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“O próprio disco todo é muito de sobrevivência” diz Gabriel Thomaz sobre o nono álbum dos Autoramas “Autointitulado”

No dia 27/01 o Autoramas lançou seu nono disco de estúdio, Autointitulado (Independente, Maxilar). O grupo liderado por Gabriel Thomaz contou com a produção musical dividida entre Gabriel, Alê Zastrás e Jairo Fajersztajn. A ideia inicial seria gravar e lançar em 2020 mas devido as circunstâncias em que estamos vivemos os planos tiveram que ser adiados.

Foi daí que o baixista Jairo decidiu montar em sua casa em Itatiba (SP), um estúdio para a gravação do disco, batizado como Estúdio Vegetal. Eles levaram diversos equipamentos, muitos guardados por muitos anos em casa e montaram o novo local que serviu também como uma espécie de “retiro”. Gabriel ficou morando no sítio durante 3 meses onde, pouco a pouco, pode ao lado da banda modelar o disco da maneira como almejavam. Com calma e sem o relógio rodando contra, diferente do que costuma acontecer nas gravações realizadas em estúdios convencionais.

“Lá pudemos tirar o atraso e registrar as ideias. Reunimos todos os nossos equipamentos vintage ou modernos pela primeira vez. E dá-lhe Eko, Farfisa, Mosrite, Ludwig, Giannini, Theremin Óptico EFX, Tremolo MG, Vibratoramas e muito mais.”, lembra Gabriel.

“Depois de tudo ensaiado, chamamos o talentoso Ale Zastras – que já tinha, antes da pandemia, gravado duas músicas que estão no disco e recomeçamos. Érika estava na Chapada Diamantina se recuperando do Covid-19 e gravou suas vozes por lá no Virgun’s Studio.”, completa o guitarrista.


Autoramas lança o nono disco de estúdio, “Autointitulado” – Foto Por: Gilbert Spaceh

Entrevista: Gabriel Thomaz (Autoramas)

Conversamos por zoom por um pouco mais de uma hora com o vocalista Gabriel Thomaz que contou diversas curiosidades sobre os Autoramas, selo Maxilar, pode falar mais sobre a pandemia, política entre outros assuntos espinhosos da indústria da música.

No ano passado foi relançado o EP ““Vai Thomaz no Acajú!” teu em parceria com o Móveis Coloniais de Acaju. Como foi isso? Sabe se existe alguma chance deles voltarem?

Gabriel Thomaz: “Tem uns 15 anos que lançamos este material, é de 2007. E saiu em vinil. Eu tinha um selo chamado Gravadora Discos, aí a gente lançou um do Daniel Beleza, que vou pôr nos streamings, o do Lafayette & Os Tremendões, e esse Vai Thomaz no Acajú, eu com o Móveis. Eles são meus conterrâneos, quando o Móveis estourou eles me chamaram para fazer uma entrevista em uma coisa ancestral a um podcast (ou uma coisa assim) que eles tinham.

Aí quando eu fui lá conhecer eles, eu reconheci todos, eram todos fãs do Little Quail, eu reconheci todos dos shows, eu em cima do palco e eles do público. Aí ficou de de fazer alguma coisa juntos. Aí gravamos isso, um compacto com clássicos do rock de Brasília e foi muito legal. Esgotou em um mês o disco, foi rapidão, eles tavam em uma fase muito boa deles e vendeu bem rápido. Aí isso não tinha no streaming, com o selo (Maxilar), eu montei isso aí e coloquei lá.

Vamos lançar vários registros raros pelo selo. Um que nunca foi lançado é o primeiro disco do Defalla. Eles sempre na pilha de mudar de fase, quando eles tavam para assinar já mudaram de fase, de novo, ao invés de lançar o que tava feito decidiram lançar outra coisa. Tem um álbum perdido do Defalla, que é o álbum dark do Defalla, é um disco post-punk de 1986. O primeiro álbum oficial é de 1987.

Vai ter várias outras coisas e várias outras banda que eu tô ajeitando de lançar, sabe? Então vamos ver. Tem muita coisa para lançar no Maxilar, muita coisa boa. O Vai Thomaz no Acajú já foi nesse clima, e achei que ficou bem legal, a galera reclamava para caramba porque nunca tem, e agora tá lá.

Sobre a banda, não voltaram não.”

Esse resgate é muito importante. Até lembro do pessoal que fazia um blog de Demos….

