Proibido se levar a sério! Esse é o lema da Ventilador de Teto. Entre memes, piadas e uma comunicação divertida nas redes sociais, a banda vem conquistando seu espaço no cenário independente carioca.

Já tendo até se apresentado ao lado de grupos como Baleia, gorduratrans, Kalouv, e no currículo ter realizado turnês fora dos limites do Rio de Janeiro, em estados como São Paulo e Minas Gerais.

Tudo começou em 2015 quando os ainda jovens Elvis Gomes (guitarra/voz) e Marcos Gabriel (guitarra/voz) decidiram ter uma banda segundo eles “movidos pela inveja de bandas de ensino médio que pipocavam em escala diária”. 

As inspirações vieram do bandas com um hype consolidado da época (como Arctic Monkeys, The Strokes e The Growlers) a clássicos como Dylan, Velvet Underground, Talking Heads e o punk nova iorquino. 

O primeiro EP veio logo em 2017, Desejo/Sufoco, já sob a tutela do selo Valente Records. Desde então eles passaram por mudanças na formação, tocaram bastante e foram conquistando seu território dentro do cenário independente.


Ventilador de Tetoo

Ventilador de Teto. – Foto: Divulgação


Atualmente eles além de Marcos e Elvis contam em sua formação com Victor Hugo Ramalho (baixista) e Lucas Boldrini (baterista).

Com um som que abraçava o rock alternativo, o punk, o folk, pop rock e otras cositas mas, eles se viram obrigados a criar um termo para “juntar tudo num álbum só, taokei?” e batizaram seu estilo como fluid rock.

Entre uma série de reformulações  e uma campanha bem sucedida no Catarse, eles lançaram no ano passado seu disco de estreia que ironicamente ganhou o nome de Debute. Aliás quando o assunto é estética e proposta sonora eles são diretos: é jovem e despretensioso mesmo. Mas vai que cola, né? 

As histórias por trás das canções são bastante pessoais mas com fácil identificação isso gera uma conexão com os dilemas dos millennials. Até por isso em entrevista exclusiva para o Hits Perdidos cutucamos para saber mais e as respostas foram ótimas.

Ainda no ano passado eles tiveram o videoclipe para “Nu” como um dos mais votados pela audiência da Play TV e atualmente eles concorrem ao EDP Live Bands que além de levar a banda vencedora para Portugal ainda premia com um contrato com uma major. Mostrando como todo esse engajamento tem dado resultado e os números de plays crescem a cada dia.

Ventilador de Teto
“Foucault” (13/03/2019)

Nesta quarta-feira (17/04) os fluminenses lançam em Premiere no Hits Perdidos o videoclipe para “Foucault”. A faixa é a quarta da discografia do grupo que pretende lançar um vídeo para cada canção de seu álbum de estreia.

Segundo Marcos a letra é reta e direta: “Eu fiz a música pra uma ex. É música de dor de cotovelo mesmo, não tem muito segredo. A letra tem um certo moralismo arcaico que eu acho engraçado.”

Um dos motivos para que eles queiram gravar tantos clipes não é necessariamente como estratégia de divulgação mas porque segundo a VTD ideias não param de pipocar. Além disso Marcos estuda cinema.

“A ideia de fazer clipe pra ela já existia há um tempo, mas a gente não tinha onde gravar. A gente tocou num lugar chamado Ácida House, em Cascadura, pra duas pessoas – uma delas o moleque que aparece aplaudindo no final -, e pareceu fazer sentido gravar lá. Falamos com o pessoal da Ácida, eles deixaram a gente filmar.”

Para as gravações eles tiveram como locação o subúrbio do Rio de Janeiro. Marcos Gabriel Faria (vocal e guitarra) foi o responsável pela direção geral, edição e montagem; e Bárbara Martins (assessoria e fotografia da VDT) ficou encarregada da chefia de operação de câmera e da direção de fotografia.

O vídeo foi pensado para ter múltiplos ângulos e para isso eles utilizaram quatro câmeras operadas em parceria com a Trevus — produtora de ensaios fotográficos, vídeos e filmes de Vigário Geral (RJ).



Eles destacam que o videoclipe até então foi o melhor captado e gravado por eles. E até piada interna com show de dois pagantes existe dentro do seu debochado roteiro.

“A gente tocou num lugar chamado Ácida House, em Cascadura, pra duas pessoas – uma delas o moleque que aparece aplaudindo no final -, e pareceu fazer sentido gravar lá.”, relembra Marcos

Entrevista

Para entender melhor sobre as origens e o momento atual do grupo fluminense conversamos com os dois fundadores do projeto que de forma bastante descontraída responderam sem papas na língua. Uma entrevista sincerona no melhor estilo Ventilador de Teto.

