[Premiere] Ana Zumpano se despede da Lava Divers com a agridoce e nostálgica “Another Day”

Despedidas nunca são fáceis porém fazem parte do ciclo da vida.

Fechar eles demonstra muitas vezes maturidade em entender o espaço de cada um para… deixar seguir. São momentos onde toda energia catalisada, força de vontade e lembranças vem à tona. Ainda mais quando se trata de uma banda independente com 5 anos de estrada e muitas histórias para contar.

A Lava Divers, para os mais íntimos “Lavinha”, surgiu em Uberlândia, no triângulo mineiro, para se tornar uma das grandes referências da década do shoegaze / dream pop nacional. Muito disso por conta de um ótimo EP de estréia, e do Plush, álbum que tem lugar especial no coração de quem acompanha a trajetória dos músicos.


Lava Divers
Ana Zumpano se despede da Lava Divers com single nostálgico – Foto Por: Moviola Mídia Livre

Sempre na Estrada!

Rodar pelo Brasil foi o cartão de visitas para a banda, a cada apresentação, se tornar mais conhecida. Não tem jeito, a máxima banda se constrói na estrada mesmo na era da internet – e das aparências – é ainda o que a define.

Por sorte pude ver a “Lavinha” por diversas oportunidades e a sensação de nostalgia, guitarras dissonantes, distorções e viradas de bateria sempre me levaram para o campo da metafísica.

No campo das composições seu tom agridoce, e emotivo, conversa com uma geração que é muitas vezes jovem demais para se sentir velho mas com quilometragem significativa para refletir sobre a passagem dos anos, e consequentemente, seu amadurecimento.

O Presente antes do Adeus

Para encerrar sua passagem pela Lava Divers com chave de ouro a baterista Ana Zumpano deixa de presente para os fãs uma canção inédita. A faixa foi composta em apenas 6 horas especialmente para o projeto Jaggermeister Grounds.

Como na época eles tinham acabado de lançar o Plush, guardaram esta canção para uma futura divulgação… mas hoje lançam ela em Premiere no Hits Perdidos.

“Another Day” foi gravada no estúdio Mortimer em Belo Horizonte (MG). A faixa foi totalmente gravada e mixada por Lucas Mortimer (Confeitaria, Grupo Porco de Grindcore Interpretativo).

Em seguida à gravação, à noite, foi realizado um pocket show no estúdio, com participação de outras artistas, incluindo representantes da geração perdida de Beagá.

“Gastamos um total de mais ou menos 6 horas pra fechar a produção, e saímos de Uberlândia rumo à BH, e no dia seguinte, em umas 7-8 horas, gravamos tudo com o Lucas (pra depois ainda tocar no evento também patrocinado pela marca, que rolou ali mesmo no estúdio na sequência.”, conta Joe Porto

Sobre as influências Zumpano comenta:

“Eu estava ouvindo Yo La Tengo mais do que nunca, Wilco também, Alvvays, Soccer Mommy e Boogarins?! Foi a música menos barulhenta que a gente fez. A letra soou na minha cabeça como um mantra de libertação.”

Lava Divers “Another Day” (26/04/2019)



Com um guitarra neo-psicodélica e uma levada oriental “Another Day” chama para si a responsabilidade para falar sobre desprendimento, e consequentemente, distanciamento. Algo natural do ciclo da vida onde nossos amigos vão envelhecendo e tendo que optar por seguir seus próprios caminhos.

O espírito dream pop, e flerte com o post punk, ainda vive na canção que de maneira delicada e convida o ouvinte a flutuar junto entre memórias e dissonâncias. A guitarra por diversas vezes soa como um bandolim e reflete seu espírito livre.

Nostalgia, nostalgia e mais nostalgia.

Um Lava Divers mais lento porém ainda mais intenso. Um ciclo que se encerra para que outras portas se abram. Agridoce, sereno e libertino, feito o espírito de uma banda que sempre se entregou de corpo e alma em tudo que fez.

