[Exclusivo] Missing Takes dá dicas de como fazer uma turnê pela Califórnia

Em tempos onde muitos artistas e bandas escondem o “como fazer” os porto alegrenses da Missing Takes arregaçam as mangas e rumam para o lado oposto. Eles decidiram contar como foi a experiência, planejamento e rota de sua aventura por terras californianas. Eles passaram mais de duas semanas entre abril e maio por lá e na bagagem voltaram com ótimas histórias, novos amigos, fãs e muitos aprendizados.

O saldo foi realmente positivo para uma banda que embarcou pela primeira vez para a “gringa” de maneira totalmente D.I.Y.. O que não significa que isso não exigiu do trio um grande planejamento. Muito pelo contrário tudo isso foi feito com muito sigilo, esforço, negociação e diversas trocas de e-mails com selos, casas, produtores e bandas.

Nada é fácil mas tampouco impossível (parafraseando Valciãn Calixto – músico piauiense) porém aos poucos as barreiras vão sendo quebradas. E mais do que isso: com boa receptividade e shows com ótimo público. Algo a cada dia mais difícil pelos lados de cá.

Para a viagem o trio contou com um ingrediente “ao acaso”. O músico gaúcho Akeem também estava com as malas prontas para tocar em Los Angeles e precisando de um baterista. Ele já era amigo de Messias (baterista da Missing Takes) e a MT já precisava de um guitarrista solo, visto que durante as gravações do novo EP da banda eles tiveram a saída deste.

A soma deu liga e acabou que Akeem precisou também de alguém para tocar baixo durante certo momento da turnê e Zuanazzi (Guitarrista / Vocal) quebrou o galho. Na Califórnia, o produtor e DJ Gustavo Faria atuou como Tour Manager. Para tudo sair como o planejado foram 3 meses de planejamento, ou seja nada caiu do céu.

Com as malas prontas a Missing Takes e Akeem Music partiram para a viagem.


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A Missing Takes planejou a turnê por 3 meses. – Arte porAfonso De Lima

Mas antes de bater um papo com os caras vamos falar um pouco sobre a trajetória dos gaúchos. Atualmente o grupo é formado por Mateus Zuanazzi (voz e guitarra), Pedro Mello (baixo) e Rodrigo Messias (bateria). Ao mesmo tempo que tiveram a saída do guitarrista solo Caio Mello a banda teve a oportunidade de realizar a turnê já tendo uma data marcada em Los Angeles.

Mateus e Pedro tocavam juntos há algum tempo. Com o término da Big Richards, Zuanazzi começou a escrever letras em inglês e deu início a um novo projeto. Formada em 2015, a Missing Takes lançou seu EP de estreia, Superfriend Going Down, no Dia Mundial do Rock – 13 de julho – do ano seguinte.

A primeira formação contava com Mateus, Pedro (baixo), Caio (guitarra solo) e Tony Zambon (bateria). Após a gravação do disco, o baterista saiu e Rodrigo Messias, sócio do estúdio Casinha, de Porto Alegre (RS), que já havia acompanhado a produção do EP, assumiu a vaga.

O primeiro EP da Missing Takes foi lançado no ano passado de maneira independente e conta com quatro músicas. Este ainda gravado com a formação original da banda.



Ao longo dos seus 17 minutos as faixas passeiam por um leque de influências que ficam mais claras depois que conferirem a playlist que eles prepararam no final do post. A primeira canção do EP, Superfriend Going Down, é justamente “Tone It Down”.

Esta que já começa com influências do grunge, rock alternativo e a explosão do punk rock. Inclusive as partes mais melódicas me remetem ao estilo de compor do falecido Tony Sly indo de encontro com a fúria dos californianos do Strung Out.

Em “You Ain’t A Friend” a áurea é o pop punk com aquela levada de misturar estilos e referências que o Jeff do Bomb The Music Industry! nos mostrou tantas vezes que é possível. O músico estado unidense sempre misturou referências de Pavement com Tom Waits e Ska punk.

“And This Is What’s Been Going On” já carrega o tom mais confessional do Superchunk, uma das bandas favoritas do Matt Skibba (Alkaline Trio, Blink 182), sabiam dessa? De qualquer forma a atmosfera é mais lo-fi e melancólica. Combinando o peso das guitarras do punk rock a leveza dos acordes melódicos noventistas.

