[Premiere] Inspirados por Black Mirror: Os Bandoleiros e a Cigana discutem os dilemas do “Eu”

No começo de 2017 estava montando a programação do Dezgovernadoz (Mutante Radio), quando pesquisando por bandas do Pará me deparei com o som d’Os Bandoleiros e a Cigana.


Após isso eles realizaram uma campanha de financiamento coletivo no Catarse e divulgamos por aqui. Graças a 68 colaboradores – entre amigos e fãs – eles conseguiram captar 52% dos recursos para o financiamento do disco.

Como era uma campanha flexível, eles juntaram com os recursos próprios e estão lançando nesta sexta-feira (12/01) com Premiere no Hits Perdidos seu primeiro álbum.

A banda foi formada em 2014 na cidade de Ananindeua (PA) tendo como influências citadas Foo Fighters, Ash, Gram, Medialunas, White Stripes, Royal Blood, Superguidis, Placebo e Muse. Sua atual formação “power trio” conta com Diego Di Paula (vocal/guitarra), Lucas Armstrong (bateria) e Tamires Nobre (contra-baixo).


OS Band
O power trio paraense Os Bandoleiros e a Cigana. – Foto: Divulgação

Antes do lançamento do disco eles disponibilizaram o single “Mais um Dia” e “Tempo”. Inclusive no fim de 2016 eles lançaram em conjunto da turma 2015 de Produção Multimídia da UFPA o videoclipe para “Mais um Dia” este que foi vencedor do Festival Fusca em 2016 nas categorias: Videoclipe, Roteiro, Cartaz, Produção e Melhor Vídeo.

A direção é assinada por Victor Cidade e a baixista Tamires Nobre. O roteiro é inclusive bastante interessante:

“O que fazer quando a pessoa que você ama tanto já não é mais a mesma? Enquanto o passado vem para lembrar os bons momentos, o presente nos atormenta com suas mágoas e dúvidas. Ir ou ficar?”. Esse é o dilema enfrentado por nossa personagem no videoclipe da música “Mais Um Dia”.



O Disco

O disco foi gravado no Abbey Monsters Studio (Belém /PA) por Andro Baudelaire. Ele que também ficou responsável pela mixagem, masterização, além de ter contribuído nos backin vocals. A arte do álbum foi feita por Lucas Pereira e você pode conferir o portfólio dele aqui.

Na primeira ouvida já pude notar uma forte influência do post-punk e do rock dos anos 80 nacional. Sua letras são contestadoras e a crítica social é um dos pilares das composições. Em uma era tão “conectada” até o Black Mirror entrou na jogada.



Com o espírito sujo do grunge dos anos 90 temos “Anestesia”, primeira faixa do álbum. Nela a tal “era das trevas” é posta em cheque e a contestação pelos tempos que temos vividos vem a tona. A escuridão inclusive está presente nas linhas de guitarra e na batida da bateria.

Com uma áurea que lembra o som de grupos como A Perfect Circle e The Smashing Pumpkins temos “Retorno”. Essa mais espacial, lisérgica e reverberante. A sensação de vazio existêncial pode ser sentida em sua letra e isso é equalizado em seu denso instrumental.

O lado mais “punk” do Placebo pode ser notado na terceira faixa do álbum, “O Fim”. Também tem um pouco de The Smiths e Echo & The Bunnymen, então de certa forma vejo ela como uma grande homenagem ao rock inglês. Seu fim (até irônico falar sobre o fim de “O Fim”) termina em uma jam viajante de distorção e linha freestyle de bateria.

“Espelho” é a mais longa do disco e já começa com um interlúdio – e ar fúnebre do post-punk. A letra é introspectiva, cheia de mágoa e mostra o rompimento de laços antes muito fortes.

Já “Dama da Noite” carrega o ar mais lo-fi/shoegazer do disco. Imersão total nos anos 90 como as influências citadas pela banda (Ash, Muse, Foo Fighters). Nessa faixa em específico o baixo ganha o protagonismo e dá liberdade para a guitarra solar ao fundo.

Sua letra é apocalíptica e parece que o mundo vai “se autodestruir” com a chegada da noite. A canção se encerra da mesma forma eletromagnética que se inicia, dando a noção de que o ciclo é ad eternum.

