[Premiere] Gustavo Kaly destila 20 anos de composições em sua Primavera Folk Punk

Em 1986 Os Replicantes lançavam seu segundo álbum, O Futuro É Vórtex. Um disco importante e bastante pontual para a época e nele continha uma música que de certa forma adiantaria o que viria a ser produzido na carreira solo do ex-vocalista Wander Wildner, “Hippie-Punk-Rajneesh”.

“…Você disse que eu tinha que mudar
Você disse que o quente é viajar
Você disse cabelo grande é o astral
Você disse o amor agora é grupal

Comprei uma moto velha toda coxa
Uma mochila cheia de pedrinha roxa
E sai pra ver o mundo alucinado
E você me chamou de alienado

Nunca mais eu ouço você
Nunca mais eu caio do beliche
Vou juntar tudo pra ser
Um hippie-punk-rajneesh
Um hippie-punk-rajneesh” – “Hippie-Punk-Rajneesh” – Os Replicantes (1986, O Futuro é Vortéx)

Esse espírito punk, brega, andarilho, viajante e o jeito de compor da faixa escrita por Carlos e Heron batem bastante com as composições do catarinense Gustavo Kaly. A primeira vez que ouvi falar sobre o trabalho do Kaly foi exatamente através de uma canção gravada pelo Carbona, “Os Lindos Refrões que Um Velho Ensinou”, para o disco Apuros em Cingapura (2006).



Mas antes disso lá em 2002 o Carbona já tinha regravado uma canção do Kaly, “Um Mundo Sem Joey” para o disco Taito Não Engole Fichas (Ouça no Spotify). Quem também regravou a canção para seu disco que saiu em Janeiro foi ele mesmo Wander Wildner em De Gritar Me Cansei Rouco e Ao Pensar no Mundo Eu Me Vi Louco (Ouça Aqui), ele que já costumava cantar a canção em suas apresentações a uns bons anos.

Para entendermos mais a relação do Carbona com o Gustavo Kaly, Henrique Badke conta a história:

“Conheci o Gustavo Kaly em 1994 em Curitiba, num show no extinto Aeroanta, na época ele ainda tocava com uma banda de hardcore de Blumenau a Enzime. De lá pra cá acompanhei todos os passos dados pelo Kaly desde suas demos caseiras gravadas nesta época, passando pelos seus dois álbuns e inúmeras parcerias com grandes artistas do rock nacional como Wander Wildner, Frank Jorge e outros.

O Gustavo pratica o que prega, vive o que canta, Um punk hippie beatnik que mistura os ensinamentos da escola Ramônica com a poesia da contra cultura na simplicidade de seu violão folk.” – conta o vocalista e guitarrista do Carbona.


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O músico catarinense Gustavo Kali, que atualmente reside em Barcelona, lança hoje seu disco Primavera Punk e outras estações de falso jazz. – Foto: Divulgação

São 20 anos de carreira que agora no disco Primavera Punk e outras estações de falso jazz estão sendo revisitados. Todo esse espírito wanderlust e drifter ecoa em suas 14 canções que prezam pela simplicidade do punk aliado a áurea do folk. O disco está saindo pelo selo carioca Morcego Records.

Para divulgar o lançamento Kaly vem ao país e acompanha Wander Wildner em uma turnê que acontece no próximo mês. Ela que passará por cidades do sul e sudeste brasileiro, entre estúdios, bares e clubes.

Kaly não se considera um músico – de como ele mesmo diz – “de Stage” porém após revisitar suas canções preferidas para mostrar seu trabalho para o mercado europeu notou que ali existiam várias pérolas.

Composições de 4 fases como músico, muitas delas dos tempos do Stuart (1999-2008) e Últimos Românticos da Rua Augusta (2001 a 2014), esta última que contava na formação com Wander Wildner, Sergio Serra (Ultraje a Rigor) Malásia (Ultramen) Cristiano (parceiro na Stuart) Guilherme Almeida (Pública/Pitty) e Gabriel Guedes (Pata de Elefante). Além de registros seminais de sua carreira solo (“Hotel Coração”, “Boas Notícias”) e canções mais atuais como “Berlim” e “Primavera Punk”.

