A tensão de nossos tempos reverbera no novo disco de Jair Naves

Transição. Caos. Reconstrução. Pavimento. Amor. Empatia. Dicotomia. Barbárie. Desequilíbrio. Descompasso. Ingenuidade. Transformação. Desconstrução. Explosão. Distorção. Inquietude. Humanidade. Fúria. Brasil!

São palavras que ajudam a descrever, e assimilar, o arsenal de sentimentos à flor da pele que o mineiro Jair Naves expressa de forma fugaz e intensa em Rente. Rente feito um carro prestes a colidir. Rente feito uma bala perdida. Rente feito nossa constante perca de fé. Rente feito a vontade de largar tudo. Rente feito o medo pelo futuro.

É até gozado ler em reportagem, feita pelo jornalista Pedro Antunes, para a Rolling Stone que o álbum Brasil (1989), do Ratos de Porão, parece mais atual do que nunca mesmo estando prestes a completar 30 anos. Na real, é até triste ter que concordar.

O disco retrata um país em frangalhos, imerso no totalitarismo, vivendo as consequências de conservadorismo e se “agarrando” em uma espécie de “Síndrome de Estocolmo” – ou relacionamento abusivo – com seu passado recente. Com crise de identidade e reprimindo conquistas sociais. Veja bem, seu lançamento é de 1 9 8 9, mas poderia ser ontem e isso recaí de forma amarga, seca e indigesta.


Jair Naves - Meridith Adelaide
Jair Naves lançou na sexta-feira (03/05) o álbum Rente. – Foto Por: Meredith Adelaide

Jair Naves vive em Los Angeles (CA) ao lado de sua esposa já tem algum tempo.
Esporadicamente vindo ao país para fazer shows ao lado do Ludovic, com seu projeto solo e até mesmo em seu projeto com Britt, NavesHarris.

Entre 2017 e 2018 se dedicou durante suas passagens pelo país a também gravar canções ao lado de Renato Ribeiro (guitarra, violão e vibrafone), Rob Ashtoffen (baixo e sintetizador) e Lucas Melo (bateria), estas que estão presentes em seu primeiro registro solo em 5 anos.

Sua produção é assinada pelo próprio músico e teve gravação e mixagem realizadas por Zeca Leme (BTG Studio), e masterização por Fernando Rocha (El Rocha).

Um álbum é sobre momento e costuma facilmente ficar datado com o passar do tempo. Como muitos sabem um artista independente leva tempo para ver suas composições saírem do papel, para assim, alcançarem as ruas. Mas nem por isso elas ficaram velhas.

As faixas de Rente corroem o ouvinte e fazem com que ele reflita sobre nossos tempos. Tempos onde nossas relações humanas parecem a todo momento colidir, onde a falta de empatia pelo próximo reverbera através de ruídos.

De maneira desesperada, liberta sua fúria, e consequentemente, com as próprias unhas, cava sua própria ruína.

Dialoga sobre os perigos do fantasma do conservadorismo, relembra sobre os problemas em colocar seres humanos em “caixinhas”…mas por outro lado também discorre sobre o poder do amor como ferramenta de transformação.

Feito seu momento pessoal de transição e mudança, afinal, tudo ao seu entorno acaba por sua vez refletindo no disco. Direta ou indiretamente.



Ainda em 2018 Jair lançou o single “Veemente”, cheguei até a assistir uma apresentação na Casa do Mancha onde adiantou outras até então, inéditas. Aquele momento pós-eleições bateu forte, não há como negar, outubro, e novembro, mesmo estando próximos no calendário do verão, soaram para muitos como um longo inverno.

Hora de recalibrar forças, tempo de união, de planejar como seria a resistência em tempos de penumbra, escuridão, retrocessos e enigmas. “A terra é uma bomba prestes a explodir” bateu gelada nos presentes e o sentimento de batalha perdida acabou por sua vez, resultando em como, de forma sóbria, guiar os próximos passos.

Um outro verso é bastante interessante e pontual, logo no começo da composição ele diz “Qualquer busca por empatia a essa altura é ingenuidade / Eu me defendo esperando o pior”.

Deixando claro o momento pré-eleições onde a raiva consumia tanto que estabelecer um diálogo, e trazer pontos coerentes, a esta altura do campeonato já não bastavam. Feito o fechar da tampa de um caixão.

Com um instrumental mais punk rock, e com lampejos da crueza e rispidez do Ludovic, “Deus Não Compactua” fala sobre a disputa pelo poder, o perigo de aliar a fé a política, o caos social e a manipulação de massas.

A construção deste momento não foi em 2017 ou 2018, e a estrutura da “Casa Brasil” já estava sendo abalada desde 2013. A raiva e as raízes do conservadorismo estavam sendo plantadas e orquestradas de maneira cega em conjunto com setores que não estavam muito felizes com as conquistas sociais e viés progressista que o país caminhava em várias frontes.