“Eu” já chega com o peso da guitarra, distorção dos pedais e magia dos anos 80. É daí que sinto a influência do rock de Brasília de grupos como a Plebe Rude e Legião Urbana mesclada ao punk rock daqueles discos que chegavam aos poucos dos EUA/Inglaterra. O tom não podia ser outro além de confessional, tendo os questionamentos internos reverberando nos acordes mais tortos.

Chegamos assim a parte final do disco com a agradável “Cotidiano”. O foco fica no vocal e na poesia marginal do cotidiano de uma grande cidade. Retratando a “inquietação” e as duras batalhas de todo dia para sobreviver em meio ao caos.

Apesar de chamar “Black Mirror” a canção poderia estar na trilha de Stranger Things. Tudo isso pela levada oitentista da bateria somada a guitarra que soam como “sintetizadores”. De certa forma o universo de Black Mirror e das conexões – macabras – tecnológicas do seriado estão presente por meio das metáforas da letra.

Seus versos deixam claro que o hábito de estar escravo das redes sociais (e do celular) atrapalha nas relações pessoais. Como por exemplo no prazer de tomar um café ou almoçar conversando com quem gosta. Temos que “competir” com uma máquina e “deixamos de viver”. O disco se encerra como se um portal eletromagnético estivesse se fechando.


CAPAAAAA


Após campanha bem sucedida no Catarse a banda paraense Os Bandoleiros e a Cigana lança seu álbum de estreia viajando por diferentes universos do rock alternativo. É verdade que temos bastante dos anos 90, do grunge, rock alternativo porém tem espaço para o post-punk oitentista e linhas de guitarra mais soltas. O artifício dos pedais também nos leva para essa era criativa e “torta” do rock. Tudo isso feito de maneira bem pop/radiofônica.

Os questionamentos sobre as relações líquidas, a insegurança do ser e a dominação da tecnologia sobre nossa atual sociedade trazem para o disco questionamentos bastante atuais. É como se Black Mirror, Mr. Robot e Love dessem munição para toda uma nova geração pensar. Como cultura pop e rock sempre andaram de mãos dadas, este é um gol a favor. Agora é esperar pelo segundo disco para ver o amadurecimento e o que o futuro lhes reserva.

Para entender um pouco mais sobre a cena paraense, as expectativas para o lançamento e os planos para 2018 conversei com eles.

[Hits Perdidos] Queria que contassem um pouco sobre como foi todo o processo do disco: da formação da banda passando pelo projeto no catarse e a expectativa para o primeiro lançamento.

Os Bandoleiros e a Cigana: “A banda já teve diversas formações; já foi quarteto, duo, e agora nos achamos no power trio. Houve um tempo em que a banda ficou meio que em hiato, o baterista da época havia deixado a banda e só restava o Diego; até que a Tamires (que antes de estar na banda era uma mega fã) teve que fazer um trabalho audiovisual pra faculdade e escolheu fazer um videoclipe com o nosso single “Mais um Dia”, pra ajudar a levantar a banda.

Foi aí que o Diego chamou ela pra tocar baixo. Depois, passamos por diversos bateristas até finalmente chegarmos no Lucas, que foi o casamento perfeito. A ideia da Tamires era usar o videoclipe como forma da banda ganhar mais visibilidade, e assim abrir espaço para um financiamento coletivo.

Então primeiramente colocamos ordem na casa: Tiramos fotos de banda decentes (risos), falamos com um ilustrador pra ele desenvolver uma logo bacana pra gente e aí então começou a planejar a campanha do Catarse.

Creio eu que forma 3 meses de planejamento, falando com fornecedores, preparando vídeos, fazendo pesquisas de público e tudo mais. A campanha de divulgação foi grande e no final superou nossas expectativas de arrecadação. Ficamos felizes que ao fim dela conseguimos mais da metade.

Gravar com o Andro Baudelaire foi uma experiência incrível, ele sempre nos deixou super a vontade e dava ideias muito boas pra dar aquele up nas músicas. Nós ficamos muito felizes com o resultado, pois ele conseguiu captar nossa essência.”

