Picanha de Chernobill amplifica as vozes das ruas em “O Conto, A Selva e O Fim”

De injustiças, massacres, chacinas, repressões, brutalidades, crimes hediondos, segregação e destruição é feita a história do mundo. Mas nem por isso temos que aceitar, passar o pano e replicar esta podre realidade.

Muitas vezes a crueldade não mora apenas em gestos do passado mas em coisas do nosso cotidiano. Por exemplo quando você volta para sua casa e ofende o andarilho, quando inferioriza a crença alheia, quando trata mal alguém que está ali para te oferecer qualquer tipo de serviço, quando julga os outros pela aparência, quando oprime as pessoas com um olhar mais rebuscado. Quando incentiva uma atitude machista ou ignora um comentário absurdo de algum amigo. Quando trata idosos de maneira rude e não reconhece que vivemos em um mundo plural e diverso.

Todo ser humano erra e nunca é tarde para melhorar como pessoa. E talvez alguns discos, livros, peças de teatro, charges, pinturas, grafites, filmes, curtas e outros tipos de manifestação cultural tenham como dever ajudar a moldar e por nos trilhos quem mais precisa por a mão na cabeça e rever seu conceito sobre o que é humanidade e viver em sociedade.

Talvez o amor seja uma das maiores armas para combater este mal do ser humano errante. A transformação por sua vez pode vir através da empatia, se colocar no lugar de outrem e com isso enxergar o mundo além do seu próprio umbigo. Pessoas vem de realidades diferentes, tem traumas distintos, carregam histórias ímpares e acredite se quiser: nenhuma história deve deixar de ser ouvida. Por mais terrível, perversa, feliz ou triste, a cada conversa que tiver na vida se prestar bem atenção: algum ensinamento pode guardar.

O mundo é de quem sabe contar boas histórias e talvez seja a soma de algumas boas histórias de dor, sofrimento, angústia e nostalgia que ouviremos através da prosa musicada do disco que falaremos hoje.

No dia 17/12 foi lançado no Teatro Alfredo Mesquita (Santana / Zona Norte de São Paulo) o terceiro álbum dos gaúchos da Picanha de Chernobill, O Conto, A Selva e O Fim.

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Picanha de Chernobill no lançamento do terceiro disco, O Conto, A Selva e O Fim realizado no Teatro Alfredo Mesquita (São Paulo) – Foto Por: Lienio Medeiros.

A história da Picanha de Chernobill se confunde com a de milhares de brasileiros que saem de suas terras em busca de brilhar nos principais polos econômicos do país. Vivência que por sí só já traz em sua bagagem muitos desafios, dificuldades e aprendizados. Após chegar na capital paulista eles ficaram frente a frente com a dura realidade mas com um sonho os guiando para que seguissem em frente.

Após observarem a cultura dos shows de rua e políticas públicas apoiando este tipo de manifestação cultural, decidiram fazer da rua seu principal palco. E da rua começou a vir a inspiração para as composições, feito um processo natural. Afinal de contas observar a realidade das ruas é uma tarefa que exige empatia, ao céu aberto eles estreitaram a relação com todos indivíduos que apenas estavam de passagem, a passeio ou até mesmo viviam ali.

Em 2014 eles após conseguirem equipamentos para transportar seu som para as ruas começaram a serem vistos no maior palco a céu aberto do país, a icônica Avenida Paulista. Isto muito antes de existir o projeto de “Paulista Aberta”. Porém esta realidade foi se transformando aos poucos. Quebrando preconceitos e trazendo o som autoral para as ruas.

“Tocar na rua é uma escola. São tantas coisas que aprendemos, além de estar sempre em sintonia um com os outros, que a cada dia que passa estamos mais felizes em dedicar nossa vida espalhando nossa música diante de novos olhares. A rua é assim: não é a busca do artista pelo público, nem do público pelo artista. É ambos em um encontro marcado com a cultura num certo ponto em comum da cidade. Nunca algo rotineiro – cada vez é uma surpresa. Na rua, a linguagem se torna mais acessível, mais universal” – Matheus Mendes

Da maneira mais democrática possível eles passaram a transmitir sua mensagem a todos que passavam por lá. Com a maleta da guitarra recolhendo os trocados que seus novos fãs iam contribuindo eles viram que o sonho de gravar seu próximo disco ia se aproximando.