Gabriel Thomaz: “O meu livro mesmo o Magnéticos 90 mesmo é sobre isso. Tem até o blog que é muito completo, o Demo-tapes Brasil, os anos 90 tá tudo ali, é muito bom. Ele é um cara que gostava de todos os gêneros e desenvolvia. Então tem muita coisa do metal extremo, isso que eu nunca entrei muito. O dele é completo além do que eu conheço, é muito bom. Tem monte de coisa sinistra (risos).”

E tem também muito isso de discos gravados e não lançados….

Gabriel Thomaz: “Como é o caso do Defalla….isso aconteceu muito da virada dos anos 80 para os anos 90. Discos gravados e não lançados. Me mandaram um disco não lançado do Cascavelletes, vamos ver se eu consigo lançar isso aí, eu não sei, porque me falaram que os caras são brigados, coisa de direito, é complicado de fazer. Por isso que ninguém fez, ninguém lançou ainda. Mas vamos ver, tem muita coisa assim que rola. É muito bom. E para gente que gosta de rock brasileiro, essas curiosidades todas, isso é maravilhoso.”

Vocês lançaram o disco agora no fim de janeiro mas ele foi disponibilizado aos poucos ao longo dos últimos meses dentro de uma estratégia focada em múltiplos singles….sobrando praticamente 2 faixas inéditas no momento do lançamento completo. Como isso foi orquestrado e como observam o impacto dessas ações com os fãs?

Gabriel Thomaz: “Essa coisa toda do digital é algo que estamos aprendendo a fazer. As pessoas que nos ensinavam as coisas do digital sempre falaram sobre lançar as coisas boas, os singles, antes de lançar o álbum. Mas cara assim, as nossas coisas boas, eu acho todas (risos). Eu acho que tudo poderia ser single. E aí a gente resolver fazer assim.

E isso era interessante porque a gente não sabia quando ia acabar a pandemia, e a gente ia soltando aos poucos o material, mantendo nossa presença na vida das pessoas, nas redes, e tal, sabe, e deu muito certo, foi bem legal. E agora sai o álbum, com mais um single, “No Dope”, que era uma música que gente estava guardando porque é uma música que a gente gosta muito. Se fosse só um single, seria ela. Além dessa tem outra, “Erupto”, que era inédita até o lançamento do disco. Vai ser o próximo single.”



Sinto que é um disco particularmente intenso para vocês em diversos aspectos visto de como a pandemia afetou não somente o cotidiano, a sociabilidade e a vida profissional mas também por tudo que passaram com a experiência pessoal. A partir de que momento decidiram ir para Itatiba gravar o disco?

Acabou servindo meio como um retiro para expurgar tudo o que estavam sentindo? Como foi o processo de imersão, construção do estúdio, equipamentos que levaram e a concepção do disco?

Gabriel Thomaz: “É uma loucura o problema todo que estamos vivendo. É a primeira vez que estamos lançando um disco sem ter uma baita turnê junto para ir divulgar. A gente achou que ia rolar mas aí a coisa não anda. Sempre essa coisa de nova variante. Mas vambora, vamos encarando.

O próprio disco é todo, é muito de sobrevivência, tudo que a gente fez foi na pandemia, aconteceu muita coisa na nossa vida pessoal. A gente tentando se ajeitar como ser humano, como gente. Por outro lado tivemos coisas muito boas para desfrutar. Como por exemplo o estúdio do Jairo, na casa dele. Então tava sempre a disposição, durante uns 3 meses eu fiquei dormindo lá e gravando coisas diariamente, pouco a pouco. Isso tudo facilitou para o resultado final do álbum rolasse. Porque as músicas todas estavam feitas, ensaiadas, tudo certo. O negócio era conseguir com todos os protocolos, e coisa e tal, de fazer isso rolar. Aí finalmente ficou pronto. As músicas realmente estão prontas tem muito tempo.

Nosso plano um pouco antes da pandemia era gravar de 4 em 4, tanto que as primeiras 4 viraram um EP que foi lançado lá fora. Um compacto, um epzinho. E duas delas tão no álbum, uma delas era inclusive uma regravação de “Carinha Triste”, do Stress e Depressão, primeiro do Autoramas que tava fazendo 20 anos, e a gente queria fazer tipo uma comemoração. E não rolou, não tinha como fazer. Não tinha clima, não tinha astral, não tinha nada para fazer isso, não era hora de comemorar nada. E acabou entrar nesse EP que saiu só lá fora, teve essa serventia mas a gente teve que se ajeitar. E estamos aí, para mim é uma super vitória soltar esse disco.

