Dark Dharma, a aposta melancólica da Giant Jellyfish

 Dark Dharma, a aposta melancólica da Giant Jellyfish

Giant Jellyfish lança o álbum “Dark Dharma” – Foto Por: Leandro de Villa

Segundo álbum da banda andreense, Dark Dharma, propõe um acerto de contas com o passado a partir da união entre primitivismo stoner, doom metal, rock psicodélico, grunge e outros transes

O que é Stoner Rock?

Qualquer um que acompanhou o universo roqueiro nos últimos anos cansou de ouvir falar em stoner rock, o subgênero retrô que está presente em quase todas as grandes cidades ocidentais há mais de três décadas.

Fundindo rock vintage com temas como tédio, transcendência, euforia, distopia e drogadição, o subgênero vem promovendo releituras do hard rock dos anos 1970 à luz do rock ácido e psicodélico dos anos 60, do rock estadunidense e inglês das décadas de 1980-90 e do doom metal. O resultado são mesclas que ora pendem para o sludge e crossover, ora para o indie rock e o grunge.

Essas variantes sonoras começaram a ser esboçadas no final dos anos 1980, com os primeiros álbuns de bandas de Washington como Nirvana, Melvins e Soundgarden. Em 1991, em New Jersey, surgiu o primeiro disco do Monster Magnet, mas foi na Califórnia que o bicho pegou com Kyuss, Sleep, Fu Manchu, Acid King etc.

Ouça a Playlist Roque Chapado do Hits Perdidos

A cena stoner no ABC paulista

Independentemente da nostalgia e cheiro de brechó, essas bandas sempre soaram atuais e adequadas aos problemas do tempo presente, o que torna o sentido da palavra “stoner” algo um tanto específico: uma estética e uma sonoridade que respondem por apenas uma parte do amplo mercado musical de roqueiros vintage, retrô e revivalistas que vão de Black Crowes a Greta Van Fleet, passando por The Hellacopters e Queens of the Stone Age.

No ABC, a primeira manifestação do movimento se deu com a formação da banda Montanha, em 1988. Aliando hard rock setentista com espírito pós-punk, Montanha representava regionalmente uma tentativa de retomar o caminho trilhado desde o início dos anos 1970 por bandas como The Buttons e Porão 99.

Ainda em atividade, o grupo lançou um compacto 7” (1992) e três CDs (2004, 2010 e 2014), tornando-se a principal referência regional para o revival stoner da segunda década deste século, que revelou nomes como Atomic Dust, Autovoid Redemption, Idade da Pedra, Octopus Day e Giant Jellyfish. No caso específico da Giant Jellyfish, falamos de um segmento que poderíamos classificar como stoner doom.


Giant Jellyfish lança o álbum Dark Dharma_2022_Foto por Leandro de Villa
Giant Jellyfish lança o álbum “Dark Dharma” – Foto Por: Leandro de Villa

Giant Jellyfish

Para quem não conhece, a Giant Jellyfish foi formada em junho de 2016, por Teka Almeida (voz/teclado), Rafa Almeida (guitarra), Thiago Fagner (baixo) e Leandro de Villa (bateria). O grupo realizou sua primeira apresentação em fevereiro de 2017, no 74 Club, e gravou seu primeiro álbum em janeiro de 2018.

Entre um evento e outro, passaram um ano percorrendo o eixo do Tamanduateí para tocar com bandas do ABC e de fora dele. Após o lançamento do álbum, em abril de 2018, rodaram um clipe para “This Landscape of Steel” e voltaram a tocar nos muitos bares, estúdios e festivais da Grande São Paulo. E apesar da troca de baixistas, com a entrada de Claudio Funari em setembro de 2018, gravaram um novo vídeo (“Live Long Enough”) e mantiveram a sequência de shows até o começo de 2020. Aí veio o vírus. 

Dark Dharma (2022)

Os quatro integrantes já vinham trabalhando em novas composições desde 2018, até que o isolamento social permitiu ampliar a produção. Entre março e outubro de 2021 fizeram as captações de oito faixas e, quatro meses depois, o álbum foi disponibilizado nas plataformas digitais.

A primeira impressão é que Dark Dharma se distancia da sonoridade anos 90 que estava bastante presente no primeiro disco, aquele rock alternativo mais leve, meio grunge, meio shoegaze, às vezes sem distorção, com notas soltas e vocais limpos. Nada mais equivocado. Passagens semelhantes continuam existindo, porém subordinadas a uma atmosfera sombria, ainda com vocais limpos, mas com baixo e bateria pesadões, gritos, guitarra grave e seca, teclado sinistro e timbres que já não soam abertos como antes.

A rusticidade permanece, assim como a estrutura repetitiva em torno do Black Sabbath, o compasso binário, as pentatônicas e tudo que se espera do subgênero. Mas muita coisa mudou. O teclado se arrisca mais como coadjuvante melódico, diversificando caminhos, enquanto a bateria parece trabalhar com figuras rítmicas menores. O clima ficou trevoso e aquela repetição nauseante entrecortada por falsas mudanças que sucumbem à neurose, ao vício e ao conforto do já esperado, agora está mais difusa e grave.