Tudo isso foi possível também com a ajuda de amigos que acreditaram no sonho deles e abraçaram a causa. Com o dinheiro coletado nas apresentações, vendas do disco O Velho e O Bar, parceria com o Estúdio Lâmina, e projeto no catarse o sonho do disco “se auto-financiando” através da arte foi possível e o resultado os deixou orgulhosos.

O terceiro disco também traz uma nova fase, já que atualmente o único membro original é Chico Rigo (2ª Voz, Guitarra). Além dele a banda conta com Matheus Mendes (Voz e Contra-baixo) e Rafael Rosa (Bateria e Percussão).

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A rua é o habitat natural da Picanha de Chernobill. – Foto: Fernando Okuhara

Um fato curioso que vale a pena ser citado é que tanto Matheus quanto Chico moram no mesmo prédio, na região central de São Paulo. Este que também alguns andares abaixo abriga o Estúdio Gerência onde o disco foi gravado por Tomas Oliveira (Mustache e Os Apaches) e Carolina Zingler. Como Matheus irá comentar na entrevista concedida ao Hits Perdidos, eles gravaram praticamente em casa já que estavam tão perto do local escolhido para as gravações.

Não foi à toa que toda essa vivência fez com que eles entrassem de corpo e alma no espírito do Anhangabaú, e tivessem uma maior percepção dos fatos e relatos que ouviam dos cidadãos que vivem na região. Um aprendizado vasto e profundo. Onde até nos olhares das pessoas em que não chegaram a estabelecer uma conversa podiam ver as marcas de uma vida difícil.

Desta vivência e troca de aprendizados no campo artístico surgia no fim de 2016 um projeto em parceria com outros artistas, o Anhangabablues. Festival organizado em parceria com Lumineiro Salve Salve, do grupo Mustache e Os Apaches, e em sua primeira edição, reuniu novos nomes da cena independente paulistana como O Grande Grupo Viajante, Molodoys (confira também resenha de um show), Carolina Zingler, Pedro Pastoriz, Mescalines, entre outros.

Tudo isso serve como uma boa introdução para que a compreensão sobre O Conto, A Selva e O Fim seja ainda mais profunda e proveitosa. Afinal de contas toda essa gama de energia, empatia, sentimento e vontade de seguir os seus sonhos agiram como força motriz do álbum recém saído do forno!



O Disco

O Conto, a Selva e o Fim é a história de um trabalhador que deixa a mulher e a filha pequena rumo a cidade grande em busca de uma vida melhor, realidade de muitos brasileiros que migram para pólos econômicos em busca de novas perspectivas de trabalho. Encontros e desencontros, vivências e a marca indelével da desigualdade o absorvem nessa história de luta e reflexão.” – conta a Picanha de Chernobill

Em sua introdução já notamos o ar áspero da cidade grande que abraça de todas as formas mas que ao mesmo tempo faz vista grossa com problemas como a desigualdade proveniente da competição. A famosa selva de pedra.

A primeira canção de fato é “Venha Logo e Pega Esse Trem”, já traz o espírito aventureiro de desbravar um novo mundo sem deixar os sentimentos para trás. A nova esperança da migração deixando a família para trás se alimenta e ganha versos como “A vida amigo é uma avenida/Não vá andar na contramão/Nossas mãos estão unidas/E o que vier é para depois”.

Já na parte instrumental sentimos um apego pelo blues mas sem esquecer da moda de viola. O aspecto rural é forte na obra e os elementos da chegada a “cidade grande” da história do trabalhador que deixa sua família para trás são de fácil compreensão através da linguagem estabelecida pela obra.

Um aspecto que Matheus queria que estivesse presente na obra e o resultado da masterização deixa isso ainda mais evidenciado:

“O disco foi masterizado analogicamente e passado na fita de rolo. Sem afinador digital, sem muito compressor. Eu adoro esse tipo de coisa, nem por ser antigo.. é pela atmosfera que fica. Muda a linguagem.” – comenta Matheus Mendes

“A Seu Tempo” já evidencia as dificuldades da vida sozinho na cidade grande. O sofrimento de ficar distante de sua amada e como isso aos poucos vai corroendo aos poucos. A canção soa como uma balada e dilacera o coração do personagem que convive com uma rotina árdua, cheia de obstáculos, sonhos e objetivos. Mas que sente culpa por ter deixado sua amada, dia após dia.

