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Natasha Durski (Feralkat) homenageia o pai e David Lynch no videoclipe para “Lynchiana”

“Lynchiana” homenageia, ao mesmo tempo, o pai de Natasha e o cineasta David Lynch

O luto é sem dúvidas uma das experiências mais transformadoras da vida de uma pessoa. Lidar com ele nunca é fácil. É o fim de um ciclo repleto de memórias, amor e alegrias envolvendo a pessoa querida que acabamos de perder. Nessa hora, não existe palavra de conforto, gesto ou algo que nos faça lidar com aquilo de uma forma mais leve.

É como se acessássemos instantaneamente um HD de memórias e vivêssemos um filme acelerado onde tudo aquilo poderia durar muito mais. Ao mesmo tempo que temos que lidar com burocracias mundanas, entre outras coisas práticas, em que ligamos o modo (frio) automático para resolver tudo aquilo. Não existe nada como a junção da presença de pessoas especiais ao redor, mesmo que somente a presença (aquela que sentimos tanto a falta) e o tempo para mudar, um pouco, aquele sentimento cinzento. Porque por mais que tentamos, aquela cicatriz sempre estará lá.

É nessas horas que a arte ajuda. Porque falar que cura, talvez seja pretensão demais. Mas esse sentimento precisa se transformar. Nesta quarta-feira (05/06), Natasha Durski lança o simbólico videoclipe para “Lynchiana”, foi durante a produção da canção que ela perdeu o pai.

Além da homenagem ao pai que aparece entre as fotografias apresentadas na produção audiovisual, a data escolhida também traz consigo o dia de um grande anúncio do icônico cineasta David Lynch.

“Em “Lynchiana” eu submergi nas reflexões sobre o tempo, a vida, e a morte, e os caminhos desconhecidos que travamos e constroem nosso passado, presente e futuro. Aconteceu que no final do processo de composição do meu álbum, enquanto ainda produzia essa música, meu pai faleceu – e eu entendi numa outra dimensão as profundidades do entendimento da morte.

Resolvi colocar mais essa camada de sentido na letra, até como uma forma de cura, homenagem e reflexão sobre tudo que senti e ainda venho sentindo a respeito. Nessa música em específico eu me inspirei na cinematografia surreal de David Lynch.

Estava tocando guitarra no meu quarto em um dia da pandemia, e achei que a melodia lembrava o tema de Twin Peaks. A partir daí comecei a refletir sobre a letra, trouxe várias referências a filmes do Lynch e também estudei a música de Angelo Badalamenti, compositor de várias trilhas de seus filmes.

Na parte instrumental, minha ideia era que as diversas camadas da música conversassem sinestesicamente com o ouvinte, como uma trilha sonora.”, comenta Natasha Durski que assina seu projeto solo como Feralkat


Frame do videoclipe de “Lynchiana” – Foto: Reprodução/Youtube

FERALKAT “Lynchiana”

“Lynchiana” compõe o álbum de estreia, Corpo no Mundo // Corpo que Habito, da artista que também é diretora, diretora de fotografia, roteirista, montadora e personagem no videoclipe. Através das inúmeras inspirações apresentadas ao longo da trama, Natasha evoca o trabalho de David Lynch para fazer um passeio pelo seu próprio passado, presente e futuro, sob o contexto da perda do pai.

O surrealismo e epifanias do diretor de filmes e séries como Twin Peaks, que ganhou há 8 anos a terceira temporada na Netflix, aparecem entrelaçados com memórias pessoais da musicista. Ela comenta que buscou “abraçar as memórias e os caminhos impermanentes que a vida nos leva durante nossa passagem pelo planeta.”

Na questão estética, a escolha foi gravar em Super 8, com imagens digitais e fotos de arquivo pessoal e ainda trazer easter eggs de obras do estadunidense. Entre elas “Estrada Perdida”, “Erarserhead”, “Veludo Azul” e “Twin Peaks”.

Ela comenta que o vídeo ainda traz referências sutis a “O Espelho” de Andrei Tarkovsky, “Videodrome” de David Cronenberg e o clipe “All Mine” da banda britânica Portishead, trabalhando também em simbolismos com cores e arquétipos do tarot.

“Fogo caminha comigo – entre estradas, revisito sonhos e delírios. Nessas estradas perdidas, caminho, carregada pelas marés do tempo.”, trecho de Lynchiana

A frase “Fogo caminha comigo” é uma referência direta ao personagem Dale Cooper (Kyle MacLachlan) de Twin Peaks em que no quinto capítulo da primeira temporada é mencionada durante um sonho.

“Eu tenho o meu papel no palco da vida. Digo o que posso para formular a resposta perfeita. Mas esta resposta não pode vir antes que todos estejam prontos para ouvir. Então faço o que posso para formular a resposta perfeita. Às vezes, a raiva que tenho do fogo é evidente. Às vezes não é raiva, de fato. Pode parecer que seja. Mas poderia ser uma pista? O fogo ao qual me refiro, não é um fogo amigável.”

O videoclipe está selecionado para o Curta 8, festival internacional de cinema Super 8 de Curitiba.



Ficha Técnica

Direção, Direção de Fotografia, Roteiro, Montagem e Finalização: Natasha Durski
Operação de Câmera: Carol Winter, Fellipe Dantas, Maju Tohme e Natasha Durski
Assistência de Fotografia: Maria Scroccaro
Direção de Arte, Produção de Objetos e Atuação: Fabi Melatte e Natasha Durski
Assistência Geral: Laura Marafante e Kely Medeiros
VFX: Fellipe Dantas

This post was published on 5 de junho de 2024 10:30 am

Rafael Chioccarello

Editor-Chefe e Fundador do Hits Perdidos.

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