PWR records entrevista: LP

Hoje estreamos uma nova parceria aqui no Hits: uma coluna da PWR records! A PWR é uma agência, selo e produtora focada em trabalhos artísticos feitos por mulheres, formada por Bells Delfiol, Carina Goettems, Letícia Tomás e Marta Karrer. Além do bandcamp cheio de músicas incríveis das artistas do catálogo, elas também têm um podcast onde falam sobre criatividade, gestão de carreira, feminismo, fandom e muito mais: o PWRcast. Elas também têm um apoia.se para continuar agregando cultura, entretenimento, informação e educação sobre música para mulheres.

Pra abrir essa coluna, nada mais justo que conversar com uma artista do calibre da LP. Esse papo entre a LP e a Marta rolou ainda em 2020, logo depois da cantora estadunidense lançar o clipe da faixa “How Low Can You Go”, feito no México.

Confira a conversa pra ficar por dentro do processo criativo do clipe e saber um pouco mais sobre como Laura Pergollizzi se tornou a LP.


LP - Entrevista PWR Records

LPFoto: Divulgação


Entrevista: LP

Seu novo clipe foi gravado no México, e eu notei que nas suas performances ao vivo no Youtube, grande parte dos comentários é em espanhol. Você já tinha alguma conexão com a América Latina e a cultura latinoamericana? Como foi essa decisão de gravar no México?

LP: Eu tenho um grupo de amigos no México há alguns anos, desde antes de “Lost on You” estourar. Eu tenho esse grupo de amigos com quem eu dou rolê na Cidade do México, e nós estamos sempre trabalhando. Meu amigo Danny Goodman, a produtora dele, que também tem o diretor Eric Maldman – foram eles que fizeram o clipe. Eu simplesmente adoro o México.

Eu fiz uma boa parte do disco em Cabo, no Hotel Ganzo, mais ou menos nessa época do ano passado, em dezembro, eu estava lá escrevendo o disco, e aí fiz amizade com o pessoal de lá porque eu adoro as pessoas mexicanas, as pessoas sulamericanas em geral. E aí pensei “Vou gravar o clipe aqui, se estiver tudo ok com vocês” e eles ficaram tipo “Bora!”. Me sinto muito livre lá, feliz, criativa, sabe? Acho que é meu cantinho no momento.”



Eu descobri seu trabalho, como muita gente, quando “Lost On You” explodiu. E até hoje ainda é uma das minhas músicas preferidas de todos os tempos, porque ela é muito crua, verdadeira e vulnerável – e acho que dá pra dizer isso de toda a sua discografia. É difícil pra você se abrir tanto?

LP: “Eu acho que aparece bem mais na minha música. Acho que às vezes eu tenho dificuldade de ser assim na vida real, mas na música sai fácil. Eu sinto que musicalmente, eu fico muito dramática. E eu acho que se é pra você ter drama, o melhor lugar pra ter é na sua vida artística. Não me leve a mal (risos), eu tenho um monte de treta na minha vida normal, mas eu me sinto muito sortuda de poder expressar isso através da música.”



Ao longo dos anos, você trabalhou com e escreveu para muitos artistas diferentes, em vários gêneros diferentes. O processo é diferente quando você está trabalhando em músicas para os outros e pra você mesma?

LP: “É um pouco diferente. Eu sinto que vou prum lado mais universal quando escrevo pros outros. Mas eu também não vou, eu tento escrever o que eu estou sentindo e geralmente funciona melhor se eu só escrever normalmente. Eu não gosto de fazer nenhum tipo de ajuste, sabe? Eu não escrevo junto com os artistas na maioria das vezes, eles geralmente escolhem uma música. Eu só acho que quando eu escrevo partindo da minha própria perspectiva, fica mais fácil das pessoas se identificarem.

Eu tenho uma história sobre isso com a Leona Lewis. Eu tenho uma música com ela, mas um mês antes de eu escrever uma música com ela, eu escrevi uma música para ela. E eu achava que ela estava passando por um término horrível e tudo mais, então eu escrevi uma música e ela não foi escolhida.

