Pedro Gesualdi (Japanese Bondage) solta o verbo sobre a cena indie paulistana

Músico, artista, designer e nos últimos tempos tempos até ele tem se arriscado a rabiscar a pele dos apreciadores do mundo das tattoo’s. Essa é a incansável rotina do paulistano Pedro Gesualdi, nascido em 1989, que desde os 12 anos embarcou nessa viagem sem volta que é o universo da música.

SHOW
Pedro em sua primeira apresentação na Dinamarca. – Foto: Acervo Pessoal.

De lá para cá ele fundou a Japanese Bondage em 2010 ao lado de Johnny Queiroz (bateria), Bruno Bonemer (guitarra) e Francisco Borelli (baixo) que lançou o primeiro EP em 2011. Um ano depois eles tiveram a oportunidade de tocar na Virada Cultural. Já em 2013 foi a vez de lançar o tão sonhado álbum de estreia, Mellow Punishment.



Em março inclusive o Rafael do Hits Perdidos pode acompanhar a apresentação da “volta” da banda após três anos longe dos palcos. O show aconteceu no Estúdio Aurora (Pinheiros/SP) e teve o registro da apoteótica e canção responsável pelo surgimento da banda, “Japanese Bondage”.



Entre as prezepadas da vida Pedro também participou por um breve tempo da Hipopótomo que sua participação durou basicamente um show mas que como ele contará fez com que aprendesse muita coisa.

Em 2014 foi a vez de Gesualdi explorar outra faceta e desafio musical: ter um projeto solo. Apesar de solo este projeto se desenvolve de maneira colaborativa com a participação de diversos músicos que participam tocando baixo, teclados, bateria, produzindo e masterizando.

Em julho de 2015 foi a vez do primeiro álbum oficial do projeto ser lançado, Everything is a Menace In Danger City. Este que fez com que o levou a participar do tributo aos Titãs, O Pulso Ainda Pulsa, lançado em agosto de 2016 via Hits Perdidos e Crush em Hi-Fi.



No fim de 2015 ele participou com o projeto do Converse Rubber Tracks onde acabou divulgando o single “Granted” tendo como banda de base Fernando Salomão (Guitarra, baixo, percussão, mix) e Bruno Bonemer na percussão. O registro foi gravado no parceiro oficial do projeto, o Estúdio Family Mob de Jean Dolabella.



Mas como dissemos Pedro é incansável e sempre está explorando novos desafios e sonoridades. Eis que então no ano passado foi um dos responsáveis pela formação da Dercy. Um supergrupo paulistano repleto de figuras carimbadas da cena.

Dentre eles Caio Casemiro (Sheila Cretina, Cãimbra, Tokyo Savannah), Carlos Eduardo (Bloodbuzz, Combover, Orange Disaster), Pedro e Theo Portalet (Hangovers, Dolphins on Drugs). Tendo lançado recentemente seu primeiro EP através da Sinewave Label.

Com muito bom humor as quatro faixas registram trocadilhos, barulho e diversão. Inclusive a banda foi formada em um primeiro de Abril então imaginem só o contexto de piadas prontas. O single “Ana Maria Baga” está aí para provar que a brincadeira é coisa séria para o quarteto. Afinal de contas, Dercy não é HEBE, c#$*%@*!



O Hits Perdidos pode conferir o show de estreia do quarteto que aconteceu no Estúdio Aurora ao lado dos veteranos do Macaco Bong.



Em maio Pedro saiu do projeto e agora além da música se dedica a tatuar. Para ele o caminho foi algo um tanto quanto natural para um designer/ilustrador e tem aprendido muito rabiscando. Ele atende no Estúdio Hang Yourself Tattoo e tem se aventurando pelos flashs com temática Old School. Ou seja ideal para amantes do mestre Sailor Jerry.

Ele foi responsável pela capa do tributo O Mundo Ainda Não Está Pronto, este que foi lançado em Maio através do Hits Perdidos e do Crush em Hi-Fi e claro que vão poder saber mais sobre essas empreitadas de Gesualdi conferindo a entrevista exclusiva!

[Hits Perdidos] Gostaria de perguntar primeiro de onde veio seu interesse por música e quais artistas ou discos te fizeram ir atrás de mais?

Pedro Gesualdi: “Venho de uma família nada musical, super comum, então a música como experiência de vida só me apareceu aos 12 anos. Naquela época, lembro que o que me virou a cabeça foi Nirvana, QotSA, System of a Down, Slipknot, Green Day, além de entrar rapidamente no rock clássico e grunge… Aí fui aprender guitarra, mas acabei deixando isso um pouco de lado por uma vontade de ser jornalista musical.

