As vezes a vida planta algumas surpresas musicais. Em meio a uma pilha de e-mails que não param de chegar, parei um pouco para pesquisar por novos clipes independentes. No meio da bagunça, me deparei com o videoclipe de um duo com um nome assim, todo diferente. O enigmático e cheio de mistério, fntsma.

Com pouquíssima informação na internet mas uma produção que me lembrou de cara Bon Iver, Neutral Milk Hotel, Daniel Johnston, The Tallest Man On Earth e Leonard Cohen. Logo pensei, isto é um verdadeiro Hit Perdido.



Após stalkear um pouco mais, descobri um endereço de e-mail e até tweetei em meu perfil pessoal da vontade que tinha de ver essa entrevista ir pro ar. Só iria dormir tranquilo – e de luz apagada – após conversar com os fntsma(s).

Brincadeiras a parte, queria saber mais. Após alguns dias recebi uma resposta da Alessa Berti que gentilmente contou um pouco sobre a aparição do duo.

Boo! fntsma


fntsma - Foto Por- Tami Okuyama

“Nós somos um duo de Curitiba (PR), formado por Alessa Berti e Daniel Rojas. Nós estudamos Artes Visuais juntos, e no início de 2018 tivemos a ideia de começar a compor depois das aulas da faculdade.

Juntamos 5 músicas que foram lançadas em setembro de 2018 num EP (apenas no youtube e bandcamp) ainda com o nome do duo sendo Deep Sea Divers. Logo após, decidimos mudar o nome para Fntsma..”

Simples assim, como o início da maioria das bandas. De forma espontânea e passando por poucas e boas. Em entrevista exclusiva para o Hits Perdidos ela contará sobre o desafio de captar, gravar, mixar e masterizar o primeiro EP. Um desafio e tanto que lembram com muito bom humor.

A Segunda Aparição:
Os Fantasmas se Divertem

Passada essa primeira etapa um tanto quanto orgânica eles sentiram a necessidade de procurar uma sonoridade mais definida. Em março, já com um ano de banda, nascia Os Fantasmas se Divertem.

Este que foi gravado em apenas 3 dias e contou com a mixagem e masterização do Vinicius Lourenço; um lançamento realizado em parceria com o selo de um um amigo, a CPDMG.

O tal do clipe para “A Falta de um Caminho”, foi gravado pelo duo com a ajuda de um amigo em apenas 2 dias. Já a edição foi feita pela dupla que atualmente está realizando seu TCC.



Entrevista

Conversamos com a Alessa para saber mais sobre os primeiros dias do duo fntsma. Em uma rara aparição, ela nos contou a história do projeto.

Vocês se conheceram na faculdade de artes visuais e decidiram tocar juntos, acreditam que isso influenciou na narrativa visual e no imaginário das músicas?

Como tem sido o amadurecimento e os aprendizados ao longo do tempo? Inclusive porque dizem que gravaram o primeiro EP meio que na loucura, contem esta história.

Alessa: “Na verdade a gente se conheceu antes da faculdade, o que é bem curioso. Nós dois já frequentávamos shows de bandas locais, e nesses rolês que a gente acabou se conhecendo.

Quando fomos prestar o vestibular inclusive, conversávamos sobre a prova e como seria etc. E sim, de fato isso influenciou na maneira como nos relacionávamos e como trocamos referências e ideias ao longo do tempo.

Sem falar que, por estarmos ligados às artes visuais, acabamos pensando toda a parte de visualidade da banda, como as capas, as fotos, posters de shows e os clipes que pretendemos lançar, apesar de que não tivemos muito tempo pra parar e planejar com calma essas coisas, pois estamos em período de TCC.

Aprendizados

É engraçado falar sobre aprendizados e amadurecimento por sermos uma banda que existe a somente um ano. Mas do jeito que o mundo vai, as coisas correm e acontecem a mil, a gente não escapa, de fato. Com dois EP’s lançados e uma média de 15 shows realizados deu pra aprender uma série de coisas.

Acho que a primordial é se adequar. Tanto nas coisas boas como nas ruins. E também sempre tentar levar tudo numa boa, até pq a gente tá inserido num cenário que é absurdamente forte, mas que não aparece pro público em geral, então o mais correto a se fazer é fortalecer com quem tá aí fazendo e correndo e tentando igual a gente. Sem ficar de muitos “quereres”, vamos indo.

O Primeiro EP

Essa história do primeiro EP foi bem engraçada. A gente tinha formado a banda em maio e no começo eu (Daniel) tava empolgadíssimo e compondo coisas quase todo dia, e pesquisando também sobre como gravar etc.

Aí final de julho a gente já tinha a ideia das 5 músicas em mente, mas nada muito estruturado, só as bases, letras e algumas melodias. Nos juntamos pra gravar com uma interface USB muito ruim (risos). E foi basicamente como a gente fez, gravamos tudo em umas 24 horas, improvisando pop filter, cabos etc.