Gustavo Kaly Primavera Punk e outras estações de falso jazz (16/02/2018)

O disco foi gravado em diferentes épocas, lugares e como ele conta com ajuda de amigos. Podemos assim chamar o lançamento de uma grande compilação de suas até aqui melhores composições. Canções escritas entre 2002 e 2018.

O grande empurrão que faltava para Kaly cair na estrada foi a parceria com o selo Morcego Records, este que é capitaneado pelo amigo de longa data, Henrique Badke.

“Meu instrumento é o violão folk. Não sou grande musicista e toco praticamente do jeito que componho as músicas, de forma simples, os outros elementos de arranjos como Guitarra, bateria, baixo, sempre contei com amigos das bandas que toquei junto.” – conta o compositor catarinense 



O álbum se inicia com “Enquanto o Coração Te Fode”. Esta que conta com uma levada de cantiga hippie digna de cancioneiro popular – e com aquela áurea da “sabedoria dos becos”. Fala sobre as responsabilidades, prazeres, amores, dúvidas e nossos refúgios da (colérica) vida cotidiana.

Com uma levada ainda mais cigana temos “Desenvolvedor de Paranóias” que o próprio músico conta em entrevista para o Hits Perdidos que fala sobre os 10 anos que viveu na Rua da Consolação em São Paulo. Cidade que é protagonista em várias de suas composições.

A cidade paranoia, o coração envenenado e suas vivências fazem parte dos versos que carregam inúmeras histórias e (colecionam) diversos amigos. Uma nostalgia de tempos que foram difíceis mas que foram importantes na vida de Kaly.



A terceira faixa é “Berlim” esta que na quarta-feira teve divulgada uma session registrada ao vivo no estúdio Llibertat 15 em Barcelona (Espanha).

Faz parte do grupo de canções da fase mais recente do músico catarinense e fala sobre seu espírito wanderlust na luta pelo autoconhecimento. Sua perspectiva nesse som reflete em versos sobre a perda da inocência, o amadurecimento, escapismo e seu espírito cosmopolita – e libertino – de enxergar o mundo.

Nostalgia e volta ao lar que ficou tanto tempo afastado. Esse é o tom de “Porres, Ressacas e Canções”. Seu instrumental soa como uma trilha de filme de bang bang, algo que Mike Ness certamente aprovaria. Ela é sobre as cicatrizes, as rugas acumuladas e mudanças que vemos depois de tanto tempo longe de casa. O pródigo filho retorna a casa!

Este retorno pode ser vista por diversas óticas, tanto otimistas como pessimistas, na canção ele até diz que se sente como um velho, foca nos amigos que perdeu, vivos e zumbis. Podemos dizer que o viés pessimista. Com uma boa dose de desastres e pequenos naufrágios.

“Boliviano” como Kaly nos conta “é a história de um sujeito que sai de sua cidade e vai para São Paulo, e escreve sua primeira carta a quem possa interessar, aos que ficaram. A sensação de se sentir pequeno em um mundo de gigantes, correndo atrás de sua própria sombra e deixando que seus sentimentos escorram pelas mãos enquanto tudo passa naturalmente.” O instrumental lembra a música caipira e a moda de viola, fico até imaginando ela sendo trilha para alguma novela que retrate as mazelas da imigração.

“Boas Notícias” também faz parte do repertório de suas primeiras canções solo. Ela tem o espírito aventureiro de perder-se para se encontrar. Viver o hoje intensamente sem pensar muito no amanhã, inconsequente feito um coração jovem e desafiador. A canção foi composta por Kaly e Wander Wildner, ele apresentou para o gaúcho em Berlim e ali mesmo eles finalizaram.

