteto que faz um som que vai da música cigana, passando pelo jazz alternativo ao indie, tem uma proposta sensorial. Ao longo da apresentação pudermos ver um repertório amplo, que sabe explorar o pop e o psicodélico, o que transforma um meio de tarde frio com nuvens em um dia ensolarado.
A banda conta com multi-instrumentistas que permitem várias soluções sonoras a cada som. Uma prova disso é o vocalista que toca uma espécie de acordeon deitado, o baixista, flauta e trompete – e o tecladista, sax.
O miolo da tarde
No meio da tarde aconteceu também os primeiros choques de horários com as apresentações do Beach Weather, na Arena Heineken, palco que ficou grande para uma banda que não tinha público para lotar a tenda, e o Perfume Genius, este que lotou a Tenda Metlife e poderia levar mais público para a Arena.
Com um pop rock genérico, e bem esquecível, do Beach Weather foi o responsável por abrir os trabalhos do palco que mais tarde se apresentariam nomes icônicos como Pretenders e Air. O grupo estadunidense de pop rock que conta com membros do Rocket To The Moon faz aquele show que não engrena e que carece até mesmo de identidade.
A música que abre o show, por exemplo, lembrava os primeiros discos do Arctic Monkeys, mas ao longo do show tinha riffs do Nirvana, entre músicas cheias de fórmulas, e clichês, para tocar no rádio. Como, por exemplo, misturar rock alternativo bastante polido com eletrônica. Naquele esquema de comercial de xampu mesmo, lembrando até mesmo fase mais decadente do Muse.

Apostas na Tenda Metlife
Um show que dividiu opiniões foi o do Perfume Genius. A formação e disco de turnê era roqueira com direito a atitude bastante performática do desengonçado vocalista Mike Hadreas, um personagem a parte. Embora tendo pontos altos e entrega, o pop barroco e art rock proposto acaba ressoando bastante melancólico para quem assiste.
Uma boa surpresa, embora em ritmo de festa de garagem, ou até mesmo lembrando a aura a série britânica Skins, foi A.G. Cook, conhecido como produto do BRAT, disco da Charli XCX, surpreende pela entrega e show de projeções bastante imersivas e frenéticas.
O fundador da gravadora PC Music é um dos responsáveis por popularizar o hyperpop ao lado da finada Sophie, 100 gecs e a própria Charli. A cantora britânica, inclusive, teve alguns remixes dentro do set bastante explosivo eletrônico com ondas psicodélicas e fusão de estilos. Um show com todo o apelo visual e dinâmica do TikTok. Além de tocar, o músico também canta em algumas músicas, em uma delas misturando trap com direito a autotune.

Noite em grande estilo
Tendo em sua linha de frente desde 1978, Chrissie Hynde, e de membros originais contando também com Martin Chambers, o Pretenders abriu o que o festival chama de “contar a história da música”. Representantes do New Wave inglês, é fácil associar aos estadunidenses do Blondie, mesmo com a distância geográfica.
Com último disco lançado em 2023, e Hate For Sale (2020), sendo resenhado aqui no Hits Perdidos, o grupo segue produzindo. A própria vocalista brincou antes de apresentar uma canção do disco mais recente, dizendo que com certeza a maioria ali tinha o vinil em casa. Hits emblemáticos como “Back on the Chain Gang” e “Middle of the Road”, de 1983, além da balada “Stand By You”, foram as mais celebradas pelo público presente.

Os franceses do Air foram os headliners do sábado e trouxeram para uma arena cheia o disco icônico Moon Safari sendo executado na íntegra. Tocado na sequência, “La femme d’argent” e “Sexy Boy” abriram a apresentação com primor.
O show conta com ótimas projeções no telão que nos levam para mais próximo da complexidade e iconografia de um dos grupos mais importantes da música eletrônica francesa. O som espacial, que mistura downtempo, neo-psicoelia, encabeçado por Nicolas Godin e Jean-Benoît Dunckel transcende a experiência e mistura música e cinema com maestria. Além das faixas do álbum que está em longa turnê, hits da carreira também compuseram a segunda parte do set.

Domingo no C6 Fest 2025 (25/05)
Com clima mais quente, a programação mais dançante do domingo ornou. O dia começou com projeto formado por Thalin e os beatmakers VCR Slim, Cravinhos, Pirlo e ILoveLangelo que lançou em 2024 o ótimo Maria Esmeralda misturando samples de outrora a rimas e beats que ficam na cabeça.
Mesmo com o desafio de iniciar os trabalhos às 14h15, eles tiraram de letra e enriqueceram o show com direito a mini orquestra com Chica Barreto no violoncelo, entre outras participações especiais de nomes como o rapper pelotense Zudzillia, Dom Cessão, Rubi, Quiriku, entre outros. Durante a apresentação, o coletivo de rap paulistano aproveitou para informar os presentes que um novo clipe seria lançado nos próximos dias.
Com muita cadência, cenário e ótimas projeções, a apresentação mescla beats, arranjos de violão e guitarra e a sobreposição de versos livres que dão toda a tônica de storytelling do disco que atravessa o universo da poesia e do cinema como elementos.