Quando eu estava compondo com ela, eu não contei pra ela que estava escrevendo uma música para ela, mas ela estava falando sobre o término tipo “ah, não foi tão ruim assim, nós continuamos amigos, tá tudo bem” e eu aqui pensando “Ela tá toda fodida e errada da cabeça por causa disso, tão triste!”, e na verdade, isso não era o caso nem um pouco. Então eu devia ter escrito uma música sobre terminar um namoro e continuar amigo da pessoa! Essa é a minha história. Não é tão dramático assim, só tente escrever (risos).”

Você tem experiência trabalhando com grandes gravadoras, com uma galera mais indie, e tudo que existe no meio do caminho. Tem um modelo específico que você acha que funciona melhor, em termos de criar e divulgar um disco?

LP: “Tem sido um clima tão novo desde que aconteceram tantas redes sociais, o streaming, o Spotify, o Youtube, a Apple, o Youtube Music…já são anos disso, mas demorou um pouco…a indústria da música mudou tanto. Quando eu estava começando meu primeiro contrato de gravadora, era 2006, tudo estava completamente ferrado.

As pessoas não estavam comprando música como costumavam comprar, as vendas estavam caindo, e as gravadoras estavam surtando, sabe? Eles estavam tipo “O que a gente vai fazer? A indústria da música acabou”, e não tinha acabado, ela só estava mudando. Da mesma forma que está mudando agora. Algumas pessoas vão dizer que a vida acabou, mas a vida está mudando, e está sempre mudando. Quanto antes você aceitar isso, você simplesmente continua seguindo com a sua vida de certa forma. As coisas estão em constante mudança, e isso é bom, e a maneira como nós estamos consumindo música muda.

Até coisas tipo…eu fico maravilhada com o Shazam. Eu acho que o Shazam é a melhor invenção de todos os tempos. Cinco, dez anos atrás, a sua mãe não estava tipo “Eu gostei dessa música. Qual o nome dela?”. Você só pensava pra si mesmo: “Essa música é legal” e seguia com o seu dia normalmente. E agora ela está tipo “Eu gostei dessa música, *boop* (simula um gesto de tocar no celular), vou comprar essa música” e aí ela vai estar lá na minivan dela com o som torando. Todo mundo está chegando na música de formas diferentes e acho isso muito legal, obviamente. É ótimo.”

Li em alguma entrevista que você diz que tem uma abordagem de classe trabalhadora pro fazer musical. O que isso significa? Como você entrou na indústria?

LP: “Eu acho que eu só queria mesmo pagar minhas contas fazendo música. Não sei se esse era o meu jeito de tentar não ser muito deslumbrada. Eu lembro de que toda vez que eu tinha uma reunião com algum figurão de gravadora, uns A&Rs famosos mesmo…você senta no escritório deles e você está tentando ser o que quer que você espera que eles queiram. E eu lembro que era sempre aquela coisa de, quando eles te fazem a pergunta clássica “O que você vê pra você mesma? O que você quer?” e você precisa ficar tipo “Eu quero dominar o mundo!”, você tem que soar que nem uma idiota, você precisa entrar numa de “EU QUERO CONQUISTAR O MUNDO, EU QUERO SER MAIOR QUE A BEYONCÉ” ou qualquer merda dessas.

Eu não sei, eu só achei muito errado e charlatão ter que dizer isso. Eu fiquei meio, “Sei lá meu, eu quero escrever músicas que as pessoas amem. Eu quero ganhar 100 Grammys. O que você quer ouvir?” Era tudo tão…desculpa, mas você está se prostituindo pra essa gente. E tudo isso não tem nada a ver com nada se você não escrever coisas que importam pra você. Eu quis fazer o corre.

Do Hit à Demissão da Gravadora

Eu sempre digo isso em todas as entrevistas, mas paciência: eu sei que se eu escrever um hit, tudo o que todo mundo vai querer de mim é mais um hit. Então não é como se tivesse qualquer tempo pra relaxar. Até quando eu escrevi “Lost On You”, uma música que mudou a minha vida, quando ela foi virar hit, eu já tinha escrito mais umas 30 ou 40 músicas. Eu não estava pensando nela.

Eu também conto essa história sempre, mas eu fui demitida da minha gravadora por causa de “Lost On You”. Eu nem sabia o que eu tinha. Era super fofo. Eu ia pra esses países e os apresentadores ficavam tipo [voz de repórter caricata]: “Então…QUANDO VOCÊ ESCREVEU “LOST ON YOU”…VOCÊ SABIA…” e eu sempre dizia que “Não.

