“Transição. Caos. Reconstrução. Pavimento. Amor. Empatia. Dicotomia. Barbárie. Desequilíbrio. Descompasso. Ingenuidade. Transformação. Desconstrução. Explosão. Distorção. Inquietude. Humanidade. Fúria. Brasil!

São palavras que ajudam a descrever, e assimilar, o arsenal de sentimentos à flor da pele que o mineiro Jair Naves expressa de forma fugaz e intensa em Rente. Rente feito um carro prestes a colidir. Rente feito uma bala perdida. Rente feito nossa constante perca de fé. Rente feito a vontade de largar tudo. Rente feito o medo pelo futuro.”

Foi assim que traduzimos Rente em resenha publicada no Hits Perdidos em maio. A cada nova audição ainda consigo captar mais elementos e narrativas, sensíveis feito sua poesia, e seus versos intensos de uma carreira que sempre prezou por nos fazer sentir algo.

Estes que nos permitem com que nos sintamos íntimos daquelas emoções mesmo sem tê-las vivido. Talvez seja disto que faça dele um compositor acima da média. E o melhor, faz música para gente de carne e osso. Sem preconceitos, distinções ou julgamentos. No momento político que vivemos, de caos social, e guerra de valores, se faz genuíno e resiste. Nos faz acreditar na arte e mais do que isso, no poder da mensagem.


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O novo videoclipe de Jair Naves “abraça” toda a comunidade artística. – Foto Por: Meredith Adelaide


De certa forma o primeiro clipe de Rente homenageia toda a classe artística. Seja ela da música, do cinema, das artes plásticas, do teatro, etc. Muito por trazer um olhar singular sobre o que é fazer arte. O que é largar de um estilo de vida convencional para se dedicar a ela como seu ofício. Seus hábitos fora do 9 to 5, seu método de trabalho e até mesmo a maneira que tem com o lidar com o tempo.

“A ideia era mostrar os desdobramentos práticos da escolha de ter o ofício, de fazer arte como prioridade, que faz com que muitas vezes abdiquemos de um estilo de vida mais convencional ou que a gente se divida em mil para tornar essa opção viável”,
explica Jair

Uma opção que definitivamente não é para todos que muitas vezes além da música acumulam empregos em áreas bem distintas do que gostariam para conseguir suprir suas necessidades, carências e ambições. Esse choque ganha poesia nas mãos da diretora, e atriz, estadunidense Meredith Adelaide com certa plasticidade.

O Clipe

O vídeo dirigido e assinado por Meredith Adelaide, ainda traz em seu elenco os atores Ahmed Alabaca e Britt Haris.

Para a diretora Meredith Adelaide, a mensagem de “Gira” diz respeito a “acreditar no agora. Para honrar a si mesmo e os obstáculos que você deve superar. Para se concentrar no presente e ver quem está aqui, te apoiando. Para usar sua voz”, reflete.

“É sobre fazer o que amamos, sobre sacrifícios e estilos de vida. Sobre o conceito do tempo e onde e como encontramos conexões”, conclui.

“Quis mostrar isso de modo mais sutil, apresentando duas atuações diversas – a Britt, com sua carreira nas artes dramáticas e o Ahmed, que é um pianista clássico -, que traduzem em suas particularidades do cotidiano um pouco do que a letra fala, deste ‘amor que não tem mais volta’. ‘Gira’ é sobre a poesia do dia a dia que observo na minha vida e na vida dos artistas ao meu redor”, completa Naves.



A plasticidade, e carga energética densa, se dá desde a escolha pelos tons em p/b e a maneira que constrói sua narrativa, explorando luzes e sombras. Até o recurso de mostrar uma estrada nublada, e turva, ajuda poeticamente a traduzir em cenas os caminhos trilhados por quem opta por um estilo de vida com menos regras do que convencional (ou esperado pela sociedade).