Aí eu (Daniel) não sabia quase nada de mixagem e masterização, nisso pedimos pra 5 amigos nossos que tinham um certo conhecimento na área darem dicas do que a gente precisava fazer no som. E aí aprendi fazendo, apesar de ter ficado meio chulo, pra uma primeira experiência não ficou de todo ruim. Aí a gente já se agilizou pra lançar, e foi tudo assim muito rápido, em um mês o EP tava na internet.”

Quais são as influências, referências tanto no plano musical, como no campo da estética e na busca de outros universos (como a literatura, o cinema, a moda) no plano das composições?

Alessa: “Acho que musicalmente tentamos juntar diversas referências de gêneros muito variados. Mas o que predomina ainda assim é aquela música mais tranquila.

Poderia citar como referências importantes: Florist, muitas bandas de folk como Mumford and Sons, Lumineers, Rubel, The Tallest Man on Earth etc, aí ainda dá pra citar algumas coisas que divergem um pouco disso como Have a Nice Life, Oscar Lang, Beach House, Flatsound, Grizzly Bear, Sara Não Tem Nome, etc.

Já em outro plano, temos como referência principalmente relacionado ao conceito da banda alguns filmes como Finisterrae e A Ghost Story que tratam o fantasma não com um viés aterrorizador e sim algo mais cotidiano e comum.

Nas letras buscamos falar sobre nossos sentimentos e vivências, coisas mais palpáveis que mesmo sendo únicas dão oportunidade a quem escuta se identificar. Vida, morte, amor, tristeza, deixar ir, as faltas, os fantasmas.”

Contem mais sobre a parceria com o selo CPDMG e como tem observado o cenário independente da região.

Alessa: “O lançamento do nosso EP pela CPDMG era algo que já estava meio que sendo programado há algum tempo antes de começarmos a gravar. Pois o selo é de um amigo nosso da faculdade, o Ícaro Vieira.

O objetivo do selo é dar espaço nos rolês pra galera que está ali no nosso meio mas que não vê uma possibilidade de divulgar suas produções, tanto musicais quanto visuais; unindo forças pra que todo mundo tenha alguma visibilidade, mesmo que apenas entre os rolês mais locais, o que já faz toda a diferença.

Por ter a visibilidade de novos artistas como principal objetivo, o selo trouxe a tona sons bastante diversificados, desde shoegaze até trap, não tendo um recorte de gênero específico.

O ano de 2018 até o começo de 2019 foi o mais movimentado na CPDMG., agora tá tudo meio parado. A gente ainda faz os corres de eventos, mas por não ser mais tão frequente foi decidido que os rolês não seriam mais em nome do selo, por enquanto.

Apesar desse “hiato”, a CPDMG. conseguiu juntar muita gente de Curitiba e levantou bastante a cena local, nós conhecemos MUITA gente graças ao selo, e somos muito agradecidos ao Ícaro e todos da gang por isso.

O Fator Local

Quanto a cena local no geral, nós não conhecemos muitos selos daqui, os eventos que a gente vai e vê por aí geralmente são de bandas independentes que vão lá e organizam tudo, trazem gente de fora e abrem espaço pra artistas visuais exporem também. É mais ou menos isso que a gente tem vivido como banda, organizando e/ou tocando em eventos como esses.”

Quais temáticas e sonoridades quiseram percorrer no novo EP e quais os planos futuros do duo?

Alessa: “Para o nosso EP Os Fantasmas se Divertem a gente resolveu tentar encontrar um caminho, por que, como diz o nome da segunda faixa, a gente não tinha um (risos).

Decidimos que as músicas seriam em português a partir daquele momento, o que foi um desafio pra mim (Alessa), tanto que considero “A Falta de Um Caminho” e “Antes do Fim” dois marcos de superação; pois só havia composto músicas em inglês até então e tinha dificuldade em encaixar as palavras em português.

A Identidade fntsma

Além dessa questão do idioma, a gente pensou em deixar a sonoridade mais uniforme, digamos assim, usando elementos parecidos entre as músicas, apesar de que no fim elas não ficaram tããão semelhantes, principalmente a “Respiro”, que tem beat, sample, guitarra tocada com arco e é inteira instrumental. Mas o resultado depois da mix e master ficou bem mais do nosso agrado do que o primeiro EP.

Pro futuro a gente quer gravar as músicas novas que a gente já compôs, lançar um álbum, quem sabe trabalhar melhor nossa identidade visual e produzir mais clipes.

As “Aparições” dos fntsma(s)

Além disso, a gente tá com um evento organizado chamado “Aparição”, no qual nós tocamos em lugares públicos da cidade, como parques e praças, e chamamos mais algum músico/banda pra tocar também.

Tudo isso de graça, contanto que a galera ache o fantasma no lugar onde o evento vai acontecer (a gente não fez a fantasia de fntsma só pro clipe não, risos).