Proclamação da República Underground: Feriadão prolongado contou com 5 shows imperdíveis

Em um cenário independente efervescente e com tantas boas opções de entretenimento na cidade de São Paulo: não é das tarefas mais fáceis conseguir acompanhar a todos os shows e festivais que acontecem ao redor da metrópole.

Assim como dito na lista de 10 bandas nacionais que você precisa ver ao vivo ressaltamos as dificuldades e oportunidades que bandas, produtores e a força de vontade que move a música independente. Que sobrevive e revela boas bandas a cada dia que passa.

Quem acompanha sites como o Guitar Talks, o Nada Pop, o Zonapunk, o Rock Noize entre outros consegue ler resenhas e se informar do que está acontecendo em questão de alguns clicks. Mas isto não basta, afinal de contas banda não vive de tapinha nas costas ou de likes no facebook. Antes estes realmente levassem elas para algum lugar ou lotassem os shows.

Mas não estamos aqui para dar o famoso esporro e sim para mostrar que em 5 dias sem eu ter que fazer uma maratona de shows insana consegui conferir 5 shows de bandas independentes que esbajam talento e produzem música autoral de qualidade.

monoclub
Monoclub de Sorocaba se apresentou na Fnac do Shopping Morumbi na sexta-feira (11).

O Monoclub não é uma novidade para os leitores do Hits Perdidos, já que na segunda-feira da semana passada resenhamos e entrevistamos a banda aqui no Hits. O grupo sorocabano viaja pelas ondas da country/folk music mesclando com elementos da música regional caipira.

Não pude deixar de conferir no site oficial da banda que eles tinham algumas datas na agenda na capital paulista. Uma na Fnac do shopping morumbi na noite da sexta-feira e outra na feira da benedito calixto na tarde de sábado.

Curioso para ver como seria a diferença entre o álbum de estúdio, Romperia, lançado em junho e o ao vivo, fui prestigiar. Confesso que não sabia que aconteciam shows na Fnac do shopping morumbi. Apenas tinha conhecimento de eventos na unidade da Avenida Paulista, porém isso foi uma grata surpresa.

Cheguei ao local já devidamente trajado com a camiseta do Wilco, pois sabia que era uma das principais influência do grupo e que ficariam felizes ao ver. Fato que se confirmou ao longo do show quando entre uma música e outra o vocalista disse: “Bela camiseta do Wilco. Adoramos ao mesmo tempo que ficamos nervosos quando tem fãs de Wilco por perto. Nós também somos!”. O show começou pontualmente às 20 horas e contemplou canções do mais recente lançamento.

Eles desembarcaram a pouco da segunda tour americana onde fizeram 11 shows em solo estado unidense. Algo que infelizmente é para poucos mas enche o Brasil e a cidade de Sorocaba de orgulho.

O palco do local não é dos maiores para comportar todos os cinco membros da banda e seus instrumentos, já que utilizam de vários em sua apresentação. Mas isso não foi problema para que o show fosse executado da melhor maneira possível.

Por ser dentro de um shopping center, tiveram a oportunidade de tocar para pessoas que estavam ali de passagem tomando seu café enquanto adiantam suas compras de natal. Um público que com toda certeza não era deles mas isto é uma oportunidade quando bem utilizado. Público este que foi chegando tímido a cafeteria da Fnac mas que compareceu em um princípio de noite chuvosa em São Paulo.

O show contou com o repertório de Romperia e teve vários pontos altos como em “Avesso” (que você pode conferir no vídeo abaixo), “Sobre os Nós”, “Para Quem Se Vê” e “Homem Monstro”.

A energia cativa, muitas vezes eles trocam de instrumentos para conseguir captar o som certeiro para cada diferente canção. Assim como seus mestres do Wilco. A guitarra sendo tocada deitada é um das características que esta impactante influência é levada para o palco.

O vocalista além de tocar a tão caipira sanfona ainda manuseia com astúcia o banjo que traz um pouco do folk irlandês. Até o baterista se aventura em tocar uma espécie de harpa em determinado momento do show, o que mostra o poder da música de raíz e a rica ambientação que a banda leva para suas apresentações ao vivo.

Uma boa maneira de enfrentar um público que não é exatamente o seu é o artifício de encaixar um cover de algum canção que provavelmente o “estranho” conheça. E não foi que eles foram escolher logo “Não Aprendi Dizer Adeus” clássico da dupla sertaneja, Leandro e Leonardo. Um gol de placa que foi aplaudido por todos presentes.

Por volta de uma hora e quinze depois o show se encerrou e deixou certamente aquela sexta-feira chuvosa um pouco mais leve e alegre para todos os curiosos que presenciaram a apresentação.

pedroluts
Pedroluts foi uma das atrações do Crush Em Hi-Fi #1 realizado no último domingo (13).

Após alguns shows organizados no Morfeus com as bandas Aletrix e Horror Deluxe juntamente com o sucesso da festa de lançamento do tributo O Pulso Ainda Pulsa, João Pedro Ramos do Crush Em Hi-Fi decidiu revitalizar a festa do blog.

O evento ganhou uma cara nova e também uma casa nova, a Associação Cultural Cecília localizada no bairro da Santa Cecília na zona oeste de São Paulo. O tempo não facilitou a realização do evento visto que foi um domingo chuvoso.

