Especial Selos: 5 lançamentos da Monstro Discos

O trabalho de curadoria de um selo independente é de extrema importância para o profissionalismo dentro do cenário artístico. Não tem jeito, nada vai para frente sem muita organização, persistência, suor e movimentação.

Isto é algo que o selo independente goiano Monstro Discos faz há quase 20 anos. Desde 1998 o selo e produtora tem como premissa lançar e apresentar bandas alternativas fora dos moldes convencionais da indústria mainstream.

Neste ano por exemplo o festival nacionalmente conhecido e organizado pela equipe da Monstro chega a sua vigéssima terceira edição. O evento que procura sempre trazer no seu line-up uma mistura entre rock independente nacional e internacional acontecerá entre os dias 18 e 20 de agosto. Até o momento o festival conta com quatro atrações confirmadas: Stoned Jesus (Ucrânia), Project46, RaimundosBob Malmström (Finlândia).


goiania


Hoje vamos começar uma série nova no Hits Perdidos falaremos de 5 discos de um selo e claro o papo de hoje vai ser a Monstro Discos. Com três discos lançados recentemente e outros 2 que merecem a sua atenção.

Nenê AltroClasse de 1972 (Maio / 2017)

Você com certeza já ouviu falar de Nenê Altro e sua trajetória. Bem ou mal é uma figura que agita o cenário independente em nível nacional há mais de 32 anos. Entre novas e velhas bandas, partidas e voltas do Dance Of Days – seu projeto mais notório – ele deixa sua marca e podemos dizer tranquilamente que é um camaleão do underground. Já teve banda street punk, hardcore, punk, post-punk e sempre com muita atitude e irreverência.

Entre Dance Of DaysSeek TerrorMal de CaimBlackclass, Bastard In Love Awkward. Ele também sempre foi um letrista nato e chegou a lançar alguns livros como Clandestino (2013)Funerais e Embolacha – que estava para sair.

Mas sempre na vida existem horas para “primeiras vezes” e foi nesse espírito um tanto quanto auto-confessional – como o bom Amor Fati (2016) – que ele lançou seu primeiro disco solo no fim de maio.

Classe de 1972 não poderia ser mais autobiográfico, já que o músico nasceu naquele ano e está completando 45 primaveras em 2017. Tanto que sobre suas escolhas ao longo dos mais de 30 anos ele afirma:

“De lá pra cá mais de trinta anos voaram, as cenas mudaram, valores, gostos, as pessoas e os conceitos. Eu mesmo caí e levantei centenas de vezes, aprendi das melhores e piores formas possíveis a sobreviver e que seguir adiante é o mais importante. Mas, no fundo ainda sou aquele mesmo garoto. Sempre segui meu coração e minha regra sempre foi ser feliz, nunca fiz nada musicalmente que não quis, nunca fiquei numa banda por ficar, por exemplo, e nunca deixei o sorriso em segundo plano. Em minha carreira faria tudo outra vez” – Nenê Altro

Os primeiros rabiscos deste novo trabalho começaram em 2015 quando a parceria com Edu Krummem (Guitarra) se consolidou. Não é a toa que o álbum conta com uma atmosfera oitentista dançante. As primeiras composições foram “A Falta é o Inimigo” (faixa 4) e “Alma Negra” que fecha o disco. Ambas dialogam com um dos projetos de Nenê, Nenê Altro & O Mal de Caim que ele mesmo considera como um projeto solo.

Para esta empreitada eles se inspiraram em clássicos dos late 70’s e 80’s como Big Audio Dynamite, The Pretenders, The Jam e Stiff Little Fingers. Claro que um álbum tão pessoal teria que contar com a participações de amigos e para isto foram convocados Bruno Bento (baixo) e José Santos, do Dance of Days, na bateria.


Classe de 72


O álbum abre com um powerpop divertido e dançante. “Estilo Baixa Classe” é um misto em sua sonoridade de Big Audio Dynamite, The Jam, The Smiths e o tom debochado do The Libertines. Com uma atmosfera juvenil. Como se estivesse abrindo de certa forma um álbum de memórias da juventude. Entre ciladas e confusões a canção é uma balada sobre as noitadas daqueles dias.

