Um novo capítulo na trajetória dos Seletores de Frequência. São mais de 15 anos de história da banda que foi batizada por BNegão em seu primeiro registro solo. Desde então são três discos de estúdio (Enxugando Gelo (2003), Sintoniza Lá (2012) e Transmutação (2015), turnês pela Europa e por palcos de todo o Brasil, tendo até mesmo se apresentado no palco instrumental da programação da Virada Cultural.

Sempre com as letras do lendário membro do Planet Hemp, a banda sempre teve uma cozinha instrumental afiada e agora com nova formação estão prestes de lançar o primeiro álbum sob o nome de Seletores de Frequência; e não como BNegão & os Seletores de Frequência.

O registro que levará o nome de Astral, e será lançado em Junho, inclusive foi gravado nos estúdios RockIt! a convite de Dado Villa-Lobos. O convite veio inclusive por parte de Villa-Lobos e do produtor Estevão Casé, e o processo durou cerca de 2 anos.


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Seletores de FrequênciaFoto Por: Felipe Diniz


Groove Funky Jazz

As referências e misturas são elementos que deixarão o disco muito apetitoso para os ouvidos. Marca consolidada mas que ganha novos ares com a proposta 100% instrumental do lançamento.

Isso se prova no single que está sendo lançado hoje “Tony Árabe” que traz influências da escola do Jazz Etíope. Mas o disco também claro bebe do samba-jazz, soul, funk, dub, reggae e uma infinidade de ritmos consolidados na panela do grupo carioca.

Além de Pedro Selector (trompete), único remanescente da formação original, o grupo atualmente conta com Robson Riva (bateria), Sandro Lustosa (percussão), Bruno Pederneiras (baixo), Marco Serragrande
(trombone) e Gilber T (guitarra).



O Videoclipe

“Vinicius Sá, o cineasta e idealizador do videoclipe tinha outro roteiro em mente, e era justamente o oposto do que foi feito, filmar a bailarina Fairy Adams em ambientes de rua com outros equipamentos, mais pesados e também consequentemente, um tanto mais “complexos”.

Mas o mundo está diferente hoje, e ficar em casa é se importar com a vida de todos. Os equipamentos “pesados” e “complexos”, foram trocados por leveza e simplicidade. E após duas reuniões virtuais da equipe, a câmera na mão do quadrinista PJ Kaiowá capturou a força da dança neste momento tão difícil.



Ficha técnica:

Coreografia/Performance: Fernanda Dalveira (A.K.A Fairy Adams) Fotografia: PJ Kaiwoá
Direção e montagem: Vinicius Sá

Entrevista

Conversamos com o Pedro Selector que contou mais detalhes sobre o processo de Astral, mudanças na formação, novas referências sonoras, Quarentena e o primeiro lançamento via RockIt!.

Comentem um pouco sobre esta nova fase dos Seletores, desde o processo longo de composição, passando pela nova formação, misturas rítmicas a oportunidade de lançar o registro através do selo RockIt!.

Seletores de Frequência: “Acho que dá pra dizer que essa nova fase dos Seletores começou no segundo semestre de 2017, assim que a gente iniciou a pré-produção do disco novo. Rolou esse convite do Dado Villa-Lobos e do Estevão Casé pra lançar um disco pela Rockit! o que foi uma grande oportunidade, já que a gente curtia bastante o estúdio dele.

O Estúdio

Tem um clima muito bom, além de uma acústica foda, enfim é um estúdio dos sonhos mesmo! Boa parte do disco Transmutação foi gravado lá, em 2015. Até então, a gente já tinha lançado um EP com 4 faixas em 2016 e rolaram alguns poucos shows dessa nossa versão instrumental. Mas o repertório ainda estava muito atrelado ao BNSF (BNegão & Seletores de Frequência) já que de novidade mesmo só tínhamos essas 4 músicas, então o restante do show era basicamente versões das músicas que fizemos com o BNegão. Acabava que era mais um desdobramento instrumental do BNSF.

O Processo do novo Disco

Com o processo de fazer um disco novo é que a gente realmente se desprendeu do que rolava como BNSF pra buscar uma identidade nossa, como banda. E acredito que conseguimos isso. Durante essa pré-produção fizemos umas 15 músicas novas, das quais 11 foram parar no disco.

