Guilherme Arantes lança nesta sexta (15) o álbum "Interdimensional". Foto Por: Leo Aversa
Nesta quinta (15), Guilherme Arantes apresenta seu primeiro álbum de inéditas desde A desordem dos templários (2021) — leia entrevista exclusiva para o Hits Perdidos — Interdimensional. Residente na Espanha, mas com vindas anuais ao Brasil para cumprir a agenda de shows, o artista, aos 72 anos, já tinha revelado diversos detalhes da nova odisseia nas suas redes sociais.
Durante o processo de confecção de Interdimensional, o músico paulistano revelou um descontentamento com a indústria da música.
“Sei que um disco, um trabalho novo qualquer que seja, qualquer um, até mesmo de grandes mestres, consegue uma sensação de novidade por 15 dias. Depois disso, é página virada. Assim está a ‘realidade’, se é que é real. Não é um problema nosso, de nós, criadores. É uma patologia social, um desastre.
Fazer disco, com apuro e compromisso de arte, nobre profissão que em outras épocas tinha caráter diferenciado, (…) virou um diletantismo doméstico, uma profissão muito mais de fé do que de realidade”, ressaltou Arantes em texto no Facebook sobre a arte de produzir música e a “fábrica de salsicha” que virou a natureza dos lançamentos fonográficos cada vez mais voláteis.
No dia 9 de dezembro, o single “Libido da Alma” foi a primeira mostra do disco (Interdimensional) trazendo referências de R&B e bossa-soul que marcaram a virada dos anos 1970 para os 1980, representadas no Brasil por nomes como Lincoln Olivetti e Robson Jorge, entre outros.
A gravação foi realizada no estúdio do próprio artista, na Espanha, e reúne uma formação de músicos convidados. Milton Pellegrin assina o baixo, Alexandre Blanc participa nas guitarras e Gabriel Martini é responsável pela bateria. O single foi mixado por Sylvia Massy (Oregon) e masterizado por Felipe Tichauer. A capa foi criada por Guilherme Arantes a partir de uma foto de Márcia Arantes.
Interdimensional é fruto de uma parceria estratégica com a Virgin Music Group (selo da Universal Music voltado para artistas independentes) e a produtora MusicOn, que marca o início de uma fase comemorativa pelos seus 50 anos de carreira.
O novo álbum, conta com colaborações inéditas — incluindo uma faixa com Nelson Motta (“A Vida Vale a Pena” (I Believe in Love), 11ª colaboração da dupla, iniciada em 1986 com “Calor” e “Coisas do Brasil”.
Ao todo, Interdimensional possui 12 faixas e três bônus (Coaxo do Sapo/Virgin Music Brasil).
“Canções de intenso romantismo, com letras, harmonias e melodias visitando várias facetas do meu cardápio tradicional da carreira, desde as baladas pianísticas, as neo bossas e a MPB, o pop e o rock se estendendo até o progressivo”, descreve Guilherme sobre o repertório escolhido para a obra.
O texto publicado por Guilherme Arantes no dia 08/01, uma semana antes do lançamento, reacendeu um debate recorrente: a lógica da indústria fonográfica no Brasil, marcada por ciclos curtos de consumo, pressão por resultados imediatos e pouco espaço para obras de longo prazo.
A publicação originalmente feita no Facebook oficial de Guilherme Arantes obteve grande repercussão ao ser republicada no Hits Perdidos atingindo aproximadamente 200 mil pessoas. Confira o texto na íntegra abaixo.
“Para quem se interessar por saber um detalhe sobre a minha carreira tão peculiar, aqui vai um sucinto questionário, em forma de “charada”…
Só para distrair… só de curtição!
Muitos me perguntam uma série de porquês.
- Por que eu fiquei de fora de todos os line-ups de festivais e assemelhados, como os históricos Hollywood Rock, Rock in Rio, etc, e posteriormente também prossegui fora dos festivais modernos…
- Por que só eu fiquei de fora dos “Acústicos MTV”, quando todos os nomes dos anos 80 e 90 participaram, alguns várias vezes seguidas, e me tornei uma espécie de “leproso do pop” brasileiro, mesmo tendo sido historicamente pedra fundamental por várias vezes, como “Meu Mundo e Nada Mais” inaugurando o Pop Brasil em 76, e depois com Perdidos na Selva, Deixa Chover, inaugurando os Anos 80? Por quê?