Que os caminhos escolhidos por todos apenas deem frutos para novas descobertas e desdobramentos. Que bom que esse encontro possibilitou tanta coisa.

A Lava Divers vai continuar mas agora com outra cara. Feliz que esse encontro gerou tanta música boa e como tudo na vida devemos agradecer porque aconteceu e não lamentar o fim de um ciclo.

Entrevista

Para compreender mais sobre o desligamento da Ana e o futuro da Lava Divers conversamos com Joe Porto, e também com ela, em um papo muito sincero e de coração aberto.

[Hits Perdidos] Primeiro gostaria que contassem mais sobre a origem deste som, tanto na parte de composição, como das influências mais agridoces e derretidas se compararmos tanto ao EP, como ao Plush.”, relembra Ana

Aliás, como observam o simbolismo do álbum de estréia quase dois anos depois de seu lançamento? Como sentem que as canções cresceram dentro de vocês?

Joe: “Fomos convidados pela Jaggermeister pra gravar um som inédito pro projeto Jaggermeister Grounds deles; tínhamos acabado de lançar o Plush. Estávamos todos atolados de trabalho e tocando muito o disco novo, então acabamos produzindo tudo um dia antes de ir pra Belo Horizonte gravar, no estúdio (do) Mortimer. E foi bem rápido, a Ana trouxe a melodia vocal, o Eddie achou as notas certas criando uma harmonia, eu fiz o riff de guitarra inicial e o Glauco elaborou a linha de baixo e deu uns pitacos.

Gastamos um total de mais ou menos 6 horas pra fechar a produção, e saímos de Uberlândia rumo à BH, e no dia seguinte, em umas 7-8 horas, gravamos tudo com o Lucas (pra depois ainda tocar no evento também patrocinado pela marca, que rolou ali mesmo no estúdio na sequência.

É muito curioso como “Another Day” soa diferente do EP e do Plush, mas faz sentido porque algumas músicas do Plush foram compostas de 1 a 2 anos antes do disco propriamente dito sair. Ou seja, do Plush ser composto até esse single, foram aí quase 3 anos, o que já é bastante tempo e a sonoridade mudou um pouco, mas isso aconteceu de uma forma orgânica e natural.”

Ana Zumpano: “Uma brisa! Eu lembro que foi isso que senti de “Another Day”, uma brisa! Já tínhamos criado tantas canções juntos e, quando rolou a oportunidade de fazer mais uma, foi assim que ela chegou, como uma brisa bem levinha, tipo coisas que acontecem e tornam o dia da gente melhor sabe?!

Eu estava ouvindo Yo La Tengo mais do que nunca, Wilco também, Alvvays, Soccer Mommy e Boogarins?! Foi a música menos barulhenta que a gente fez. A letra soou na minha cabeça como um mantra de libertação.

Essa música veio para ser um divisor de águas. O Plush é aquele disco da vida, acho que daqui 10 anos eu vou olhar pra trás e dizer, com certeza absoluta, que foi o melhor disco que já lancei! Tem tudo de mim ali, de mim, de nós, da essência real da Lava Divers.”


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Arte por Rafael Buletto (@rafabuletto)

[Hits Perdidos] O fato de ser uma composição da Ana é um tanto quanto simbólico dentro deste momento de despedida, e de certa forma até parece premeditar isso. Como é esse sentimento e como notaram que era a hora?

Joe: “Sem dúvida. Apesar de já ser uma canção relativamente antiga (tem 2 anos), existiu a coincidência do momento e eu acho que é isso. Ela é mais um exemplo muito bom de como a gente funcionava; estávamos sempre juntos, todo mundo sempre levando ideias, dando opinião nos instrumentos uns dos outros, a banda sempre foi muito democrática.

Como nessa música, a dinâmica das construções das canções dentro da banda sempre foi muito real, intensa e palpável, “ao vivaço” (sic) mesmo, da composição das músicas às camisetas, identidade visual, clipes, etc. Nunca tinha vivido algo assim em outros projetos e acho que falo por todos que estavam nessa comigo.