A maneira como a solidão, os medos, as aflições e os obstáculos são colocados dão ainda mais brilho para a delicada direção. Sua fotografia destaca as expressões das atrizes com simplicidade e mostrando a essência do que é ser um artista. Sua metamorfose, sofrimento, transgressão e vontade de viver até as últimas consequências.

Vontade essa que se confunde com o cinza e agito da cidade, seu refúgio na escuridão e seu medo de não ter como voltar para casa. Outro detalhe muito belo do vídeo é justamente sua forma sutil em mostrar o sofrimento da criação e concepção da arte. Algo singelo, doloroso, latente e, por sua vez, bastante singular.

Entrevista

Conversamos com Jair para entender não somente sobre a faixa, e seu belo clipe, mas também a respeito do momento vivido em sua carreira, seu novo álbum, política, mudança para os EUA e visão de mundo.

Ele que se apresenta neste sábado (29/06) em São Paulo na Festa de 4 anos do blog Sounds Like Us no FFFront.

[Hits Perdidos] Em tempos onde o que mais vemos artistas se desdobrando em as vezes mais de um emprego fora da música para sustentar suas ambições e arte, é um ato de coragem abraçar e se dedicar. Até por isso você relata sobre a temática de “Gira” girar em torno deste peculiar estilo de vida. Para você como foi esta escolha e como observa isso nos outros? O clipe também tenta mostrar isso de maneira bastante delicada, como foi sua concepção?

Jair Naves: “Antes de cogitar um rumo para o vídeo, pensei que seria interessante ter imagens que oferecessem uma outra alternativa de interpretação para a letra.

Percebi que versos como “giro em torno de ti/ eu cresço, eu mudo, eu moldo/ tudo em torno de ti” ou “dentro de mim, eu sei/ não tem mais volta/ esse amor não tem mais volta” também poderiam tranquilamente se referir à minha relação com a música, de longe a relação mais duradoura da minha vida.

Tive em mente muitos dos meus amigos que se desdobram em mil para se manterem ativos artisticamente, trabalhando em empregos que pouco tem a ver com o que eles gostariam de estar fazendo no seu dia a dia, por uma questão não só de sobrevivência pessoal, mas também da sua produção. Ou então ocupações que até possuem ligação com o ofício, mas que não resultam exatamente em criação artística, como dar aulas ou coisas do tipo.

Muitas das pessoas mais talentosas que eu conheço vivem assim, entre seus trabalhos mais convencionais e o tempo que dedicam expressar-se artisticamente. Conversando com a Meredith Adelaide, a diretora do clipe, resolvemos retratar o cotidiano de duas pessoas que vivem dessa forma, e tanto a Britt (Harris) quanto o Ahmed (Alabaca), que aparecem no vídeo em situações que não são lá muito distantes do seu dia a dia, pareceram escolhas muito acertadas para essa proposta.

Numa época como atual, em que os artistas são encarados quase como inimigos dos (muitas aspas aqui) “cidadãos comuns”, para mim existe uma beleza muito expressiva nessa obstinação que todos nós temos em nos mantermos ativos – seja a gente compondo e tocando, vocês escrevendo sobre um cenário de música que quase não tem retorno ou exposição, os artistas gráficos fazendo capas de disco, clipes e cartazes de show, enfim, em todo mundo que faz esse circuito ser ainda possível. Gosto de pensar nesse clipe como uma homenagem a quem direcionou sua vida a algo assim, seja lá de que maneira for.”


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Britt Harris, atriz, parceira de projeto (NavesHarris) e esposa de Jair atuando em trecho do videoclipe. – Foto: Reprodução / Youtube


[Hits Perdidos] O disco também fala sobre medos, mudanças, tomadas de decisões, lutas tanto na esfera pessoal, como na política e o sufoco de viver em nossos dias. Como está sendo esta série de transições e mudanças em sua vida? Agora mais de um ano que vive nos EUA como se observa? Um estranho em outra cultura ou já compreendendo e se adaptando as mudanças?