O espetáculo, retratado em “Alívio Cômico / Palanque”, traz uma carga pesada sobre o momento inseguro e instável de um país próximo a barbárie. A falta de esperança por uma compreensão, e o perigo da volta do fantasma da ditadura, deixou sim marcas e melodias dramáticas – e autodestrutivas – na delicada, e ruidosa, faixa.

Com dois pés no lofi “Mácula” busca através da reflexão sobre os erros, repreensões e auto-cobranças da vida, olhar para frente. Ele olha para o futuro de forma romântica, talvez para dialogar com o momento e a responsabilidade de tentar ser melhor e prosperar em um tempo de realizações na esfera pessoal.

O que fica mais explícito na seguinte, “Gira”. Leve, espiritual, delicada, sentimental e apaixonada. Essa adequação ao momento, e todas suas pequenas tormentas, e frios na barriga, parecem ser desafios bons de se viver.

Por mais que lidar com mudanças seja sempre uma pequena desconstrução interna. Mas para um apaixonado tudo parece ser mais leve, livre, solto e próspero. Essa inquietude sempre humana que o conforto da estabilidade dá à quem por tanto tempo vagou sozinho no horizonte. A vontade de viver e conquistar ainda mais.

Depois do momento calmo, vem a maré alta, e “Lampejos de Lucidez” fala sobre cicatrizes e novas batalhas que tem que ser enfrentadas ao longo caminho. Conflitos e reverberações que fazem com que nos sentamos vivos.

“Hino dos Estados Unidos como Toque de Celular” soa como uma poesia recitada e funciona como transição no disco. Cria toda uma atmosfera de terminal e mudança para simbolizar este momento que ele passou vivendo nos últimos dois anos. A transição e o distanciamento que querendo, ou não, deixa marcas, memórias, família e amizades mais distantes.

Chegamos assim a “Rente” que é questionadora. Fala sobre confusão, perdição, cobranças, arrependimento, “os quases da vida”, os desafios, introspecção, expectativas, cobranças da sociedade, medo, aflição, reconstrução e o eterno medo pela rejeição que vive dentro de todos nós.

“Escalas” discorre sobre os encontros e desencontros que a vida nos permite. Novos desafios, medo pela falha, novos rumos, tanto na esfera pessoal, como profissional e missões que temos que batalhar ao longo da vida. Com certeza a que fala mais sobre as conversas internas que temos em um momento de mudança.

Ainda mais ele que muda de país, deixa amigos, emprego, e um estilo de vida calcificado para traz. Abre seu coração para falar com quem esteja disposto a ouvir. De forma humana, humilde e bastante sincera. Acredito que qualquer um que esteja vivendo uma grande mudança em algum aspecto da vida tende a se identificar, e isso que a faz bela.

Feito um grito e com aquele espírito Redson (Cólera) de ser, Jair esbraveja aquela frase que todos gostaríamos de dizer a todos que tem prazer em manifestar aos quatro cantos seu espírito podre e conservador.

Simplesmente equaliza no horizonte em meio a ruídos e acordes dissonantes a frase: “Um Homem Reprimido é um Câncer Social”. No momento em que é ecoado, não é mais necessário explicar ou dizer nada mais.

Ainda há espaço para a fúria em “Tudo Grita”. A negação, a histeria, o caos, as ameaças, cruzadas sociais, briga nas redes sociais e a falta de diálogo, lembra o espírito dos movimentos conservadores de diversas épocas da humanidade.

O famoso “cortar o mal pela raiz” acaba por sua vez ganhando poesia para exemplificar o momento de dicotomia de opiniões, extremismo e ausência de diálogo. Onde a raiva, e o descompasso depois da ressaca, deveria servir como força  para erguer a cabeça e tentar ajustar os ponteiros….que agora parecem ter andado 17 casas para trás.

O registro se encerra com a atemporal “Sonhos se Formam Sem o Meu Consentimento”. Escolhe mostrar a falta de empatia e o comportamento de multidão de maneira tão bela, e plástica, que até não parece estar falando sobre desgraça e sinal de tempos estranhos.

O orgulho, que cega, a ganância, que corrompe, e a violência, ganham capítulos a parte. Que nos levam para o confessionário após uma barbárie, ou crime capital, que em nome de uma “fé”, e por viés cego de crenças misturado com preconceitos, acabam se transformando em crimes capitais.

Um alerta sobre “causos” que infelizmente já estão se materializando. Amigos, se unam, resistam e lutem mais do que nunca pelos seus direitos. Melhor ser lembrado como rebelde, do que aceitar o retrocesso.

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