O Rock dynalesco e a aproximação com a cantiga da moda de viola conseguem criar toda uma energia sentimental e dramática que a faixa pede. Uma balada do coração em chamas onde vê seus sonhos de triunfo e amada em sua companhia cada dia mais distantes.

“A Seu Tempo” dialoga com a canção seguinte “Om Nama Shivaya” que caminha com uma levada que agradará fãs do guitarrista Jimi Hendrix pelo seu punch e acordes soltos de improviso. A dor ganha um tom ainda mais sentimental e denso, é como se nosso interlocutor estivesse prestes a desistir de tudo.

Os solos de guitarra te levam a abstrair para esta realidade cheia de angústia e sofrimento. À partir de seu minuto final as guitarras ganham ainda mais força e flertam com o rock’n’roll mais abstrato e chapante de grupos como o lendário Led Zeppelin.

O tom sentimental e o sofrimento da essência do ser humano se intensificam em “Do Pai para o Filho”. Afinal todo o aprendizado e a carga de sonhos passado do pai sobrecarregam nosso personagem que morre de medo em não conseguir alcançar. Que muitas vezes nem são dele mas que ele se agarra como se fossem. Algo que estimula ao mesmo tempo que oprime. De certa forma isso é fruto dos anseios que o capitalismo prega.

Da frustração vem os vícios e dos vícios a decadência. Nosso migrante se vê desiludido e procura algum lugar para se apoiar. Na falta de apoio emocional em pessoas que confia, parte para o álcool, e o processo degradativo apenas começa. “Come Back”, canção em inglês mostra o drama e a saudade corroendo ainda mais a mente do interlocutor que parece a cada faixa não mostrar mais forças para lutar. Se afogando em memórias de bons tempos.

Para quem curtir Neil Young com certeza essa faixa irá se destacar no disco. Sua levada mais rústica, seu tom pesado e sua carga energética bruta com certeza também são marcas da obra do mestre da guitarra.

Assim chegamos a faixa mais emblemática do álbum, “Anhangabablues”. Um blues delicado onde condena dramas vividos diariamente por milhares de pessoas que vivem a margem da sociedade. Aqueles famosos cidadãos invisíveis que cruzamos na rua e muitas vezes não enxergamos que por trás daquelas simples vestimentas corroídas pelo tempo e pela agressividade da rua existem seres humanos como você. Com histórias, dramas, perdas e ganhos.

Talvez a inspiração tenha sido isso mesmo, sair pelas ruas do Anhangabaú e observar estes seres humanos sobrevivendo apesar de toda dificuldade e desilusão que a vida o proporcionou. E deste olhar clínico em perceber isto que vemos que existe sim salvação. A empatia pode sim mover montanhas invisíveis.

Já “Grab The Little Boy, Butcher!” mostra outro aspecto selvagem e opressivo que convivemos – e muitas vezes fazemos vista grossa – a violência policial. Que por muitas vezes olha para sua cor, sua vestimenta, seu jeito de agir, sua condição social mesmo que não esteja fazendo nada. Esse pré julgamento é lembrado em versos marcantes como “Trabalhador/Trabalhador/Eu sou um Trabalhador”. O tom das guitarras mostra a correria de gato e rato que é esta dura realidade.

Assim a luta por igualdade, o desequilibrio social e direitos são expressos em “Abre As Assas Para Nós”. Uma canção rápida mas com traquejos alá Keith Richards em seus riffs embebedados pelo blues.

A veia política e o tom de busca por justiça se evidenciam em “Tumbeiro”. Tumbeiro para quem não sabe: eram denominados os navios negreiros que, desumanamente, traziam africanos como escravos. Assim a marca suja da história não sendo jogada para debaixo do tapete, visto que essas cicatrizes históricas jamais se fecharam.

A luta ainda se mantém no dia-a-dia através de oligarquias e sua sede pelo poder. Resgate esse que pode ser entendido de 1500 a 2016 através de fatos que nossa política trata de trazer a tona a cada noticiário.

