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As Ondas Sísmicas de Gabriel Bernini: Conheça seu trabalho em entrevista exclusiva

Após o sucesso de uma iniciativa de crowdfunding Gabriel Bernini lançou o livro “Ondas Sísmicas: 90 Discos de Cantoras Brasileiras do Século XXI”

Nos últimos anos, o mercado do vinil sentiu sua chama aquecendo novamente. Fato esse que se amplificou em tempos de isolamento social. Pouco a pouco, o que sempre foi nicho, tornou-se ainda mais específico. Grupos de vinil com membros intolerantes e preconceituosos, desvalorização do real, demissões em massa e apenas 2 fábricas atuantes no Brasil para suprir uma demanda enorme. Neste cenário que o paranaense Gabriel Bernini – jornalista, pesquisador musical e colecionador de vinis, buscou seu espaço seguro para debate em torno da MPB atual e da troca e venda de vinil.

Além de criar o grupo Amigues do Vinil no Facebook – a primeira comunidade inclusiva para colecionadores de vinil LGBTQIA+ no Brasil -, também lançou seu primeiro livro. “Ondas Sísmicas: 90 Discos de Cantoras Brasileiras do Século XXI” pela editora paranaense Barbante, em forma de financiamento coletivo. Livro inspirado em sua própria pesquisa e coleção de vinis voltado a artistas femininas.


Gabriel Bernini, autor do livro As Ondas Sísmicas – Foto: Acervo Pessoal

Mais além, Gabriel também fundou o podcast Amigues do Vinil que recebe artistas, donos de lojas e colecionadores. Entre tantos projetos ainda fundou seu próprio selo que leva o mesmo nome, já lançando LP de artistas como Flavia k e Fernanda Branco Polse.

Entrevista: Gabriel Bernini autor do livro “Ondas Sísmicas: 90 Discos de Cantoras Brasileiras do Século XXI”

Conversamos com Gabriel para conhecer melhor todos seus projetos, paixão pelo vinil, mercado e futuro.

Em 2020 você criou a comunidade Amigues do Vinil no Facebook. Como surgiu a ideia de um novo grupo voltado ao vinil? Quando começou sua paixão pelo vinil?

Gabriel Bernini: “Eu sou colecionador desde 2011 – ou seja, desde os 13 anos. Comecei pelo tropicalismo, pois me excitava muito ter em mãos discos altamente políticos e que inclusive trouxeram riscos aos seus criadores. Mais tarde tive algumas oportunidades de viajar para os Estados Unidos e para o Japão, e lá comprei bastante coisa internacional. Mas em 2015, compro “Ava Patrya Yndia Yracema”, da Ava Rocha, na Livraria Cultura (que infelizmente faliu, sequelas da pandemia que jamais serão superadas); ali começa uma revolução na minha cabeça, na minha pesquisa, na minha estante e na minha pick-up, direcionando meu consumo quase que exclusivamente pro Brasil.

O Amigues do Vinil surgiu após esses (na época quase) 10 anos de colecionismo, fazendo parte de grupos de vinil no Facebook e sofrendo desvalorização – tanto eu como, principalmente, as artistas que eu gostava. Eu criei o grupo mais especificamente em setembro de 2020, quando me chamaram de “biba” num grupo maior e o administrador não fez nada pra me proteger. Era muito comum que mulheres lésbicas de aparência não-binária fossem tratadas no masculino, em tom de deboche, enquanto muitas discussões sobre racismo/black music eram desdenhadas. Se ninguém quis me proteger, eu aceito assumir o papel de criar um refúgio para proteger meus semelhantes. Fico feliz que, em mais de 1 ano de grupo, nunca precisei intervir quando pensamos em sexismo, homofobia, racismo, etc. Por isso, o processo de seleção de membros é bem rigoroso e, mais pra frente, pretendo tornar o grupo secreto.

Mas após a criação do Amigues, entendi que as pulsões destrutivas também vêm de dentro dos âmbitos minoritários; fui muito perseguido por homens gays dentro e fora do grupo e, algum tempo atrás, precisei procurar advogado e delegacia de crimes cibernéticos para me proteger do stalk absurdo que estava rolando por parte desses gays.