A faixa “Primavera Punk” tem aquele ar folk dos balcãs e espírito de contador de histórias. Com referências aos ilustres Chelsea Hotel, Iggy Pop, Dead Boys, Patti Smith, Ramones, Lou Reed, Johnny Thunders e CBGB ela conta a história daqueles primeiros dias da “era da geração perdida punk”. Um dos pontos altos do disco!

“Canivetes, Corações e Despedidas” essa que foi composta em Amsterdã durante viagem com Wildner. Ela tem uma levada mais punk brega e é romântica até os fios de cabelo. Com direito a muito sangue jorrado, vinho e corações partidos.

“Promoção do Mercado” tem em seu instrumental notas pops que dão até a falsa sensação de alegria mas ela assim como o nome do álbum dos Bouncing Souls diz: é “Hopeless Romantic”. Apenas no aguardo pela próxima decepção (amorosa).

A poesia marginal ganha espaço em “Técnicas de Ignorar Motivos”, tem o espírito punk e delata as pequenas rebeldias – e desventuras. Os sopros dão uma imersão punk jazz a canção que se encerra com beats a lá synth pop.

“O Último Romântico da Rua Augusta” como o próprio nome diz é uma faixa da banda que teve. A mítica – e boêmia – rua do coração de São Paulo é o mapa da perdição para encontros e desencontros amorosos.

“Punk Falido” segundo o músico “virou meio que um bordão lá na minha cidade. A gente via o cara, que antes era locão, ia em shows, comprava discos, descabelado, agora com camisa de gola, filhos na escola e trabalhando no banco logo já o classificava de Punk Falido.”

Amadurecer e ter que se tornar adulto da noite para o dia é uma tarefa que não é fácil. É bastante chata na real e a vida cobra. Porém todos tem que passar por isso, a diferença como o próprio Kaly conta na entrevista abaixo é como conter esses “danos” para não se tornar mais um deles.

“Teatro que Celebra a Extinção do Inverno” tem o espírito anarquista de ir contra a corrente e usa diversas metáforas para retratar o mundo a sua volta. Sua estrutura é uma das mais punks do disco e dá até para imaginar uma adaptação mais acelerada para o rock, o que mostra o poder da composição. Os backin vocals carregam o espírito de grupos como o The Business.

A canção escolhida para fechar o disco é justamente uma das suas primeiras composições, “Hotel Coração”. Ela parece um bolero, tem um toque de flamenco e traz ar dramático de um coração ao vento e cheio de retalhos, mágoas e amores. É sobre essa coleção de decepções, alegrias e perdições. Até por isso o tom burlesco ao falar sobre aventuras, drogas, garotas e vazio.


capa_Gustav_Kaly_Primavera


Primavera Punk e outras estações de falso jazz é uma coletânea com canções de quatro distintas fases do músico catarinense Gustavo Kaly. Ela consegue mostrar ao longo de suas 14 faixas uma pluralidade de histórias de uma vida toda. Tem boemia, tem perdição, tem espírito aventureiro, tem pessimismo, amadurecimento, punk rock, folk, jazz, desilusão e muitos amores.

Feito a vida o disco mostra pequenos retalhos de sua trajetória como compositor. Acredito que quem puder prestigiar os shows que o músico fará ao lado de Wander Wildner, no próximo mês no país, irá poder conhecer ainda mais sobre cada uma destas histórias narradas ao longo do álbum.

Confira a entrevista com Gustavo Kaly

[Hits Perdidos] Você é catarinense, conta até em “Berlim” que morou em São Paulo e atualmente vive em Barcelona. Eu imagino que deva colecionar uma porção de histórias e grandes amigos. Conte um pouco dessa vida “cigana” e como ela te ajudou a compor suas canções.