Sempre acreditamos muito no potencial da banda e ainda acreditamos na verdade que a Lavinha traz pra gente e pra quem ouve a gente; mas não sabemos se é possível manter a mesma crueza, a mesma dinâmica e a mesma produtividade seguindo um processo de composição, produção, gravação e de shows que não fosse o presencial.

A Ana acabou se mudando pra Sampa pra brilhar por lá, foi há cerca de 1 ano e meio, e nesse meio tempo a banda ficou num gap de atividade muito estranho, onde todos continuavam tocando e compondo individualmente, porém nos encontramos muito pouco, e em 2018 só nos encontramos pra tocar ao vivo.

Continuamos amigos, mas nos falávamos menos (até entre nós mesmos, que ficamos por Uberlândia/Araguari) num processo que eu acho que é natural de pessoas que se distanciam geograficamente.

A impressão é que a Lava tava se apagando devagarzinho, com cada um dos 4 indo pra um canto e com a gente se conformando, já assumindo a possibilidade de formatos mais modestos de funcionar, com menos ensaios, menos shows e lançamentos mais espaçados. Mas a gente não tava feliz com essa dinâmica.

No fim, acho que foi melhor assim. Temos muito respeito e gratidão pela Ana; a Lava é a cara dela, muitas pessoas inclusive conheceram e gostam da Lava por causa dela, crescemos juntos fazendo lado a lado esse projeto pelo qual temos tanto carinho, mas, depois do Plush, o desafio do próximo disco talvez exija um nível de envolvimento em todas as suas fases que seja inevitavelmente presencial.

Até mesmo porque a gente não sabe trabalhar á distância. Não creio que exista outra forma da Lava funcionar que não seja esta, seja pelo nosso perfil, do que esperamos dentro de uma banda, seja por como isso interfere na nossa sonoridade, espontaneidade, emoção e barulho. Conversamos muito, os 4, e acabamos decidindo que isso seria o melhor pra gente como banda.”

Ana Zumpano: “Quem diria, mal sabia eu que estava escrevendo/compondo a canção da minha despedida! A vida é cheia dessas coisas, ainda mais para mulheres como eu, que estão conectadas com o universo e com os sinais naturais que estão rolando o tempo todo…

A Lava Divers é um pedaço do meu coração. Um grande pedaço dele na real. Foi onde eu comecei de fato a pensar e trabalhar enquanto banda, musicista, produtora, booker, assessora, etc (rindo de nervoso)! É a minha essência.

São cinco anos trabalhando na raça, com amor e dedicação para uma história linda e que eu ajudei a compor!!! É aqui que tanto errei e acertei também! Temos clipes lindos, shows memoráveis, um vinil lançado, o disco que eu sonhei, incontáveis histórias, muitas risadas, horas de estrada, amigos feitos, amizades rompidas… eu estou terminando um relacionamento querido que vai ficar guardado pra vida toda!!! (pausa pra secar as lágrimas hehe).

Olha, é muita emoção, um misto delas na real. Faz um ano que me mudei pra São Paulo, foi uma avalanche de perrengues, visitei poucas vezes minas gerais, não por falta de vontade, mas por falta de tempo, dinheiro, etc…

Os meninos não sabem trabalhar à distância, todo mundo tem a vida muito corrida, assim foi ficando muito difícil desenrolar as coisas, eles querem alguém mais presente fisicamente e, minha vida, agora, é aqui!!!

Quando começamos a falar sobre a tristeza que eles sentiam de não ter alguém presente ali com eles pra trabalhar, me veio a letra inteira de “You’ve Got To Learn” da Nina Simone na cabeça:

“Facing reality is often hard to do when it seems happiness is gone
You’ve got to learn to hide your tears and tell your heart life must go on
You’ve got to learn to leave the table when love’s no longer being served
To show everybody that you’re able to leave without saying a word”.

É preciso deixar ir, com maturidade, preservando o que dá pra ser preservado… e é assim que vai ser de mim para a Lava Divers!”