A responsabilidade de fechar o EP fica com “Super” viaja pelo pop punk mais uma vez mas que conta com arranjos interessantes no duelo de guitarras solo e base. A escola Skate Punk agradece.

Coma página virada, amadurecidos eles estão preparado para uma nova fase. A maior prova disso é exatamente o novo single lançado no dia 12/04, “Pulling Back”. Este que já mostra que as referências abriram um novo leque de possibilidades.



O som capta mais referências do rock alternativo, algo com referências similares com a dos paulistanos da Mudhill, estes que partem para a linha do Hüsker Dü, Sebadoh, Dinosaur Jr. e Descendents. Uma evolução natural, é claro. Ainda consigo sentir um pouco do emo no som de bandas como American Football, Citizen e Basement.

A faixa conta com a participação de Aline Seibel. A princípio a faixa tinha sido composta para apenas uma voz mas os ensaios permitiram adaptações e experimentações que trouxeram Aline para junto da Missing Takes por sugestão do baixista Pedro Mello.

Segundo o vocalista o single “Pulling Back” assim como o restante do novo EP – que sai em Julho – o single demonstra uma evolução da banda. A faixa é a primeira que conta com a entrada do baterista Rodrigo Messias na banda que é bastante atuante nos arranjos. E para ele a participação de Aline Seibel enriqueceu a música.

“Pulling Back” é uma construção coletiva. Gustavo Foppa (Nacional Riviera) contribuiu com ideias de sintetizador, participando também das gravações. Ideias para as guitarras vieram da banda e também de Caio Mello (Nacional Riviera e antigo guitarrista da Missing Takes) e Bernard Simon Barbosa (Nacional Riviera e News at the Newspaper).conta o guitarrista e vocalista Mateus Zuanazzi.

A faixa foi gravada no estúdio Casinha, em Porto Alegre, com a masterização de Brian Lucey, que já trabalhou com bandas como Arctic Monkeys e The Black Keys.



[Hits Perdidos] Gostaria que contassem um pouco mais sobre esse novo single “Pulling Back” e a evolução da banda nos últimos anos.

Mateus Zuanazzi: ““Pulling Back” é o primeiro single do nosso novo EP “Uneven Tides”. É uma música que já tocávamos na época do nosso primeiro EP, “Superfriend Going Down”, mas que evoluiu bastante, principalmente com a entrada do Rodrigo Messias como baterista da banda e a participação da Aline Seibel nos vocais da faixa. Era sempre a música que as pessoas falavam depois de um show, queriam saber qual era. É uma música que mostra uma sonoridade mais calma da banda, com bastante valorização da melodia.


Arte Pedro Mello
Capa do single “Pulling Back”. Este que estará no EP, Uneven Tides, que deve sair em Julho via Lion Mord – Arte por: Pedro Mello.

A Missing Takes nasceu como um “projeto solo em dupla”. Depois do término da minha antiga banda, comecei [Mateus Zuanazzi] a compor em inglês e gravar tudo na casa do Pedro Mello (que já tocava no antigo projeto). Após um tempo, a Missing Takes reuniu quatro integrantes, que se juntaram para a gravação do primeiro EP. Antônio Zambon, primeiro baterista da banda, saiu após as gravações e Rodrigo Messias, que já gravava a banda em seu estúdio, assumiu o posto.

Depois dos primeiros shows e da divulgação do primeiro trabalho, a banda começou a gravar o segundo EP, “Uneven Tides”, que deve sair em julho. Em meio às gravações, nosso guitarrista solo, Caio Mello, saiu e, ao mesmo tempo, surgiu a oportunidade de fazer a turnê na Califórnia, então optamos por permanecer em trio até a volta dos EUA (inclusive, estamos à procura de um novo guitarrista solo).

É importante dizer que os dois EPs foram gravados na Casinha, em Porto Alegre (RS), estúdio de Rodrigo Messias e Bernard Simon Barbosa, um lugar por onde várias outras bandas também circulam. Isso também permite a convivência e troca de experiências entre as bandas, até participação nas gravações.

As mudanças na formação, horas de ensaio e gravação em estúdio, convivência e troca de experiências com outras bandas, participação de outras pessoas no processo de gravação e produção, turnê internacional e convivência com o mercado e as bandas dos EUA, são fatores que nos fortalecem como banda e fazem músicos e música evoluírem.”