Gustavo Kaly: “Eu cresci em Blumenau, rodeado de amigos e pessoas que me influenciaram musicalmente e me ajudaram a construir um caracter. Tive a sorte de conhecer as pessoas certas no momento certo, a grande maioria dos amigos tinha como o denominador comum a música. Mas chegou uma hora em que meus pensamentos e ideias não conversavam mais com a cidade daquela época, isso em 1999, 2000. Eu tinha aquela constante exclamação na cabeça: “eu tenho que sair desse lugar”.

Fui para São Paulo com alguns planos e todos falharam, mas ao mesmo tempo em que eu construí uma vida lá. São Paulo foi um dos pontos importantes na minha vida pois eu aprendi a apanhar e levantar de todos os golpes.

Passaram 10 outonos e as mesmas exclamações voltaram a habitar meus pensamentos:  “eu tenho que sair desse lugar” mas dessa vez com uma dose mais carregada de experiência. Muitas histórias, viagens, amigos e personagens que passaram por sua vida.

Quem vive em São Paulo vive em qualquer lugar, pensei. Essa trajetória de tantos lugares traz, certamente, muitas vivências e experiências que automaticamente eu as transformava em canções. Isso pode ser algo muito particular como escrever uma música para um apartamento em que eu vivia na Rua da Consolação (“Desenvolvedor de Paranóias”) ou aquele retorno a terra natal, visto de alguém que passou um tempo sem voltar (“Porres, ressacas e canções”).

Quando cheguei em Dublin, passei um tempo sem escrever, morei por um ano lá e percebi que estava absorvendo tanta informação nova que era mais difícil codifica-las sem ser óbvio.

Em Barcelona percebi que tinha retornado a um posto acolhedor outra vez. O clima, a possibilidade de estar o tempo inteiro nas ruas, caminhando a esmo trouxeram novas ideias. Mas toda essa codificação leva um tempo. Eu estou sentindo só agora, dois anos depois, as coisas voltarem ao lugar. ”

[Hits Perdidos] Apesar de ser um disco de folk / rock você tem um background do punk rock / hardcore. Como acredita que tudo isso entrou no “bolo” do álbum?

Gustavo Kaly: “É complexo definir um estilo, mesmo porque eu não quero ter um. Eu misturo as coisas que eu gosto e as vezes isso pode até atrapalhar mais do que ajudar. Não ter muito bem delimitado um estilo confunde um pouco. Eu definia essa confusão como “é muito punk pra ser folk e muito folk pra ser punk”.

Ficava num limbo, em um meio termo. Eu nunca sabia definir o meu estilo quando me perguntavam. Com os Últimos Românticos da Rua Augusta (banda que tive com Wander Wildner, Sergio Serra, etc) a gente brincava bem com isso, nos definíamos como “PunkFolk Jazz de apartamento”. Acho que é mais ou menos isso. Confundir para esclarecer, como dizia o mestre Tom Zé.”


WANDER


[Hits Perdidos] Quando vi que a turnê está sendo feita junto com o Wander Wildner eu só pensei após ouvir algumas canções: em cheio, grande acerto. Como acredita que o trabalho de vocês se relaciona e a quanto tempo se conhecem?

Gustavo Kaly: “A gente se conheceu entre 2000 e 2001, em uma de suas turnês, um pouco antes de lançar o Buenos Dias. Ele estava sozinho e eu, que atendia pelo pseudônimo de Stuart abri um de seus shows e toquei baixo com ele no seu show.

O Wander é um cara conectado, ele é curioso e sempre está interessado em coisas novas, novas bandas, novos estilos. Se perguntar a ele 3 discos lançados em 2018 de bandas australianas ele vai te responder na lata. E esse interesse chegou até minhas canções, que claramente tinha o Baladas Sangrentas como influência, alem das coisas dos Replicantes.

Ele se interessou por uma canção na época, (“Um bom motivo”) e disse que estava interessado em gravá-la. De lá pra cá foram quase 15 músicas minhas em seus discos, muitos shows, uma banda que montamos juntos em uma viajem ao Chile (os últimos românticos da rua augusta) e uma parceria e amizade que levamos até hoje. Trocamos informações o tempo todo, mesmo porque pensamos da mesma forma em relação a muitas coisas.”