Jair Naves: “Em novembro fará dois anos dessa mudança, então acho que dá para dizer que já passei por esses dois momentos que você citou.

Era algo que definitivamente nunca esteve nos meus planos, sair do Brasil e fixar residência em outro lugar. Se não tivesse conhecido a minha esposa, dificilmente uma mudança dessas proporções aconteceria. É um tema que abrange questões difíceis de serem tratadas superficialmente, que vão desde a solidão decorrente de ser estrangeiro até a percepção de que o tão falado “complexo de vira-latas” é algo real e que precisa ser combatido.

Fora que, paradoxalmente, nunca me senti tão brasileiro quanto nesse tempo em que eu passei fora e ao mesmo tempo nunca tive mais aversão ao conceito de nacionalismo – o que talvez seja algo contraditório, mas de fato aconteceu e ainda acontece. Dito tudo isso, não posso deixar de dizer que sei o quanto sou privilegiado.

Estou com a pessoa que eu escolhi, tive a sorte de fazer bons amigos nessa segunda casa e ainda consigo dar uns pulos aqui de vez em quando. Além disso, conheci gente que não teve a mesma sorte que eu e tem que viver longe das pessoas que ama por questões legais, de visto, coisas assim. Minha companheira e eu mesmo passamos por isso em dado momento. Não posso me queixar muito.”

[Hits Perdidos] Desde o início da carreira você traz referências da literatura, cinema e poesia para suas composições. Mostrando a inconstância humana e sua força interna de resistir e se adaptar aos piores cenários. Enfrentando preconceitos, lutas sociais e desavenças. O que mais tem te inspirado ou tem revisitado nas outras artes que acaba por sua vez acabou agregando ao novo trabalho?

Jair Naves: “Como você bem salientou na pergunta anterior, esse talvez seja o meu disco com a temática mais fechada, definida (talvez exceto pelo “Araguari”, mas não sei se cabe a mim dizer). Então sem dúvida tem muito dessa mudança geográfica nessas letras, a desorientação, o olhar de longe para o lugar que é seu, uma tentativa de reinvenção e de se encaixar numa terra em quem ninguém sabe quem você é.

Fora isso, toda a mudança na conjuntura política do Brasil foi algo que também me afetou muito. De sensações internas, por assim dizer, acho que essas foram predominantes, as que mais aparecem nas diferentes faixas do álbum.

No que diz respeito a influências, passei por um momento de tentar ouvir, ler e assistir a coisas diferentes das que eu normalmente iria atrás. E tentar me inteirar o máximo possível sobre como trabalham artistas de outras áreas. Por mais que o resultado final do trabalho de um músico pareça diferente de um artista plástico, por exemplo, percebi que o processo de criação é bem parecido em alguns aspectos, assim como os questionamentos, as angústias relacionadas ao trabalho e tudo mais.

Me mudar para outro país também trouxe muita informação nova nesse sentido, uma exposição a artistas brilhantes que ainda não obtiveram o reconhecimento que merecem por aqui (ou pelo menos não até onde eu sei). Para responder sua pergunta mais objetivamente, vejo que fui influenciado por uma nova geração de escritores e escritoras que se caracterizam por uma abordagem muito honesta, corajosa e confrontadora.

Pessoas como a Morgan Parker e a Warsan Shire, para citar só duas. Além do texto brilhante que ambas produzem, é um tipo de poesia muito atual, combativo. Se um dia eu criar algo minimamente comparável ao que elas fazem, ficarei satisfeito.”

[Hits Perdidos] Recentemente pude ver uma lista de discos no Nada Pop e fiquei curioso por uma de livros, justamente por notar como suas composições sobressaem. Quais seriam?

Jair Naves: “Eu adoraria fazer essa lista de livros mais detalhadamente. Se alguém aí topar essa pauta, me avisa, porque se eu começar esse assunto agora vai ser difícil não me alongar. Mas para citar só um, acho que o “Fome”, do Knut Hamsun tem bastante a ver como esse tópico que discutimos anteriormente, do escritor ou artista que tem dificuldades para gerar dinheiro com sua produção e tem que se virar como dá. Terminei recentemente e foi direto pra minha lista de preferidos. Recomendo.”


