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brvnks revela o lado doce e o amargo do amadurecer em “meet the terrible”

Após lançar Morri de Raiva (2019) pela Sony Music, a goiana brvnks após divulgar no último ano os singles “happy together“, “sei lá (feat. raça)“, “Holy Motors” e “as coisas mudam” finalmente disponibiliza o álbum meet the terrible, desta vez de forma totalmente independente e com a companhia no estúdio dos produtores Gaspar Pini e Gabriel Mielnik. A artista, inclusive, revelou recentemente que a banda base para suas apresentações ao vivo será formada pelos integrantes do Raça.

Com 10 faixas ao todo, o material marca também o início das composições em português dentro do seu repertório. Na narrativa do disco ela deixa de lado os problemas adolescentes e dá luz a reflexões sobre os dilemas da vida adulta, mostrando um pouco do lado doce e amargo desta fase marcada por entendimentos e aceitações das próprias limitações e imperfeições.

Dos amores mal resolvidos, mudanças, conflitos da rotina em uma grande cidade, as crises existencialistas, o material revela um lado ainda mais pop de brvnks que entre as inspirações vai de CSS, passando por The Cranberries, Gus Dapperton e Dayglow.

“O disco todo é um caminho por onde eu to percorrendo pra me entender, a “happy together” ainda to no choque final – aonde ainda to cometendo os mesmos erros – e as coisas mudam já é o começo do acordar aí. “sei lá” vem com um pouco mais de entendimento sobre fazer o que eu preciso fazer, sobre a banda, nossas dúvidas de todo mundo que tá nesse corre, entender que talvez também seu lugar não seja ali, se resolver, e fazer o que for preciso pra seguir em frente.”, conta a artista


brvnks lança seu segundo álbum de estúdio meet the terrible. – Foto Por: Mayã Guimarães

brvnks meet the terrible

O trabalho contou com a masterização do engenheiro de som Joe LaPorta que já trabalhou ao lado de artistas como David Bowie, The Weeknd, Foo Fighters, Vampire Weekend, The Killers, Tiesto, Imagine Dragons, Bon Jovi, Run the Jewels, Armin van Buuren, Young Thug e Beach House. Já a mixagem foi dividida entre Gabriel Mielnik e Gaspar Pini.

Com violão acompanhado de guitarras, baixo, bateria e sintetizadores, “ok, this is hard” abre o disco com tom ameno e confidencial falando sobre as mudanças, amadurecimento, auto-cobrança e aceitação, citando até mesmo as sessões de terapia e o poder de compreensão que só o tempo pode proporcionar.

Já “happy together” é uma faixa delicada, minimalista e olhando para si, com uma energia que certamente faz lembrarmos de discos de contemporâneas como Snail Mail e Soccer Mom, mas com uma luz própria e buscando dialogar com sentimentos profundos. Com violão, leveza mas sem perder o ar indie-pop despojado, ela chama o ouvinte no pé do ouvindo para cantar junto a balada açucarada. Como inspiração a faixa teve o filme homônimo de Wong Kar Wai, de 1997.

Na época do lançamento do single, brvnks disponibilizou também um vídeo colorido e cheio de ilustrações que conta com a direção de Gabriel Rolim.



As Mudanças da Vida Adulta

as coisas mudam” traz consigo o tom de desabafo de se desprender de todos os conflitos e largar o que não faz mais sentido para trás. Um dos reflexos do lado amargo de se tornar adulto e saber que aquele sapato velho que você costumava gostar tanto, não serve mais. No começo pode até doer cortar vínculos mas com o tempo a compreensão que foi para o seu próprio bem acaba, por sua vez, dando lugar para o novo.