[Hits Perdidos] Como foi a decisão de juntar tantas canções destes 20 anos de estrada em um disco cheio? Como acredita que elas conversam entre si e quais histórias por trás delas destacaria?

Gustavo Kaly: “Eu tinha feito uma espécie de coletânea com o que eu achava de mais relevante das coisas que eu tinha gravado, com o objetivo de tentar algumas coisas aqui na Espanha, uns shows pequenos, tocando solo, algo sem grandes ambições. Essas músicas foram gravadas em fitas cassetes para ser distribuídas por aqui e também as coloquei no Bandcamp.

O Henrique Badke, parceiro de muito tempo disse que estava cometendo a loucura de montar um selo no Brasil a moda antiga, lançando material físico, camiseta, adesivo e que tinha interesse em me ter como artista do selo e em usar esse material, da coletânea que eu havia criado, como o cartão de visita, para apresentar Gustavo Kaly aos quem não conheciam no Brasil.

Eu claro, entrei no barco de cabeça e chegamos ao Primavera Punk e outras estações de Falso Jazz. A Morcego Records foi o empurrão que faltava para eu sair da minha zona de conforto e voltar a tocar. Com esse disco em mãos, me senti na obrigação de botar o violão nas costas e pegar a estrada.

São canções que vão desde 2002 até hoje, um apanhado geral de uma carreira instável, se é que pode ser chamada de “carreira”. Mas no final das contas são canções que representam muito esses anos de aventura. “Boas notícias”, gravada pelo Wander por exemplo, apresentei a ele em Berlin, e terminamos lá. Depois fomos para Amsterdã juntos, foi uma loucura. “Canivetes, corações e despedidas” foi composta lá. (era Canais, corações e despedidas, originalmente).”

[Hits Perdidos] “Punk Falido” tem uma letra sobre crescer e deixar suas crenças (e vestimentas) para trás. Quantos amigos viu passar por esse processo de “falência” dentro do punk rock? Você também passou por esse processo?

Gustavo Kaly: “Punk Falido” virou meio que um bordão lá na minha cidade. A gente via o cara, que antes era locão, ia em shows, comprava discos, descabelado, agora com camisa de gola, filhos na escola e trabalhando no banco logo já o classificava de Punk Falido.

Mas é o procedimento normal da vida né? Apesar do ”I don’t Wanna grow up” diário, não conseguimos escapar muito da cruel realidade do boleto pra pagar. A vida de adulto é muito chata. As vezes o sujeito nem perde suas crenças, continua achando tudo uma merda, mas está lá, inserido nesse merda até a cabeça. É mais uma crônica da vida adulta. Todo mundo passa por isso e o máximo que conseguimos fazer e tentar reduzir essa “falência” esse dano com algumas doses de subversão, de vez em quando.”

[Hits Perdidos] Como você definiria seu estilo, tem canções mais outlaw, outras mais folk, outras flertam com o country e você chega até a citar o Johnny Cash em seus versos. Mas se pudesse defini-lo de uma maneira única, como rotularia?

Gustavo Kaly: “Punk Folk Catarinense.”

[Hits Perdidos] Tem muito de São Paulo no disco, inclusive em “Boliviano” você cita os costureiros do Brás e a rotina de um imigrante. Em paralelo quais foram as dificuldades que teve ao sair do Brasil?

Gustavo Kaly: “Eu sempre vivi uma vida muito alternativa, quase anarquista e saindo do Brasil tive mais facilidades do que dificuldades em viver a vida que eu definia como ideal pra mim. Eu busquei aqui pessoas que pensam igual a mim e as encontrei.

As grandes cidades estão muito parecidas entre si isso é um fato. São Paulo, Porto Alegre, Rio, etc, não perdem em nada na contemporaneidade do pensamento crítico, da forma em que as pessoas que fazem a diferença pensam e agem. Estão diretamente conectadas com Berlim, Madrid e Londres.