“Outsider em Português” mantém a linha do doce glamour da vida simples, de não se encaixar aos padrões que a sociedade tenta padronizar como “sucesso”. Uma visão romântica sobre amadurecer e aceitar quem é.

“Sinceridade” traz o ar soturno do post-punk aliado a sagacidade do Ramones. A faixa fala sobre nossas transformações e as porradas que a gangorra da vida nos proporciona. Tudo isso como força motriz para seguir em frente. Tudo isso por um viés romântico. Podendo claramente se encaixar para o contexto de uma relação de um casal.

Assim chegamos a “A Falta é o Inimigo” uma canção mais robusta e com letra mais dura. As apunhaladas dos falsos amigos e desilusão. O extender da mão e o levar a facada no peito. A faixa conta até com citações bíblicas.

“Um Bunker Para Dois” tem em sua melodia o áurea do punk irlandês. Típicas das baladas do The Undertones e que outras bandas como The Exploding Hearts e The Briefs ressucitam em suas belas canções. Até por isso ela tem em sua letra um tom confessional sobre amizade, integridade, ideologias e dor. Aquela confissão de bancada de bar.

“Rastros de Areia”  fala sobre os conflitos e arrependimentos daqueles dizeres que queríamos não ter dito – e das brigas que gostaríamos de ter evitado. O persistir e não desistir do amor também é uma das armas da faixa.

“Vera Cruz” tem a atmosfera do som Eddie and The Hot Rods e a simplicidade dos acordes do The Clash. A canção é um dialogo com a criança interior que nunca desistiu de sonhar e viver cada segundo com intensidade. Já “Além das tuas pontes” carrega acordes do street punk com guitarras solando logo em sua introdução que conforme a canção vai evoluindo nos remete ao bom bubblegum dos cariocas do Carbona.

Se você gosta de The Cure com certeza vai curtir “Hoje a Polícia Vai Trazer as Luzes para a Festa”. Uma balada romântica que fala sobre amor, não ser querido por todos porém ter um coração apaixonado capaz de incendiar todo um quarteirão.

“Ainda Estou Aqui Esperando Por Você” utiliza dos recursos do sopro tão comuns no ska de grupos como Skamoondongos e Marzela. Navegar contra a tempestade e não ficar para trás é um dos temas da faixa que faz riquíssimas analogias sobre a vida através de uma viagem de trem.

“Alma Negra” tem a responsabilidade de encerrar o álbum, e como dissemos é uma das primeiras composições do álbum. O sofrimento como ferramenta de transformação é o tema central da faixa que tem uma atmosfera “Joy Divinesca”. O rancor visto sob uma ótica negativa e ao mesmo tempo com seu interlocutor confuso. Feito a errática natureza humana. A astúcia da letra me lembra um pouco as composições de Jair Naves (Ludovic).



Mice MobImpossible to Take Seriously (Maio / 2017)

Quem também no dia 10/05 lançou primeiro disco é a banda goiana Mice Mob. O projeto reúne integrantes do Two Wolves e Cambriana. O mote do projeto é a era debochada e criativa do hard rock oitentista que nos cansou de apresentar boas bandas – e outras terríveis. Vale lembrar que durante este período tivemos grupos de hair metal.

O próprio nome do álbum já tira onda com isto com o título “Impossível se levar a sério”. Brincadeiras á parte eles citam até os debochados do Steel Panther entre o leque de influências, além claro das bandas clássicas como Motley Crüe, Guns and Roses e grupos do chamado classic rock – apesar de eu ODIAR esse termo – Asia e Queen.

O grupo surgiu em março de 2016 através do guitarrista Jean Hardy Varela e do baixista Will Diniz. Logo depois vieram o guitarrista Rafael Morihisa (do Cambriana) e o baterista Yuri Alexander. Depois da demo gravada Lineker Lancellote (vocalista do Two Wolves) foi convidado para tomar o posto de frontman. O álbum foi gravado no Estúdio Casa Do Chá, com produção de Luis Calil (Cambriana, Ara Macao).