Não sabia porra nenhuma. Não sabia nada de nada.” Eu só tava tipo. “CARALHO, FAZ MAIS UMA MÚSICA!” (risos). É engraçado pensar nisso agora, e eu penso que no fim das contas eu só estava com a mentalidade de “Vou continuar trabalhando e não ficar muito com a cabeça nas nuvens com a fama ou a popularidade ou vendas de discos e todas essas coisas.” E eu também acho que você atrai coisas pra si mesma. Então porque não sonhar grande?

Talvez eu não queira só ter esse tamanho, ou eu não queira ter só um milhão de fãs, eu quero ter 10 milhões de fãs. Você meio que precisa processar isso na sua cabeça, mas não deveria ser o foco principal. Quando você está tentando chegar em algum lugar nessa indústria, todo mundo quer que você foque em seja a estrela dominante do mundo…”

PWR: Como se fosse uma competição!

LP: Exatamente. E esse não é o rolê. E eu vejo que quando eu escrevi pra outras pessoas, pessoas mais jovens, ou mais novas ou o que quer que seja, e elas são muito focadas nisso, eu fico tipo…bom, eu não digo isso na cara delas, mas eu espero que essa pessoa simplesmente relaxe, e se concentre em escrever as músicas em vez de no que ela vai vestir no Grammy, porque esse não é o rolê. Você tem que escrever alguma coisa que importe pra alguém, primeiro.

E falando em indústria da música, é muito massa ver que hoje em dia nós estamos finalmente falando do racismo, sexismo e classicismo profundos que acontecem dentro do meio. Você acha que os artistas que estão começando a sua carreira agora vão ter mais facilidade em se apresentar como quiserem por causa disso?

LP: “Sim, com certeza. Eu tento me manter positiva e pensar que a arte, e a arte boa, sempre vão prevalecer, sempre vai ser a coisa mais importante. Não deveria ser sobre a sua aparência. Eu acho que nós estamos vendo esse espectro lindo aparecendo e acho que vamos continuar vendo cada vez mais.

Quando a gente “se acostumar” a ver artistas trans por aí, vai vir outra coisa nova. E com sorte, em algum momento, nós não vamos mais precisar colocar uma etiqueta nas coisas. Não acho que dar nome às coisas estrague o processo em si, mas acho desnecessário até certo ponto. Porque aquela pessoa é um artista. É meio impressionante quando você pensa no fato de que o David Bowie era tão incrível, e um artista tão reverenciado naquela época. As pessoas claramente gostam de ver algo que elas não viram antes num artista. Eu acredito muito nisso.

Total. Eu trabalho num selo só com artistas mulheres, e nós fizemos um voto de não responder à pergunta “Como é ser mulher na música”, porque bom, é ter que responder essa pergunta de merda todos os dias (risos). A gente sabe como é!

LP: “Eu lembro de que se você tinha mais uma menina na sua banda, ou até se você tivesse só uma cantora e um guitarrista, era uma “banda de menina”. Eu inclusive estava vendo aquele documentários das GoGos outro dia, e acho que elas ainda são a única banda de mulheres com um álbum escrito por elas a ir pro número 1 nas paradas.”

Esse ano eu me vi mais do que nunca voltando a ouvir as músicas que sempre me trouxeram conforto, que eu sempre gostei, então tenho tido dificuldade de acompanhar os lançamentos do pessoal. Então queria te pedir uma recomendação de música nova! O que você tem ouvido nesse ano?

LP: “Eu amo um cara chamado Tamino, ele é muito massa. Ele é da Bélgica, e acho que ele também é egípcio e mais alguma outra coisa. Ele é tipo o Jeff Buckley belga. Pra mim, ele tem aquela coisa meio Jeff Buckley, Leonard Cohen. A voz dele é linda, as escalas que ele usa são super interessantes, uma coisa mais arábica. É uma coisa muito sexy e romântica.

Eu também tenho ouvido muita coisa velha. Eu estava ouvindo Radiohead e Leonard Cohen ontem, coisas assim. Eu gosto da Caroline Polachek, ela é super legal, tem uma ótima voz e canções interessantes. E eu amo o Post Malone, tenho que confessar. Eu me sinto bem quando ouço a voz dele, e ele só parece ser uma pessoa com quem você quer tomar uma cerveja, sabe? Tipo eu! Você quer tomar uma cerveja? (risos)”