“Ilha de Veracruz” através de um blues tristonho nos carrega para outras dimensões e provoca ainda mais reflexões. A história tratando de trazer de volta a cada nova geração novos senhores do engenho, chefes de estado e chicotes para ludibriar a massa. Que muitas vezes não percebe estar apenas seguindo o rebanho. O som da viola evidencia esse movimento, a conexão astral e antropológica da canção. A gaita deixa a atmosfera ainda mais triste e reflexiva.

O movimento conturbado de emoções se transforma em mais uma faixa que segue feito uma locomotiva desgovernada em “Mississimi” e abre alas para uma das composições mais fortes do disco, “O Verdadeiro Encontro”.

Com a melodia mais delicada do disco, a faixa trata de mostrar o reencontro da filha com o pai. Já no fim da vida a convivência com seu pai praticamente foi nula. Feito uma canção de ninar todo aquele aperto do abandono reverbera nos delicados acordes que soam como a passagem do tempo através do vento. O tempo voa e o que foi perdido, infelizmente não volta.

O tom libertador que na introdução apenas começou fecha o ciclo de forma devastadora e empoderadora em “O Conto, A Selva e O Fim”. A filha por sua vez se choca com os preconceitos e paradigmas que seu pai tem enraizado.

O choque geracional e de valores antigos mostram como o machismo oprime. De certa forma busca enfatizar como ela se desprende e busca uma vida mais livre desses velhos preconceitos e paradigmas.
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O Conto, A Selva e O Fim lançado oficialmente no fim de 2016 conta com temas atuais, carrega rusgas históricas, conflitos, diferenças e conflita através do sentimento de empatia. Através de uma história de um migrante que deixa sua família para trás a caminho do seu sonho na cidade grande podemos fazer paralelos com a realidade de milhares que fazem o mesmo em busca do seu lugar ao sol.

Com uma produção rústica, sonoplastia delicada e versos que ficam ecoando em sua cabeça eles buscam mostrar através de um blues que flerta com a moda de viola a rotina, o sofrimento, o preconceito, o machismo, o individualismo, a vida árdua e combativa da cidade grande. É um disco que ganha novas interpretações a cada audição, basta entrar na jangada e seguir junto o caminho.

Produzido no Estúdio Gerência, a mixagem feita em conjunto mostra como a energia e atmosfera que queriam transmitir teve toda uma linha de pensamento coletiva e sensorial. Sentimento este tão importante no álbum que através da empatia consegue quebrar antigas barreiras.

O lado mais marginal da sociedade ganha prosa nos versos, através das histórias coletadas na pesquisa antropológica para escrever o álbum foram ouvidos cidadãos das ruas do entorno do Anhangabaú e claro que a canção central, “Anhangabablues”, teria todo este aspecto de dar visibilidade com quem mais vive nas sombras.

Por esta razão gostaria de fechar este texto com uma frase de um morador de rua:

“Moro na rua, não. Vivo nas calçadas e embaixo de marquises, se morasse na rua seria atropelado.” (Júlio Barba, morador do Vale do Anhangabaú)

 

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O novo álbum da Picanha de Chernobill é pautado pelo sentimento de empatia. – Foto: Lienio Medeiros

[Hits Perdidos] Vocês já devem estar cansados de responder mas porque Picanha de Chernobill? Tem alguma história por trás?

Picanha de Chernobill: “Chernobill é o mundo, é como os seres humanos estão tratando a si e ao planeta terra por isso a alusão ao acidente nuclear de Chernobyl na Ucrânia em 1986. Picanha porque nem tudo está ruim, tem coisas boas rolando, é só prestar atenção.”


[Hits Perdidos] 
O disco nasceu parcialmente à partir de um projeto de financiamento coletivo no Catarse aliado a venda do primeiro disco (O Velho e O Bar) e as apresentações que tem feito nas ruas da cidade de São Paulo. Como foi esse desafio e o sucesso no final?

Picanha de Chernobill: “Quando pensamos em gravar o disco, o primeiro lugar que nos veio em mente foi o Estúdio Gerência. Moramos no prédio da Galeria de Arte Estúdio Lâmina e a Gerência faz parte desse lugar especial no coração do Vale do Anhangabaú.