Novidades da safra inglesa
Se no sábado tivemos Peter Cat como grata surpresa, o English Teacher, com apenas 5 anos de atividade, teve esse destaque no domingo. De Leeds, na Inglaterra, tendo lançado apenas o disco This Is Texas, no ano passado em seu som faz uma mistura interessante entre post-punk, art rock, experimentalismo que ecoa o som de contemporâneos e conterrâneos como Black Country New Road, só que ainda mais acessível, e elementos de R&B que tiram toda a previsibilidade do show.
A vocalista Lily Fontaine mesmo tímida tem uma impressionante potência nos vocais. Uma grata surpresa foi a atitude dela que convidou um fã para tocar “R&B” junto. O resultado funcionou e a plateia presente foi a loucura. Logo após, para não perder o embalo do fim da apresentação, Fontaine desce na galera e sobe na estrutura entre o palco e o público para sentir a energia.
Hype nos streamings no último ano, o The Last Dinner Party é um sexteto com um som acessível e teatral. Nele as vestimentas de época e o cenário com o céu de uma noite estrelada dão o tom do caráter pop da apresentação. Não é difícil entender como a sonoridade ressoa familiar para fãs de artistas como Lorde, Kate Bush, Lana Del Rey, Florence & The Machine e Fleetwood Mac.
A vocalista além de ter uma voz bem característica, não para quieta e corre pelo palco. A atmosfera setentista contribui para a narrativa Ópera Rock que o conjunto se propõe. O setlist ainda guarda um cover de “Call Me”, do Blondie, e em “Killer”, o baterista, e único homem do conjunto, recebe os parabéns da banda – o público corresponde cantando a música em português.

Noite de gigantes da música mundial
Ao anoitecer, a coisa fica mais séria com shows que ajudam a explicar a história da música. De um lado, na Arena Heineken, Seu Jorge faz uma homenagem à música baiana, do outro, o Wilco retorna ao país para apresentar seu country alternativo com elementos de Indie Rock. A banda liderada por Jeff Tweedy e que tem o guitarrista Neils Cline como um “monstro sagrado” só não fez o melhor show do dia porque logo depois teríamos Nile Rodgers com o Chic.
Passando por 9 discos, o setlist do Wilco é generoso e tem foco nos discos A Ghost Is Born, com direito a bela participação do público em “Hummingbird”, e no clássico Yankee Hotel Foxtrot. Deste último, “Heavy Metal Drummer”e “Jesus, Etc.” ficaram para a parte final do show e a carga emotiva de “I Am Trying to Break Your Heart” para o meio. Fato é que o entrosamento entre esses remanescentes da safra indie noventista não precisam nem se olhar para tocar as músicas com precisão. Jeff se diz emocionado e pergunta até mesmo porque não vivem aqui já que são sempre muito bem recebidos.
“If I Ever Was a Child”, do Schmilco, é daquelas músicas mais recentes do grupo que foram ficando no setlist ao longo dos anos. “Via Chicago”, mais antiga, foi uma grata surpresa. Lágrimas emocionadas dos presentes, com direito a cantarolar os acordes, apareceram durante a execução de “Impossible Germany”, esta que contou com o costumeiro solo marcante de Nels Cline. Aquele show de banda veterana segura de si que a cada vez que você assiste repara em um novo detalhe mágico.

Aula de música com Nile Rodgers & Chic
Passar intacto pelo show do Nile Rodgers & Chic era praticamente impossível. Sua biografia se confunde com a história da música pop feita ao menos nos últimos 50 anos. Uma enciclopédia musical que além de ter composto hits atemporais também foi responsável por produzir canções de artistas como Madonna, Duran Duran, Beyoncé, David Bowie, Daft Punk, Diana Ross e Sister Sledge.
Apesar de ter a ciência do seu peso na história da música, ele se mostra humilde tanto ao se comunicar com o público de São Paulo, como quando fala sobre seu processo. Em vídeo exibido na apresentação, Neil desabafa sobre a vida do operário da música onde a maior parte das composições não será um sucesso – e por isso eles devem ser celebrados.
Durante a apresentação, Neil lembra como “São Paulo” é uma cidade especial para ele. Ele comenta que o single com o nome da cidade, lançado em 1977, teve como inspiração a vinda a megalópole por volta de 1973. Diz que ficou impressionado com a estrutura da cidade, seus prédios altos e a receptividade das pessoas… algo que fez com que ele se recordasse da sua cidade natal, Nova Iorque. A música foi lançada posteriormente, em 1977, no álbum do Chic, este remasterizado em 2018.
Acompanhado de um time afiado de músicos, é impressionante ver tanto o entrosamento, como a técnica de cada um. Seja nos vocais, no baixo que rege tudo, nas teclas com efeitos de voz para emular o Daft Punk a bateria milimetricamente calculada para nos levar para onde tudo começou. O show faz uma timeline na música pop similar ao que foi o show do Kraftwerk na outra edição do C6 Fest. Fechou o festival com grandiosidade.
E para você, qual foi o melhor show do C6 Fest 2025?