- Por que eu fui cirúrgico e sistematicamente excluído, 100% cancelado das mídias escritas especializadas no Rock e no Pop brasileiro, tais como Revista Bizz e outras assemelhadas. Mesmo tendo sido praticamente o pai de todo o movimento?
- Como é que eu sobrevivi a essas exclusões vergonhosas, e hoje ainda estou aqui, de pé e vivinho da silva, prestes a lançar um álbum histórico (por marcar 50 Anos-Luz) e uma grande turnê de cinquentenário de carreira, e tenho moral absoluta para contar essa história?
As respostas, nos próximos capítulos.
Este mundo é uma piada.
Mais engraçado ainda é poder “dar nomes aos bois” …
Só não sei se vale a pena guardar rancores…
Penso que não…
Mas “saborear” sim. E dar muita risada, porque é um mundo caricato.Vou começar a responder nas linhas abaixo.
O mundo da música é feito em camadas que se sucedem.
E não são apenas as modas, em ondas…
Ondas de linguagem, de costumes e roupagens, timbres, calças e cabelos…
Às vezes são também os suportes tecnológicos que se renovam, e muitos nomes vão ficando para trás.
Nesse aspecto, fui sobrevivendo quase sem traumas.Só nos anos 90, com a chegada da replicação digital (o desastroso CD, não pelo veículo em si, mas pelo mau uso que fizeram com o imediatismo) as gravadoras inventaram, ou aproveitaram melhor dando mais ênfase a artistas para a “escala de milhão”, e surgiram os filões adequados (Axé, Pagode, e o Neo-Sertanejo).
Os gêneros musicais são sempre válidos, vejam bem, o que criticamos aqui é o “hype” artificial.
O fato é que a nossa geração sentiu o baque com as concorrências violentas que tivemos que nos confrontar. Uma delas é a ascensão inexorável e plenamente justificada do Agro. Com o Sertanejo ninguém pode.Outra foi a ascensão monumental da Bahia como polo turístico e comportamental, a explosão bela e maravilhosa do Axé, com artistas muito mais eficientes.
Outra ainda foi a explosão espetacular de uma Jovem Guarda preta no país, tomando conta dos programas de auditório com os sucessos inequívocos do Pagode.
E ainda o surgimento do Rap, tendo à frente, entre outros, os Racionais de Mano Brown, de quem me tornei fã ardoroso de primeira hora!
Núcleos de híbridos dessas tendências ainda produziram vertentes geniais de Charlie Brown Jr, o Rappa, misturando rap com reggae, punk com samba, o Planet Hemp, o Brasil ficava muito múltiplo e, por que não dizer – legítimo.
Quem seria eu para criticar o “novo “?
Veio ainda a fulminante Cena Pop de BH, com bandas excelentes como o Skank, o Jota Quest, o Pato Fu, Wilson Sideral, e o rádio nos anos 90 virou uma festa de uma nova geração.
A nossa geração 70/80 sentiu o baque.
Eu, que não era nenhum blockbuster de vendas, perdi o pé, porque não tinha uma operação de marketing que me abarcasse dentro.
Me vi avulso.
Mas existiram outros fatores muito piores, já a partir da década de 80.
Surgiram nichos importantes de mídia, e eu estava despreparado, principalmente frente à velocidade dessa transformação.
Eu vinha da televisão, dos programas de auditório, uma espécie de pós-Jovem Guarda.As trilhas de novelas, que haviam me projetado, iam se tornando mais e mais competitivas nas gravadoras, e a ferocidade nos bastidores ia se recrudescendo, com novos “hitmakers” entrando no páreo, cada dia mais profissionalizado e disputado. Muito talentosos e espertos também aprenderam as minhas velhas fórmulas das baladas de novela… virou um gênero vulgar, o que era para mim uma obra de arte.
Não bastava eu ter uma música “Amanhã” no Dancin’ Days.
Tornou-se a “Era dos HitMakers”, com hits fabricados em escala industrial, e eu era muito mais do que isso. Eu não vendia disco, era um mero artesão. Simples assim.
A chegada do Pop Rock aos auditórios, trazendo um Brasil Jovem para a popularidade nacional, acendeu o interesse das “majors”, e um nicho jovem logo se instalou, com o Circo Voador, o Asdrúbal, e o fenômeno das “danceterias”, os “trends” do New Wave, New Romantic, Pós-Punk, New Bossa, Brit Pop, Grunge, etc, etc… uma floresta de cogumelos pipocando micro-modas.