Eu comecei a me fascinar cada vez mais pelo contexto daquelas músicas que eu gostava tanto. Mais pra frente, surgiu o Pearl Jam, que eu fui hiper fã por uns 2 anos, o folk (Elliott Smith e Nick Drake) e o rap, o que foi me ajudando a abrir a cabeça. Aí, com 17 anos, tive a oportunidade de fazer um intercâmbio na Dinamarca e lá gravei minha primeira música (com um amigo) e me apresentei pela primeira vez, na escola, tocando uma música do Gasolin’, uma banda clássica dos anos 70 de lá. Voltei pro Brasil e montei minha primeira banda.”


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Hipopótamo em seu primeiro e último show. – Foto por: Rafael Roncato.

[Hits Perdidos] Quantas bandas já teve e quando forma uma nova o que espera?

Pedro Gesualdi: “4 bandas: Japanese Bondage, Danger City, Hipopótamo e Dercy. A Japanese foi minha primeira banda, e acho que nunca nada vai se comparar àquela sensação de ter 20 anos, 3 amigos e um sonho. Depois do fim dela, montei um projeto solo, Danger City, que engloba também minha produção visual e não tem muita regra. É uma válvula de escape pra botar em prática algumas das minhas ideias fixas, com menos interferência externa no processo de criação.

Já o Hipopótamo e a Dercy foram duas bandas que eu permaneci por menos tempo, mas em matéria de técnica, de confecção musical, talvez as que eu mais aprendi. Se fosse formar uma banda nova, teria que ser algo completamente diferente do que eu já fiz, e com pouco drive, por favor. Uma coisa fundamental pra mim quando to numa banda é ter vontade de evoluir, dar a cara a tapa, aprender e repensar mesmo. Se for pra tocar aqueles mesmos 4 power chords que eu já sei, não quero.”

[Hits Perdidos] Quais são suas referências na hora de compor?

Pedro Gesualdi: “Acho que depende muito do que estiver ouvindo na hora. Toda música boa pode te dar uma ideia, ou te ajudar a traçar um caminho. A graça é justamente tentar evitar os caminhos mais fáceis e, de vez em quando, sem querer, trombar em algo que você não estava esperando.”

[Hits Perdidos] Há não muito tempo atrás você escreveu um texto polêmico analisando o comportamento de algumas bandas da “cena paulistana”. Que deu o que falar. Posteriormente você chegou até a apagá-lo.

Que tipo de reflexão e debate você esperava? Por que apagou?

Pedro Gesualdi: “Aquele ~textão~ foi reflexo do tratamento que um amigo e ex-companheiro de banda meu recebeu de um agente importante da cena em uma casa badalada, enquanto se preparava pra tocar. O cara, pai de família, gastando dinheiro pra estar lá, tomou uma tremenda cagada gratuita em nome de um falso pretexto de “unidade” ou “fortalecimento” da cena. Isso me incomoda bastante, as coisas que as pessoas fazem pra justificar a defesa de uma espécie de cultura da cena musical independente, algo que foi definido por eles mesmos.

Acho que o debate era justamente esse, se toda essa pose, todas essas palavras bonitas, se realmente são reais, se vale tudo pra assegurar essa hegemonia estética. Também estou meio cansado do tom de voz imperativo que algumas pessoas empregam, como se fosse obrigação moral de alguém gostar daquela banda, ou prestigiar aquele tal evento. Talvez isso afaste o público. No fim das contas, critérios de afinidade acabam se tornando mais importantes do que a música em si e o lance fica parecendo uma corte. Hoje em dia eu vou em alguns rolês e me sinto numa dinâmica de grupo, ou numa feira de carreiras. Você precisa ficar fazendo média, conhecer, dizer que conhece, ver e ser visto. Até porque parece também a única opção de conseguir uma oportunidade, já que dificilmente alguém vai ouvir sua música com calma.

Mas depois resolvi tirar o post. Primeiro porque não vai mudar nada, só causa desgaste. Segundo porque eu sou uma pessoa impulsiva, mas não curto ser assim, nem que as pessoas fiquem boladas comigo. Em geral, me dou bem com a maioria das pessoas da cena que eu conheço, só não concordo com algumas das prioridades de parte dessas pessoas. Mas é apenas uma divergência de ideias. Então preferi deixar a discussão, que na real foi bem civilizada, pro momento que ela ocorreu, e não pra posteridade, quando poderia ser tomada fora de contexto. O que eu queria mesmo era uma rede social onde o textão se desintegrasse depois de algumas horas, tipo um snapchat do textão.”


Japanese Bondage
A Japanese Bondage fez um show de reunião após alguns anos parada no Estúdio Aurora. – Foto: Rafael Roncato.

[Hits Perdidos] Atualmente o que pensa sobre a cena independente local e o que mais te tira a paciência?