Mice


O disco é temperado com muitas doses de ironias e tirações de sarro com o espírito rockeiro fanfarrão que consolidou o estilo que flertava com o glamour e a breguice. Apesar do tom debochado eles não utilizam do visual que consagrou o estilo como podemos ver no clipe de “Addicted” lançado no mês de março.



O álbum começa justamente pelo single “Addicted” que mostra toda a fúria do rock’n’roll da época com baixo no talo e letra “canalha” típica de bandas como Mötley Crüe e Def Leppard. O instrumental traz o peso e o ar áspero que o Guns’N’Roses imprime em álbuns como Use Your Ilusion I (1991).

“Armadillo” ao menos para mim flerta não só com o hard rock mas como com o som do Metallica. Daquelas canções que conseguimos até imaginar o Axl Rose pulando – quando tinha pique para isso – para confundir tudo no meio da canção tem um solo alá Carlos Santana que confesso foi a cereja do bolo.

“Flee” tem um tom mais confessional e de certa forma é uma balada com a cara do Steel Panther. Pois sua letra é irônica e se traduzida para o português com certeza poderia se tornar um sucesso do sertanejo universitário.

Se vocês conhecem Poison com certeza lembrarão ao ouvir “King Of The Bush”. Ao menos para mim o nome da canção me remete a “Talk Dirty To Me”, se é uma homenagem aí é só perguntando para os caras. Os pedais Wah Wah são encaixados na hora certa e dão toda a atmosfera como se o som tivesse realmente feito na década. Faixa pronta para as discotecagens de festas glam rock. Algo que impressiona.

“Holding That” é uma balada açucarada e cheia de progressões. Que abraçam não só o hard rock como o rock progressivo, tendo até teclados dentro da composição e guitarras rasgadas em seu solo alá Slash.

O começo de “Hard To Breath” soam como baladas mais incorporadas do rock até por isso talvez eles citem Queen e Asia como influências. O vocalista segura o peso da balada em seu vocal e mostra toda sua habilidade como frontman. Em sua metade o piano ganha corpo e divide a canção em duas parte algo que Genesis e Pink Floyd costumavam fazer em seus discos. É a hora que a guitarra domina o território e sola com toda a intensidade.

A faixa seguinte é “Electric” esta que cai de boca, ops, nas baladas de grupos como Journey que são ressucitadas por diversas bandas. É o lado disco/glam/psicodélico do disco que lembram hits como “Livin’ On a Player” (1986) do Aerosmith.

“Misery” é daquelas canções prontas para o Guitar Hero, até consigo imaginar as luzes piscando no chão e os combos sendo computados. Ela é rápida feito um punk rock com seus 3 minutos e meio de duração. Os teclados me lembram um pouco outra era do rock, a new wave por sua vez.

“Showdown” tem uma introdução alá funk rock que por alguns segundos me lembrou o som áspero do Suicidal Tendencies mas logo depois cai no hard rock do Guns. Aliás o próprio Guns’n’Roses foi buscar inspirações no funk então nada mais justo que um álbum que homenageia esta era do rock contemplar esse pedaço da história.

Quem fecha a epopeia Glam Rock claro que seria uma balada. No caso do disco “Survive” que vai atrás de todos os clichês – e lado fanfarrão – do estilo. Daquelas que você fecha os olhos e já imagina um vídeo em fita VHS com um casal contracenando com suas vestimentas oitentistas. Pronta para aqueles filmes da sessão da tarde. Feito uma canção dos Beatles a canção acaba com um “la la la la la ra la ra”.



Royal Dogs Tattoo You (2016) 

Soltaram os cachorros e eles estão aqui para morder, poderia dizer o release da banda Royal Dogs de São Luís, do Maranhão. O grupo formado em 2013 por Laila Razzo (vocais), Mauro Sampaio (baixo), André Jr. (bateria) e Felipe Hyili (guitarra), tem lançados dois discos, On Spree Of a Gang e Tattoo You.

Um álbum que como o último disco resenhado caminha pelas ondas do hard rock mas que não se resume apenas a isto. Eles mergulham em buscar referências no sleeze, metal, punk rock, rock’n’roll, power pop, eletrônico e nas musas do pop. Isto mesmo que você acabou de ler: Lady Gaga e Britney Spears são consideradas influências do projeto.