A seguir, as Editoras passaram a dedicar partes de suas redações para o público jovem.
Eu ainda performava bem no tempo da Revista Pop do Okky de Souza, Antonio Carlos Miguel, Ana Maria Bahiana, Ezequiel, Julio Barroso, e muitos outros amigos geracionais… Nelson Motta entre eles… eu estava na Warner do Midani, com bons assessores de imprensa e um foco especial no cast jovem, com Baby, Pepeu, A Cor do Som, Dafé, Oswaldo Montenegro, As Frenéticas, Gang 90, Marina, Lulu Santos, Ira!…
Mais tarde chegariam os Titãs, o Ultraje, em plenas águas turbulentas dos anos 80.
No meio da década, mais precisamente no final de 84, eu iria para a CBS do Tomás Muñoz, Condé, Maynard, assinava contrato com uma espécie de Real Madrid, uma Ferrari campeã de vendas, com o RPM no auge, Djavan, Simone, Fabio Jr, Rosana, Ritchie, Radio Taxi, Metrô, Angélica, Turma do Balão Mágico, Dominó, Leo Jaime, e muitos outros frequentadores do Globo de Ouro… num apogeu fonográfico internacional do “We Are the World”, “Thriller”, imaginem que onda…
A CBS tinha um marketing bem agressivo, mas não se especializou nem em MTV, nos canais e programas de clips que viraram moda… e nem em Revista Bizz e outras publicações especializadas desse período. Eram novos canais preferenciais de um movimento geracional, ligado a outros grupos fonográficos.
Eu estava muito bem, com sucessos e boas vendas todo ano, mas nós não estávamos muito preocupados com a mutação do mercado, especialmente do Show Business, que começava uma escalada de “substituição da indústria fonográfica” por uma nova indústria, a do entretenimento do espetáculo. O disco, que era até então o foco principal, começava a virar um suporte secundário.
Após o Rock in Rio, que inaugurou uma nova escala de produção de shows no Brasil, ainda se instalou uma “indústria de imagem” como nunca havia existido antes.
O vidoeclipe como produto, não mais como mero suporte de divulgação…
Uma nova linguagem, filmada em película, por cineastas, e voltada para um canal específico extremamente estratificado.
E Excludente. Eu claramente não “era da turma”, já era um dinossauro.Eu sabia disso tudo, era informado, mas iludido, não acreditava muito… me achando o “rei da cocada-preta”, deitado nos louros de Gugús, Raul Gil, Cassino do Chacrinha, Bolinha, Globo de Ouro, Fantástico, Xou da Xuxa, com os velhos videoclipes em BetaCam, brincando com “chroma-keys” primários, ballets cafonas, fumaças de gelo seco, muitos panos esvoaçantes e taças de champagne, vamos ser sinceros, mergulhado numa estética careta, eu estava ficando pra trás, com os meus enormes pôsteres da Amiga e da Contigo nas paredes dos salões de beleza.
Hoje eu lembro com carinho, mas dando muita risada…
A minha música era boa, eu sabia, e sabia que iria durar, mas aquele momento de virar a mesa esteticamente, nos vídeos, nas capas, enfim, na imagem… já há muito havia passado do ponto.Eu já era.
Em 92 eu ainda migraria para a EMI Odeon, para um cast que reunia Paralamas, Legião Urbana, Marisa Monte, Kiko Zambianchi, Marina Lima, só craques com discos e imagem impecáveis, e pude pela primeira vez me autoproduzir (assumir o comando fonográfico) o LP “Crescente”, uma obra-prima, no Estúdio Mosh, com mastering em NY, no MasterDisk do Bernie Grundman, e fiz um único clip de arte, com Flavio Colker, da música “Taça de Veneno, um clip lindíssimo em linguagem de cult movie.
Bola dentro com a equipe da EMI Odeon, que acreditou no meu taco, porém 93 seria um ano de desmanche dessa indústria fonográfica “mais nobre”, e um mergulho generalizado nos caminhos milionários do CD e do DVD.
Cabeças estavam rolando nas gravadoras “majors”, que faturavam como nunca com o digital, era o frenesi de um Titanic afundando.
Eu havia chegado tarde. (Ou quase)…
Mal consegui tangenciar aquela geração que consolidava prestígio com sucesso…
Dali para a frente, eu vivi o meu “jubilamento” das gravadoras “majors”.
