[Premiere] Amphères nos leva de volta para os anos 90 através de ruídos, dissonâncias e loops

Aquele caos e aprisionamento humano – quase masoquista – que Kurt Cobain, Kathleen Hanna, Kim Deal e Scott Weiland tanto cantavam durante os anos 90 continua sendo alvo de reflexão – e distorção.

A diferença é que mesmo tão conectados e ativos nas redes sociais muitas vezes olhamos apenas ao redor do nosso umbigo. Seja nos likes do instagram, se sua opinião vai ser aprovada, se aquela pessoa vale o seu tempo e nas coisas mais bestas da vida.

A dificuldade está mesmo em tirar aquele dispositivo da frente, ignorar todo esse micro universo medíocre e ver que existem pessoas do outro lado. Com problemas e dificuldades tão parecidas ou iguais as tuas.

Muitas vezes a arte serve como refugiu a todos esses problemas. Seja a música, as pinturas, o cinema, as séries ou a literatura. Tentar compreender o ser humano, sua competitividade e egocentrismo é uma luta quase diária. Se desprender disso então, uma conquista.

Paula Martins da banda Amphères de Santos (SP) por exemplo conseguiu se impactar pelo tema da liberdade através das obras Ícaro e a dança do pintor Henry Matisse. Isso virou inspiração para a canção “Wax” que fecha o segundo EP da banda, Dança que está sendo lançado nesta sexta-feira (02/01/2018).

A faixa traz na imagem do Ícaro justamente a oposição dramática entre o desejo por um infinito, que leva a uma busca incessante por beleza e verdade, e a tendência constante de achar que as coisas ou as pessoas podem satisfazer esse desejo, muitas vezes levando a situações de relacionamento inadequado com as coisas ou com as pessoas.

Em sua visão sobre o que seria liberdade nos tempos em que vivemos a baixista e vocalista do trio paulista comenta:

“Na minha experiência, liberdade é justamente se dar conta disso e não necessariamente significa fazer o que quero a hora que quero. Então para mim, viver em liberdade nos nossos tempos significa entre muita coisas, desviar um pouco o olhar de si próprio e pensar mais no outro e nas consequências dos nossos atos.”


ampheres
A Amphères de Santos (SP) lança hoje seu segundo EP, A Dança. – Foto: Divulgação

A liberdade é apenas um dos temas abordados do EP que conta com 5 faixas inéditas. Este que foi gravado, mixado e masterizado no Estúdio Aurora, em São Paulo e co-produzido por Aécio de Souza e Amphères.

Pixies, Butthole Surfers, The Breeders, Jesus & The Mary Chain, Sonic Youth, Dinosaur Jr., Sebadoh, Sugar, PJ Harvey, Built To Spill, The Lemonheads, The Stone Roses, Guided By Voices, Yo La Tengo, Afghan Whigs e Spoon são bandas que eu diria que o som da banda santista flutua.

É uma viagem com muito reverb e distorção pelo campo do rock alternativo, surf rock, shoegaze, delays, post-punk, fritação e contemplação.

Alguns gostam de usar o termo acid rock ou neo-psicodelia para tentar explicar toda essa fusão mas na verdade tem muitas guitarras que conseguem transpor essas barreiras no som da banda. As linhas de baixo por exemplo flutuam e me lembram muito o jeito que a Kim Deal tocava no disco de estreia dos Pixies, Surfer Rosa (1988).

Amphères – Dança (02/01/2018)

Mas antes de falar sobre o EP vamos apresentar a banda de maneira mais adequada. A Amphères é um trio formado em 2016 na cidade de Santos (SP) pelos músicos Jota Amaral (bateria e voz), Paula Martins (baixo e voz) e Thiago Santos (guitarra e voz).

Eles já tocavam juntos desde 2012 em outros projetos. Logo em seu ano de estreia eles gravaram o EP Amphères e já caíram na estrada. Dois anos após o debut, o segundo registro da banda chega hoje a todas as plataformas digitais.



“Glacial” abre o EP já com texturas e camadas delicadas em lo-fi. Os ruídos e detalhes são notados e remetem as canções mais sentimentais e lentas do Nirvana. Os backin vocals também contribuem para que a harmonia da “balada do silêncio” ganhe ambiência.

A degradação humana, a perdição, a tentativa de se satisfazer no outrem são evocada em sua letra reflexiva e pontual. Aquela fusão psico-surf que o Pixies tanto fez em seus clássicos também pode ser sentida através de seus riffs hipnóticos.