O que difere são as estruturas que se tem para isso. O excesso de informação, línguas, culturas são ferramentas que só agregam. Eu sou um pessimista nato e nesse âmbito vejo tudo com um otimismo cego. Essa vida mais alternativa de uma certa forma faz com que as músicas sejam criadas a partir de uma perspectiva paralela. Não é de fora nem de dentro.

Em São Paulo você pode se sentir muito mais “outsider” e perdido que em Barcelona por exemplo. “Boliviano” é a história de um sujeito que sai de sua cidade e vai para São Paulo, e escreve sua primeira carta a quem possa interessar, aos que ficaram. A sensação de se sentir pequeno em um mundo de gigantes, correndo atrás de sua própria sombra e deixando que seus sentimentos escorram pelas mãos enquanto tudo passa naturalmente.”

[Hits Perdidos] Pude conhecer seu trabalho ouvindo as versões do Carbona para “Os Lindos Refrões Que Um Velho Ensinou” e “Um Mundo Sem Joey”. A segunda claro foi feita em homenagem ao eterno ramone, mas como foi o contexto dela, foi logo após saber de sua morte? E quem seria o “velho” da primeira, alguma história por trás?

Gustavo Kaly: ““Um mundo sem Joey” foi escrita no dia de sua morte. (ou um dia depois, talvez). Eu sempre achei a expressão “Gabba Gabba Hey” um mantra, que podia ser repetida varias vezes por dia e que nos deixaria mais tranquilos espiritualmente, uma besteira de punk velho, haha. Não tinha muita intensão com a música, que nada mais é que a construção de uma história com frases retirada das canções dos Ramones. O pessoal do Carbona se amarrou na ideia e deu uma perfumada na música. Acho que ficou a versão definitiva, tanto é que nunca a gravei.

“Os lindos refrões que um velho ensinou” é quase que uma música de acampamento de verão do litoral catarinense. Essa é a ambientação, meio hippie-Punk, desfrutando o verão e escutado as histórias dos mais velhos em volta da fogueira. Isso resume muito meus verões de tempos atrás e me deixa um pouco nostálgico até.”

[Hits Perdidos] Como foram as gravações do disco? Onde foi gravado? As canções são de épocas diferentes? Quais instrumentos utilizou?

Gustavo Kaly: “No disco estão 4 fases, todas de épocas diferentes. A que estive por mais tempo, Stuart (1999 até 2008) que começou como um projeto lo-fi e depois se estruturou como banda da qual gravamos dois discos, dos Últimos Românticos da Rua Augusta (2001 a 2014), banda que tive com Wander, Sergio Serra (Ultraje a Rigor) Malásia (Utramen) Cristiano (parceiro na Stuart) Guilherme Almeida (Pública/Pitty) e Gabriel Guedes (Pata de Elefante) meus primeiros registros solos (“Hotel Coração”, “Boas Notícias”) e coisas atuais como “Berlim” e “Primavera Punk”.

Tudo gravado em lugares diferentes e épocas diferentes, é de fato uma compilação que passa por boa parte de minhas composições. Meu instrumento é o violão folk. Não sou grande musicista e toco praticamente do jeito que componho as músicas, de forma simples, os outros elementos de arranjos como Guitarra, bateria, baixo, sempre contei com amigos das bandas que toquei junto.”  

[Hits Perdidos] Para fechar: quais as expectativas para a turnê que começa agora em março?

Gustavo Kaly: “Só o fato de voltar a reencontrar amigos e aos retornar aos palcos quase 4 anos depois já me faz muito feliz e ansioso. Não sou um músico de Stage, me vejo mais como compositor que músico, mas esse contato direto é um momento de celebração indispensável na minha vida. Além disso a parceria com o Wander rendeu um seleto grupo de malucos que estão pedindo essa tour por algum tempo já, me sinto em dívida com eles.”

Confira as datas e locais da turnê:

Tour 2018

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