Se o disco anterior era um stoner que nos remetia a Pin Ups e ao setlist do Dj Cesinha em uma noite depressiva, agora as coisas estão diferentes, conduzindo-nos a catacumbas urbanas um pouco mais obscuras. Os versos de abertura de “As Poisoning as God” anunciam o clima: “Querida esperança, eu digo adeus / Você não é bem-vinda em tempos de desespero / Com nossa casa em chamas você é inútil / Querida esperança, eu digo adeus”.

Enquanto nos arrastamos entre sussurros e mercadorias, mentiras e guturais, galões de sangue e uma afinação que apela periodicamente à dropagem em ré, somos levados a lugares quase conhecidos do disco anterior, onde os timbres importam tanto quanto a harmonia e o canto brota suave. Mas apenas para, no final, não deixar dúvida quanto ao eterno regresso àquela atmosfera arrastada que nos conduz pelo brejo de desolação que é a neurose cotidiana.

O desenvolvimento da sonoridade

Os elementos musicais vão sendo apresentados um a um, com tranquilidade e sem choques, por meio de uma monotonia kafkiana. Desesperança, desespero, apatia coletiva e mãos sujas de sangue, essa é a trama que une as quatro primeiras músicas: “As Poisoning as God”, “Navel Gasing”, “Spoiler Alert” e “Keep Smiling”. Um exemplo dessa unidade é a “apatia” (apathy/apathetic) que gravita a órbita do verbo “to keep” em diferentes faixas, enfatizando a cumplicidade exigida pelos processos descritos.

Se a apatia é um sentimento que nos emudece e faz “os significados de nossas palavras derreterem ao sol”, isso não impede que no decorrer das canções algumas mensagens nos cheguem pelas frestas dessa incomunicação. Nesse sentido, a simplicidade instrumental de “Dharka” (apenas dois teclados e voz) parece querer semear uma esperança melancólica, um apelo à consciência em meio ao desenraizamento: “Você foi arrancado” / “Você está secando” / “Você está do avesso”.

Na sequência, em “Marvelous City”, o desespero se transforma em um desamparo paralisante, que prepara para a guerra, mas impede de lutar (“Perde seu significado assim que atinge a costa”). Essa ideia de desamparo havia aparecido pela primeira vez no lisérgico “Os coelhos brancos se foram”, de “Keep Smiling”.

A totalidade se move lentamente, em crescendos, diminuendos e repetições com mínimas variações que criam um acúmulo acústico e semântico facilitado pela técnica de overdubbing. Um êxtase ritual que exige mais leveza de espírito do que esforço interpretativo, como costuma acontecer em quase todos os rituais.

Até que chegam novas promessas de mudança, quebras, passagens-balada, interrupções, gritos, esperas… e então somos novamente puxados pela repetição centrípeta de um Tony Iommi pantanoso que nos lembra do retorno periódico de desejos que tentamos recalcar sem sucesso. Tudo como manda o figurino stoner.

Mas é em “Track of Time” que, no lugar da apatia, finalmente encontramos a afirmação consciente de uma necessidade melancólica: “Sinta-se aterrorizado / Sempre que as coisas vão bem”, ou quando você não conseguir respirar por estar “preso em um ciclo de tristeza”. Até o verbo “to keep” reaparece como um princípio de esperança, transfigurado pela utopia da “Native Alien Jellyfish” e seu desamparo inerente (“keep on moving”).

Ao fim e ao cabo, tudo transcorre como esperado sem que, no entanto, isso nos traga qualquer sensação de normalidade.


Giant Jellyfish em show - Dark Dharma_2022_Foto Por Rafael Melo
Giant Jellyfish em ação. – Foto Por: Rafael Melo

A aposta em um futuro stoner

Dark Dharma é um disco para ser ouvido e pensado, porque nele está contida uma aposta corajosa, ainda que melancólica. Ao se livrar dos saudosismos e idealizações do passado, a medusa gigante conduz nossa atenção para os vestígios, para os indícios de um futuro bloqueado. Tudo sem nenhum rancor ou ressentimento, sempre ciente de que o passado não é uma saída.

Ao escavar as causas da desesperança, as letras de Teka nos mostram que somos parte das contradições que criticamos, que somos parte das contradições que determinarão nosso futuro. Talvez por isso a tarefa de despertar consciências e enxergar o futuro nas tendências do presente seja tão difícil e, ao mesmo tempo, tão inevitável para quem não quer interpretar o deprimente papel de roqueiro reaça.

Giant Jellyfish oferece um futuro alternativo para o rock, para que ele transcenda a atmosfera tóxica de tiozões brancos desquitados e se adeque aos novos tempos, servindo como meio de conscientização a respeito de nossas lutas e dramas cotidianos. A aposta está feita.

Ouça Dark Dharma


Leandro Candido

Leandro Candido é sociólogo, professor e pesquisador. Escreve sobre arte, música e história do Grande ABC. É autor dos livros A cidade dos pinguins: Santo André, memória e esquecimento (2020) e Entre a vanguarda e a arte: poesia concreta (2021).

Related post

error: O conteúdo está protegido!!