Saudade é um sentimento constante de uma pessoa, de um momento. Ouvir esses sentimentos em canções nos transporta para uma grande nostalgia, onde cada lembrança traduz o que foi ou que ainda carregamos.  

Saulo von Seehausen, mais conhecido como saudade, trouxe consigo essa sensação de apego, mas que também nos tira da sensação de conforto que o sentimento muitas vezes trás.

Prestes a lançar seu primeiro álbum jardim entre os ouvidosnesta quinta-feira, o artista conversou conosco sobre diversos assuntos, entre eles 2020, suas canções e capa do disco.

saudade


saudade por Marina Vancini


Saulo von Seehausen, o saudade, assumiu a personificação dentro do universo musical traduzindo suas músicas para o sentimento de nostalgia, revisitando sonoridades apreciadas da música brasileira. Bossa Nova e MPB, arranjos e texturas da Tropicália e psicodelismo brasileiro. Mistura influencias de Os Mutantes e Clube da Esquina com uma abordagem e língua mais atuais, passando por elementos eletrônicos à la Sufjan StevensÀsgeir e Tom Misch. 

saudade “amor manso”  

Recentemente o artista lançou o clipe de “amor manso”, que fará parte de seu álbum jardim entre os ouvidos, com lançamento para o dia 19 de novembro (quinta-feira) em todas as plataformas digitais.  

A faixa poderia se passar sobre um relacionamento romântico. Porém, a letra foi escrita quando o artista adotou sua gata chamada Ricota. A música ganhou um videoclipe, uma montagem com o que a internet mais gosta: vídeos fofos de gatinhos, enviados por fãs e amigos, além de imagens dos próprios bichanos do artista – Ricota e Agostinho. 

O novo tipo de sentimento, até então desconhecido, fez com que o artista redescobrisse uma conexão com sua vida. “O amor que senti por ela me tirou de um estado meio anestesiado que estava, de falta de pertencimento à realidade”, lembra ele. 

A mansidão dos momentos divididos entre os dois trouxe a paz de espírito refletida na canção. Arranjos descomplicados, de voz e violão, refletem a simplicidade desta linda relação.



Entrevista: saudade

Aproveitando a semana de lançamento de jardim entre os ouvidos, conversamos com o saudade sobre o ano de 2020, sobre ser artista e o primeiro álbum da carreira solo.  

Primeiramente, como você está? Como é ser artista em 2020?

saudade: “Difícil falar diretamente que está tudo bem, né? Mas, bom, eu e minha família estamos saudáveis e seguros, e isto mais do que nunca é um privilégio. Então dá pra dizer que está tudo bem sim. Altos e baixos, mas no que mais importa agora está tudo bem.  

Ser artista em 2020, ainda mais no Brasil, já era complicado sem pandemia, mas a partir de março piorou bastante. Fora o óbvio, que é um governo que se organiza para matar de fome o setor artístico, tentando passar medidas às escondidas para isentar produtores de pagamento de direitos autorais, congelamento de verbas e tudo mais.

Mas olhando por um lado mais humano, há o contexto de não estar tocando, não poder interagir com a música ao vivo e sentir o retorno do público. Isso é muito frustrante, e é uma relação de mão dupla que imagino que faça falta pra todo mundo, seja ouvinte ou artista. Último show que vi foi em fevereiro, e se soubesse teria aproveitado mais [risos].”

Faltam poucos dias pro lançamento do seu primeiro álbum “jardim entre os ouvidos”. Muito ansioso? Muitos artistas vêm adiando lançamentos para 2021 devido a pandemia, como foi a escolha da data do lançamento? 

saudade: “Acho que o período de ansiedade já passou um pouco, agora estou mais animado! Trabalhei muito e com muita gente pra construir esse álbum e lançar é uma das horas mais especiais.

Sobre o lançamento, na verdade foi adiado já. O plano inicial era sair em abril, mas precisamos rever. Cheguei a cogitar adiar para 2021, mas sinceramente (e digo isso com muito pesar), não acho que a gente irá sair dessa tão cedo. Então preferi colocar no mundo esse ano e contribuir da maneira que posso pra vida ser menos dura e implacável, pelo menos pelos minutos em que a gente está absorto em música.”

