[Exclusivo] Maquinas conta como tem sido a primeira turnê fora do nordeste

O maquinas surgiu em Fortaleza (CE) em 2012 e lançou o seu primeiro EP em 2014. Logo depois meio que por acidente o material chegou nas mãos do Fred Zgur da Bichano Records que fez questão de testemunhar no release do último lançamento da banda, Lado Turvo, Lugares Inquietos, a história de como os conheceu.

“A vida é muito doida.

É muito doido como em 2014 você ouve um EP de uma banda de Fortaleza que alguém postou na Sinewave e dois anos depois, após muitas conversas via chat do facebook, você tá a mais de 2500km de distância da sua casa tomando uma cerveja com os membros da banda, rindo como se vocês tivessem se conhecido a vida inteira. Assim foi minha relação com o pessoal da maquinas.

Depois de muitos meses conversando pela internet e tendo lançado as músicas deles (o EP homônimo de 2014 e o single de “zolpidem”), acabamos indo parar na casa dos meninos durante nossa turnê com a gorduratrans em fevereiro de 2016. Como se não fosse felicidade suficiente conhecer o Allan, Samuel, Betos e Guilherme, realizamos o sonho de assistir a uma apresentação deles no Bichano Fest Fortaleza, juntos da gordura e da Talude, e posso garantir que foi uma das experiências mais altas, barulhentas e imersivas pelas quais eu já passei.” – Fred Zgur (Bichano Records)

Ele ainda ressalta que o álbum de estreia do grupo – lançado em maio do ano passado – é inspirado por pérolas obscuras dos anos 90, como Unwound, Duster, Idaho e Chokebore. A banda ainda cita como influências o rock alternativo dos anos 80 e 90, o free-jazz e atmosferas musicais de bandas do rock progressivo dos anos 70.

O que certamente já te desperta um sentimento de inquietação e querer saber mais sobre aquelas camadas vibrantes e densas de um disco tão noturno – e recheado de pequenas explosões sonoras.

As faixas são longas mas provocam sentimentos diversos, trazem sensação de aprisionamento, refúgio, transgressão e inquietude. Talvez por isso tenha conseguido atrair a atenção de tenta gente que consegue ver e sentir o frio do concreto no anoitecer da cidade. Lançado ainda na proximidade do inverno passado, que timing para um disco com este fator. Inclusive a estética da capa deixa isso ainda mais sombrio e nos convida para olhar tudo a partir daquele clima mais frio.


CAPA
Capa do álbum, Lado Turvo, Lugares Inquietos, que foi lançado através dos selos independentes Bichano e Transtorninho.

Lembro muito bem de ver o disco sendo citado em diversas listas de fim de ano. Inclusive a da Sinewave que é postada anualmente no Floga-se e que foi citada no release escrito pelo Fred. Uma alegria para todos que conseguiram levar o som feito fora do eixo RJ-SP para lugares onde nunca imaginariam chegar. Pois bem, um ano após o lançamento do disco, chegou a hora do sudeste poder conhecer o som que a internet lá atrás tratou de quebrar a distância geográfica de 2500 KM.


CARTAZ TURNÊ MAQUINAS SUDESTE


O quinteto tem em sua formação Allan Dias (baixo/voz), Roberto Borges (guitarra/voz), Ricardo Lins (bateria), Samuel Carvalho (guitarra/voz) e Gabriel de Sousa (Saxofone) e na semana passada se apresentou no Breve (São Paulo), no dia 14/07, este que contou com uma bela resenha de Cainan Willy (Pacóvios) que traduziu o que sentiu naqueles minutos para o Scream & Yell. Neste show eles tiveram a companhia do Terno Rei, banda que sempre sonharam assistir ao vivo.

No dia seguinte eles se apresentaram em Santo André no Estúdio Synco ao lado do eliminadorzinho e Luden. Fechando a perna paulista da turnê, eles tocaram no Gig em São Carlos com Quasar e Theuzitz.

Agora eles estão chegando para a segunda parte da turnê onde tocarão em Belo Horizonte, na Casa do Jornalista, dia 21, e finalizam ela no Rio de Janeiro, com show no Audio Rebel no dia 29 de Julho, junto com a banda Gorduratrans.

Confira a entrevista enquanto ouve o disco no Spotify.


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maquinas. – Foto: Divulgação

[Hits Perdidos] Antes de mais nada gostaria de saber mais sobre o rico EP Lado Turvo, Lugares Inquietos. Como ele nasceu, como foi o processo de composição já que conta com faixas longas e muita abstração?

Allan: “É um full-album mesmo. Acho que pelo número de músicas meio que aparenta ser um EP, 6 músicas, mas a duração de cada música meio que o transforma em um full-álbum, creio eu. Na verdade tanto faz pra mim, é um álbum mesmo (risos).