Cada um de nós temos muitos equipamentos, alguns muito valiosos, vintages, coisas dos anos 60. O Fábio tem umas bateras mais preciosas, eu tenho as coisas todas, os efeitos, as paradas de gravação, amplificadores, as guitarras. Só que a gente sempre usou outros estúdios. Um pouquinho antes da pandemia a gente gravou 4 músicas e o Jairo não tava morando lá ainda, ele tava morando em São Paulo. E ele viu o espaço lá, montamos tudo e começamos a gravar lá. Foi maravilhoso, juntamos os melhores equipamento e deu certo. Gravamos 4 primeiras músicas.

Daí veio a pandemia eu e a Érika fomos para a Bahia, para fugir da loucura toda que estava por aqui. E o Jairo também viu que era melhor sair de São Paulo e ir para Itatiba (SP). Aí monte de coisa aconteceu. Acabou que eu fui internado, fui entubado, quase morri. A gente voltou da Bahia para fazer um programa da Record, Canta Comigo, como jurado e acabou que nesse tempo eu peguei a COVID-19. Aí depois disso eu acabei ficando em Itatiba gravando o disco e a Érika acabou voltou para lá e ela gravou as coisas dela de lá.

Foi isso que rolou, o Jairo já morando lá, totalmente instalado. Ele teve a ideia de fazer o estúdio para ficar totalmente independente. A gravação resultou num compacto acabou dando a ideia de fazer um estúdio e o estúdio tá prontinho. Fora a lista de equipamentos sensacionais que estão lá para serem usados. É até engraçado porque muitas vezes temos equipamentos animalescos e ficam parados em casa, assim sabe, agora tá tudo sendo usado, maravilhosamente, isso é muito bom.”

Foi a primeira vez que não gravaram num estúdio tradicional? Conseguiram gravar com calma sem o relógio estando contra? Foi diferente esse processo?

Gabriel Thomaz: “Foi algo inédito e diferente. Tinha vezes que falávamos amanhã a gente continua. Ia relaxar, jantar, e no outro dia ia dormir pensando, e chegava no dia seguinte com a solução toda certinha sem ficar batendo cabeça. Já chegava lá, já fazia, que bom que tivemos tempo de fazer isso, eu tava dormindo dentro do estúdio mesmo. Então foi uma imersão. E a cada ideia que vinha, íamos voltávamos na música e colocava mais alguma coisa. Maravilhoso poder fazer isso. Ao mesmo tempo ensaiamos muito, a Érika veio várias vezes para cá e a gente ensaiava e gravava tudo junto. Um astral muito bom, de gravar.

Uma coisa é o seguinte, eu sempre achei que os discos do Autoramas, os primeiros principalmente, não captavam a energia dos nossos shows. Que sempre todo mundo falou que era o nosso forte e tal. Agradeço super o elogio e fico muito feliz mas não ter essa energia no disco me frustrava. A gente fazendo a coisa bem orgânica do jeito que estamos tocando ao vivo é outra coisa. É outra parada. O resultado desse álbum para mim é o melhor de toda a nossa carreira, é o mais fiel do que é o ao vivo, estão todas as coisas ali. E é um barato poder fazer isso, poder fazer nessa tranquilidade e chegar no resultado que a gente quer.

Como você falou na pergunta, o taxímetro que está ligado quando você está pagando em um estúdio que não é o seu. Se você chega 10 minutos atrasado, são 10 minutos a menos que você já pagou e não usou. Gravando como a gente fez é muito diferente mesmo.”

Nas letras até relatam os vícios, o escapismo, o estresse, o tédio e outros sentimentos dúbios. Foi tudo muito à flor da pele, comente mais sobre as composições e o que estava vivenciando no momento de algumas tracks.

Gabriel Thomaz: “O “Estupefaciante”, por exemplo, teve um momento que durante a pandemia trancado casa que eu comecei a beber loucamente. Me veio a frase na mesma hora e dela veio a música inteira “A vida fica dura sem amaciante”. Eu não tava aguentando tinha que cair no álcool. É tipo isso, dentro de casa sem falar com ninguém. Tem várias coisas. Eu adoro a letra de “No Dope”, parceria minha com um amigo meu lá de Brasília. Ricardo Mendes, ele tinha uma banda nos anos 90 muito famosa localmente e o apelido dele é Da Mala. Isso que é uma loucura, a pandemia me reaproximou de muita gente. Teve muita gente que a gente teve que mandar embora da nossa vida, nesse governo Bozo, mas teve muita gente com que me reaproximei, e ele foi um deles.