[Hits Perdidos] Vocês recentemente organizaram uma turnê pela California. Sabemos que não é fácil em muitos fatores, principalmente em arcar com os custos da viagem. Como foi o planejamento?

Mateus Zuanazzi: “Foi uma “DIY (Do It Yourself) Tour”. A partir do momento que fomos selecionados para tocar no primeiro show, fizemos uma força tarefa para conseguir mais datas e fazer a turnê acontecer. Dividimos os trabalhos. Cada um cuidou de uma parte (prospecção de shows, contato com produtoras e selos, hospedagem, transporte, logística, pessoas envolvidas com o mercado musical na Califórnia). A medida que os shows foram sendo confirmados, pudemos ter uma ideia mais concreta do início e fim da turnê, porque tínhamos um tempo limitado. E ela aconteceu dentro do planejado, final de abril e início de maio.”


PRAIA
A turnê foi organizada em conjunto com AKEEM. – Foto Por: Gustavo Faria

[Hits Perdidos] A turnê foi em conjunto com o AKEEM MUSIC. São amigos de longa data? Como foi estar viajando com eles por todo esse tempo?

Mateus Zuanazzi: “Na verdade, não. Foi uma feliz coincidência. Ele e o Messias (baterista da MT) já se conheciam. Nós precisávamos de um novo guitarrista solo e entramos em contato. Mas o Akeem também precisava de um baterista, para acompanhá-lo em um show em Los Angeles, e chamou o Messias. Foi aí que sentamos e resolvemos fazer acontecer para as duas bandas.

A convivência foi ótima, até porque em momentos éramos praticamente uma banda só (o Akeem precisou de baixista também e quem tocou foi o Zuanazzi, que é guitarrista e vocalista na MT). Acabou que dividimos todos os equipamentos e o baterista era o mesmo, isso facilitou muito a logística. Fora isso, o Antônio Zambon (primeiro baterista da MT) também decidiu ir junto, para viver esse grande momento com a gente. No final, viramos grandes amigos.”

[Hits Perdidos] Imagino que durante a turnê tiveram a oportunidade de assistir também a muitos shows no tempo livre. Teve algum que foi bem legal poder acompanhar ou tocar junto?

Mateus Zuanazzi: “A cena local é incrível. Os artistas são ótimos e o público comparece aos eventos para apoiar os artistas (não importa a grandeza do artista, em lugares como Los Angeles, por exemplo, você pode ir a um evento de música de rua e encontrar a sua banda preferida).

Pudemos assistir e tocar com diversos artistas locais. Em geral, as bandas eram muito boas e receptivas, sempre interessadas em ver nosso show e nos conhecer um pouco mais. Achavam incrível duas bandas de um lugar tão longe, como Porto Alegre, conseguirem organizar uma turnê inteira sem o apoio de grandes gravadoras ou produtoras. Duas bandas em especial, com as quais tocamos, nos chamaram atenção: Planet XinXin e Sleep Club.”


SH
Missing Takes em ação no The Viper Room (Los Angeles). Casa de shows fundada pelo ator Johnny Depp. – Foto por: Gustavo Faria.

[Hits Perdidos] Parece que a divulgação da turnê pelas redes sociais foi toda planejada. Como rolou e como interagiram com o público?

Mateus Zuanazzi: “Seguramos a notícia até ter tudo confirmado. O que foi bastante difícil, porque a expectativa era grande, e foi crescendo. Com a turnê fechada, começamos a anunciar as datas nas redes das duas bandas e, uma vez nos Estados Unidos, transmitimos ao vivo os shows e postamos fotos e vídeos mostrando um pouco da nossa viagem e como estava sendo a experiência de fazer uma turnê internacional.”

[Hits Perdidos] Como foi a receptividade e qual local mais gostaram de tocar? E qual de conhecer?

Mateus Zuanazzi: “A receptividade foi ótima. Cada show teve uma história marcante, uma experiência inesquecível. Tocamos em lugares de todas as dimensões, cada um com suas características e seu tipo de público. Essa diversidade nos fez crescer como bandas e pessoas, porque pudemos mostrar nosso trabalho e conviver com um público extremamente diversificado, desde ao americano que só foi ao bar tomar uma cerveja depois do trabalho ao turista da Polônia que estava de férias curtindo a vida e gostou muito da ideia de ver uma banda brasileira que estava em turnê na Califórnia.

