Fazer música com apelo pop dentro do cenário alternativo muitas vezes não é visto com bons olhos por uma parcela “da cena”. Preconceitos bestas a parte, tomar a decisão sonora de partir por este caminho exige coragem e perfeccionismo de quem tenta estabelecer este elo. Uma linha tênue entre: ser muito pop para o alternativo e muito alternativo para o pop.

Não é a toa que a Los Volks, do litoral sul paulista, demorou 5 anos para lançar seu primeiro álbum. Após divulgar os EPs Suburbanos em Crise e Luna e os singles “Transmutar” e “Guarde Suas Joias” (com participação das Vespas Mandarinas) nesta sexta-feira (01/03) eles lançam em Premiere no Hits Perdidos seu primeiro álbum, Los Volks.


Los Volks por Lucas Costa 2

Los Volks do Guarujá (SP). – Foto Por: Lucas Costa


Segundo a banda composta por Pablo Mello (voz, guitarra e violão), Carolyn Areias (voz), Vinícius de Souza (voz, guitarra e violão), Isabella Araújo (baixo) e Vinicius Santos (bateria) as inspirações vem da música brasileira do anos 70, britpop e alt-rock noventista, além do indie pop contemporâneo.

Dentro das referências compartilhadas em entrevista exclusiva para o Hits Perdidos a banda do Guarujá (SP) cita Plutão Já Foi Planeta, Terno Rei, Ventilador de Teto, Vespas Mandarinas e O Terno.

“O lançamento ocorre em um momento mais do que especial para nós, já que em fevereiro celebramos o nosso quinto ano de atividade. Esperamos alcançar cada vez mais pessoas com este disco. Este é o foco da gente”, ressalta Isabella Araújo.

A Transição

O amadurecer e os dramas da transição para a vida adulta são peças do quebra-cabeça do álbum que foca na força das transformações, fobias e choques de realidade.

Sentimental, por diversas vezes, o caminho é justamente em mostrar situações empáticas que todo jovem tem que passar durante este rito de passagem. Entre o primeiro emprego, as primeiras decepções amorosas, o assumir de responsabilidades e as grandes transformações internas.

Los Volks – Los Volks (01/03/2019)

O disco foi produzido por Cláudio Júnior e Álvaro Alves, e gravado, mixado e masterizado no Studio Z3RO em Santos (SP).

Além disso o registro conta com uma série de participações especiais: Cassandra Elisa (teclados e órgão em “Guarde Suas Joias” e “Tarde de Domingo”) e Samir Reis (teclados, órgão e synth  em “Você Tem Que Acordar” e “Então É Aqui”).

O single “Guarde Suas Joias” ainda conta com participação especial de Thadeu Meneghini (Vespas Mandarinas). Já a capa é ilustrada por um retrato da modelo Aleksandra Pitta, obtido por Tyna Cardoso.



O romance e a perdição entram em colisão em “Cigana” com melodias leves, acordes sutis, e mix de vocais masculinos e femininos. As paixões intensas, e sem medir riscos, são ilustradas através de um eu-lírico que sofre por amor.

O single “Transmutar”, já lançado anteriormente, traz a síntese do conceito do álbum que tenta mostrar a mudança de um estado para o outro. Fazendo a ponte entre a juventude e a vida adulta. Açucarada, a canção já nasceu pronta para tocar em um luau. Mas além do amor, a faixa aborda as relações interpessoais de nosso dia-a-dia.

Com teclados, participação especial e mirando o coração do ouvinte, “Guarde Suas Jóias” já nasceu pronta “para tocar nas ondas das rádios FM’s dos elevadô”. Os quereres, anseios e a ansiedade promovida pela monotonia da rotina acaba transparecendo em uma faixa repleta de metáforas.

“Você tem que acordar” é quase um “choque de realidade” em quem está passando por fases sombrias. O recuperar de uma grande decepção e a busca por um novo norte para mirar. É sobre encarar seus problemas, sacudir a poeira e olhar para frente.

Já “Então é Aqui” com uma levada mais mpb – e quase uma bossa triste – chega de mansinho para falar sobre temas sérios como a manipulação e a quebra de confiança. “Turquesa” flerta com o rock alternativo, acordes mais lo-fi e já demonstra um caminhar em direção para a maturidade (após o trauma de uma decepção). O destaque fica para a linha de baixo que assume o comando da canção.

A ladeira abaixo da queda ganha terreno em “Tarde de Domingo”. Onde após a ilusão, decepção e queda, o eu-lírico sente a necessidade de se reerguer. A balada triste ganha teclados que mostram toda a força, fibra e vontade de mirar um futuro mais promissor.

Mas quem encerra mesmo o debut é justamente “Santa Bárbara” que chega de mansinho com seu dedilhado e sua letra auto-confessional. Para descrever a canção eles usam uma frase que a resume bem: “é a síntese do homem adulto desalentado, alienado por um saudosismo tóxico e imerso no desejo imensurável de sentir o que já não pode mais sentir.”

As camadas e arranjos que passeiam pelo rock alternativo dos anos 90, post-rock e viola, dão o tom da faixa que fecha o registro de modo muito mais maduro que o começo de sua narrativa. O fim de um ciclo e o resultado de uma grande transformação.


Los Volks - capa do álbum


Sem medo de soar pop ou fazer pose de alternativo. É esse o espírito do debut da Los Volks do Guarujá (SP) que lança seu primeiro álbum nesta sexta-feira pré-carnaval. Os conflitos, ilusões, reflexões e amadurecimento da passagem da adolescência para a fase adulta são expostos através de situações cotidianas que todo jovem tem que passar.
Entre decepções, amores, recomeços e infortúnios o registro desenvolve a sua jornada. Um disco para se ouvir tomando café enquanto reflete sobre os rumos da vida.