A capa do disco é linda (feita pelo Vinicius Tibuna), qual foi o conceito e a ideia por trás da arte? são vários jardins dentro de um jardim? 

saudade: “Exatamente! A ideia que quisemos trabalhar, tanto nas músicas quanto na(s) arte(s) era a de micro e macro versos. A ideia de que existem pequenos universos dentro de um universo maior, vários jardins dentro de um jardim. Um pouco como é no “Jardim das Delícias” de Bosch, que foi uma grande referência para a arte. E as músicas funcionam nesse sentido também, muitas delas têm uma emenda de uma para a outra, dando a ideia de que você está realmente andando de um lugar para o outro. Muda a música, muda o jardim.”

Você lançou recentemente o clipe de “amor manso”, música que escreveu quando adotou sua gata Ricota. Eu tenho um animal de estimação e acho que, independentemente do que são, eles nos trazem um sentimento de realidade, de acolhimento.

Além disso, a canção pode também ter um sentido romântico dependendo da interpretação do ouvinte. Você é do tipo de artista que lança a música e deixa livre para interpretação de quem ouve ou é aquele que gosta de especificar ao que se refere?

 

saudade: “Nossa, sim. Adotar a Ricotinha me fez ter uma sensação de estar vivo e pertencer ao mundo que senti poucas vezes na vida. A música é sobre isso e especificamente sobre ela, mas acho que é o “amar” que faz isso com a gente. Dá sentido pra vida essa conexão com outro ser, sabe? A gente tá aqui pra isso. E é muito por isso que estar em isolamento é tão pesado.  

Em relação a interpretar a música, com certeza, 100% livre. A música só é minha depois que eu componho no sentido jurídico. No mais, é de quem está ouvindo. É essa troca que sinto falta nos shows, que é parcialmente compensada com a interação nas redes sociais. Eu to ali cantando sobre minha gata e a pessoa tá pensando no amor dela. Tá pensando no sítio da avó dela que ela amava ir quando era criança. Isso é, como dizem os jovens, tudo pra mim.” 

Em relação às músicas que você lançou até agora, todas passam algum tipo de sentimento – seja romântico ou não. Como é aprofundar isso e conversar com o público por meio das canções? 

saudade: “Minha forma de compor é muito sobre narrativas emocionais, desde novo é uma maneira que encontrei de elaborar sobre os acontecimentos. Nesse álbum talvez seja mais explícito ainda, porque as músicas são trilha sonora de um momento mais específico que passei.

Não acho que seja amor sofrido ou desiludido, mas mais reflexivo sobre o que estava sentindo, sabe? Elaborando mesmo, sobre aquilo. Acho que isso faz com que as pessoas se conectem, se identificam ali com suas próprias elaborações. E quando isso acontece é o ciclo completo da conexão através da música.” 

Antes de se tornar o “saudade”, você já pensava em lançar músicas em português?   

saudade: “Na verdade o “saudade” começou justamente como uma proposta de compor e lançar músicas em português. Na época eu só compunha em inglês – o que já parecia louco, mas parece mais ainda agora -, e eu queria fazer isso de um jeito totalmente sem compromisso estético, o que não daria pra fazer dentro da banda (Hover).

Daí precisei investigar quem era eu cantando em português. Essa criação do projeto foi realmente um encontro/construção de uma identidade nova. Dolorido, mas essencial! Não consigo imaginar um momento em que me senti mais eu mesmo do que agora.”

Pra finalizar aquela pergunta com um trocadilho, o que mais te faz sentir saudade? 

saudade: “No momento é fazer show! Na verdade, tocar com outras pessoas já me faria muito feliz (risos). Música é um lance social/religioso/espiritual pra mim, e isso requer uma “congregação”. Estar junto, se comunicar através dos instrumentos, das canções. Ter que abrir mão disso é muito duro. Não vejo a hora de podermos voltar!”