[Hits Perdidos] Contem sobre a cena paraense, vocês são do interior do estado mas foram para a capital, correto? Quais as diferenças que sentiram, quais os maiores problemas que encontram e como é a recepção do som de vocês?

Os Bandoleiros e a Cigana: “Na verdade, a gente se considera uma banda da “Região Metropolitana de Belém”, pois atualmente os integrantes moram um em cada canto (risos).

A Tamires mora em Belém, o Lucas em Icoaraci (que é considerado distrito de Belém, mas é um lugar com características bem próprias) e o Diego em Ananindeua. Legal notar que cada região dessas tem sua própria cena e se organizam, então a banda é uma mistura de todas elas. Quando  o Diego criou a banda era somente com músicos de Ananindeua, por isso dizemos que a banda nasceu lá.

[Opinião do Diego sobre a cena de Ananindeua]: Ananindeua vive altos e baixos do movimento autoral. Na década de 2000, existiam várias bandas autorais como A Quinta Essência, Parafernia, entre outras, que faziam vários eventos aqui. Com a popularização dos pubs, essas bandas que já tinham pouco espaço foram sumindo, pois o público preferia ir em um pub tomar sua breja e escutar músicas que já conheciam ao invés de ir para um ” rocada”. Falta pesquisar, mas não vemos mais tantas bandas surgindo em Ananindeua.

[Opinião da Tamires sobre a cena de Belém]: Belém, por ser capital, sempre teve uma cena um pouco mais movimentada que as outras. Os estúdios mais bacanas são pra cá e temos mais locais dispostos a abrir suas portas pra gente. Temos um grande apoio aqui que é a Rede Cultura de Televisão, eles apoiam bastante os músicos autorais da cidade, inclusive do rock. Atualmente creio ser a cena que mais está fervilhando; todos os shows estão rolando praticamente pra cá pro centro. Raramente se tem um evento de rock autoral pras outras localidades e nem vemos surgindo tantas bandas como antes

[Opinião do Lucas sobre a cena de Icoaraci]: Bom, Icoaraci é um berço de artistas. Sempre tem gente nova com intuito de fazer um bom som e mostrar isso ao público. Eu mesmo cresci fã de uma banda e toquei com os caras depois de anos. Acho que falta mesmo é mais espaço pras bandas novas mostrarem seus trabalhos. Atualmente tem muita banda boa por aqui, mas andamos parados de shows locais. Valorizem sua cena local primeiramente galera, sempre tem bandas boas a se conhecer.”


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Os Bandoleiros e a Cigana durante uma de suas “Rockadas” – Foto Por: Igor Amaral

[Hits Perdidos] Aproveitando o papo sobre a cena paraense. Quais as bandas locais gostam e recomendariam para os leitores do Hits Perdidos?

Os Bandoleiros e a Cigana: “Turbo, Steamy Frogs, Moonges do Vietnã, Lambada Hit Combo, Irene, Banda Cout, Delinquentes, The Baudelaires, Vinyl Laranja, Móbile Lunar, Dois na Janela, Molho Negro, Aeroplano, O Cinza, Acorde de Novo. São tantas!”

[Hits Perdidos] O disco passeia por temas bastante profundos mas todos de certa forma se conectam com o “eu” dentro da sociedade. O que estavam lendo, assistindo e escutando quando estavam compondo o álbum?

Os Bandoleiros e a Cigana: “Bom, todas as letras, com exceção de “Anestesia” e “Cotidiano”, foram feitas pelo Diego Di Paula, então tem uma ligação quase autobiográfica delas com ele.

A maior referência pra escrever é o próprio mundo em que ele vive, a história, os acontecimentos, e nós mesmos, seres humanos influenciáveis e bombardeados de informações. Lembrando é claro, as músicas foram feitas em tempos diferentes da vida dele. A música funciona como uma terapia pra ele.”

[Hits Perdidos] Inclusive tem até uma canção inspirada por Black Mirror. Como vem esse rumo que a sociedade está tomando? Estamos mesmo reféns da tecnologia e dos celulares como a canção relata?