A Gerência fica na frente do apartamento do Matheus e em cima do apartamento do Chico, ou seja, estávamos gravando em casa. Conversamos com o Tomas Oliveira e Carolina Zingler e acertamos de ir pagando a gravação com a grana que conseguíamos com a vendo do nosso disco O Velho e o Bar nos shows da rua. Como vivemos da música, não poderíamos pagar a grana que recebíamos na rua totalmente ou acertar um valor fixo mensal. O fato de ir pagando apenas com a grana do CD nos deixou tranqüilos e demonstrou uma enorme amizade e voto de confiança do Estúdio Gerência conosco.

Para a masterização e prensagem resolvemos aderir a essa forma moderna com que artistas vem se conectando com o público: os financiamentos coletivos. Essa parte foi de uma vivência incrível onde tivemos contato com amigas e amigos que curtem a banda em várias partes do Brasil. Uma campanha exige muita dedicação pois demanda confiança no artista, na obra e no resultado do valor investido.

Ao longo da jornada recebemos muita torcida e carinho, tanto das pessoas que contribuíram como das pessoas que não puderam doar dinheiro mas ajudaram na divulgação. Somos eternamente gratos pois esse nosso sonho só foi possível com o engajamento de centenas de pessoas. A arte é uma troca entre o público e o artista, nos sentimos lisonjeados por saber que existem tantas pessoas especiais que nos apóiam.”


[Hits Perdidos] 
Vocês são do Rio Grande do Sul e tem vivido em São Paulo já a uns bons anos. Como foi a adaptação a cidade? Como enxergam a loucura da megalópole e como de certa forma esse cenário os inspira? Quais acreditam ser os piores problemas da cidade?

Picanha de Chernobill: “São Paulo nos recebeu bem. Ao chegar, nos sentimos acolhidos por uma galera muito bacana que havia se mudado para cá anteriormente: o pessoal do Estúdio Lâmina, a banda Mustache e os Apaches e uma gama de artistas que encontram aqui possibilidade de viver do seu trabalho.

Morando no centro, não podemos fechar os olhos para tanta injustiça social que ocorre diariamente. Nos perguntamos como o estado mais rico do país tem tanta desigualdade onde uns andam de helicóptero enquanto outros dormem no chão. Felizmente chegamos em um momento em que a atividade artística ao ar livre foi regulamentada: o prefeito Fernando Haddad, ao contrário de seu antecessor Gilberto Kassab, permitiu que houvesse arte nas ruas e praças da cidade.

Dessa forma, tivemos a possibilidade de mostrar nosso trabalho em pontos da cidade e ter contato com um público de diferentes classes sociais, credos, cor ou opção sexual. Essa troca musical na rua possibilita contato com muita gente fazendo com que nos sintamos mais conectados com a cidade, com suas virtudes e seus defeitos e isso influência nas nossas composições e tem reflexo direto nesse novo disco.

Tocar na rua faz com que tenhamos muitos amigos que lá habitam, isso gera muitas conversas, reflexões e aprendizados sobre os verdadeiros valores da vida. Acreditamos que se todos nós tivermos mais empatai, poderemos transformar a cidade para o melhor.”


[Hits Perdidos]
Já pude acompanhar trechos das apresentações que fazem na Avenida Paulista. Como surgiu a iniciativa de tocar nas ruas? Como tem se organizado para isso? Após a iniciativa da Paulista aberta aos domingos, isso ajudou ainda mais a aproximação perante o público?

Picanha de Chernobill: “Os nossos amigos Mustache e os Apaches já tocavam na rua aqui, mas em um formato acústico. Nós resolvemos fazer na rua o formato plugado, como nos shows em festivais ou casas noturnas. Para isso contamos com o apoio de Samir Raoni que havia ganhado um projeto do ministério da Cultura e adquiriu um gerador de energia, PA e mesa de som.

Essa estrutura possibilitou com que a cidade se abrisse para nós e fez com que pudéssemos levar nossas músicas para o espaço público. A rua tem sido a verdadeira fonte do nosso “ganha pão” visto que a remuneração para shows em casas noturnas é reduzido. A rua é a forma de nos mantermos ativos, trabalhando como qualquer pessoa, não somente aos finais de semana. No ano passado nós tocávamos na Av Paulista em um ou dois dias na semana. A iniciativa de abri-la para as pessoas deu vida e nova cor aquele espaço transformando a Avenida Paulista num ponto de encontro cultural e participativo.”