Aí rolou falando sobre estar fazendo o repertório do novo álbum do Autoramas, pintou essa ideia e rolou. O negócio é esse, uma relação de vícios. A parada é essa a música fala de vícios mas sem ser de um jeito “lição de moral”. É engraçado a gente tá vivendo a época da lição de moral, chato pra c…você não gosta de uma música “nossa que absurdo”, ganha uma lição de moral. Aí as pessoas falam altos preconceitos e acham que estão no direito da lição de moral. A música fala de uma outra maneira, que é isso aí meu, você gosta de andar pelado, seu vício é ir ao supermercado ou é tomar café, sabe, o negócio é todos os vícios. “O que te conforta também vicia, me diz o que é que te sacia”, essa eu acho muito legal.

Outra que também é muito boa “Nóias Normais”, que também trata da gente estar muito doido com a vida difícil de administrar a própria cabeça e as pessoas dando lição de moral, e a lição de moral. E a música fala “bicho, são nóias normais” (risos). O que é legal é que tudo isso tá dentro do estilo do Autoramas, tá dentro do que a gente propôs desde o início. Desde o Stress, Depressão e Síndrome do Pânico essa que é a parada, tem tudo isso aí, então é gostoso.

A gente é uma banda com temas muito humanos, sempre foi, seja falando de uma raiva ou de estar apaixonado, a gente sempre teve isso. A “Estupefaciante”, uma letra sobre escapismo, “Nóias Normais” sobre todo mundo ter as suas loucuras, “No Dope” sobre os vícios que a gente tem. Tem “A Cara do Brasil” falando sobre a nossa situação atual, “Sem Tempo” sobre o stress do dia-a-dia. Mas assim, a gente também vai sempre tentando manter um determinado senso de humor. Sabe? Você vê “Nóias Normais” parece ser uma música super alegre mas na real é um sentimento libertário. “É isso aí gente, a gente é doido mesmo, vamos festejar”.

Podemos considerar o disco mais politizado dos Autoramas nesses 24 anos? Quão necessário vem isso nesse ano de eleições, indefinições e o calor da rua? A partir de que momento decidiram chamar o Rodrigo para participar de duas faixas e como rolou isso?

Gabriel Thomaz: “O Rodrigo durante as madrugadas da pandemia a gente conversava sobre muitos assuntos no whatsapp e tal, isso ainda em 2020. Somos amigos desde os anos 90 e a gente se encontrou na estrada, nas turnês e nos camarins. Tava tendo aquele Festival In-Edit e a gente viu um documentário sobre o Punk de Washington (Salad Days: A Decade Of Punk In Washington, DC (1980-90) · 2015″).

Aí a gente comentou como aquelas músicas de 1 minuto eram boas demais. A gente foi lembrando como a gente começou a tocar, o punk e a maneira ultra simples de tocar, e de compor, e músicas que se tiver um minuto é que tá bom. Isso deu coragem para a gente ter uma carreira musical. Cada um evoluiu para um lado só que isso é a raíz. Foi isso que fez a gente dar um estalo pra montar uma banda.

É tão bom música de 1 minuto, falei “Pô Rodrigo você não tem umas letrinhas aí não? eu faço isso com maior facilidade”. Aí ele me mandou uma e eu mandei outra. Ele me mandou “Sem Tempo” e eu fiz “A Cara do Brasil”, essa segunda é toda minha. Resolvemos que assim que desse gravar esses dois singles, acabou que a gente acabou gravando mais um. Chama “Troglomitosbro…”, o nome é difícil para caramba, eu chamo de “Troglomitos”. Que é uma letra do Álvaro que tava fazendo as letras do Dead Fish que ele é super amigo meu, ele era fãzão do Little Quail lá em Brasília, e os caminhos acabam vão se cruzando novamente. Álvaro Dutra, ele tá em São Paulo agora, aí ele acabou me entregando uma outra letra que a gente musicou e vai sair depois do álbum. Essas duas músicas eram para sair como singles soltos mas deu tão certo que todo mundo pressionou para estarem dentro do disco. Não eram para estar nesse álbum, eram outro projeto. Só que combinou, rolou, todo mundo falou e falei então vamos colocar. E vai ser maravilhoso, as pessoas podem ter em vinil, em CD, em K7. Isso tudo vai sair, um a um.

Esse lance do tema político. A gente já teve outras letras com tema político mas eu acho que a gente fazia de forma mais sutil. Por exemplo, a música “Tudo Bem”, do Música Crocante, é uma letra que fala sobre político, só que de uma maneira muito sutil. Eu até pensei em fazer de uma maneira que as pessoas poderiam interpretar de um outro jeito. E era mais sutil, era uma época diferente e tal. Hoje toda nossa influência punk e não sei o que, tem que ser direta, não tem sutileza. Não é hora para sutileza, entendeu? Então a parada é essa.