[Hits Perdidos] Gostaria que contassem antes de mais nada como tem sido esse processo de reformulação da banda que deu origem ao álbum. Aliás porque demoraram tanto para fixarem uma formação?

Marcos: “Eu e Elvis escrevemos as músicas, então a gente sempre encabeçou as coisas. O problema com banda é que você precisa de gente com tempo pra se dedicar pra parada. Ainda não dá pra viver só de banda, então o pessoal trabalha, estuda ou faz os dois, que é o meu caso. Se você não estiver no mindset certo a parada não rola.

A formação antiga tinha o pessoal da Sta. Rosa, e pô, os caras também tinham que agilizar o próprio rolê. Antes a gente também tocou com amigos da escola, mas aí tinha o problema de referências e estilos que não eram parecidos. Ter banda é uma coisa difícil, de modo geral. O álbum mermo (sic), na real, foi gravado pelo Elvis e por mim. Foi um pouco antes das gravações que a gente decidiu fazer audições pra tentar arrumar uma formação fixa logo.”

[Hits Perdidos] Não poderia deixar de notar que vocês rotulam o som de vocês como “Fluid Rock”, o que seria isso? Contem também mais sobre as mudanças no campo das influências e o que tem ouvido. Além disso, quais bandas mais admiram no momento?

Elvis: “Sobre rock fluid: é aquela típica resposta de banda que não sabe “definir o seu som”. Só que no nosso caso eu acho que a questão é ainda mais exagerada. Porque, tipo, eu consigo definir “Nu” como um indie rock basicão, “Carmen” como folk, “Keanu Reeves” como punk e por aí vai, mas quando você junta tudo isso num disco só, ou melhor, numa única banda, a parada fica bagunçada, confusa e difícil de nomear.

Dito isso, eu achei que “rock fluid” seria um modo honesto de intitular esse negócio. Talvez a gente deva manter uma identidade mais fixa nas músicas, um gênero ou coisa do tipo, mas é difícil quando você pensa “puts, eu quero copiar essa música” pra todas as músicas que você escuta.

Sobre as influências, temos escutado bastante Car Seat Headrest e Parquet Courts enquanto fazemos as músicas do próximo disco. Além disso, IDLES se tornou uma referência de como tocar com energia, é só olhar a apresentação deles no KEXP.

A gente sempre acaba pegando bastante influência não só pra composição das músicas, mas pra todo o resto, por exemplo: de vez em quando o Marcos aparece e me diz “O Iggy Pop cantava em cima de caco de vidro nos shows e sempre vomitava em alguém, a gente precisa de algo parecido”, e aí a gente fica tentando copiar o modo de agir dessa galera também, digo, daqueles que entraram pra história.”

Marcos: “Iggy Pop fez essas coisas?”

Elvis: “Eu inventei pra parecer que a gente é descolado, mano, porra.”

[Hits Perdidos] Aliás o engajamento e as temáticas são bastante jovens, como vocês observam o jeito de ser dos millennials? Porque acham que são tão incompreendidos pelas gerações anteriores? Parodiando Chorão, “O jovem no Brasil (ainda) não é levado a sério?”

Elvis: “Acho que a gente só é esquisito demais para sequer tentar ser levado a sério, por isso é mais fácil agir a partir da nossa própria esquisitice. Quer dizer, a gente não consegue ter o modus operandi de bandas muito sérias, cheias de postura e classe, ao mesmo tempo em que não conseguimos ser cools e blasés como outras bandas, digamos, “mais jovens”.

Dito isso, só resta pra gente a esquisitice, a irreverência, o “sair gritando por aí e foda-se”. Tem dado bastante certo pra nós, porque isso gera uma identificação maior das pessoas, acho, um contato com suas próprias esquisitices interiores ou coisa do tipo

Acho que é nesse ponto que nos damos de cara com os millennials. Pode-se dizer então que nós os odiamos e amamos ao mesmo tempo, entende? Precisamos deles tanto quanto desprezamos, queremos ser como eles ao mesmo tempo em que buscamos o exato oposto disso. Por isso, eu diria que eu não me sinto nem de longe incompreendido pelas gerações anteriores, e sim pela geração atual: acho que muito das nossas músicas parte daí.”

Marcos: “As músicas são jovens porque eu escolhi ser jovem. Mais importante que o fato de serem jovens é que elas são bairristas e isso também foi uma escolha. Eu não sei muito sobre ser millennial. Eu sei que as pessoas gostam de falar inglês às vezes. Eu também gosto. Enquanto ainda tiver essa coisa do macho inseguro e ressentido uma música como “Foucault” vai ter público, millenial ou não.