Nunca foi fácil estar a frente do Amigues, mas sinto que não deveria ser assim; eu não esperava ter meus iguais se colocando contra mim dessa forma, e foi por isso que o grupo ficou 1 mês fora do ar.

Eu fui chamado de “viado” por um bando de homens héteros conservadores de meia idade, mas nunca precisei procurar a justiça (!) para me defender de seus ataques; com os meus iguais – pessoas que passam pelas mesmas opressões que eu passo -,

acabei precisando. Minha geração se baseia na perigosa crença de que grupos minoritários são compostos por anjos politizados de intenções puras; quando se derem conta de que essa ideia é infundada, talvez o estrago já seja grande demais.”

Hoje sua coleção é voltada inteiramente a artistas mulheres, esse processo ocorreu naturalmente?

Gabriel Bernini: “Sim. Meu primeiro disco de vinil foi o “Back to Black” da Amy Winehouse – lá em 2011, todo mundo que tinha toca-disco no Brasil precisava ter esse disco. Ele era vendido em todas as livrarias da cidade, e o preço era acessível porque o Bolsonaro ainda não tinha afundado o país na lama.

Quando tentei fugir do óbvio do mainstream internacional, comecei a comprar Gal Costa, Nara Leão e Rita Lee. Alguns anos depois, além da pesquisa contemporânea, passei a me debruçar sob títulos obscuros lançados por gravadoras (como “Eu Queria Ser Um Anjo” de Luiza Maria, “Drácula I Love You” da Tuca e “Remota Batucada” da May East). Na pandemia, passei a estudar sobre obscuridades independentes do passado e acabei descobrindo todo um novo mundo de artistas que, nas décadas de 80 e 90, prensavam algumas cópias de seus álbuns (por conta própria) e distribuíam de mão em mão. Como dá pra se imaginar, existe muita coisa rara devido à baixa circulação que rolou na época, mas a maioria dos discos independentes do Brasil ainda não foi descoberto porque rola um comodismo da comunidade. Quero citar duas descobertas da minha pesquisa de independentes: “Pequenas Flores” (1985) da Marilene Vieira e “Rosa Reis” (1991) da Rosa Reis.

Eu me orgulho muito de meu acervo de música contemporânea. Hoje, eu tenho 95% (?) dos LPs de cantoras brasileiras contemporâneas. Falta uma coisa ou outra, principalmente coisas que só saíram no exterior. Se pensar em discos de cantoras brasileiras que foram lançados no Brasil, deve me faltar menos de 5. Eu realmente amo todas as mulheres cantoras desse país, geralmente eu só deixo de acompanhar mulheres daqui se rolar um bola fora relacionado à política, movimento social, etc.”



Com a paixão pelo universo das cantoras, sua pesquisa musical se tornou o livro “Ondas Sísmicas – 90 Discos de Cantoras brasileiras do século 21”. Como surgiu a necessidade de escrever o livro? Como funcionou o processo de escrita?

Gabriel Bernini: “Eu nunca soube que eu poderia lançar um livro. Lógico que era um plano, acho que a minha pesquisa merecia sim ser catalogada e registrada de maneira definitiva; mas é muito curioso saber que eu, alguém que acabou de aparecer, arrecadou R$28.360,00 no financiamento coletivo do livro Ondas.

A “permissão” para criar o livro veio através do grupo do Amigues; um membro, dono de editora, me chamou no inbox e me fez a proposta de escrever um livro de entrevistas. Como eu já entrevistava cantoras e algumas faziam pouco caso, eu já sabia que aquilo não ia dar certo e fiz a contraproposta de escrever um livro de resenhas.

Para escolher os discos que comporiam o compilado, fui à minha estante e escolhi os discos a dedo; em algumas horas, o sumário já estava pronto. Escrevi o livro em 15 dias em setembro de 2020, foi muito fácil e descomplicado – porque eu estava escrevendo sobre artistas e discos que marcaram a trilha-sonora de pelo menos metade da minha vida.”