Algumas aproveitando ideias que já vinham rolando em ensaios e jams e outras surgindo completamente do zero. Isso durou uns 2, 3 meses. No final de 2017, início de 2018, já tínhamos os arranjos prontos e começamos a gravação na Rockit!

Então, na real, o processo de composição foi bastante rápido, o que demorou mais foi a gravação e a pós-produção, por conta de compromissos tanto nossos com o BNSF quanto do Estevão e do próprio estúdio. Então as gravações rolaram em períodos diversos durante todo o ano de 2018 e a mixagem final e masterização só rolaram em 2019, já no segundo semestre.

A Mudança da Formação

Foi um disco que levou uns 2 anos pra ser finalizado, mas acredito que tudo foi feito no tempo certo, tivemos esse cuidado, de buscar sempre a qualidade final do nosso som. Outra coisa que acho importante falar é que é um disco inteiro de inéditas. Isso renovou totalmente a banda, já que a gente não precisaria mais se apoiar no repertório do BNSF pra seguir nosso caminho.

Um outro ponto importante é que esse disco acabou marcando uma fase de transição na formação dos Seletores, já que o Fabiano Moreno saiu da banda durante a pré-produção do disco. Ficamos sem guitarrista e a solução que encontramos na época foi o Nobru (que é o nosso baixista, o Kalunga já tinha saído da banda em 2016 e o Nobru entrou no lugar dele) gravar as guitarras do disco novo, já que ele toca guitarra pra cacete, não é a toa que atualmente está no Planet Hemp.

As Novidades

Nisso, o Estevão (produtor do disco) sugeriu da gente chamar um outro baixista pra gravar as linhas que o Nobru tinha criado pra músicas, justamente pra gente não ter a mesma pessoa tocando os dois instrumentos e com isso dar um colorido diferente. Ele sugeriu o Pedro Dantas, que é um cara que já tocou com meio-mundo na música e de quem sempre curti o jeito de tocar. Ele veio e gravou com a gente, deu super-certo, colocou uma pegada diferente nos baixos, ficou excelente!

Daí, já em 2018, a gente estava se dedicando a gravar o disco e tal, surgiu a oportunidade de tocar na Virada Cultural, em SP, no Palco Instrumental. A gente nem tava numa de fazer show por conta de estar em estúdio, mas era uma chance de mostrar parte dessas músicas novas ao vivo, pela primeira vez.

Só que a banda não tava definida, porque ou precisaríamos de um baixista ou de um guitarrista. Eu conversei com o Nobru e ele disse que nos Seletores a pilha dele é tocar baixo, que foi legal fazer as guitarras pro disco mas que nos shows o lance dele era o baixo. Então fomos atrás de um guitarrista e eu de cara sugeri o Gilber T, com quem eu já tinha tocado na Tomba Orquestra e de quem sou fã. Ele topou e desde então tá com a gente.

O Ritmo e a Criação

A questão da mistura rítmica eu acredito que é um dos pilares do nosso processo de criação. Porque acho que não faz sentido a gente querer fazer um estilo só, por exemplo, não dá pra gente querer fazer um Soul/Funky puro, já tem uma pá de banda sinistra que faz (ou fez) isso, não dá pra gente querer competir na praia deles.
Mas pegar elementos distintos e misturar pra ver o que dá, e com isso tentar propor novas soluções musicais, novas abordagens, isso já nos interessa muito mais e nossa busca vai ser sempre essa: misturar sons, influências, tentando sempre criar alguma novidade.”

Como funciona o processo de composição da banda sem o BNegão a frente?

Seletores de Frequência: “O processo é muito parecido, na real. Na maioria das músicas que fizemos junto com o BNegão, o instrumental muitas vezes veio primeiro pra depois ele colocar a letra e melodia da voz. Foi assim com “Sintoniza Lá”, “Alteração”, “Bass do Tambô”, “Dias da Serpente”, só pra citar algumas.

Então, nosso processo de composição seguiu da mesma maneira de quando fizemos nos discos que gravamos com o BN: a gente se reúne no estúdio, cada um coloca as ideias que tem ali e a gente vai desenvolvendo. Eu acho isso primordial, a contribuição de todos da banda na composição, porque muitas vezes você pensa que uma música vai sair de um jeito e a coisa vai pra outro lado.

