Disordia manda um recado: o hardcore respira. Pois é, amigos hoje vamos falar sobre uma banda de peso, que carrega a bandeira e as raízes do punk/hc há dez anos.

Formada em 2006 na cidade de Jundiaí/SP, a Disordia é composta por Matheus Caccere (baixo), Fernando Oska (Guitarra), Renan Salles (Vocal/Guitarra) e Matheus Risso (Bateria). Eles tem como influências bandas que passeiam pelo hardcore oldschool, o Skate Punk, ska/punk e o hardcore melódico dos anos 90.

Foto Por: Jean Silva

Em suas letras eles costumam falar sobre questões do dia-a-dia, por meio de críticas sociais. Assim, eles tentam mostrar as cicatrizes dos problemas; frutos da sociedade em que vivemos.

A seriedade com que lidam com o trabalho, a atitude e a paciência no “corre” é o que os mantém vivos, firmes e fortes com tanta quilometragem de estrada. Sempre prezando pela qualidade na gravação do material, eles lançaram em 2013 seu primeiro trabalho: Auto Destruição.

O disco tem um lema e tema central:

“Acreditamos que podemos mudar algo. Porém, que o mais importante, primeiramente, é mudar a si mesmo. AUTO DESTRUIÇÃO explora isso em diferentes aspectos, em forma de 12 faixas de um belo Hardcore DIY.” Disórdia, 2013

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Através das faixas podemos ter diversas impressões e interpretações, como de praxe vamos tentar analisar um pouco, faixa a faixa o disco de estreia dos caras.

“Furacão Katrina” apesar de o nome remeter a tragédia em forma de tempestade tropical que devastou a cidade de Nova Orleans em 2005, tem este nome mais como força de expressão e conversa com o tema de auto-destruição para se encontrar.

O disco já começa como um petardo em forma de hardcore old school de bandas como o Slapshot de Boston com transições rápidas alá Gorilla Biscuits. Já os vocais, te lembram o jeito de cantar de Sandro, do grupo capixaba Mukeka di Rato.

“Em Débito com o Tempo”, mostra outra face da auto destruição, a bebedeira. A rotina de um alcoólatra que bebe para se encontrar, acaba perdendo a cabeça, a razão e não se encontrando. Com baixo bastante pegado e bateria frenética, a música poderia ser fácil de alguma banda Sxe, com sing-a-longs que devem deixar o show dos caras bastante interessante.

A terceira faixa, “Violência”, te remetem ao som do disco Mobilize do Anti-Flag no encontro de grupos como Strike Anywhere e Flatliners. Parece criticar a má polícia, o exército e as guerras ao terror. A falta de união e o sofrimento dos inocentes, que só gera destruição e pobreza por onde passa.

“Vida de um Morto”, o hardcore melódico pia, o sing-a-long do pop-punk de grupos californianos dão o tom. Cheia de transições, o som beira o mathcore em certos momentos em encontro com o fast melodic hardcore de bandas como Belvedere e This Is An Standoff. Já na letra, a busca de se encontrar e de ter um motivo para viver é o tema central, o drama que a busca causa e as desilusões em formas de cicatrizes que ela nos trás.

A canção, “Linear” parece beber da fonte do emo nacional de grupos como o Polara. A guitarra berra os acordes e acompanha o sofrimento do intérprete que fala sobre o dilema de estar perto da morte. A crítica a rotina e a inércia de não fazer nada diferente para melhorar sua vida.

“Capitalismo” me remeteu a música “Hardcore 84” do NOFX em sua pegada rápida, direta e marretada, ou seja em sua parte instrumental, um digno hardcore old school. Simples e direta, a música critica os podres do sistema capitalista, desde a indústria a corrupção generalizada; tudo isso em menos de um minuto.

Em seguida rola aquela pausa para os comerciais em forma de canção, “Pausa (Guaco)”, que brinca com a Bossa Nova/MPB e sua conteúdo, uma boa tirada. Logo em seguida “A Ignorância é uma benção”, solta a chinela, a canção começa meio NYHC e rapidamente transita para o Ska/Punk de grupos como o Murphys Law, Operation Ivy e Against All Authority. Na letra, é criticada a sociedade que ignora a corrupção, intrínseca da sociedade que tapa o sol com a peneira para os problemas. A sociedade do Pão e Circo.

Disordia – Foto Por: Jean Silva

“União” é a faixa nove de disquinho, tem o baixo pegado alá Matt Freeman (Rancid), e instrumental na linha do Bad Religion. O tom da crítica – por trás da bateria que come solto – questiona a honestidade do ser, a união, a cumplicidade e vê a morte como rito de passagem.

“Mentiras que habitam seu ser” é rápida, tem tom de sermão. Assim como as canções do Dead Fish, a música critica a estrutura da sociedade, os políticos, a desigualdade e a desconstrução disso tudo para encontrar o auto-conhecimento. A falta de pensar no bem estar dos outros e a falsa liberdade em que vivemos.

“Se For Para Mudar”, critica o adulto que largou os sonhos e as ideologias. Mostra a diferença do querer e o fazer, as derrotas e a vitórias que enfrentamos ao longo de nossa caminhada. Com trechos com trompete que remete ao jazz/ska, a canção cai como pedrada na vidraça, em forma de mensagem.

“Corra” fecha Auto Destruição (2013), serve de estímulo para levantar das derrotas, sacudir a poeira e seguir em frente tentando ir atrás do que te faz feliz. Cheia de guitarras super bem articuladas, ela te remete um pouco a grupos como o A Wilhelm Scream. Assim com uma mensagem positiva, PMA, o disco se encerra.