O mais recente álbum, Tattoo You (2016), foi gravado no Base SLZ e produzido pelo guitarrista Felipe Hyili. Um fato curioso é que o disco também marca a estreia de Laila nos vocais, o que tem lhe rendido elogios.


Album


O disco conta com dez faixas e já começa com “Violet Flame” que viaja pelo universo da música eletrônica que de certa forma extende o tapete da pista de dança para “Close to Royal” que mistura o espírito do hard rock com a new wave, se você curtir Orianthi – cantora australiana conhecida por integrar a banda de Alice Cooper – provavelmente vai dançar nessa rave-hard-pop-breakdown.

“Diss Track” é praticamente um tributo as discotecas e consegue fazer uma ponte entre o pop chicletudo e os anos 80. Tudo junto e misturado. Assim chegamos a faixa título “Tattoo You” que de certa forma tira uma certa onda com o vocal épico na mistura de ritmos, dentro da panela glam rock, eletrônica e new waver.



No dia 09/05 foi a vez da faixa título ganhar um remix um tanto quanto EDM pronta para mash-ups na pista de dança. A exprimentação de certa forma tem sido a fuga para artistas como Linkin Park e a própria Orianthi já citada por aqui.



“Breakout to Sleeze’Em” é uma canção de te deixa um pouco confuso pois de certa forma mistura o tal do sleeze oitentista/Glam Metal mas com coisas mais modernas como A Day to Remember.

“Redshifted” é a balada do disco e nela que percebemos a influência de Britney Spears no vocal aliada a teclados e atmosfera futurista. Sua letra tem a temática do pop, os relacionamentos.  Algo que se repete em “All About That Night” que traz o calor da discoteca, sendo uma balada dos “brokenhearts”.

Já “Into the Mud” inicia com um tom mais canastrão e riffs punks aliados a farofa hard rock. Os vocais parecem buscar referências em grupos como Cherry Bomb, The Runnaways, Pink e country/pop.

Se você curtir Whitesnake, Kiss e pop punk provalmente terá como sua favorita “2nd Home 24/7”. Muito por conta dos catchy backin vocals que se popularizaram na década de 90.

Fechando o álbum temos “The Wave”, um pout-pourri aos anos 80 que consegue misturar Maddona, disco music e solos do hard rock. Como disse anteriormente esse disco vem justamente para bagunçar com tudo. Sem preconceitos e medo de ser feliz ele viaja pelo pop de uma década que marcou toda uma juventude “rebelde” e perdida.



Monstros do Ula Ula – A Balada do TikiSiriPolvo (Lançamento: 7 de Junho / 2017)

O som dos cariocas dos Monstros do Ula Ula é garantia de diversão na certa. Após um período do projeto hibernado eles voltam com um disco recheado de oito inéditas. Para terem ideia o último trabalho deles foi lançado no longínquo ano de 2009.

Sempre produzindo música a banda conta com membros que passaram por icônicos grupos do rock nacional como Planet Hemp, Autoramas, Matanza, Coquetel Molotov, Rated entre outros.

A formação atual traz Lucky Leminski (vocais), Diba Delgado (guitarras e vocais), Gus Santoro (guitarras e vocais), Olmar Lopes (baixo) e Bacalhau (bateria e vocais). Já o som em seu caldeirão mistura surf rock, brega, metal, punk e rock psicodélico. Se você se amarrou no disco dos conterrâneos dos Estranhos Românticos (RJ), este lançamento foi feito para você.

Sobre o álbum o baterista Bacalhau até brinca “É um puro sangue feito com muito surf punk garage e irmandade”. A capa foi feita por Donida, guitarrista do Matanza, e a produção é do grupo com Yago Franco.


MONSTROS


O disco já começa com o agito surfista psicodélico “Sem Sentido” que em março até chegou a ganhar um clipe divertidíssimo dirigido por Christian Schumacher. O vídeo brinca com a estética dos anos 50, a luz de uma câmera V8 e muito ula ula. Tendo espaço para danças, imagens non sense, trabalho doméstico, Strip, carros e o capitalismo 24/7.