Por exemplo, no “Tony Árabe”, eu cheguei no estúdio com a frase dos metais pronta, achando que ela ia ser mais cigana, balcânica, mas aí quando começamos a tocar já veio a ideia dela ser um groove mais pesado, mais funky/soul na base, com os metais e a derbuka mantendo a intenção cigana e o baixo, batera e guitarra funkeando geral; é muito necessário, no meu ponto de vista, essa troca dos músicos pra poder desenvolver a música, deixar o fluxo das ideias seguir e ver no que vai dar. Isso acaba abrindo a música pra outras possibilidades e enriquece todo o processo criativo.”

Funk, Soul, Dub, Afro, samba-jazz, latinidades e Jazz irão reverberar e conduzir as frequências do álbum instrumental.

Em algumas vocês citam ainda a referência do Jazz Etíope como é caso do segundo single oficialmente lançado “Tony Árabe”, contem mais sobre o processo de pesquisa e o impacto desta fase do jazz que tem nomes como Mulatu Astatke, Girma BèyènèAlèmayèhu Èshèté no processo de composição.

Inclusive, recentemente, até já saiu um documentário sobre, “Ethiopiques – Revolt of the Soul” (2017).

Seletores de Frequência: “Rapaz, tenho que assistir esse documentário pra ontem! Falando por mim, eu conheci o Ethio Jazz no filme do Jim Jarmusch, “Broken Flowers”; quando assisti ao filme fiquei louco com aquele som e fui atrás de escutar mais e fui descobrindo toda essa cultura musical da Etiópia e dos países Norte-Africanos também.
Isso me influenciou tanto que no Transmutação tem uma música, “Surfin’ Astatke” que, além da óbvia homenagem ao Mulatu a gente buscou juntar numa pegada de surf music, ficou um resultado bem maneiro. Então tá tudo nesse caldeirão de influências, mas a gente nunca tentou fazer um som “no estilo”.

A gente sempre tentar colocar nosso jeito de tocar, de entender os sons e com isso criar nossa própria identidade, nossa versão daquele universo musical. “Tony Árabe” eu acho que dialoga também com as tradições ciganas e as metaleiras balcânicas, outro estilo musical que eu também sou vidrado.

Tanto que eu fiz parte da primeira fanfarra de música balcânica do Brasil, a Go East Orkestar, com a qual participei do mais tradicional festival de trompetes do mundo, em Guca, na Sérvia, em 2012. Esse contato direto com essa cultura com certeza me influenciou e influência até hoje.”



A decisão de lançar agora veio em que momento? Como é lançar sem ter a certeza de quando vai poder tocar ao vivo ou planejar uma turnê?

Seletores de Frequência: “Pois é, muito doido isso, lançar um disco sem saber quando vamos poder tocar ele ao vivo. O lance é o que o disco tava pronto desde o final do ano passado, mas preferimos esperar pra lançar depois do Carnaval.

No final de março, eu andava meio ressabiado por conta da pandemia e recebi uma ligação do BNegão, perguntando se o disco tava pronto e botando pilha pra lançar, falando que nesse momento em que as pessoas estão sem saber o que vai acontecer, a música é uma grande aliada e uma ajuda curativa mesmo, pra geral. Eu mesmo mantenho muito da minha sanidade mental escutando música.

Daí eu entrei nessa pilha e esquematizamos com a Rockit! o lançamento do primeiro single, “Piloto de Fuga (No 2)” pro início de maio e o resultado foi muito bom: recebemos mensagens de pessoas que estavam curtindo o som, dizendo que aquilo trouxe uma energia no dia, que deu uma levantada no astral.

Só por isso já vale ter lançado agora. Lógico que a gente espera que, quando pudermos retornar aos palcos, a gente consiga rodar como o show desse disco, que não fique desatualizado e a gente precise gravar um novo disco pra sair em turnê, rsrsrs. Mas tudo é um incógnita ainda, vamos aguardar pra ver o que vai rolar.”

No texto do André Mansur sobre o disco, ele cita sobre a conexão das faixas com o Rio de Janeiro e também ressalta o fato do da falta de descendentes diretos da Banda Black RioAzymuth e Milton Banana. Como observam isso? E como veem a cena contemporânea do jazz mais fora da caixa brasileiro?