Pedro Gesualdi: “Hoje em dia você tem mais gente botando dinheiro, casas melhores do que antes, ótimos estúdios, turnês possíveis… Hoje vemos gente interessada em participar da cena sem necessariamente estar tocando e nem todos têm dimensão da importância disso. Com mais produtores, técnicos de som, blogs focados em música nacional, patrocínio nos eventos, uma despolarização que permite turnês pra todo mundo, possibilidade de fazer bons discos a preços justos, fotógrafos, artistas visuais, etc., as bandas têm bem mais terreno pra prosperar. Estruturalmente, acredito que nunca esteve melhor.

Por outro lado, eu acho negativa essa insistência no mérito pela “correria”, essa necessidade de algum tipo de alinhamento politico/cultural/logístico que de alguma forma legitima ou deslegitima um artista. Tem um monte de banda por aí que é ruim de doer, mas que sobrevive porque promove uma agenda adequada. Também, eu sei que esse discurso de “fortalecer a cena independente” soa íntegro, misturando aquela coisa gostosa de DIY com um senso de justiça, anti-establishment.

Mas pensando de modo prático, só se ouve falar da cena dentro dela, então o negócio vai ficando cada vez mais narcisista. Não adianta o Lúcio Ribeiro cavar, não adianta a gente fingir que não tá perdendo dinheiro. Precisamos questionar se a maneira que se está “fortalecendo” é a mais produtiva, relevante. Falta ainda alguma coisa que conecte esse grupo de bandas a um número mais amplo de pessoas, contextos, recursos, e eu não vejo esses espaços realmente receptivos ao cara do banco, à mina da firma – muitas vezes, nem à própria cena, vide o caso com meu amigo. Por enquanto, ainda me parece uma festa privada.”


DANGER
Danger City participou do tributo aos Titãs organizado pelo Hits Perdidos e Crush em Hi-Fi. – Foto por: Rafael Roncato.

[Hits Perdidos] Você participou com a Danger City do tributo O Pulso Ainda Pulsa. Com uma formação toda alternativa e uma história que destoa dos outros projetos que participaram. Gostaria que contasse para os leitores como foi e perguntar qual foi a maior dificuldade do desafio?

Pedro Gesualdi: “A gravação foi marcada para um feriado, em cima da data de entrega, e os caras que tocam regularmente comigo na Danger City estavam todos viajando. Chamei então o Theo Portalet e o Caio Casemiro, que depois estariam comigo também na Dercy, pra gente fazer uma jam em cima de alguns acordes da música, pra depois incluir a letra. Decidimos isso porque a música que a gente gravou, “O Pulso”, tem uma letra bem marcante, quase uma poesia concreta, o que possibilitaria à gente pirar no instrumental. O Aécio de Souza gravou, mixou e masterizou, lá no Aurora. Pensando bem, dá pra ouvir um pouco de Dercy naquela gravação. O mais difícil foi reunir os músicos e ter certeza que a experiência ia dar certo. Mas depois que começamos, foi uma gravação tranquila que fluiu sem grandes contratempos.”

[Hits Perdidos] Além de músico você também é designer e inclusive foi responsável pelas artes do O Mundo Ainda Não Está Pronto. Como foi este desafio para você? Sei que não é muito fã de Pato Fu mas como foi o processo criativo?

Pedro Gesualdi: “Gosto muito de fazer flyers, cartazes, capas de disco e acho que foi a coisa que me motivou a voltar a desenhar nos últimos anos. Por isso, preciso nem dizer que curti demais fazer a capa do tributo. No fim das contas, descobri um monte de músicas do Pato Fu que eu gostava hahahaha. O processo foi interessante, porque a inspiração pra composição dos elementos na imagem partiu de um flyer de um tatuador que eu vi no Instagram. Aí, pensando no clipe de Made in Japan, desenhei aquele mecha baseado em desenhos japoneses como Gundam, Mazinger Z, Evangelion, etc. Valeu, Japão!”

[Hits Perdidos]  Há nāo tanto tempo você começou também a tatuar. Conte um pouco sobre essa experiência. Era algo que já vinha pensando ou surgiu a oportunidade e está se atirando?

Pedro Gesualdi: “Acho que é um passo natural pra mim enquanto ilustrador e fã de tatuagens. Ainda estou bem no começo, como aprendiz, mas a experiência está sendo bem legal! Quem quiser ver os trampinhos, dá uma olhadela no Instagram (@pedrogesualdi) :)”


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De Carona com Pedro Gesualdi: Playlist Exclusiva no Spotify do Hits Perdidos


Playlist Pedro Gesualdi


Claro que não poderíamos fechar um post sobre a trajetória musical do Pedro sem que ele deixasse registrada por aqui uma playlist caprichada com sons que ele curte. Como ele cita ao longo da entrevista ele tem um certo fascínio vários estilos musicais e isto se reflete na lista. É de certa forma um balanço de suas preferencias musicais e ele ainda saliente que faria uma de rap a parte tranquilamente pois é fã dos beats.

Temos de Gram Parsons a Erykah Badu. De Queens Of The Stone Age a Portished.


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