O refrão “Eu sei que faço coisas sem sentido mas não ligo” fica ecoando na sua cabeça de tão chicletudo que é. São três minutos de batidas alá Beach Boys, The Ventures com um ar todo maluco como o do Man or Astroman? que faz isto com supremacia. Se gostar dessa canção eu recomendo assistir o clipe de “Pet” dos mineiros da Miêta. Como fã de teclados e o tom derretido é difícil não rasgar elogios a esta canção.



“Love Song Hare Bo” tem um tom um tanto quanto Little Quail and The Mad Birds indo de encontro com o tom do primeiro álbum do Matanza. Algo interessante é a guitarra um tanto quanto “árabe” – e alucinante –  que te leva de tapete para a terra do Aladin. O tom simplista e divertido me lembra um pouco o som dos noruegueses do Turbonegro.

Já o “Médico e o Monstro” tem um tom um tanto quanto teatral que poderia se transformar em um curta metragem do grande mestre José Mojica Marins. A temática inclusive me lembra um pouco a clássica banda The Mummies, seus caixões e visual característico –  e pitoresco. Tudo isso numa levada saloon ou clube mexicano. É uma grande festa macabra.

Assim chegamos a “Não Posso Ficar” que poderia se tornar o hino da típica ressaca de uma manhã de domingo. O sentimento de ansiedade e megalomania embala a balada surfadélica e botequeira.

O ar do hard rock transparece em “O Prenúncio do Mal” que parece buscar referências em Zé Ramalho, Santana e Secos e Molhados. Nosso personagem sabe que o fim está próximo e que a bebedeira – e loucura – vai levá-lo para a cova.

O rockabilly, o surf rock, o brega e o hibilly se fundem em “Amor Bruto” uma balada desesperada embriagada de amor e álcool. Aquela sensação de ter pisado na bola e querer correr atrás do prejuízo – ou melhor dizendo “surfar”.

Assim chegamos a mais curta e acelerada faixa do álbum, “Por Causa de Você”. Neste momento o personagem da epopeia já está pronto para colocar sua camisa de força. Quem fecha o disco é justamente “As Coisas Boas da Vida” uma odisséia a vida de bon vivant que se joga num lifestyle regado a champagne, LSD e todo garbo da luxúria. É o fim da linha.



Devotos DNSAAudio Generator (2016)

O bonito encarte do quinto álbum da trupe de Thunderbird já dá o recado: Um audio generator é qualquer aparelho que cria sons, geralmente de forma eletrônica. Apenas pelo propósito de criar o som. Simples, direto e reto.

Os Devotos já carregam mais de 30 anos de estrada e contam em sua formação com Luiz Thunderbird (Vocais, Baixo e Guitarra), Ricardo Kriptonita (Guitarra e Vocal),Paulo Zinner (bateria) e Zé Mazzei (Guitarra e Baixo). E o mais recente disco prova isto: a riqueza dos detalhes.

O álbum vai atrás da magia por trás de um Rickenbacker, o universo dos gibis, os acordes dançantes do surf rock e do rockabilly somados a simplicidade raw do punk rock. Mas sem esquecer do alucinógeno som da psicodelia/folk de artistas como The Byrds, Led Zeppelin, Pink Floyd e dos Kinks.

De certa forma o álbum faz um tributo ao underground nacional tendo participações de figuras carimbadas da cena como Lee Marcucci (Tutti-Frutti, Radio Taxi, Gang 90 & Absurdettes, Titãs), Guilherme Held (Tarântulas), Jajá Cardoso (Vivendo do Ócio), Pedro Pelotas (Cachorro Grande), Dionísio Dazul (Forgotten Boys), André Abujamra, China e Cazé. Inclusive contando com uma versão para o clássico do Joelho de Porco no disco, “São Paulo By Day”.


DEVO


Nem por isso o disco deixa de ser explosivo, são 14 canções em apenas 39 minutos. A homenagem ao clássico Rickenbacker popularizado pelos Beatles e Lemmy (Motorhead) tem a missão de abrir os trabalhos.

