[Premiere] O Inimigo relembra o pesadelo das Mães de Maio em “Contrariedade”

Embrace, Rites of Spring, Descendents/ALL, Minor Threat, Black Flag, Bad Brains, Dinosaur Jr, Fugazi, Wipers, Dag Nasty, Minutemen, Hüsker Dü, Big Boys, Mission of Burma, Cólera, Rethink, Garage Fuzz, Napalm Death, 7 Seconds, Gorila Biscuits,  Youth Of Today e o casting dos lendários selos SST e Alternative Tentacles (de Jello Biafra) ajudam a entender um pouco do universo da sonoridade do grupo paulistano que iremos falar hoje.

Formada em 2001 a banda O Inimigo neste ano atinge a maioridade, e o tempo deixa suas marcas. Depois de um tempo de pausa eles voltaram com tudo em 2010, o que resultou na reformulação da banda que contou com a entrada dos integrantes: Alexandre Cacciatore (ex-RHD), no baixo, Fernando Sanches (ex-Againe, CPM 22 e Van Damien), nas guitarras, e Gian Coppola (ex-Kangaroos In Tilt), na bateria.

Tendo como membro original Juninho Sangiorgio (Guitarra), que também toca no Ratos de Porão, em 2016 o grupo teve a saída do vocalista Kalota (Alexandre Fanucchi), e consequentemente, a entrada de Wellington Marcelo nos vocais.

O terceiro álbum do quinteto, Contrariedade, que está saindo via Hearts Bleed Blue nesta sexta-feira (17/05) tem como marca o tenso momento político e social que o país tem vivido nos últimos anos.

Vale lembrar que no calor das eleições nasceu o movimento Hardcore Contra o Fascismo, onde bandas independentes foram as ruas resistir e tentar dialogar com o povo na rua. Mesmo com a derrota nas urnas foi plantada uma flor de resistência em pleno asfalto das ruas da capital.

“Nossa postura vai bem ao contrário do pensamento tradicional brasileiro que acabou de ganhar a última eleição”, conta o guitarrista Juninho Sangiorgio

Gravado entre maio e junho de 2018, era até difícil o contexto ser diferente. Aquele calor do momento realmente iria deixar marcas em todos envolvidos com a arte. Visto que vivemos um momento delicado em diversos campos, com cortes em setores importantes como educação e demonização de quem produz ciência e cultura.

“Nós viemos do underground, então ali sempre foi mostrado formas alternativas de ver as coisas, e somos muito gratos por tudo isso, mas ao mesmo tempo é complicado ficar o tempo todo vendo que estamos remando do lado contrário.

Estamos lidando com algo muito poderoso e sujo, precisamos manter a cabeça no lugar, fazer nosso papel e fazer valer a pena cada realização na vida”, ressalta Sangiorgio


O Inimigo. – Foto: Divulgação

O Reflexo do Novo Governo

As atitudes conservadoras alinhadas com pensamentos de um passado um tanto quanto recente na memória dos brasileiros assustam a todos que assistem a uma frágil democracia desmoronar em seus principais valores. Até mesmo as polêmicas reformas da previdência e trabalhistas, e as fake news entram na pauta do novo disco d’O Inimigo.

“Somos contrários ao pensamento de gente que acha que mais polícia na rua irá diminuir a violência, gente que acha que devemos trabalhar a vida inteira sem reclamar.

Pessoas que não conseguem refletir o real problema do país e estão completamente controladas pela mídia, que jogam as notícias da forma mais covarde possível pra cima do povo. O resultado disso é assombroso, sentimos na pele essa força de controle de massas”, explica o guitarrista

O Inimigo – Contrariedade (17/05/2019)

Com 10 músicas o álbum traz à tona o lado visceral do hardcore punk e foi gravado por Fernando Sanches, Éric Yoshino e Thiago Babalu no estúdio El Rocha. Sanches além de tocar as guitarras ainda assina a mixagem e masterização do registro. Contrariedade está sendo lançado hoje em CD, LP, K7 e nas principais plataformas digitais.

O disco ainda conta na faixa “Apelo” com audio extraído do vídeo de mesmo nome feito por Débora Maria da Silva e Clara Ianni, que como eles mesmo afirmam foi gentilmente cedido por elas.