Não tive conflitos, não processei ninguém, não virei persona non grata…
Simplesmente fui me retirando, com minhas autoproduções em Adats, e já nos anos 2000 migrei para Protools, Logic Audio, montei meu estudiosinho, meu selo independente e passei a um status de “cult”… nanico, mas respeitado.
Penso que foi um processo normal.
33 anos depois, a idade de Cristo, eu não vejo nada de mais no que aconteceu… ou deixou de acontecer comigo.
Está tudo bem, tem lugar para todo mundo, tem lugar para todos os nossos acertos e… para os nossos erros, um lugar ainda mais especial!
Conseguimos compreender, e aceitar, que a gente falha (muito) também nesta vida, por mais que o sucesso seja tão gratificantemente enganador…”
Guilherme Arantes, 8 de janeiro de 2026
O texto enviado à imprensa escrito pelo jornalista e produtor musical Marcus Preto conta com breves relatos de um telefonema feito ao músico durante o início do processo de estúdio. Nele, o compositor comenta que uma das premissas de Interdimensional justamente era preservar a longa duração natural de várias faixas.
“O tempo das canções não deveria nunca mais obedecer aos ditames do algoritmo ou de qualquer padrão. Não vale mais fazer esse sacrifício na hora de compor, já que a adequação da ‘música de mercado’ simplesmente perdeu a razão de ser.
Talvez estas não sejam mais canções para este tempo atual, tão imagético e caricato. Talvez estejam mais ligadas a um passado glorioso. Ou sejam projeções para um futuro qualquer, mais generoso e que dê valor aos sons e às palavras. O tempo de tentar se enquadrar em gavetinhas de dois minutos já ficou há muito para trás”, revelou Guilherme Arantes.
“Ao ouvir em primeira mão “O Prazer de Viver para Mim É Você”, meu parceiro Nelson Motta reconheceu uma linhagem: aquela que conecta Chopin (1810-1849), Debussy (1862-1918) e Tom Jobim (1927-1994), tendo o período áureo do samba-canção e da bossa nova como matriz fundamental da minha formação, mesmo quando a música que eu fazia se aproxima de uma vertente mais pop. Ali se renovou o desejo de uma nova parceria nossa. Muitos clássicos do meu repertório nasceram dessa assinatura conjunta, em canções como “Coisas do Brasil”, “Marina no Ar” e “Era uma Vez um Verão”, entre outras. A saudade de voltar a compor com Nelsinho me levou a caprichar ainda mais na feitura da canção, escrita em janeiro de 2025.
Assim surgiu a faixa que abre este novo álbum: claramente chopiniana-jobiniana em sua simplicidade harmônica e cromática, e rapidamente assumida como um novo clássico da nossa parceria. Nelson entregou a letra em questão de dias. Ela traz um olhar retrospectivo sobre a vida, marcado por um “otimismo realista” e por uma visão madura do amor na convicção profunda de uma plenitude agregadora de todas as contradições do viver e do sonhar romântico. Um romance menos idealizado e mais real. É uma balada clássica vestida com simplicidade em piano, violão e cordas, com destaque para o coro de inspiração gospel no verso “I believe in love”.”
“As influências vão do pop oitentista de Billy Idol, Brian Ferry e dos suíços do Double à MPB dos anos 90, numa ode à revelação amorosa através do olhar. A curiosidade está num falso final que, aos 2 minutos e 20 segundos, separa a segunda parte do poema.
Em tons “caetanísticos” e “buarqueanos”, aflora ali o delírio da letra, que expõe o complexo desafio do cotidiano nas relações amorosas. A escolha é também uma provocação à lógica do mercado radiofônico, que impõe às canções uma duração estritamente funcional. A pausa funciona como uma tentação para que as rádios interrompam a execução, deixando o “papo cabeça” reservado aos ouvintes mais atentos. Uma brincadeira consciente de compositor. Destaques para o baixo de Milton Pellegrin e as guitarras de Alexandre Blanc.”
“Esta canção nasceu de uma crescente angústia diante do olhar devassador com que o ambiente social, coletivo e digital atua. Ele acaba sendo, no dia a dia, um tribunal de constante e implacável julgamento sobre as escolhas individuais. A felicidade alheia, nesse tempo de vigilância opressora das redes, parece sempre convocar adjetivos, julgamentos e opiniões.