Se bem me lembro, o processo de composição do álbum foi bem apressado. Era uma época que quando a gente começou a gravar a primeira música, já estávamos ao mesmo tempo terminando a composição de outra. Creio que nisso fizemos o processo de criação e gravação do álbum dentro do intervalo de um ano, que foi quando lançamos o single de “zolpidem” em 2015 para o lançamento do álbum completo em 2016. Pode parecer muito tempo, mas também tinha o fato de que fazíamos os shows em Fortaleza na época para custear as gravações do álbum. Foi um processo bem interessante mas não sei se faremos da mesma forma novamente. Talvez seja mais legal tentar explorar outros campos ou se abrir para novas experiências, né.”

[Hits Perdidos] O som passeia por várias camadas e dá para notar o esmero em passar sensações para os ouvintes. O que esperavam passar para os ouvintes? Teve alguma reação que eles tiveram que surpreendeu vocês?

Allan: “Sinceramente, não sei o que realmente queríamos passar para os ouvintes, nós realmente não tínhamos a intenção de fazer algo voltado para os nossos ouvintes por que tanto não condiz com a forma como a gente lida com a nossa música com também o fato de que na época nem sabíamos que tínhamos ouvintes direito! (risos).

Acho que no geral o sentimento era passar alguma forma de como nos sentíamos naquela época com relação diversos assuntos internos de nossas vidas, sei lá, reflexões de cotidiano, vivências noturnas, pensar sobre futuro e sobre pessoas. Acho que é basicamente isso mas meio que a música era imersa em um contexto noturno, talvez noir, sem querer levar à cabo o significado artístico da palavra, sabe. Creio que boa parte das pessoas que gostaram do álbum entendeu essa mensagem e se sentiu de alguma forma se identificando com alguma característica do álbum, sejam as letras, as musicas em si ou o próprio álbum em geral.”

[Hits Perdidos] É a primeira vinda de vocês para o sudeste do país, certo? Quais são as expectativas e o que esperam encontrar pela frente?

Allan: “Então, acabamos de fazer a nossa parte da região SP da turnê e foi bem surpreendente ver que tinha gente que realmente queria ver a gente ao vivo por aqui. Não é querer se diminuir, claro, mas não deixa de ser interessante ver gente de regiões bem distantes de nossa cidade se apegando ao nosso trabalho, desejando ver algo nosso ao vivo, e também com produtores o outros músicos dispostos a fazer acontecer shows nossos pela região.

Tocamos na capital, em Santo André e São Carlos, e em todas essas cidades tivemos ótimas experiências de shows e de conhecer pessoas que realmente admiram o nosso trabalho. Mantemos esse espirito de apenas vivenciar o que essa turnê nos proporcionam sem ter muita expectativa sabe, se surpreendendo com tudo que vier. E no momento está indo tudo muito bem. Amanha chegaremos para Belo Horizonte, mais uma cidade da qual não sabemos o que vai ser do nosso show, mas o que acontecer lá com certeza vai ser algo que a gente vai gostar de fazer parte, creio eu.”

[Hits Perdidos] Falando na turnê, como rolou o planejamento? E como foi se organizar com os trabalhos do dia-a-dia para uma turnê tão extensa?

Allan: “Não foi tão difícil. Eu particularmente me divido entre meu trabalho no mestrado em administração e como músico na banda. Então quando não estava encucado com algum problema de um lado, eu estava resolvendo junto com o pessoal da banda a logística da turnê, no qual começamos a trabalhar desde fevereiro.

Nesse meio tempo fomos captando mais grana através de shows e escrevendo editais para fazer acontecer essa turnê. Foi basicamente um trabalho de sair pesquisando e conversando com pessoas interesaadas em fazer o rolê. Penso que poderíamos ter feito mais datas, mas fizemos o máximo para que pudesse ser uma turnê proveitosa. E está sendo!”


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Show em São Paulo no Breve contou com a apresentação do Terno Rei banda que eles sempre sonharam ver ao vivo. – Foto: Divulgação

[Hits Perdidos] Para vocês quais os maiores desafios para quem faz música experimental no Brasil?

Allan: “Não sei se somos experimentais o bastante para falar em nome desse gênero, mas na minha opinião, acho que os desafios vão de encontro com os desafios de boa parte de músicos e bandas de gêneros mais “alternativos”, que creio que seja encontrar um meio onde a banda se entende como músicos e se entende no que ela se propõe para as pessoas, sabe?. Achar formas de manter o seu trabalho se sustentando tanto artisticamente quanto financeiramente, buscar oportunidades e experiências novas e não se perder como pessoa e como músico nesse turbilhão de informações e mil e umas outras bandas fazendo sons e shows ao vivo. Isso envolve saber lidar com cenários musicais diferentes, produtores diferentes e dimensões de shows diferentes sem se prender a certos dogmas ou situações de cada um desses nichos.”