Entrevista

[Hits Perdidos] Primeiro gostaria que vocês tentassem resumir o que foram estes 5 anos de banda, entre o primeiro ensaio e este simbólico – e importante – primeiro álbum completo. Como foi esse período de aprendizado, amizade e transformação sonora?

Pablo: “Uma espécie de estúdio/garagem foi palco para o nosso primeiro ensaio em fevereiro de 2014. Eu (Pablo) havia acabado de deixar um projeto permeado por covers e afins (pelo qual Carolyn fez parte até meados de 2015 – quando passou a integrar a Los Volks). Repetir o que já existia me irritava. Era basicamente incômodo tocar algo que não tinha escrito ou feito parte do processo, sabe?

Essa vontade de escrever e tocar as minhas composições me motivou a montar a banda na época. Entre 2014 e 2016, passeamos pelo rock mais sujo, flertando com bandas garageiras e algumas influências do punk rock. Pistols, Stooges, Ramones, Garotos Podres.. às vezes até sinto falta do tempo que basicamente chutavamos amplificadores.

No entanto, com o tempo, obtive outras referências que foram ganhando espaço no que produzíamos com o tempo – o que me levou ao provável engano de incluir uma faixa acústica em meio ao nosso primeiro EP, regado de letras frágeis e melodias simplistas calcadas pelo puro noise.

Pouco após o lançamento deste, miramos parcialmente nos gêneros que hoje visamos como ponto de apoio para a sonoridade que obtivemos em nosso disco de estreia. Mas como estas contam com certa abertura – ou seja, apesar de olharem para um nicho muito específico, ainda sim têm grande distinção entre si -, custamos para que pudéssemos nos encontrar dentro de uma personalidade própria. O essencial para que isto ocorresse, inclusive, foi quando nos encontramos na formação atual (também em 2016).

Nos autoconhecemos ao decorrer de todo esse período e decidimos que era o momento para entrar em estúdio novamente para gravarmos um disco na no fim de 2017. Acredito que todas as experiências que tivemos antes disso foram essenciais para o nosso amadurecimento. Todos os erros em apresentações quanto as gravações (anteriores ao single “Tarde de Domingo”) com menores estruturas e sonoramente difusas, devido à pouca maturidade da banda.”

[Hits Perdidos] Aliás a baixada paulista que sempre teve uma tradicional cena de rock’n’roll, metal e punk rock parece que nos últimos anos tem ficado cada vez mais plural. É algo que tem observado também? Aqui da capital vejo muito pelo trabalho de movimentação da Peixinho Records e outras pequenas iniciativas.

Pablo: “Sim! Temos observado isso de perto (e com bons olhos). As coisas têm acontecido de uma forma interessante por aqui. E esse é um dos motivos pelos quais realizaremos o nosso show de lançamento do álbum em nosso próprio festival: o Festival Musiqué – no próximo dia 16 de março. Com Carmen (RJ), Intemporal (conterrânea de Santos), exposições de arte e fotografia & flash tattoos rolando para o pessoal.”

[Hits Perdidos] Vocês trazem referências de brit pop, MPB, folk entre outros gêneros mas o que mais me chamou a atenção foi justamente “a falta de vergonha em se assumir pop”. Como encaram isso? É algo que almejavam? Pergunto pois ouvindo as faixas anteriores via uma proposta ainda não muito fechada sonoramente e com o passo álbum parecem ter caminhado com tudo.

Pablo: “Esta foi a nossa proposta desde o princípio. Nós gostaríamos que as nossas canções soassem com um viés mas pop. Mas que no entanto, contassem com letras mais interessantes do que aquilo que costumeiramente vemos nas canções que tocam no rádio e cruzam a linha do mainstream de modo geral.”


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O álbum também contou com uma série de parcerias. – Foto Por: Flávia Damásio


[Hits Perdidos] Aliás no campo das referências o que mais tem chamado a atenção de vocês? Como surgiu a parceria com o Vespas Mandarinas?

Pablo: “Atualmente? Pode-se dizer que existem muitas bandas e artistas que instigam o nosso gosto hoje. Mas, de modo geral, gostamos de Plutão Já Foi Planeta, Terno Rei, Ventilador de Teto, O Terno, entre outros.

A parceria com as Vespas surgiu através de um amigo em comum: Adalberto Rabelo Filho. Ele é um grande letrista, responsável por cooperar em algumas das minhas canções favoritas das Vespas Mandarinas. Eu acompanho a banda desde 2015, aliás.

Enfim. Conversando com ele, comentei sobre a possibilidade de um contato com o Thadeu. Bem, a partir daí, as coisas basicamente fluíram positivamente. O Thadeu Meneghini veio a Santos em setembro de 2018 e gravou algumas linhas vocais para o single “Guarde Suas Joias”. No mesmo dia, participamos de um programa de rádio juntos. Foi inesquecível.

Até hoje mantemos contato e conversamos sobre música quase que diariamente.”

[Hits Perdidos] O processo de amadurecimento e sofrimento é por diversas vezes exaltado durante o álbum. Fora do campo poético e proposta sonora, como foi para vocês este processo de transição? Tiveram problemas de identidade e de entender seu papel no mundo?

Pablo: “O problema para nós foi o processo em que tivemos para nos encontrarmos na nossa própria sonoridade. Mas o que facilitou pra gente, foram os pontos que tínhamos definidos desde o princípio: soar melodicamente pop, flertar com o indie e utilizar apenas composições em português.”