Uma (des)humanidade imagética que projeta e constrói tudo a partir do olhar: olhares, câmeras e telas transformados em instrumentos de engano, desencanto e condenação. Diante disso, o amor e as relações precisam resistir, seja aos olhares de desaprovação materializados em comentários e críticas, seja à inveja, seja ainda à admiração exagerada, que beira o desejo incontido e o aliciamento à traição. Destaque para o trombone de Marlon Sette, que pontua a melodia e inaugura a canção com uma introdução magistral.”
“Traz um estilo híbrido de MPB com soul music brasileira que já visitei em canções que ficaram bastante conhecidas como “Pedacinhos”, no início da década de 80. E marca uma antiga afinidade com o estilo dos teclados de Lincoln Olivetti (1954-2015), dos arranjos de Biafra, Prêntice (1956-2005), Claudia Telles (1957-2020) e Banda Black Rio: uma linhagem nobre que soube misturar bossa nova com soul music. Mais um destaque para o baixo de Milton Pellegrin. O tom do canto foi cuidado para soar ao pé do ouvido, inspirado na escola de João Gilberto (1931-2019) e a delicada emissão que ele ensinou ao mundo. Um cuidadoso aprendizado, uma aventura nova como intérprete.”
“Balada pop clássica de viés cósmico-filosófico, a canção é uma declaração explícita de amor que se expande até se tornar um diálogo com a Instância Máxima da Criação. Iluminado por uma nova visão do Cosmos, possibilitada por instrumentos recentes e avanços espetaculares da pesquisa científica, o Universo se revela em grandeza e complexidade ampliadas ao olhar fascinado e estupefato da humanidade.
As dimensões e distâncias inalcançáveis do espaço-tempo passam a expressar, cada vez mais, a pequenez humana. Mesmo assim, há uma esperança filosófica no ponto em que Ciência e Espiritualidade convergem. Uma epifania recente: a vida inteligente pode ser também uma recriação do Princípio Criador de Tudo. Sou fascinado pelo princípio ao qual damos o nome genérico de Amor.
O mesmo Amor ao qual damos um nome genérico e teológico para explicar a Instância Máxima que Tudo Rege. O Princípio fundador e final da Criação, ao qual atribuímos o nome abrangente de Deus, seria algo que carregamos dentro de nós. Talvez aí resida a chave para a libertação da pequenez e da sensação de insignificância humanas. Ao conectar o espírito ao Princípio Criador, tudo se tornaria possível no espaço-tempo. E talvez esse seja o segredo comum a todas as tradições teológicas, uma espécie de meta-tecnologia que nos faria regentes do Todo. Destaque ao baixo de Willy Verdaguer e à bateria de Gabriel Martini.”
“Embora meu nome tenha sido muitas vezes associado à década de 1980, minhas raízes estão mais profundamente fincadas nos anos 1970, com suas estéticas, referências e iconografias próprias. Dentro deste novo álbum, a vertente pop setentista se manifesta em “Enredo de Romance”, faixa de sonoridade “vintage” que combina influências evidentes de Steely Dan, Doobie Brothers, Rita Lee (1947-2023) e A Cor do Som, por exemplo.
A gravação se apoia numa levada guiada por piano elétrico Wurlitzer e guitarras retrô, com destaque para o solo de Luiz Sérgio Carlini, justamente o guitarrista do Tutti-Frutti, que se insere entre as guitarras de acento latino de Blanc. Resultou em um pop brasileiro típico: ensolarado, colorido de verão e repleto de percussão: congas, bongôs, chocalhos, reco-reco e cowbell.”
“Composta para Claudette Soares a partir de um convite de Marcus Preto, a canção visita um gênero clássico da canção brasileira que, até então, eu não tinha visitado como compositor. Acabou por se tornar um portal criativo, abrindo a janela para um universo mágico de sonho, um sonho delicado de brasilidade moderna.
A audição recorrente de elementos basais dos anos 1950 e 1960, como Julie London (1926-2000), Chet Baker (1929-1988) e João Gilberto (1931-2019) se soma ao prazer de sentar ao piano para estudar e tocar Tom Jobim (1927-1994), Johnny Alf (1919-2010) e João Donato (1994-2023), mergulhando na riqueza do piano brasileiro, do samba-canção e da bossa nova que marcaram minha infância ainda no período pré-Beatles. Havia ali algo de renascimento. Todo esse caldeirão começou a ferver durante o hiato de 2024 e 2025, fase de longos recolhimentos dedicados à composição.