Os Bandoleiros e a Cigana: “O Diego sofreu influência direta do EP 1 da terceira temporada de Black Mirror, “Queda Livre”, que mostra o quão somos reféns da tecnologia.

“Já estamos presos e isso é fato, o mais interessante é que eu, com 30 anos, passei por essa transformação a respeito da tecnologia, então vi o avanço e a popularização dos computadores, celulares, e o alcance da internet junto com o aumento da velocidade, criação de empregos na área e novidades de entretenimento e comunicação. Uau! isso tudo em menos de 30 anos. Uso da tecnologia, mas me policio pra não virar refém ou adoecer por conta dela.” – Conta Diego.


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A série Black Mirror (Channel 4 / Netflix) inspirou uma das canções do primeiro álbum da banda paraense. – Foto Por: Igor Amaral

[Hits Perdidos] Em 2016 vocês lançaram um clipe que chegou a ser até premiado, contem essa história, da produção a cerimônia.

Os Bandoleiros e a Cigana: “Então, como falado antes, o clipe foi um projeto universitário da Tamires em conjunto com os amigos dela Victor Cidade e Samuel Ferreira. Foram 1 ou 2 meses de preparação e dois dias de gravações.

A direção foi em conjunto por Tamires e Victor, o roteiro pela Tamires, a edição pelo Victor, a fotografia pelo Samuel e a produção fomos todos nós. Tivemos que regravar o single “Mais um Dia” pra lançar tudo numa qualidade bacana, e aí foi uma correria pra terminar tudo a tempo de conseguirmos entrar no festival FUSCA, que premia produções universitárias.

Foi uma surpresa termos sido premiados, ainda mais em várias categorias: Melhor Roteiro, Melhor Cartaz, Melhor Produção, Melhor Videoclipe e Melhor Vídeo. Foi a nossa primeiríssima produção e não estávamos esperando nada disso (risos).”

[Hits Perdidos] Vocês participam de algum coletivo? Como é ser independente por aí?

Os Bandoleiros e a Cigana: “Fazemos parte do União Autoral, mas atualmente o coletivo só organiza um festival que é o “Não Pire“, que já é bem tradicional de Icoaraci.

É bem complicado gerenciar um coletivo, pois cada um tem seu corre e o desencontro é grande. O que a gente faz é convidar um ao outro pra tocar junto, organiza alguns ensaios abertos, ajuda na divulgação e ir nos shows um do outro, esse tipo de coisa.

Ser independente por aqui é bem complicado (risos), tem que ter jogo de cintura, organização, ter muita determinação e não ter medo de arriscar, seja o que for. Ter banda é como ter um segundo emprego, mas é aquele emprego que te dá gosto de trabalhar.

Apesar das complicações, atualmente muitas portas vem se abrindo para os artistas autorais, principalmente pro rock. Vemos novos lugares pra tocar surgindo nesses últimos tempos, várias pessoas interessadas em fazer videoclipes, ou então blogs sobre música autoral. A cena tá crescendo cada vez mais.”

[Hits Perdidos] O que esperam do show de lançamento? E depois disso quais os planos para 2018? Teremos novos clipes?

Os Bandoleiros e a Cigana: “Estamos planejando um evento bem especial. Chamamos bandas que são muito amigas nossas e que são parte da nossa trajetória:

Moonges do Vietnã, cujo baterista Chico Gualberto já tocou com a gente, inclusive gravando a bateria de “Mais um Dia”, e o vocalista Nil Lima fez os backing vocals do CD e compôs a letra de “Anestesia”; Irene, uma banda que conhecemos na nossa primeira tocada com a nova formação e desde então tocamos muitas vezes mais juntos (dizemos que foi “amor à primeira rockada” (risos) ); e Lambada Hit Combo, um projeto do nosso amigo Camillo Royale, que desde o início apoiou a banda em todos os sentidos, e até fez backing vocal em “Mais um Dia”.

Agora em 2018 vamos focar na produção dos novos videoclipes desse novo CD. A ideia é lançar os clipes de “Anestesia”, “Dama da Noite” e “Espelho”. Por enquanto estamos na fase inicial de cada projeto, mas vai rolar com certeza!”

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