“Autodestruição” é outra assim que é mais sutil, tem várias outras. E tem gente que nem percebe que é sobre isso mas tá ali. Fora isso o Autoramas sempre escreveu sobre essas coisas humanas, a honestidade, a lealdade, que são coisas que estão completamente fora do nosso governo e do que a gente tá vivendo, então talvez se encaixe, mas essas realmente não sejam tão diretas. Agora o momento é esse, não é momento para sutilezas, é para ser mais direto mesmo. Então o resultado é esse.”



Ainda falando de política, como imagina que será o cenário da guerra nas redes sociais e a disseminação de fake news em 2022? Sente que mais amizades serão ceifadas? Como foi para vocês se distanciar de velhos amigos que abraçaram o bolsonarismo?

Gabriel Thomaz: “Sabe o que eu acho mais louco é que tem gente que tava do lado que foi eleito e que trocou de lado. E que cara eu não consigo confiar nessa galera. Parece que é sempre um oportunismo, tem artista inclusive, e artista famosa que ela e o irmão dela tavam fazendo puta campanha para esse governo aí e agora tá aí dizendo que é ícone da esquerda…e eu não consigo confiar nisso.

Para mim já tá rolando isso, para mim soa como “agente infiltrado”, sabe? E o que eu vejo que as pessoas caem. Tem canal de youtube de gente que trabalhou a vida inteira do outro lado que agora tá se dizendo que tá desse lado. Isso para mim soa “agente infiltrado” total. Mas vamo aí e o povo cai. Eu não sei qual a intenção se a intenção é verdadeira e tal. Isso para mim mostra que a nova guerra já começou. O negócio é esse, eu acho que é a chance de reverter a situação toda. A gente tem que dar mais valor a quem sempre esteve do lado certo. É isso. Eu vejo é isso, gente que mudou de lado e que posar de ícone do lado certo, eu acho isso muito estranho. E as pessoas acreditarem nisso. Se alguma das pessoas que se afastou de mim por isso, se arrependeu, eu não fiquei sabendo ainda porque ninguém veio bater na minha porta não.”

O disco tem até crítica ao Algoritmo das redes sociais que acaba desencadeando também como uma crítica ao artista ter da noite pro dia virar produtor de conteúdo. Como observa que isso e o jabá 3.0 atrapalham o descobrimento de novas bandas e como a experiência com o selo tem sido um meio para quebrar esse obstáculo moderno?

Gabriel Thomaz: “Essa música “O Ritmo do Algoritmo” eu fiz após muitas reuniões aí com as pessoas que entendem do lance e tal. Uma coisa que tenho que admitir que é o seguinte, eu não tinha muito tempo para estudar muito isso, eu sabia que a gente era muito aquém nesse quesito. E cara, eu tô aprendendo, segundo os especialistas eles falaram que eu já aprendi já quase tudo (risos). Essa coisa do algoritmo é uma coisa muito louca. Sabe qual a maior luta do Autoramas? Que as pessoas procurem o Autoramas e que apareça as nossas coisas novas, a formação atual. A nossa maior luta é contra o Autoramas antigo. O algoritmo só joga as coisas antigas nossas, não vou dizer que isso me incomoda mas pro meu objetivo é que as pessoas tenham a mão as coisas novas. Eu imagino que todas as bandas que tenham 20 anos passam por isso e que as bandas de hoje quando tiverem 20 anos também vão passar por isso mas eu estou tentando lutar contra isso. Esse é um problema sério.

Me ensinaram a fazer as coisas de maneira orgânica e eu faço isso assim. Vamos fazendo na honestidade mas mesmo assim eu já consegui mudar algumas coisas. Eu não tinha tempo de fazer todas as coisas do Autoramas. A nossa distribuidora digital, a Ditto, eles até me cobravam de que não tinha todo nosso material lá. Durante a pandemia eu consegui organizar tudo, e foram 1 ano e oito meses de trabalho, pra conseguir organizar tudo. Eu fiz os B-Sides e Extras, volume 1 e 2, ainda vou lançar o 3, descobri mais 10 músicas nossas que não tavam nas plataformas, vou fazer isso, lançar depois do álbum, é claro. São muitas coisas que eu aprendi com essa coisa do algoritmo. Não é uma crítica ao algoritmo, estou falando sobre isso. Criticar um robô eu não sei que resultado eu vou ter.