[Hits Perdidos] Em relação aos selos independentes vocês trabalharam com a Bichano e a Transtorninho. Como creem que ajudou e tem ajudado em disseminar o trabalho? Como funciona esse processo colaborativo?

Allan: “Creio que ajudou meio que espalhando mesmo nossa música pelo meio deles, sabe?. Quando começamos com esses selos, a gente viu um número maior de pessoas ouvindo o nosso álbum, gostando dele, querendo conhecer mais sobre nós e ir atrás de mais shows, comprar merch, várias coisas mesmo.

Acho que o processo colaborativo foi bem dessa forma de cada um contribuir com o que tem e o que pode dar sabe, e tanto a Bichano quanto a Transtorninho foram situações ótimas porque eles nos deram algo honesto mesmo e também entregamos algo honesto.

Queríamos que tanto um quanto o outro se beneficiassem de alguma forma, sabe?. Acho que essa relação de colaboração e recompensa mútua e sincera é o que move bem as coisas, principalmente quando isso não envolve muito aporte financeiro e temos que trabalhar com as armas que temos. Acho que não teríamos essa turnê se não tivéssemos também o apoio da Bichano e da Transtorninho no nosso começo também.”

[Hits Perdidos] Vocês farão shows com diversas bandas. Quais estão mais animados em tocar juntos e porquê?

Allan: “Tocar junto com novas bandas é sempre legal porque a gente tem a oportunidade de trocar ideia e conversar em geral, ter um momento legal sabe? Bater papo sobre várias coisas e não apenas sobre música ou ser músico. Gosto quando as coisas rumam para um papo ou uma conexão bem natural de amizade ou companheirismo mesmo, de se ajudar, de cada um fazer o seu para tudo dar certo.

Além de claro também ver shows de bandas que você ainda não viu como por foi o caso do Terno Rei que sempre quis ver ao vivo e tiver a oportunidade de tocar com eles no mesmo evento. Isso é o mais legal de tudo.”


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Na entrevista Allan destaca o momento atual vivido pela cena independente. – Foto: Divulgação

[Hits Perdidos] Como enxergam o momento atual da cena independente cearense e que bandas gostariam de recomendar para os leitores.

Allan: “Ah eu vejo que a gente tá passando por um momento onde várias galeras novas estão surgindo, sabe? Querendo fazer algo significante para elas, mostrar seu trabalho para o público. E digo isso não só em questão de bandas, mas de diversos meios que envolve fazer música em Fortaleza.

Tem a Nanda, da Banana Records, minha amiga que faz um trabalho ótimo de divulgar uma cena que até um tempo atrás era um pouco orfã e está ai trabalhando e crescendo cada vez mais como produtora na cidade. E de músicos recomendo muita gente talentosa na cidade como Vacilant, Clau, Jack The Joker, Astronauta Marinho, Ivan Timbó, Damn Youth. Em Fortaleza temos bandas para quase todos os estilos! (risos).



[Hits Perdidos] Vocês também lançaram um vídeo para “Heitor” com imagens em p/b da cidade. O que queriam transmitir com o vídeo? De onde veio a ideia e o conceito?

Allan: “Não sei dizer com muita clareza pois quem elaborou esse video foi o Samuel, mas acho que a mensagem era passar um pouco da Fortaleza não vista por quem é de fora.

Imagens bem urbanas, centro da cidade, paisagem morta de edifícios e fachadas de prédios. Acho que ela casou com o significado da letra de como lidamos com o nosso cotidiano, nosso movimento diário de pessoas, construções e ruas e avenidas da cidade.”

[Hits Perdidos]  Quais os planos pós turnê? Pretendem trabalhar um novo material?

Allan: “Descansar! (risos).”

Brincando, mas acho que no geral acho que vamos nos focar mais em material novo mesmo porque queremos já ter algo sólido para começarmos a gravar algo em 2018, então creio que vai ter bem menos shows até o próximo ano. Ou não né. Somos péssimos em definir o nosso futuro! (risos)”

Playlist Exclusiva no Spotify do Hits Perdidos

Playlist maquinas

Pedi para que eles criassem uma playlist com o que andam ouvindo. E eles levaram isso literalmente a sério, visto que optaram por criar uma que andam ouvindo no carro durante a turnê.

Allan: “A correria tá grande mas vou botar uma playlist do que andamos ouvindo no carro em nossas viagens da turnê até agora (risos).


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