Seletores de Frequência: “Pois é, isso que é muito maneiro, quando você chama outra pessoa pra escrever sobre teu som. Eu pedi pra ele fazer o release do disco e ele percebeu essa conexão, isso ia passar batido pra mim.

Esse lance do som desse pessoal não ter tido uma continuidade e, de certa forma a gente estar representando esse som instrumental carioca que se perdeu no tempo. Mas, mesmo que essas influências sejam fundamentais na nossa formação, eu acredito que a gente se utiliza delas mas pra criar outra coisa, sem tentar fazer um som retrô, sem tentar emular o que foi feito por eles. Pegar essas referências mas colocar a nossa identidade no som, a nossa marca.

Acho que a cena instrumental hoje em dia ela tá bem diversificada. Tem muita gente boa criando e saindo do estereótipo de que música instrumental é pra “entendidos” e pra quem gosta de virtuosismos.

Eu sempre falo do Bixiga 70 e da Nômade Orquestra, são bandas que trabalham numa onda diferente, cada uma a sua maneira, mas propondo uma nova forma de fazer música instrumental. Essas duas bandas foram, sem sobra de dúvida, uma grande inspiração na concepção de que os Seletores de Frequência poderiam existir num formato instrumental.”

As faixas do disco também reforçam um universo visual muito colorido, isso acabou se refletindo na capa do disco? Aliás quem foi o responsável pela arte e qual o conceito abordado?

Seletores de Frequência: “Foi criação do artista visual Rafo Castro. Eu curto muito o trabalho dele e a gente sempre se trombava nas ruas do Rio por conta do movimento de Fanfarras que rola aqui.
Ele também toca, faz parte da Fanfarra Black Clube que tem uma versão irada de “Essa é pra tocar no baile”, teve um carnaval que eu invadi o bloco deles pra tocar essa música junto, enfim… e aí, por eu curtir muito o trabalho dele, eu dei total liberdade de criação. Porque eu acredito muito nisso. Deixar o artista livre, a única coisa que eu falei foi: “tô te mandando o disco, escuta aí e se inspira no que tu escutar pra fazer a capa.” Pronto.

Quando ele mandou, tava lá, a expressão do que ele sentiu quando escutou o som. Não tinha que mudar nada, tava explícito que essa conexão, som+visual, tinha rolado perfeitamente. Daí, pros singles, veio essa ideia de fazer um recorte da capa. Já que os singles de certa forma são recortes do álbum, bolamos isso, das capas dos singles serem também recortes da capa do disco, ao invés do single ter uma capa que acabasse não dialogando com o disco.”



Ouvindo o álbum noto como parece uma soundtrack de filmes por cenários tropicais, até mesmo o Rio de Janeiro, Havana ou Kingston, a ideia era mostrar um pouco do universo latino?

Seletores de Frequência: “A gente não teve uma ideia pré-estabelecida de como o disco iria soar, deixamos as músicas determinarem o caminho. Eu acho que tivemos um trabalho muito bom de percussão, tanto do Sandro Lustosa, que é nosso percussionista já há algum tempo, quanto do Rodrigo Pacato, que a gente convidou pra gravar em algumas faixas.

Essa presença da percussão como elemento fundamental dos sons acredito que tenha dado essa pegada latina, que a gente curte a beça, todos aqueles artistas maravilhosos da Fania, por exemplo. Fico feliz de que o disco tenha dado essa percepção tropical, latina, porque na real é onde a gente tá inserido. E, ao mesmo tempo, estabelecendo diálogos com os ritmos e influências do funky/soul, do Ethic Jazz, dos Balcãs, do Médio-Oriente. Tudo sem perder nossa identidade, buscando sempre manter o som do nosso jeito, “a la” Seletores de Frequência.”

Seletores de Frequência Astral (2020)


Capa Seletores de Frequência - Astral (2020)


A Tracklist:

1. Piloto de Fuga (No 2)
2. Tony Árabe
3. Só Pra Salvar
4. Boca Maldita
5. Riva Doobie
6. Trem do Cão
7. Biza
8. Sambatido
9. …E Segue o Baile!
10. Fumaça
11. Leva Fé (Lá)