A segunda canção é a faixa título e já vai para uma linha mais shoegazer / alternativa. Os detalhes voltam a aparecer em suas camadas e é interessante ouvir mais de uma vez para captar mais um detalhe da canção. Tem aquele “Q” de Mazzy Star, Sleater-Kinney, Yo La Tengo e Jesus & Mary Chain.

Os versos são curtos mas potentes, cheios de metáforas para descrever sensações e pensamentos mais profundos. Assim como um quadro, o EP deixa em aberto muitas interpretações.

“2018” ao meu ver destoa um pouco das outras canções pois tem um tom funkadélico que chega para agregar a panela alternativa. Irá agradar fãs de Fugazi, The Mars Volta e até mesmo Jimi Hendrix pela ousadia na experimentação.

O post-punk se choca com o post-rock e reverbera em “Sobre 2cm”. A progressão é bastante interessante e faz você ir subindo o tom junto com a banda. A introdução tem quase 2 minutos até os vocais surgirem e isso gera uma expectativa no ouvinte do que possa vir. Conforme a faixa se desenvolve, ela vai ficando cada vez mais torta e experimental.

Chegamos então a faixa que encerra Dança, “Wax”. Como já contado no início do texto é uma música sobre liberdade. O ato de se satisfazer em cima do outro e não conseguir enxergar além do seu próprio umbigo, ou além do campo – fútil – do universo exterior.

É de longe a mais viajada em experimentação, tem Mogwai, tem Pixies, Sigur Rós e me remete a muitas coisas interessantes como o som dos japoneses do toe – que acabaram de se apresentar no país – entre outros. Aquele ar gélido dos versos da primeira canção, “Glacial”, voltam em forma de ventania para fechar o EP.


capa - dança
A capa e identidade visual do EP foi desenvolvida pela artista Anna Brandão.

O segundo EP da banda santista Amphères carrega uma gama interessante de misturas em sua sonoridade. Não se prende ao shoegaze, grunge, surf rock, lo-fi ou post-rock. Prefere misturar tudo e ver até aonde chega.

Talvez essa seja a graça de Dança que com apenas cinco canções se atenta nos detalhes e na magia do complexo misturado com o simples. Irá agradar um ouvinte de cabeça aberta e provavelmente quem viveu intensamente toda aquela explosão do lado B da MTV nos anos 90.

Para saber mais sobre o registro conversamos com o trio santista.

[Hits Perdidos] Antes de mais nada queria que contassem como se conheceram e falassem mais sobre os primeiros dias do projeto.

Paula Martins: “O Jota tem um estúdio em Santos (Lobo) e ele já tocava com Thiago antes. Um dia eu apareci no estúdio para ensaiar com uma banda de surf music que tinha me achado num site, depois de eu ter ficado muitos anos sem tocar e a primeira música que eu toquei para timbrar o baixo, enquanto o Jota ainda estava na sala ajudando a banda, foi “Gigantic”. Ele parou na hora e a gente conversou rapidinho sobre a afinidade em comum. Depois em duas semanas a gente, mais um amigo na guitarra e vocais, tava tocando junto.

Nos tornamos um trio quando a banda em que a gente tocava, chamada sismic amps, terminou, no início de 2016, com a saída desse amigo que era o compositor da maior parte das músicas. Eu tinha um desejo de inscrever a banda na SIM São Paulo bem quando isso aconteceu, faltava pouco mais de 2 meses para o fim das inscrições.

Tentando dar continuidade ao trabalho de outra forma, a gente montou o projeto novo, o Amphères, com o desafio auto-imposto de gravar as músicas do primeiro EP e um vídeo ao vivo nesses dois meses.”

[Hits Perdidos] Ainda em 2016 vocês já lançaram o primeiro EP,  Amphères, quais as diferenças sentem do início da banda para este novo lançamento?

Paula Martins: “Em primeiro lugar o tempo de amadurecimento da nova formação, tivemos que nos adaptar a ter apenas uma guitarra nos ensaios e ao vivo e também a termos assumido os vocais, isso leva algum tempo. Penso que tivemos maior segurança no processo de composição e também que outra coisa importante foi maior tempo dedicado à pre-produção das músicas.