Eu tô tentando entender aprender coisa do selo, o convite/acordo para fazer o selo veio de que eles já estavam seguros de que eu tava sabendo fazer, finalmente. Em relação ao Autoramas tem uma coisa muito louca que é o seguinte, muita gente trabalha com profissionais da área que com certeza sabe um bilhão de coisas a mais do que eu mas tem muita coisa que eu preciso estar lá fazendo. Preciso tá dando opinião, falando pra que é, qual é a parada, pra que lado tem que ir. Eu falo eu parece que é o ego, mas digo, as pessoas da banda tem que estar lá presentes para falar, o Autoramas tem sempre essa coisa muito criativa que tem um conceito definido. Por isso eu estando ali, beleza, já é alguém da banda fazendo, e a coisa do selo eu tô usando essas experiência recém adquirida para tentar ajudar outros artistas. Eu vejo muitos artistas perdidos por aí, assim como eu tava, então vamos juntos de mão dada com o algoritmo.

Jabá não é a minha área. Eu não sei como faz isso. Talvez a gente tenha ficado atrás até por isso, por não fazer essas coisas. Mas assim, eu prefiro ir no orgânico mesmo, bro, eu deito a cabeça no travesseiro…outro dia eu vi uma entrevista duma ex-empresária de uma artista com um cara que eu conheço que faz entrevistas no youtube que tem um estúdio lá no Rio, e os dois falando sobre jabá como se fosse uma coisa completamente normal, corriqueira, usual, pô, é crime cara, eu fico bem assustado com essas coisas, aí. Sem querer dar lição de moral mas cara, eu não sei, é estranho para cacete isso para mim. Que isso sempre existiu, sempre existiu, o tráfico de drogas proibido sempre existiu? sempre existiu. Mas isso tudo é proibido, é crime. E aí eu vejo as pessoas falando disso com a maior naturalidade. A mina falando rindo dizendo que ela paga menos jabá que o sertanejo.

Eu acho que é muita cara de pau, cara, assim, é engraçado, eu vou mais fundo nessa coisa. Cara eu sou um cara que começou a tocar ouvindo punk rock, o Man Or Astroman?, o Cramps, etc e tal, a gente vai destacando no mundo da música e vai entrando ali. Eu sempre tive muita presença na MTV, na televisão, toca no rádio e as pessoas começam a te cobrar um comportamento da indústria da música. E a indústria da música é totalmente corrupta, é totalmente podre. Saca? Esse mundo desses artistas que usam dessa estratégia de pagar para o outro não tocar, eu não faço parte disso não. O meu mundo da música é outro mundo da música. Esse mundo da música aí é podre, é claro que se atingir um dia um nível de popularidade igual eles tem, no dia que eu atingir, se eu atingir, eu vou ficar muito orgulhoso e muito feliz, e vou segurar isso com unhas e dentes, o negócio que fazer desse jeito aí, eu não vou fazer não. Mas não vou mesmo. Eu não faço parte disso e se eu fizesse parte eu não deitaria a minha cabeça no travesseiro e dormiria tranquilo. Isso tudo é muito escroto, saca? Isso é lamentável, eu não quero entrar nisso não.”



No campo de referências sonoras, o que sentem que trouxeram de novo em relação aos trabalhos anteriores? E o que quiseram resgatar de pérolas antigas que acabaram influenciando direta ou indiretamente? Ele soa mais sujo na estética…

Gabriel Thomaz: “Desde o disco O Futuro dos Autoramas a gente tem a preocupação em passar pro disco a energia do que a gente tem de melhor, o ao vivo. Os nossos primeiros discos eu ficava muito frustrado porque eles eram muito limpos demais. Tinha uma produção, uma padronização em relação a outros discos, a outros artistas, que não era o nosso, sabe? E assim, era muito limpinho demais.

Eu sempre achei que faltava algo mais real que era o lance o ao vivo e eu sempre busquei fazer isso. Tem uma coisa que é o seguinte, o Autoramas sempre prezou em manter a nossa fórmula, do baixo com distorção, guitarra com efeito, as baterias, o rock para dançar, sabe? O nosso tipo de letra, os nossos temas das letras, e parece que isso é uma coisa fácil de seguir o fluxo mas não é.

A gente vai recebendo influências de todos os lados, tem sempre coisas novas, a gente vai fazer uma viagem, vê tantos shows, faz não sei o que, assimila outras ideias…eu acho que a gente consegue nesse disco, a gente assimilar muita coisa nova, que a gente nunca tinha usado e ao mesmo tempo manter o nosso estilo, as características, a assinatura do Autoramas. Eu acho isso muito importante, sabe?