A gravação deste álbum marca o reencontro com o meu piano Steinway no estúdio de Avila, agora concluído. A faixa, agora, foi remixada por Sylvia Massy com nova concepção em relação ao single lançado em 2024 para manter unidade sonora com o restante do álbum. O arranjo e a regência são de Jacques Morelenbaum e a gravação aconteceu nos estúdios Biscoito Fino, no Rio de Janeiro.”
“É uma experiência nova para mim: uma valsa brasileira clássica, dentro da tradição do piano brasileiro de Ernesto Nazareth (1863-1934). A melodia tem forte influência dos mestres Pixinguinha (1897-1973), Taiguara (1945-1996), Francis Hime e Chico Buarque, falando da passagem do tempo a partir do olhar da maturidade sobre a paixão amorosa. Com arranjo em piano, cravo Zuckermann e cordas, traz ainda a participação muito especial de Mônica Salmaso no canto. E ainda as clássicas flautas de tradições melódicas brasileiras de Teco Cardoso em um estilo Pixinguinha que homenageia um Brasil terno e delicado que resiste aos tempos modernos.”
“A faixa mais roqueira deste repertório, seguindo uma estética já presente em meus álbuns Condição Humana (2013) e A Desordem dos Templários (2021), desta vez com um acento de bandas como o Led Zeppelin, Jethro Tull, Rush e muito de Peter Gabriel na fase solo. São referências seminais para mim.
O guitarrista Luiz Sergio Carlini, o baixista Willy Verdaguer e o baterista Gabriel Martini dão o aspecto de “band rock” para esta faixa, que versa sobre o paradoxo da humanidade diante da realidade quântica do intra-universo em face do extra-universo de proporções descomunais, a natureza meramente energética de toda substância: somos elos numa corrente impossível de se compreender.”
“A canção teve, a princípio, o subtítulo “Dos Descartes”. Parte da figura humana diante do espelho, diante do próprio envelhecimento: o processo gradual de se acostumar à própria metamorfose sem jamais perceber a truculência do tempo. Há também a visão narcísica da autoimagem projetada como num espelho retrovisor, em que a vida e o mundo se tornam fugidios, voláteis, reduzindo-se a um nada na estrada da existência.
Musicalmente, trata-se de um eletropop clássico, com influência mais evidente de Dave Stewart (Eurythmics) e Vince Clarke, meu ídolo total. Ambos são clássicos da música eletrônica mundial e nobres inspirações. Participam da gravação Gabriel Martini (bateria) e o guitarrista norte-americano Scott Ackley (aka Mark James), radicado em Nova Friburgo (RJ). Sua presença resgata um elo histórico e afetivo: no início dos anos 1980, Scott participou das gravações de “Deixa Chover” e “Planeta Água” e do meu álbum de 1982 (o que tem “O Melhor Vai Começar” e “Lance Legal”, entre outras), marcando com suas guitarras uma sonoridade clássica de hits na minha carreira.”
“A única faixa em [ritmo] 6/8 do novo álbum é uma versão pessoal de uma composição escrita especialmente para Gal Costa (1945-2002) e lançada por ela em 2016, no álbum A Pele do Futuro. Na letra desta canção, também encomendada por Marcus Preto, é abordada a intolerância de costumes numa onda de radicalização da chamada “guerra cultural”, potencializada pelas redes sociais e expressa em anacronismos dogmáticos.
O resultado é um poema em forma de manifesto. Trata-se, aliás, da canção mais antiga deste repertório. No arranjo desta nova versão, destacam-se o violoncelo de Mario Manga e o cravo (harpsichord) Zuckermann, modelo Double-Flemish Ruckers, executado por Guilherme.”
“Canção foi lançada originalmente no álbum mais recente do Boca Livre, Rasgamundo (2024) e outra encomenda de Marcus Preto, produtor daquele trabalho. Esta minha versão tem contrabaixo acústico e bateria tocada com vassourinhas, imprimindo um delicado tom jazzístico de MPB a uma balada pianística de atmosfera onírica, cuja letra especula a possibilidade de um reatamento amoroso. A guitarra semiacústica de Alexandre Blanc remete, propositalmente, à sonoridade clássica de Barney Kessel (1923–2004), figura fundamental na formulação do estilo da bossa nova nos anos 1950. Um fascínio irresistível para mim, que ainda era criança à época, sob o impacto da chegada de um movimento revolucionário que colocaria o Brasil no centro da moda musical mundial.”