“Rickenbacker” é uma faixa instrumental e transgressora que passeia por várias décadas do rock, do psicodélico passando pelo folk, surf ao hard rock. Ela é magnética e dá o pontapé inicial a “peleja”. Tendo potencial de agradar até fãs de Lynyrd Skynyrd.

A segunda faixa do disco é “Átomo” que já chega com guitarras setentistas que buscam referências de Black Sabbath, Queens Of The Stone Age ao rockabilly. Tem até o Q do Nerdy Rock do Devo na panela deixando tudo encaixado da melhor forma.

Quem chega chegando em banho de sal e maria no pedal de fuzz é “Ficando Legal” que poderia ter saído tanto dos anos oitenta como de uma epopeia alucinante do The Who. A letra tem sarcasmo e critica o estilo de vida Rivotril.

“Coisas Estão Acontecendo Lá Fora” já cai para o lado obscuro de grupos 13th Floor Elevators, Allman Brothers e The Doors. Aquele derretido e letra que parece feita durante uma consulta com o analista. Sagaz sequência do Rivotril ao divã.

“Suas Regras” já busca referências nos anos 50 e no blues em sua harmonia. Uma letra que fala sobre as inseguranças, sarcasmo, vazio existencial e motivos por seguir em frente. Sendo assim o blues da reflexão. Uma canção sobre fugir dos padrões e seguir em frente. Como Thunderbird diz: “Foda-se as regras!”.

“Pouso Forçado” já tem um tom mais contemplativo e faz uma ode aos anos 60 com um tom desesperado e um cantar melindrado. “Nunca Mais” é um misto de Arnaldo Antunes com The Romantics o que dá todo um aspecto oitentista, de certa forma é como se “What I Like About You” cruzasse com “Igreja” dos Titãs.

Desta forma chegamos a segunda parte do álbum com “Você Não Sabe Perder” que tem um tom de ameaça e sarcasmo envolto num rock’n’roll canastrão que dá liberdade para que o baterista e guitarrista se divirtam com linhas mais soltas.

O punk rock e o glam rock se cruzam em “Sujo”. O vocal folclórico de Thunderbird deixa a música com um tom explosivo que me lembra até um pouco a TV Colosso. Bem humorada a canção faz várias brincadeiras com o estilo de vida falido das subcelebridades.

Assim chegamos a versão para o clássico da banda paulistana Joelho de Porco “São Paulo By Day (Trombadinhas)” que ganhou uma atmosfera hard rock/psicodélica divertida e cativante. A graça está justamente no piano se cruzando com a atmosfera de grupos como Magazine, Gang 90 e as Absurdettes e o vocal do Thunder.

O funk chega junto na imprevisível “João Gilberto” que também procura referências no rocksteady jamaicano, atenção fãs de The Specials e Bad Manners. O groovie do baixo dá toda a tônica da canção que poderia facilmente integrar algum disco antigo dos Titãs. Ótima sacada!

“Vou Ser Seu Namorado” que tem o tom do João Gilberto que bandas como Brothers Of Brazil tentam resgatar. A levada oldies rock também aparece na canção que poderia pertencer a nossa querida jovem guarda.

O lado gipsy punk aparece na folclórica “O Tempo e O Lugar”. Poderia ter sido composta por um jovem bardo ou até mesmo pelos gipsy kings. Assim como o disco a faixa se destaca pela diversidade de referências já que em sua segunda parte te leva para o western dos filmes de bang bang.

Assim chegamos a saideira com “Moro na Filosofia” que é quase uma balada country/ bluegrass empoeirada feito os cantigos da lenda Woody Guthrie. Algo que Elvis the pelvis sempre tentou encaixar, tendo sucesso por diversas vezes. A canção ainda faz referências “A um lugar do caralho” de outro gênio, Jupiter Apple através de uma locução. O disco termina da maneira mais dadaísta possível, ao som do latido de cachorros algo um tanto quanto Luis Buñuel, não é mesmo?



E assim chegamos ao fim do primeiro Especial Selos que pretende destrinchar faixa a faixa lançamentos de selos independentes nacionais. Até mais pessoal!

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