Mas pra mim a principal diferença foi que aconteceu uma coisa muito legal: ao tentar buscar canais de divulgação quando gravamos o primeiro EP, se descortinou todo um universo que estava rolando na música independente nacional, que eu particularmente não fazia ideia. Conhecemos muitas bandas ótimas nesse tempo e foi natural o desejo de passar a escrever em português, coisa que antes me era estranho porque cresci ouvindo música em inglês… mas ouvir Jennifer LoFi, Ventre, Terno Rei, entre dezenas de bandas ótimas cantando em português, foi muito inspirador e abriu um canal novo no processo de composição.”


 

Dance II - Henri Matisse - 1910
Dança de Henry Matisse.

[Hits Perdidos] Gostaria de saber mais sobre a influência do Henry Matisse? Isso viria do art rock nova iorquino? Quais outras influências de vocês seja na música, arte e literatura?

Paula Martins: “Bem, Matisse é um dos meus pintores preferidos, tive a oportunidade de ver alguns de seus quadros em museus e isso foi muito impactante, sempre senti que alimentava a alma como poucas coisas. Tenho sempre presente a experiência estética da sua obra. “Wax”, a última música do EP, é que se relaciona diretamente com um quadro dele o “Ícaro”.

Ao escrever essa letra tinha no pensamento os significados atribuídos a esse quadro, particularmente sobre a dinâmica da liberdade. Ao buscar textos sobre o “Ícaro” para escrevermos referências para a artista que fez a capa do EP e nossa nova identidade visual, a Anna Brandão, me deparei com outro quadro que eu gostava muito “ A dança” , que é o nome de uma das músicas desse EP e do próprio EP , que eu nem lembrava na verdade. Fiquei mostrando para o Thiago e o Jota no processo de gravação e decidimos que seria um caminho interessante de proposta estética para a capa. Propusemos então para a Anna de fazer uma capa, imaginando como Matisse faria nos dias de hoje, se curtisse uma brisa e ouvisse música com muita guitarra!

Em relação a outras influências, podemos citar alguns diretores como David Lynch, o Thiago por exemplo adora Twin Peaks, eu curto muito a estética dos filmes do Peter Greenaway. Na literatura teria várias influências importantes, mas uma em comum, que nos diverte bastante desde que começamos a tocar junto é o Mochileiro das Galáxias e toda a coleção do Douglas Adams!”

[Hits Perdidos] Um dos temas do EP é a liberdade humana, faço uma provocação então: em nossos tempos o que seria viver em liberdade?

Paula Martins: “A abordagem da questão da liberdade feita em “Wax”, traz na imagem do Ícaro justamente a oposição dramática entre o desejo por um infinito, que leva a uma busca incessante por beleza e verdade, e a tendência constante de achar que as coisas ou as pessoas podem satisfazer esse desejo, muitas vezes levando a situações de relacionamento inadequado com as coisas ou com as pessoas.

Na minha experiência, liberdade é justamente se dar conta disso e não necessariamente significa fazer o que quero a hora que quero. Então para mim, viver em liberdade nos nossos tempos significa entre muita coisas, desviar um pouco o olhar de si próprio e pensar mais no outro e nas consequências dos nossos atos.”

[Hits Perdidos] Como observam o atual cenário independente da baixada santista?

Amphères: “Percebemos uma efervescência, na linha do que está acontecendo em diversas cidades brasileiras, tem muitas bandas explorando sonoridades bem diversas. Ainda faltam espaços para música autoral, mas esse cenário mudando, tem algumas iniciativas interessantes de eventos acontecendo, coletivos se organizando.

[Hits Perdidos] Quais os planos para 2018 e o que vocês tem curtido ouvir de novo?

Amphères: “Em 2018, gostaríamos de divulgar o trabalho novo, tocar bastante e encontrar as pessoas que curtam o trabalho. Sobre o que estou ouvindo de novo, faz várias semanas que eu só consigo ouvir o trabalho novo do Posada e o Clã! uma coisa linda.

Mas andamos ouvindo também Luiza Lian, Letrux, Xoõ, EATNMPTD, Ema Stoned, Hierofante Púrpura, Jair Naves, Sea of Leaves, que também é de Santos e de mais longe, Cloakroom, True widow, Deerhunter.”


Já que o papo é shoegaze confira a playlist do Hits Perdidos com 91 bandas do cenário brasileiro (Inclusive tem Amphères).

–> Siga o Hits Perdidos no Spotify <–

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