“É a faixa de acento mais progressivo de todo o álbum: um tema instrumental de caráter épico, que destaca a banda de Guilherme – a mesma que estará nos palcos da turnê comemorativa que se aproxima e vai percorrer o Brasil em 2026. O importante da composição está na solução harmônica de tons “brasilianistas”, com influência de Heitor Villa-Lobos (1887-1959), mesclada à natureza grandiloquente do rock progressivo.
Essa síntese, aliás, aponta para uma das marcas centrais do álbum: o resgate da brasilidade na minha música, em uma dimensão recorrentemente afetiva, num mundo e num momento de descaracterização e padronização mundial, impulsionadas pela conectividade irreversível e dominante. Não por acaso, o álbum também busca esse mesmo espírito na dimensão visual. Recorremos à estética da azulejaria brasileira moderna como referência de design e estilo, presente nas artes gráficas e cerâmicas de Alexandre Mancini (Minas Gerais), como mote estético para criar as fotografias leves e profundamente brasileiras de Léo Aversa. Um Guilherme Arantes brasileiro.”
“Canção de ninar composta em 2021 especialmente para a interpretação de Alaíde Costa no álbum O que meus Calos Dizem sobre Mim (2022), produzido por Pupillo, Emicida e o amigo e produtor Marcus Preto. Foi uma experiência muito marcante para mim por conta da ternura do tema.
Alaíde gravou com violão e outros instrumentos, já que a opção estética do álbum era não ter piano. No meu álbum, esta música vem embalada por meu piano e as cordas densas escritas e regidas por Jacques Morelenbaum, ao estilo de um “romantismo tardio fin-de-siècle” com fortes influências harmônicas do grande mestre Gabriel Faurè, uma paixão absoluta para um compositor romântico. Por fim, com o resultado magistral do arranjo de Jacques Morelenbaum, a referência mais forte nessa faixa acaba sendo a obra-prima “Água e Vinho” de Egberto Gismonti: um marco na vida do Guilherme nos tempos da FAU-USP.”
“Encerrando o álbum, resolvi publicar uma versão “cinematográfica” da melodia “O Prazer de Viver para Mim É Você”, em que o ingrediente principal passa a ser o tempo. Um tempo que nos maltrata e aprisiona, mas que pode ser transformado por nós em uma dimensão fluida, propositalmente lenta, em oposição à pressa onipresente do mundo.
A intenção é criar uma atmosfera de sonho e devaneio, à semelhança dos temas pianísticos do chamado “cinema de arte” (especialmente o europeu), reflexivo e intenso na emoção, uma moda maravilhosa da arte mundial que tanto marcou minha adolescência nos anos 60 e 70. A faixa encerra o disco como um último delírio, uma epifania de amor, a saudade de um futuro que um dia se pintou no imaginário de um mundo talvez impossível, mas incontornável na nossa emoção de viver.”
Batizada de “50 Anos-Luz“, a turnê está programada para ter início em março de 2026, com o primeiro show marcado para a capital paulista, no Espaço Unimed. O projeto visa percorrer palcos e arenas pelo Brasil, revisitando o repertório que consolidou Arantes nas rádios e na televisão ao longo das últimas cinco décadas.
O setlist previsto para os shows deve incluir faixas como “Amanhã”, “Planeta Água”, “Um Dia, Um Adeus” e “Cheia de Charme”.
O artista comentou sobre o marco de 50 anos, definindo o período como um “exercício de sobrevivência ao tempo, às camadas de modas e tecnologias”.
“São 50 anos de aprendizado, do prazer insubstituível de fazer música”, afirmou Arantes.
Ele justificou a união de um disco de inéditas (Interdimensional) com a agenda de shows como uma forma de “brindar o público com o mesmo prazer que me trouxe até aqui”.
“Ao completar meus 50 anos de carreira, muito mais do que um simples contrato para uma turnê, este momento com a MusicOn marca toda uma nova dimensão profissional, e conjuntamente com a Virgin, vejo a minha trajetória tomando uma nova impulsão maravilhosa”, declarou o artista durante o anúncio oficial.
Você já pode adquirir os ingressos através do site oficial da turnê (confira) e ouvir o disco em sua plataforma de streaming favorita clicando aqui.
This post was published on 15 de janeiro de 2026 10:00 am
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