Entre os lugares que tocamos, podemos destacar:

  • Elbo Room (San Francisco) – Tombado como patrimônio histórico americano. Existe desde 1935. Nomes como 2Pac já passaram por lá.

  • Whisky A Go Go (Los Angeles) – Um dos mais famosos e antigos bares da Sunset Strip, onde já tocaram artistas como The Doors, Jimi Hendrix, Red Hot Chili Peppers, System of a Down, Guns’n’Roses, entre outros. Curiosidade: o dono desse lugar, que também era dono do Rainbow e The Roxy, faleceu no mesmo dia do nosso show. Foi um dia especial de homenagens a Mario Maglieri, “The King of Sunset Strip”. Muitas casas de show na Sunset Strip mantiveram o nome dele em seus letreiros por dias como homenagem.

  • Viper Room (Los Angeles) – Conhecida casa de shows fundada pelo ator Johnny Depp (proprietário até 2004). É um lugar sensacional e foi onde tivemos a melhor experiência de qualidade sonora ao vivo, apesar de todos os lugares terem sido ótimos, já que as casas têm uma preocupação extrema com a qualidade da música ao vivo para seus clientes. Conhecido por ser um lugar onde atores de Hollywood como Angelina Jolie, Jared Leto, Leonardo DiCaprio, entre outros, passavam para tomar um drinque. Johnny Cash, John Frusciante, Tom Petty e muitos outros já tocaram por lá.”

mT praia
A banda aproveitou também para curtir shows e as belas praias da Califa. – Foto por: Gustavo Faria.

[Hits Perdidos]  Planejam voltar o mais breve possível para turnês internacionais depois de lançar o EP?

Mateus Zuanazzi: “Com certeza. Já estamos pensando como faremos a próxima, mas não temos nada confirmado, apenas possibilidades. Também queremos fazer turnê pelo Brasil e América Latina.”

[Hits Perdidos] Conseguiram estabelecer contatos? Nos últimos anos muitos artistas brasileiros tem viajado para tocar nos Estados Unidos, principalmente no Texas. Pretendem voltar para festivais do porte do SXSW, Primavera Sound e afins?

Mateus Zuanazzi: “Uma das melhores coisas de se estar em turnê são as pessoas que conhecemos no caminho, não só pela possibilidade de subir um degrau na carreira, mas pela experiência de conhecer pessoas com vivências diferentes das nossas. Conhecemos pessoas com as quais manteremos contato, trabalhando junto ou não. Voltamos dessa turnê com mais vontade de trabalhar, nos dedicar e evoluir como artistas.”

[Hits Perdidos] Falando em EP, o que podem adiantar sobre este lançamento?

Mateus Zuanazzi: “Com a possibilidade da turnê e por termos que organizar tudo por nós mesmos, tivemos que segurar o lançamento do nosso EP. A previsão é que ele saia em julho pelo selo independente Lion Morde. São seis faixas inéditas gravadas no estúdio Casinha, em Porto Alegre, pelo Rodrigo Messias e Bernard Simon Barbosa e masterizadas em Los Angeles pelo Brian Lucey do Magic Garden Mastering, que tem em seu currículo bandas como Arctic Monkeys e The Black Keys.

Antes de lançar o EP, já lançamos o primeiro single chamado “Pulling Back” e vamos lançar ainda um segundo single chamado “Emotional Inception”. Existe ainda a possibilidade de um clipe para Pulling Back sair na mesma época do EP.”

Desbravando a Califórnia: De carona com Missing Takes

Playlist Missing Takes

Para fechar o post claro que faremos com muita música. Os caras acabaram de voltar da Califórnia então claro que tem canções que fazem referências a locais da viagem como Los Angeles e São Francisco, outras de bandas do condado e outras que eles curtem de toda uma vida e são influências. Vendo a lista ouso arriscar que muitas tocaram nas rádios durante os trajetos pelas cidades, é claro.

E tem realmente de TUDO. De Katy Perry a Superchunk, de Tiê a Incubus, de NOFX a Foxygen. A playlist conta com 2h e 14 minutos de duração e 35 músicas. Ou seja uma ótima trilha para embalar a euforia da viagem!


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