“Ritual” irá certamente agradar a fãs de 7 Seconds, Bad Brains, Fugazi e Jawbreaker por sua combinação entre PMA, linhas melódicas e discurso de resistência. O sentimento de vazio e de juntar os cacos é iminente, e ainda lembra do poder da mensagem na música tão questionado em “What Happened” dos nova iorquinos do H2O no disco Nothing To Prove (2008).

As falsas amizades, o higienismo e os privilégios ganham um capítulo à parte em “Câncer na Terra” que é combativa e não mede forças para tirar as máscaras sociais de quem vive em função de um status quo.

Os sacrifícios do povo nordestino que migram rumo a tentar a vida no sudeste são os protagonistas de “Sangue Nordestino”. Exaltando sua força de vontade mesmo depois de sofrer consecutivos golpes e ter que vencer batalhas dia após dia contra o preconceito e exploração.

Quem vive em São Paulo com certeza ouviu bastante nos últimos tempos sobre as desapropriações constantes, e os incêndios – muitos deles criminosos – devido a interesses econômicos nas mais diversas regiões. Alguns deles virando inclusive tragédias de grandes proporções.

Ao mesmo tempo nos EUA vemos movimentos como o Occupy ganhando força e repercussão, o que incentiva a resistência. Em “O Próprio Ar” eles denunciam como o cidadão pobre acaba sendo chutado de sua casa por conta destes interesses e clama por mais ação direta da população.

As marcas da escravidão, racismo, homofobia e crueldade são denunciadas em “Nova Segregação”. Em um país onde vemos ministros, e o senhor que ocupa o cargo mais elevado, replicando ódio e despertando memórias e sentimentos opressores sobre a sociedade. Este que se disfarça no discurso torpe de “Cidadão de Bem”.

A força de vontade e a resistência transparecem em “Alzheimer” que parece ter um apelo e contexto familiar. Aliás, é uma realidade enfrentada por milhares de famílias que veem seus entes queridos perderem a memória através da doença. O que corta o coração de todos feito uma navalha. Empatia.

A resistência e atitude vivem em “Choque Térmico” que poderia até se chamar “Choque de Realidade” e irá agradar a fãs de Fugazi, Jawbox e Drive Like Jehu. A insensibilidade, a falta de conexão e as epifanias são retratadas através de metáforas, e de certa forma, traduzem a apatia da grande massa dominante.

Na sequência temos “Sempre Perigosa Sem Piedade (SP)” que inclusive ganhou um videoclipe dirigido por André Calvente – e foi lançado em março. E o depoimento de Juninho na época dialoga sobre a eterna síndrome de Estocolmo que esta cidade desperta aos seus cidadãos.

“São Paulo transmite medo, surpresas, tensão. Entender todas essas sensações e saber lidar com isso todos os dias é uma tarefa delicada. ‘Sempre Perigosa Sem Piedade’ retrata essa nossa relação em forma de música. Agressividade e bonitas palavras combinaram perfeitamente para descrevermos como é viver nessa insana metrópole.”, diz Juninho



Na faixa “Apelo” que conta audio extraído do vídeo de mesmo nome feito por Débora Maria da Silva e Clara Ianni, é denunciado o estado de caos e violência urbana presente na história de nosso país.

Resistir, protestar, olhar para frente sem esquecer quem somos, quem fomos e qual país queremos para o futuro. Nunca serão apagadas as memórias das Mães de Maio.

A saudade da perda exala em “Relembrar É Morrer”. Faixa que traz o sentimento de angústia, impunidade e vontade de transformar o mundo. Ir para a linha de frente e continuar a luta de onde parou. É com este sentimento das mães de maio encarnado que o disco se encerra.



Em meio ao caos político, institucional e guerra de classes, o novo álbum d’O Inimigo, Contrariedade, faz importantes denúncias a onda conservadora que tem assolado o país e irá agradar a fãs de hardcore punk, old school hardcore, punk rock e post-hardcore.

Inclusive as mães de maio tem um capítulo à parte no registro que não está sendo lançado neste mês por pura coincidência. Temas como racismo, xenofobia, intolerância, homofobia, violência e higienismo são colocados em pauta. Tudo isso através de um instrumental com referências de Fugazi, 7 Seconds, Descendents aliado a uma atitude PMA.

This post was published on 17 de maio de 2019 10:10 am

Rafael Chioccarello

Editor-Chefe e Fundador do Hits Perdidos.

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