A diferença é que com a minha idade eu posso ser espertinho e jogar um pós-estruturalista na jogada só de putaria. Eu não acho que a minha geração seja mais incompreendida do que qualquer outra geração que precisou lidar com a galera mais velha.

Acho que o nosso grande problema é que a gente já sabe como tudo funciona, já assistiu todas as outras gerações tentando e falhando, mas nada disso faz com que seja mais fácil ser parte do mundo. De repente só torna mais difícil. O que acontece é que a cada passo que a gente dá a gente tá ciente do olhar dos outros, do nosso próprio olhar e de nós mesmos enquanto nos olhamos. Eu também quero saber como fazer as coisas. Eu acho a maioria dessas bandas que se levam a sério demais ruim, então não é que eu não me leve a sério, só não quero fazer parte dessa mediocridade.”


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A banda fluminense já se apresentou em São Paulo e Minas Gerais. – Foto: Divulgação


[Hits Perdidos] “Banda se constrói na estrada” e vocês tem tocado junto de diversos nomes relevantes do cenário atual. Como acham que isso tem contribuído para a ascensão da banda no circuito independente?

Elvis: “Não sei dizer. Aliás: eu sei que a banda está em ascensão, mas eu não me permito acreditar nisso. Eu acho que é a constatação de que “porra, a minha banda é minúscula e não somos escutados por ninguém” — mesmo tendo alguns poucos milhares de ouvintes — que mexe comigo.

Me faz compor, produzir e, com certeza, colocar a banda na rua. São nessas apostas que a gente acaba esbarrando com bandas que um dia estávamos admirando de longe, no outro estamos dividindo o mesmo palco.

Por exemplo: eu escutava Baleia durante o meu ensino médio, no ônibus pro colégio, quando eu sequer pensava em ter uma banda, e aí poucos anos depois eu estou tocando no mesmo festival que eles em Duque de Caxias e o vocalista me diz “Como é aquele verso? Velho Keanu Reeves teve depressão? Haha, foda.” Te faz pensar que as coisas estão andando de alguma forma.

Então, eu diria que ter o nome da sua banda circulando por aí é o que constrói ela, dá o seu contorno, gera uma impressão nas pessoas, seja ela positiva ou negativa, é quando passa a existir. E toda banda precisa existir pras pessoas —  caso contrário nada disso faz sentido.”

Marcos: “A gente tem ascendido?”

[Hits Perdidos] Vocês estão lançando hoje o videoclipe de “Foucault”, contem um pouco mais sobre a história por traz deste som e o porquê de sua escolha para ganhar um videoclipe?

Marcos: “Eu fiz a música pra uma ex. É música de dor de cotovelo mesmo, não tem muito segredo. A letra tem um certo moralismo arcaico que eu acho engraçado. É uma das poucas músicas pras quais eu fiz o riff.

A ideia de fazer clipe pra ela já existia há um tempo, mas a gente não tinha onde gravar. A gente tocou num lugar chamado Ácida House, em Cascadura, pra duas pessoas – uma delas o moleque que aparece aplaudindo no final -, e pareceu fazer sentido gravar lá. Falamos com o pessoal da Ácida, eles deixaram a gente filmar.

Chamei o pessoal de uma produtora lá de Vigário Geral, a Trevus, porque eu queria gravar com várias câmeras simultaneamente. Eles ajudaram a fazer o clipe acontecer. A Bárbara, que neste momento está puta comigo mas, se Deus quiser, quando essa entrevista for pro ar já vai estar de boa, fez a fotografia. Acho que é o nosso clipe mais bonito, esteticamente. É o que parece mais profissional também.”

[Hits Perdidos] Aliás vocês tem investido em videoclipes, quão importante vocês veem este formato na hora de divulgar o trabalho?

Marcos: “Os clipes surgem porque a gente tem muita ideia o tempo todo. Eu faço cinema e eu gosto de praticar com esses clipes. E o fato de que nós não precisamos cercear nossas ideias – por exemplo, a gente não precisa se preocupar em lançar apenas um número X de clipes em um cronograma tal – o fato de sermos livres permite que a gente saia fazendo as coisas. No final do ano praticamente todas as músicas do álbum vão ter clipe, e olha que a gente já nem liga tanto pra essas músicas antigas.”

[Hits Perdidos] Se a Ventilador de Teto fosse um drink, o que levaria dentro?

Elvis: “Urina.”

Marcos: “Eu não bebo.”

Ouça: Ventilador de Teto – Debute (2018)