[Hits Perdidos] 
Recentemente vocês realizaram o Festival Anhangabablues. De onde veio essa ideia e como foi organizar? Aliás, qual o maior desafio em produzir um festival independente na visão de vocês? Inclusive tem uma canção com o mesmo nome…seria ela o norte do disco?

Picanha de Chernobill: “Organizar o Anhangabablues, juntos com todas as bandas e parceiros que ajudaram, foi uma experiência curiosa. Pra começar, o Anhangabablues veio da parceria com o Lumineiro dos Mustache & Os Apaches. Reuníamos em frente ao mesmo prédio os instrumentos e equipamentos e mandávamos ver. Esse era o nome para o que estávamos fazendo e tornou cada vez mais viva a idéia de produzir um festivalzão com o máximo que pudesse de bandas que estavam ao nosso alcance, isto é, nossos amigos. Como encaixou em um feriado bacana, junto com a programação de Resistência do Lâmina, tudo foi favorável. O desafio era andar no meio daquele mundaréu de gente – o evento seria na rua, mas a ameaça de chuva nos fez migrar para dentro.

A canção existia fazia um tempo já e queríamos relatar sobre um sentimento que conseguimos resgatar sobre os moradores de rua especificamente no Anhangabaú. Moramos lá e conhecemos muitas pessoas que moram no calçadão – e algumas que não conseguimos até hoje nos relacionar.

Resgatamos algum sentimento sobre uma mulher muito perturbada que aparece de vez em quando em nossas apresentações no centro. Ela, às vezes, anda semi-nua (ou até completamente), sem norte, buscando confusão por onde passa. E nada parece ser o que se parece. Lá dentro existe um ser humano, perdido, mas ainda é uma pessoa. É doloroso pensar nela, mas nada comparado a estar naqueles lençóis. Foi curioso tentar passar isso na música – as vozes desesperadas no final, os solos, o vocal, o ritmo – tudo parece ser a trilha sonora desse sentimento, em nossa visão.

E, além de outras influências, a letra chegou e logo, o refrão: ‘Anhangabablues, babe’. Esse é o ‘blues’ do Anhangabaú.”


[Hits Perdidos] 
O álbum, O Conto, A Selva e o Fim, foi gravado na Gerência (localizada no Lâmina) com Tomas (Mustache e Os Apaches). Como foi a experiência?

Picanha de Chernobill: “Foi muito marcante. Tínhamos a mesma ideia na cabeça e tínhamos tudo o que precisávamos: parceria. Não só no estúdio, quanto afora: além das vendas do O Velho e O Bar nas ruas, que ajudou a pagar o estúdio, conseguimos ganhar um projeto de financiamento coletivo (catarse.me/picanha3) para masterizar e fazer duas mil cópias. Isso nos fez acreditar ainda mais que era o caminho certo.

Gravar no mesmo prédio em que moramos foi divertidíssimo: na frente da porta do Matheus e acima do apartamento do Chico. O processo pré-produção e gravação foi lento e com o coração – gravamos o disco em dupla, após muita resistência de troca de integrantes, isto é, estávamos loucos para gravar o que tínhamos feito aqui em São Paulo, desde então.

O Tomas se mostrou muito positivo com o disco desde o começo e nos ajudou muito em todo o processo. Sempre curioso, na intenção de somar algo maior no resultado. Foi muito especial. E não poderia mencionar a Carolina Zingler, que, além de estar produzindo dois discos em Santa Catarina na época, estava sempre conectada com a gravação, opinando e ajudando a idealizar.

A idéia de masterizar na fita era um desejo irrefreável que tínhamos – aquela leve atmosfera limpa, pura, de textura gostosa – e, graças à indicação da Carolina (que já havia masterizado nesse mesmo processo), conhecemos o Carlos Freitas. A sorte é que ele havia guardado uma fita de ótima qualidade, pois já não se fabrica mais. O resultado foi apaixonante.

O responsável pela captação foi o Tomas. A mixagem foi sempre um trabalho desempenhado por todos e foi tomando forma ao longo do tempo.

O disco saiu como queríamos: sem muita compressão e mais naturalidade, assim como nós gostamos. Nos orgulhamos muito de ter apostado nisso e, agora, vendo no que deu, tudo está mais claro para nós.”