Lava Divers
Calma! O Lava Divers não vai acabar! – Foto Por: Moviola Mídia Livre

[Hits Perdidos] Quais são os próximos passos da Lava Divers?

Joe: “Ainda estamos nos reorientando dentro desse novo cenário, mas não acredito que vamos procurar outro integrante tão cedo, provavelmente tocaremos com convidados se rolarem alguns shows.

A prioridade principal é a gente voltar logo a produzir novas músicas pra um próximo disco. Estamos compondo muito, então temos material suficiente pra botar a mão na massa. Como tudo na vida, colocando um pé um na frente do outro que uma hora as coisas se ajustam e o novo modo de funcionar acontece naturalmente.

Então a ideia é trabalhar dentro dessa nova dinâmica pra logo mais ter mais sons pra divulgar e nos apresentar onde nos chamarem pra tocar.”

Ana Zumpano: ” Estou no meu melhor momento! Nada como os 30 anos, uma mudança de cidade, fechamento de ciclos, erros, mais erros, muita luta e, então, colheita de frutos. A maioria de posts do instagram só ilustram coisas maravilhosas né, mas a gente sabe que a realidade está bem diferente disso. Tem muita luta por trás de uma vitória.

Posso dizer que me sinto plena musicalmente, estou me tornando a musicista que sempre busquei ser. Minhas pesquisas sonoras estão cada vez mais aprofundadas, dinâmica, textura, minimalismo… sei identificar o que eu gosto do que não me agrada muito, sei contribuir, arranjar pro som de alguém, compor com um pouco da personalidade musical que fui criando…

Estou cantando melhor do que há 5 anos atrás, acho que mais confiante, entendendo mais minha voz, o ouvidinho da gente muda né?! Toquei com muita gente, eu amo tocar/trocar com os outros!

A Cinnamon Tapes foi uma grande escola minimalista pra mim, comecei a entender volume, experimentar baquetas, timbres, afinações… olha, eu ainda estou em constante construção, não trabalho só com música, o tempo que eu tenho para isso comparado ao restante é curto na real, estou trabalhando cada vez mais para poder aumentar meu contato com a música. Esse é o meu foco! Trabalho fixo+freelas+bicos mil!

Agora conseguindo pagar o aluguel de uma casa decente, tenho um estúdio em casa, consigo ensaiar com as minhas bandas lá, fui moldando minha vida para conseguir de alguma forma ter dinheiro para sustentar meu trabalho com a música. Tá longe de ser o que eu sonhei ainda, mas o caminho tá muito focado nisso e, tem acontecido coisas lindas.

Atualmente toco com a Leza, surf-music, psicodélico, experimental! Toco bateria e canto, adoro as canções, as letras são maior parte em português e comunicam muito comigo, a sonoridade também é muito minha vibezinha!

Estamos começando a produzir as músicas novas e, me sinto cada vez mais parte da banda, agora que posso de fato somar com as minhas linhas de bateria, tudo isso orquestrado claro, pelo cabeça mais lezado da Leza o Gustavo, que é o geniozinho por trás disso tudo, grande compositor, arranjador, tocador de guitarra, contador de piada e é com quem eu divido uma casa e os cuidados dos gatos atualmente!

Foi o meu terceiro show com o Antiprisma, tô muito orgulhosa desse trabalho, arranjei as baterias com o maior amor e, tem sido lindo. O som deles é incrível, bom demais quando você é fã de um projeto e, de repente se vê convidada para tocar junto! Ambas as bandas estão pra lançar disco, sessions, temos feito muitos shows e o planejamento é o melhor, go go go!

A novidade final é que, minhas composições agora tem um lugar especial, estou tocando guitarra e cantando e é lá que estão agora a parte “Lava Divers” que eu carrego (risos), Echo Upstairs!

É só aguardar e conferir, em breve tem single, ep saindo do forno e showzitos por aí… tô me interessando por aprender a gravar e me tornar cada vez mais autonoma <3″

Ouça Plush


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