A inspiração para a seguinte “holy motors”, inclusive é uma referência direta ao filme homônimo dirigido Leo Carax (2012). O longa conta a história de Oscar que viaja em uma limusine dirigida por Céline, que diz que naquele dia terá nove encontros. A partir deste momento, ele começa seu trabalho: interpretar vários personagens em diversos pontos da cidade: um vagabundo, um pai, um assassino…

Segundo brvnks a letra para a canção traz “a história vem da ideia de perceber o valor da amizade e como ela muda sua rotina, principalmente nas dificuldades da vida adulta onde os afazeres e trabalhos parecem nunca terminar, além das preocupações sociais, como a pressão de se casar e ter filhos.”

Uma balada pop, dançante e cintilante que brinda o poder das amizades e conexões nas batalhas e adversidades do dia-a-dia do vida adulta, traz o ouvinte para o íntimo com boas melodias. A artista goiana cita referências de artistas como Beulah, Department of Eagles e Broken Social Scene.

O material ganhou um videoclipe dirigido por Guilherme Yoshida, tem roteiro assinado pela própria Bruna, edição por Rodrigo Tamassia, produção realizada por Tom Lopes, direção de arte por Amanda Caldas e Pietra Costa como VJ, design gráfico & motion.



O Lado Pop e as Parcerias

O lado mais pop aparece em “cici” com a canção pautada pela linha de baixo, sintetizadores e nas reflexões sobre relacionamentos. Feita para cantarolar e lembrando o dream pop de Morri de Raiva, “meet the terrible”, tem até uma levada despojada meio snail mail indo de encontro com o lado pop do The Cure, colocando em primeiro plano as decepções, as certezas que não gostaria de ter e as preocupações que vão além do nosso próprio inconsciente.

“sei lá” é um feat. bastante simbólico ao lado dos amigos da raça. Anteriormente, inclusive, ela havia participado de uma participação com eles em “Bandidos & Divas“, faixa presente no disco Saúde dos paulistas que saiu pelo selo Balaclava Records.

No campo da temática, brvnks discorre sobre trabalho, música, e entendimento do que fazer pra chegar aonde é preciso no meio aonde se encontra. Já nas referências, a artista aponta como influências diretas grupos como Beulah, Department of Eagles e Broken Social Scene. Popoto entra ao longo da canção para dar peso aos versos de encorajamento para seguir sua caminhada sob novos ares e perspectivas.

Uma das grandes surpresas da canção fica justamente pelo elemento do sopro como adendo em uma faixa cadenciada que traz para o primeiro plano a reflexão sobre o despertar em momentos onde as coisas não estão muito bem. Entre as dúvidas, receios, medos, incertezas e imprevisibilidade de cenários que acabam, por sua vez, tirando muitas noites de sono. A vida se confundindo com a arte e mostrando como fragilidade das relações acaba sendo um ponto chave no momento de se libertar.



O (não) Desfecho

“lado de dentro” abre a última parte do disco com uma letra em tom de autocrítica sobre ter um lado bom e ruim – e ficar de consciência tranquila em relação a isso. As batalhas diárias e o looping que parece que elas acabam se tornando, acabam dando a tônica da faixa calcada em sintetizadores oitentistas.

“i love you charlie” é uma das mais radiofônicas de meet the terrible. Sabe aquela música que poderia ter um clipe gravado dentro de um parque de diversões de shopping com o casal se divertindo nos brinquedos? Por aí que a leveza pop te conduz e te convida a vivenciar as pequenas alegrias da vida adulta de forma leve e despretensiosa. Sem ter que seguir cartas marcadas.

Quem tem a missão de fechar o registro é “sleeping on trial” que também tem essa atmosfera de criar telas e vídeos em nossa mente rebobinando a nossa vida feito uma fita VHS.

Ela tem até uma levada triste que vemos na obra da cantora Phoebe Bridgers e isso pode fazer com que ela cresça para o ouvinte conforme cada nova audição. A tônica das mudanças, e de não conseguir ter controle sobre elas, traz consigo o sentimento de incapacidade de manter as certezas que tínhamos antes de pé.

E agora o que resta é seguir em frente sem olhar para trás.


This post was published on 20 de maio de 2022 10:00 am

Rafael Chioccarello

Editor-Chefe e Fundador do Hits Perdidos.

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