[Hits Perdidos] Um outro detalhe é que o disco foi masterizado analogicamente e passado na fita de rolo. Sem Afinador digital e sem exageros de compressor. Quem foi responsável pela captação, mixagem e masterização? E porque da escolha pelo processo?

Picanha de Chernobill: “A ideia de masterizar na fita era um desejo irrefreável que tínhamos – aquela leve atmosfera limpa, pura, de textura gostosa – e, graças à indicação da Carolina (que já havia masterizado nesse mesmo processo), conhecemos o Carlos Freitas. A sorte é que ele havia guardado uma fita de ótima qualidade, pois já não se fabrica mais. O resultado foi apaixonante.

O responsável pela captação foi o Tomas. A mixagem foi sempre um trabalho desempenhado por todos e foi tomando forma ao longo do tempo.

O disco saiu como queríamos: sem muita compressão e mais naturalidade, assim como nós gostamos. Nos orgulhamos muito de ter apostado nisso e, agora, vendo no que deu, tudo está mais claro para nós.”

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A masterização do álbum foi realizada direto na fita dando um ar mais natural ao resultado final. – Foto: Lienio Medeiros

[Hits Perdidos] Vocês estão lançando o segundo trabalho autoral. E ele tem uma narrativa e aspecto um tanto quanto rural. Da moda de viola, passando por letras do cotidiano da vida árdua vida dos migrantes. O que influenciou e aguçou esse olhar?

Picanha de Chernobill:  “Só um parênteses: “na verdade esse é nosso terceiro disco. O primeiro, autointitulado Picanha de Chernobill, era com uma outra formação, apenas o Chico está desde o começo. Com a música “Oh Be my Baby, my Baby Blue” recebemos o prêmio de melhor banda independente do Rio Grande do Sul no concurso da cerveja Polar e com isso a gravação do nosso segundo disco O Velho e o Bar já com a participação do Matheus. A música “Vá”, desse disco, foi regravado pela dupla “Chrystian e Ralf” no disco Para sempre irmãos com uma pegada bem rock’n’roll.”

A viola caipira, assim como os instrumentos acústicos refletem os sons que gostamos de escutar e sempre fizeram parte de nosso repertório. A Picanha de Chernobill tem como parte importante essa mistura do elétrico com o acústico criando, assim, um respiro e portas abertas para viajarmos musicalmente.

O Conto, a Selva e o Fim é nossa história, assim como é a das pessoas que nos cercam: a partir das nossas experiências resolvemos contar uma história, que se assemelha a nossa e a milhares de brasileiros: a mudança rumo a um polo econômico em busca de uma vida melhor.

Nosso personagem deixa a mulher e a filha pequena e ruma à cidade grande em busca do sonho, lá ele encontra as injustiças sociais, vício, a violência policial, o racismo, um sistema corrompido mas sempre mantém a cabeça em pé e enfrenta os desafios com a consciência de quem luta por igualdade de condições nesse mundo em que se vê com os olhos e não com o coração. Onde está a verdade? Afinal o que ela é?”

[Hits Perdidos] A sensação de controle, possessividade e machismo estão presentes no personagem da história do disco. Que ao menos para mim soou como uma história só desprendida e cortada em faixas, me corrija se estiver errado. De certa forma é uma maneira de condenar tal perfil de cidadão?

Picanha de Chernobill: “Acreditamos que a interpretação é livre, não existe regras para o que cada música representa para cada pessoa. Esses aspectos que tu descreveste se referem ao que o personagem sofre perante uma sociedade tão excludente. O machismo, na faixa “O Conto, a Selva e o Fim” se refere ao que a filha do personagem sofre ao querer ser livre como o pai, por que aos homens é permitido certas coisas e as mulheres não? Quanta falsa pregação nos é passada diariamente por aqueles que mais falham? quantos pregam a religião e vão de encontro e não ao encontro do que falam? quantos se utilizam da farda para oprimir e não fazer justiça? “E és tu o agente de Cristo que anda de arma na mão, e só crê perante o altar, e não sabe que somos irmãos e portanto deixamos voar”.