De 2013 para cá muita coisa aconteceu na história da Disordia, dentre elas muitos shows e novos sonhos e planos. Mas sempre sendo fiéis a suas crenças e razões para viver. Foi com grande satisfação e felicidade que eles lançaram a poucos dias, no fim de janeiro, seu segundo disco, Resolução.

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O trabalho saiu via Oba! Records e está sendo coletivamente distribuído pela Motim Records e Bigorna Discos. Foi gravado no Estúdio StereoLab e teve a produção e masterização feitas por Gab Scatolin (Studio Mug). Ele mostra em sí um maior amadurecimento e enriquecimento de influências, mas mantendo o nível de produção e execução.

“Estrada”, fala sobre a correria do cotidiano e seus traumas. E provavelmente sobre a dureza que é a vida e as inúmeras vezes que pensamos em desistir.

“Memento Mori” que é uma expressão latina que significa: “Lembre-se de que você é mortal”, “lembre-se de que você vai morrer”. É a segunda faixa do disco. O caos da transformação, a luta em vão contra o tempo e a canalização da energia em prol de algo construtivo para você mesmo. A única certeza sendo a morte, One Life One Chance, assim como a canção dos nova iorquinos do H2O diz.

“Manual” conta com a participação de Victor da banda Same Flann Choise. Nela a crítica é em direção ao sonho médio e a busca por viver o sonho dos outros em detrimento do próprio. A humildade que o ensinamento de aprender um pouco a cada dia nos transforma VERSUS o achar que sabe as regras do jogo, por um manual.

             A banda lançou no fim de Janeiro seu segundo disco, Resolução via Oba! Records                                     Foto por: Jean Silva

“Avalanche” assim como o nome começa derrubando tudo que vem a frente, tudo vai desmoronando tanto na letra, como provavelmente no palco ao ser executada. A crítica as falsas promessas e ao universo da cultura digital que estamos inseridos. A luta do ego através de redes sociais e o consumo tentando ser o que não é. A sociedade da exposição a todo custo, muitas vezes mostrando não ser verdadeira. A personalidade própria colocada em jogo, através de modas passageiras.

“Normal” é um hardcore para botar poeira para o alto, Black Flag school, com muita violência e caos sonoro em poucos acordes. E questiona: o que é ser normal? tudo isso feito um tapa na cara em 30 segundos, e poderia facilmente integrar o disquinho: Short Music For Short People, lançada em 1999 via Fat Wreck Chords.

“Fronteira” começa com uma levada meio Reffer no disco Interference (2001), a letra fala sobre integridade, lealdade e amizade. A influência das escolhas nos trajetos da vida, a vontade de deixar as coisas para trás e seguir em frente.

“Jazzbomb”, a curta canção que tem a participação de André do Strike, assim como o nome deixa claro: tem uma levada jazz e é bastante trabalhada, com solos de guitarra e atmosfera intimista. Ela ter exatamente 1 minuto, soa como um tapa na cara em qualquer ouvinte do estilo, devido ao seu fim precoce.

“Homem Bomba”, conta com a colaboração de Chinho do Chuva Negra. Melódica e rápida, ela tem o ritmo do caos e guitarras que choram conforme os versos da canção saem do fundo da alma. A letra mostra o caos do homem bomba, prestes a explodir por ter se perdido nos pensamentos. Sempre se colocando em segundo plano, e levando sua vida no limite.

“Surfista” é um ska/punk com uma levada Mighty Mighty Bosstones, o tom é de crítica ao estilo que eles descrevem como surfista, aquele cara que se camufla na vibe good vibes, só para descolar umas garotas mas quando o cerco aperta: se revela um homofóbico, alcoólatra, moralista e conservador. O falso hippie mas que só pensa no seu ego, e se sustenta a base de mentiras.

“Ventura”, que tem a participação de Nando da banda Manual. Tem uma levada que lembra os bons tempos de Street Bulldogs, e a qualidade das letras se equipara a grupos como o Zander. Boa canção, a guitarra encaixa bem com riffs poderosos. A letra fala sobre recomeçar.

“Reis e Porcos”, é paulada, feito o som de bandas como Bandanos. A agressividade está na atitude dos vocais e na veracidade das letras. Hardcore rápido, tem sua mensagem simples e direta.

“Estima” é um hardcore melódico, que fala sobre a auto estima e de como nós mesmos nos boicotamos na luta diária que é viver os nossos sonhos. O fazer a nossa parte, cultivar as amizades e fazer nosso melhor.

“Bento Barbosa, 539”, fala sobre o sonho médio. A engenharia do nascer, estudar, trabalhar, casar, procriar e morrer. A falha na procura do sentido da vida, já que viveu sempre no automático e deixou tudo para trás.

O disco através de uma mensagem positiva, tenta abrir os olhos do ouvinte para tentar rever como ele encara o mundo e o encoraja a viver tudo aquilo que este considera: de verdade. Não esquecendo de ser uma boa pessoa para o mundo, se respeitar, ser grato aos amigos e suas escolhas. A força matriz é a de aprender e recomeçar todos os dias. Afinal, estamos aqui de passagem e tudo que levamos deste mundo é o aprendizado.

A Disordia pretende lançar ainda este ano um Split com a banda CHCL pelo selo Bigorna Records.

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Download do disco Resolução (2016)
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Oba! Records
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Bigorna Discos

This post was published on 3 de fevereiro de 2016 11:19 pm

Rafael Chioccarello

Editor-Chefe e Fundador do Hits Perdidos.

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