O grupo Amigues do Vinil também se tornou um selo, já contando com dois lançamentos em vinil de Flávia K – “Janelas Imprevisíveis” e Fernanda Branco Polse – “Bicho Branco Polse”. Quais foram os maiores desafios para viabilizar esse projeto no Brasil?

Gabriel Bernini: “O principal desafio obviamente é o dinheiro. O disco da Flavia custou pouco mais de R$17.000,00, e o da Fernanda aproximadamente R$20.000,00 (apesar de que este último estou lançando em parceria com a artista). No caso da Flavia, eu já recuperei pelo menos o investimento, pois estamos enviando 100 cópias à gravadora japonesa Disk Union. Quase enfartei quando vi o nome do Amigues do Vinil no site dos japoneses!

Outro desafio que está rolando agora na pandemia é o prazo de espera, que estava batendo 14 meses. Além disso, a Polysom não está mais aceitando pedidos para 2021, o que particularmente me prejudicou bastante. Mas no fim das contas, eu penso mais no retorno relacionado à preservação de memória – tanto minha, como do Amigues, como das artistas – e estou bem feliz com ele.”

E hoje você também fundou o podcast do mesmo projeto, correto? Quais são os próximos passos no futuro?

Gabriel Bernini: “O podcast está disponível em todas as plataformas digitais; o episódio destaque eu gravei com a Laura Lavieri, que é uma das minhas cantoras favoritas (e que difícil elencar isso, quem me conhece sabe que eu gosto de tantas). Eu também fiz todo um site novo para o Amigues, que é o www.amiguesdovinil.com.br e que particularmente ficou lindo demais, super completo e que conta a história de todos os braços do projeto. Tenho feito algumas playlists com seleções bem legais também.

A princípio, os próximos passos são novos títulos em vinil. Para 2022, lançarei um compacto de uma artista de São Paulo. Lançarei também, em parceria com um dos maiores selos do Brasil, um álbum de uma artista que já saiu pela Noize. Ambos os projetos serão muito especiais, com projetos gráficos inéditos, embalagens especiais. Coisa fina. Vem aí!

Também lançarei um EP autoral que se chamará “Reverbero 1″, com duas faixas homenageando dois atores americanos com os quais sonhei muito nos últimos meses: Mary Vivian Pearce e David Lochary. Conexão astral? São faixas de house/techno que criei no garageband. São simples, mas tô que só escuto elas. Fiz a capa, produzi e masterizei!”

Como você observa o mercado do vinil pós-pandemia?

Gabriel Bernini: “A minha torcida é para que surjam mais fábricas no Brasil. Existe muita demanda hoje – tanto dos fãs como dos selos fabricantes -, mas não tem como suprir essa expectativa, o que já é um problema mundial.

Do lado do consumidor, eu acho muito bizarro que hoje, em outubro de 2021, eu precise acampar na frente do computador pra não correr o risco de um título em vinil esgotar – precisei fazer isso com a coleção da Marisa Monte que saiu esses tempos -, porque justamente eu vim parar no mundinho do vinil devido ao fato de que sou uma pessoa avessa à histerias, multidões.

Hoje, no Brasil, uma tiragem de 500 cópias não dá nem pro cheiro; sou do tempo em que 500 cópias ficavam anos no mercado – que bom que não é mais assim, mas precisa haver suporte para o crescimento desse mercado. Pelo lado do selo fonográfico, o prazo de fabricação de um ano e meio e os preços cada vez maiores também assustam.

Então, respondendo à sua pergunta, eu enxergo caos, muvuca, gente saindo no tapa por causa de vinil – caso não surjam novas fábricas por aqui. Espero que apareçam logo 5 novas fábricas; assim o preço barateia, as tiragens aumentam, ninguém fica sem o disco que quer e os selos conseguem sobreviver de seus trabalhos. Caso contrário: trevas.”

This post was published on 21 de outubro de 2021 12:08 pm

Diego Carteiro

Apresentador do programa Ruído na Internova Radio, colaborador do Hits Perdidos. Entusiasta de shows e festivais e músico nas horas vagas. Siga o Hits no Instagram: @hitsperdidos

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