Anhangabablues, aquelas pessoas que ninguém vê, que dorme no chão mas ainda tem asas e história, tem vida. “Quem lhe põe na parede e enfia a mão no seu bolso, manda abrir as pernas sem ao menos perguntar o seu nome” da Grab the Little Boy sobre como a polícia trata as pessoas pobres e humildes diferentemente do que faz com as pessoas ricas. A desigualdade racial através da música Tumbeiro, uma analogia a época da escravidão no Brasil e os reflexos perversos que se mantém nesse país infelizmente ainda racista. A exploração da terra e do trabalhador e os golpes de estado no Brasil na música “Ilha de Vera Cruz”.

Todas essas músicas formam a história desse personagem, mas como falamos anteriormente, pode ser de milhares de pessoas trabalhadoras, humildes e honestas que migraram. “Do Pai ao Filho” e ‘Verdadeiro Encontro” relatam as reminiscências do passado, dos aprendizados paternos e maternos assim como a passagem do “bastão” para filha do personagem que vai voar com suas próprias asas na faixa título do álbum.

Não tivemos a pretensão de gravar um disco conceitual como fizeram com maestria “The Who” ou “Pink Floyd”. Nós notamos que através das músicas havia uma história, uma continuidade, um relato de coisas que vivenciados, de preconceitos e injustiças que estão presentes em nossa sociedade, na história do Brasil.

A partir desse pressuposto, tentamos relatar a história de um personagem que deixa a mulher e a filha e busca o sonho que não se concretiza e acaba sendo preso injustamente; passado anos ele reencontra a filha em “Verdadeiro Encontro” ela segue sua vida e suas batalhas com o mesmo sonho de seu pai: ser livre.”Somos juntos esse temporal lavando o dia pro amanhã”.

[Hits Perdidos]  Vocês fazem parte de algum coletivo de músicos ou selo independente? Como vem a importância desse tipo de vínculo dentro do independente?

Picanha de Chernobill: “Não fazemos parte de um selo, porém, fazemos parte de uma gama de artistas independentes atuais que produzem com o coração e muita batalha. Acreditamos em todas as formas de união entre as bandas e o público – outras alternativas de ligação entre os dois ainda surgem, dando alas à uma nova geração de artistas e de produção musical. É importantíssimo valorizar todos que fazem parte e, também, ajudar para que isso cresça.”

[Hits Perdidos] Já que estamos no começo do ano. Quais discos acreditam que se destacaram nesse 2016?

Picanha de Chernobill: “Gostamos muito do Time is Monkey da banda Mustache e os Apaches, do disco Durango do Murilo Sá e Grande Elenco, Projeções do Pedro Pastoriz, Tropicaos do Molodoys e o Mescalines da dupla Mescalines. Sabemos que O Grande Grupo Viajante está em estúdio, 2017 promete muitos discos bons da cena independente, a galera está na ativa produzindo cada vez mais.”

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A mensagem do disco é a de correr atrás dos sonhos. – Foto: Sebá Neto

[Hits Perdidos] A arte da capa remete a tempos difíceis. Se pudessem gravar um clipe, qual faixa seria e qual estética usariam?

 

Picanha de Chernobill: “Venha logo e pegue esse trem” com alguém saindo do campo de carona atra de um caminhão com a cabeça erguida olhando o horizonte em busca da vida nova.

“Anhangabablues” de algum dos nossos vizinhos que dormem na calçada e vêem e sentem a vida dura mais ainda buscam a felicidade mesmo sofrendo o que sofrem.

“O Conto, a Selva e o Fim” mostrando as dificuldades que as mulheres passam nesse mundo sexista e opressor. Dava pra ser três? (risos).”

[Hits Perdidos] Qual mensagem queriam deixar ecoando na mento do ouvinte com o disco?

Picanha de Chernobill: “De que vale a pena correr atrás dos teus sonhos, de ter humildade e perseverança. Os sonhos nunca se concretizam da forma como imaginamos previamente: é uma caminhada com diferentes possibilidades e a união nos momentos mais difíceis é o que nos fará crescer e evoluir.”

[Hits Perdidos] Quais artistas e bandas independentes nacionais acreditam que merecem atenção dos leitores do Hits Perdidos?

Picanha de Chernobill: “Mustache e os Apaches, Wallacy Willians, Murilo Sá e Grande Elenco, Mescalines, Pedro Pastoriz, Carolina Zingler, O Grande Grupo Viajante, Molodoys, Nicolas não tem Banda, Cattarse, Os Vespas, Mar de Marte.”

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