Hoje em dia a gente vê os artistas correndo atrás das tendências, isso não é arte, isso é querer se encaixar nas coisinhas. Eu chamo isso de operação plástica musical. Você nasceu com um nariz tal mas todo mundo tem o nariz de um outro jeito, e aí você faz uma operação plástica para ficar com aquele nariz. Tem artista que nunca fez determinado gênero, aí ele começa a ser a tendência e aí a mina vai lá e adota o determinado gênero, sabe? (risos). É claro que cada um faz o que quer faz a besteira que quiser da vida mas o negócio no caso do Autoramas a gente preza muito por isso, em ter um estilo. Cara isso é uma coisa que eu admiro desde que eu sou moleque, a assinatura de cada artista. Como se reconhece cada artista, você ouve 3 segundos uma música e você reconhece, “isso é tal artista, isso é tal músico” e eu acho que o Autoramas tem isso. E tem coisa sim que a gente coloca de novo e tal. Muitas vezes a gente nem pode denominar isso como “eu quis fazer isso para tal gênero” são efeitos novos, são texturas novas, são maneiras de construir a música, formatos e tal…

Eu tenho uma coisa também que é o seguinte, uma grande diferença nesse disco. Eu fui entubado e sai de lá com a voz mais grave. Eu sempre achei que a minha voz era muito esganiçada e eu tentei tirar isso. O Alê (Zastras) tava gravando comigo e falou: “tua voz tá diferente, tá mais grave”. Eu falei é eu tinha sentido isso, depois que sai do hospital, parece que apertou um botãozinho, que a voz melhorou. E isso acho que parece muito nítido na gravação, para quem conhece o Autoramas, cara, acho que as vozes nunca foram tão boas. E também com a Érika que é uma cantora impecável aí o negócio fica bom.”

Como grande entusiasta das bolachas, o disco não poderia ser lançado sem um vinil. O que pode adiantar para os fãs? Conte mais sobre o projeto gráfico, se vai ser colorido e o que podemos esperar.

Gabriel Thomaz: “O projeto gráfico quem fez foi o Gustavo Cruzeiro que já tinha trabalhado com a gente. Ele, inclusive, quando eu e a Érika pegamos COVID-19 ele fez uma ilustração como se fosse uma capa de uma revista em quadrinhos, de eu e a Érika vencendo o monstro do COVID-19 assim sabe como se fosse quadrinhos dos anos 60 – e foi daí que veio a ideia de convidar ele para fazer. Que é mais ou menos no mesmo conceito dessa ilustração, como se a gente fosse uns super heróis, e cara as cores e as coisas toda, da pintura, é bem a cara do Autoramas, do jeitinho que a gente gosta. E tipo assim o projeto gráfico, do vinil, do CD, do K7 tá todo lindo porque no digital só vai a parte da frente, a capa da frente.

O restante do material tá tudo lindaço, a edição brasileira do LP vai ser gatefold, vai ser aquele que abre como se fosse um álbum duplo, o CD também vai ficar lindão, o K7, nossa, é o xodózinho, então, tudo isso tá bem legal. A gente tá vivendo também com a pandemia uma crise nas fábricas de vinil então tá demorando muito vai chegando muito aos poucos (o acetato) eles estão tentando administrar isso. A gente vai soltar a pré-venda do LP no começo de fevereiro, depois vai ter do CD e depois do K7.

Antigamente a gente lançava tudo simultaneamente, o vinil, o CD, o K7, o digital. Agora a gente tá fazendo tudo pouco a pouco, a gente lança uma música, depois a outra, aí vem o álbum, primeiro o digital, depois o LP, depois o CD, depois o K7. Então a gente vai fazendo isso, tem muita gente com medo “ué vocês não vão lançar no formato físico?” Vai sim meu querido, deixa rolar. É um lançamento a cada duas semanas, sempre é lançamento. Eu queria fazer uma festa para cada lançamento desses. Quando as coisas tiveram mais soltas aí eu vou querer fazer um monte de festas das bandas do Maxilar, das coisas dos Autoramas.”



Como você vê esse momento de super valorização dos CDs e LPs no comércio digital?

Gabriel Thomaz: “Essa coisa dos preços é uma coisa muito louca, acho que tem tudo muito a ver com a pandemia também. Os gringos põe os preços nas coisas porque eles se interessam por muitas coisas brasileiras, e aí a galera põe lá no alto para o gringo comprar. E agora o correio tá caríssimo então tem que colocar tudo no preço. Às vezes o melhor é não vender mesmo. Põe um preço altíssimo que é melhor não vender. Em relação ao CD, eu tinha uma lojinha no Discogs que eu fechei. Começou a me dar muito problema com negócio do correio, eu tive que devolver várias vendas e eu fechei.