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Jair Naves. – Foto Por: Meredith Adelaide


[Hits Perdidos] Aliás como observa projetos musicais onde a mensagem e a letra acabam ficando meio que de lado? Acha que está cada vez mais “shallow now” o modo de consumo e a música pop, seria realmente uma geração menos ligada a isso?

Jair Naves: “E esse gosto por letras de música foi o que fez com que eu quisesse aprender a tocar um instrumento e assim poder compor. Sempre digo que não existe forma de texto mais eficiente do que alguns bons versos bem encaixados numa melodia minimamente memorável. Com isso, você pode mudar a visão de mundo de uma pessoa em questão de poucos minutos.

Me considero muito mais um letrista do que músico, cantor ou qualquer coisa assim. Mesmo como ouvinte, sempre me interessei por bandas e cantores que traziam em suas músicas boas letras, ou um jeito de expressar ideias que fuja do óbvio, que apresente alguma sinceridade.

Gosto de cantores em que você consegue dizer pela voz que ele ou ela acredita muito no que está cantando. Na minha modesta opinião, é isso que faz um bom cantor, muito mais do que perfeição técnica, afinação impecável ou algo assim. No fim das contas, é essa pessoa que eu quero ouvir.

No que diz respeito ao que outros compositores andam fazendo, sinceramente não tenho tanto conhecimento para julgar. Pelo que acompanho, vejo alguns artistas que estão conseguindo reconhecimento junto a um público cada vez maior justamente pelo que expressam nas suas letras – a Lizzo e alguns cantores que vejo por aqui seriam exemplos válidos, acho.

E mesmo que tenham milhares de bandas e cantores por aí que me pareçam rasos ou sejam totalmente incompatíveis com o que eu gosto em música, realmente não acho que o meu jeito de fazer as coisas seja o certo, que todo mundo que trabalha de forma distinta ou prioriza outros aspectos da composição esteja necessariamente errado. Enquanto eu ainda puder fazer as coisas do meu jeito e enquanto houver alguém disposto a me ouvir, para mim é um bom ponto de partida.”

[Hits Perdidos]  A ascensão do conservadorismo é um fenômeno mundial, sendo sentido de distintas formas no mundo todo. Mas toda ação gera uma reação, como acredita que a sociedade deve se posicionar em momentos como este?

O disco foi composto muito embriagado nos dilemas que estávamos enfrentando lá atrás, mas que respingam até hoje, como observa hoje os mesmos temas e para onde acha que esta caminhando a resistência no mundo em geral, um fenômeno diferente é o partido verde na Europa com jovens, mas temos uma crise em governos na Espanha e Portugal guinando a esquerda. Acha que já temos peças do quebra-cabeça se movimentando para um maior equilíbrio?

Jair Naves: “Em algumas partes do mundo, sim, felizmente. Mas por aqui continua difícil, não? E mesmo nos EUA, percebo que a possibilidade de uma reeleição do atual presidente é bem grande. Então o que a gente faz?

Até a tentativa de se posicionar está difícil, com jornalistas sendo perseguidos por governantes, além de artistas e professores sendo vilanizados por uma parcela grande da sociedade.

Eu acho que a verdade do que aconteceu por aqui está cada vez mais clara, difícil de ignorar, então a minha esperança é de que haja o quanto antes uma compreensão coletiva da situação em que nos metemos e do que é preciso fazer para remediar as consequências das escolhas feitas nas últimas eleições. Pode ser muita boa vontade e ingenuidade da minha parte, mas o que me resta de esperança na natureza das pessoas vai nessa direção. Até lá, que nos mantenhamos sãos e fortes.”

Ouça Rente

Leia a Resenha faixa a faixa no Hits!