A gente vai lançar CD, o Caetano Veloso lançou disco e não saiu CD no Brasil. A Marisa Monte lançou um álbum e no Brasil não tem um CD. O brasileiro tem que comprar um disco importado de um artista brasileiro, eu nunca vi isso. Eu vivi uma época que era difícil comprar um disco importado de artistas ingleses, europeus ou americanos, sei lá, e que isso sim era caro, o dólar era caro e tal. Me parecia justificável. Eu acho que quem manda no mundo da música não gosta de música, não gosta de CD, não gosta de disco, não gosta de nada, só gosta é de dinheiro. Não tem isso, sabe? O lançamento de um CD é motivo para uma festa, é motivo para uma comemoração. A gente viu isso com as infindáveis do “vinil”, não conseguiram destruir o formato mais legal que tem. Tentaram, não conseguiram, tentaram muitas vezes, não conseguiram, o negócio é esse. A gente vai indo e fazendo as coisas para quem gosta.

Você vê, as revistas de música acabaram, não tem mais uma revista de música, no mundo inteiro tem e no Brasil não tem. Na Argentina tem, você passa na banca e tem um monte de revista. Quiseram destruir a parada, porque, porque a música popular é uma música de quem não gosta de ler sobre música, mas fazer o quê? Aí tem essa coisa, não tem nada. Tem tudo mas não tem nada. Tá tudo lá mas todo mundo tem preguiça de ver porque segundo alguns tem que ter um filtro de alguém para ver o que é. Pô meu velho, a pessoa se convenceu a si própria de que ela tem que ser obediente a uma padronização. É inacreditável. Na hora que o lance é totalmente livre a pessoa se decide ser obediente. O ser humano é muito louco.

As pessoas sempre me perguntam “Gabriel como é que eu vou saber quais são as bandas novas de rock no Brasil?” Eu falo “você vai no google e escreve bandas novas de rock Brasil”. Pô velho, não dá para acreditar. Porque matéria você faz, não sei quem lá mais faz, seu site é maravilhoso, você engloba ali tudo, é só querer, vai lá, e escolhe pelo nome, pelo nome mais engraçado, nem isso a pessoa quer. É difícil.”

O próprio nome do disco brinca com autointitulado, como surgiu essa brincadeira?

Gabriel Thomaz: “Eu não sei como eu não pensei nisso antes. Pô! Sério! Qual o título perfeito de um disco dos Autoramas, o título é Autointitulado, ora pipocas! Na hora que me veio isso na cabeça, eu falei “cara é o nosso nono álbum, só agora eu tive essa ideia”. Eu devia estar desconcentrado, devia estar pensando em outra coisa, em dinheiro, em amor.”

Depois dos Autoramas em Interlagos….

Gabriel Thomaz: “Cê tá vendo como eu tô mais sagaz ultimamente!”

Como sente que vai ser o reencontro nos festivais médios e grandes quando isso for possível?

Gabriel Thomaz: “Eu vou entrar destruindo no palco, velho. Tô louco. Além disso tudo, encontro com o público, os camarins são sempre hilários, são festas nos backstages, a galera das bandas, do mundo da música, todo mundo se divertindo, e fazendo, e tomando uma cerveja, se confraternizando e tal. Aliás essa frase já destrói uma outra frase que tem você já viu um negócio que as pessoas falam assim “Aí o rock não é igual ao sertanejo porque os sertanejos são unidos e o rock não”. Quem fala isso nunca foi a um backstage de festival (risos), é tipo isso, é mais um absurdo que se fala. Mais uma fake news. Quem que será que planta isso?

Quem joga isso no grupo de Whatsapp? E você vê que as pessoas acreditam e repetem isso, é inacreditável. Quem fala isso nunca foi a um hotel com 8 bandas hospedadas no mesmo hotel. Mermão, é um no quarto do outro, um dormindo no quarto do outro, na cama do outro. Tomando café da manhã juntinhos, tão fofinhos, um lá de Recife, o outro de Porto Alegre, tão lindinhos se abraçando, um elogiando o trabalho do outro. Neguinho nunca viu isso. Quem fala isso é porque é muito virjão. Mas é isso, eu tô louco de saudade disso.

Eu tenho saudade até do embarque do aeroporto, da fila do check-in. Que fila linda desse check-in maravilhoso da LATAM gente. Eu vou chegar assim no aeroporto. Que maravilha esse caos aéreo, eu amo a INFRAERO. Eu vou chegar explodindo, vai ser foda, vai ser lindo.”


This post was published on 3 de fevereiro de 2022 11:00 am

Rafael Chioccarello

Editor-Chefe e Fundador do Hits Perdidos.

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