Porém como estávamos no meio de um feriado prolongado, os mais atrasados conseguiram chegar ao local sem maiores dificuldades. Era dia de prestigiar o rock autoral independente.

Para está edição, João convocou um time de peso para a linha de frente. A discotecagem ficou por conta da dupla Jaison e Helder Sampedro do RockALT que não deixou a desejar colocando na caixa de som sons do Replacements, Primal Scream, Pin Ups, Husker Dü, David Bowie, MC5 entre outros que não pude deixar de reparar.

Mas tudo é pretexto para aquecer a pista para os convidados desta edição e eram dois nomes de peso: Pedroluts e Molodoys. Uma felicidade para mim pois estava louco para poder conferir ambos projetos já algum tempo, oportunidade não faltou é bom deixar isto dito porém eu ainda não tinha conseguido comparecer. Dívida que após domingo foi quitada.

Pedro chegou tímido, com seu violão elétrico debaixo do braço e uma dose de piadas descontraídas entre uma canção e outra. Ao ver os instrumentos já arrumados a postos para o show seguinte ele brincava com dizeres como: “esta música foi escrita por nós” e olhava para traz reverenciando a bateria, a guitarra, o teclado e o baixo que estavam ao fundo do palco.

Ele carrega uma voz inconfundível, seca e áspera assim como um dos seus maiores ídolos. Estes que merecem estátuas, calçadas da fama e muitas outras coisas que se recebessem em vida destruiriam (risos). Estamos falando do grande Tom Waits e do Howlin’ Wolf.

Não podemos esquecer também do Bob Dylan que inclusive nos últimos tempos ganhou o prêmio Nobel de literatura e além disso criar uma discussão enorme a respeito do que é literatura moderna…o sujeito inclusive ignorou por semanas sobre o fato. Quando importunado pela décima vez disse que “Claro, com certeza aceito”.

Fato que virou também piada na mão do Pedroluts. O show foi animado, além das canções bem executadas e rouquidão característica, teve até espaço para cover old school.”Too Late To Cry” do Lonnie Johnson. Versão que me cativou pelos arranjos e euforia que ele despejou sobre as cordas de seu violão.

molodoys
Molodoys trouxe magnetismo e espíritos xamânicos ao palco da Associação Cultural Cecília.

Após deliciar de um já lendário hambúrguer da casa e conversar com amigos como Matheus Krempel (The Bombers) e Allan Carvalho era hora de assistir a segunda apresentação da noite.

A banda que estava prestes a subir ao palco era os Molodoys que inclusive falamos sobre o disco de estreia, Tropicaos – lançado neste ano de 2016 – recentemente. A expectativa era grande pois estava curioso em saber se conseguiriam colocar toda dose de experimentalismo do disco em cima do palco.  E eles não precisaram mais de 30 segundos de show para isto.

O espetáculo já começa com uma conexão astral e uma atmosfera tribal. O vocalista Léo Fazio inclusive em tom de mantra xamânico feito um pagé solta versos em tom da experiência que os presentes irão contemplar. Ele pede para que nos permitamos abrir a conexão para nos conhecermos melhor. Tudo dito desta maneira tão poética e disruptiva.

O show vai ganhando corpo através de fortes canções como a empolgante “Hora do Chá” que tem seu som conduzido com maestria pelo teclado e ao som do baixo no talo. A melodia desta música por alguma hora se confunde com a voz do vocalista.

Outro destaque fica para a canção “Boitatá” onde a baixista Camilla até brinca: “O Léo contou em são certa de 107 Boitatás repetidos ao longo da canção, se vocês quiserem nos ajudar a cantar serão bem vindos”. Após isso eles contam a lenda da cobra Boitatá que teve sua floresta arrancada de sí. E a partir desta faixa que entramos realmente de cabeça no mundo encantado de Tropicaos em sua versão ao vivo.

“Blues do Cangaço” também mostra a potência da mistura da música regional ao árido do velho oeste do Texas.

Claro que uma das minhas favoritas do disco não ia ficar de fora, “Ácido” ela é claramente um hit ainda não descoberto. Que aqui até brincamos vira e mexe como um “Hit Perdido”. Em sua versão ao vivo ela ganha ainda mais plasticidade e contornos. As luzes ao fundo do telão que poderão assistir no vídeo a seguir dão toda uma atmosfera viajante a dose de chá de Alice.

Porém para mim o ponto alto do show sem a menor sombra de dúvidas foi a execução de “Quebra-Arcos” canção que tem como inspiração uma banda muito querida por mim, o Sonic Youth. As maluquisses que Kim Gordon e aquele que nem vou citar o nome pois tenho mágoa de como ele a tratou ao longo dos anos, sempre foram incríveis. E o recurso do arco marcou os Molodoys quando assistiram a uma apresentação na TV.

No show ao longo dos 7 minutos a canção consegue nos despertar delírios. As progressões nos guiam para viagens astrais e só não fica ainda mais perfeita a catarse pois se forem acendidos incensos na Associação Cultural Cecília, se inicia um princípio de incêndio na casa. Então melhor não, mas poeticamente a partir do terceiro minuto de canção quando Léo começa a manusear o arco sobre sua guitarra de maneira catártica, a casa vai abaixo.

Acima você pode conferir na íntegra a faixa “Balada Para Os Peixes Abissais”, canção que tem o peso em seu refrão que soa como se Syd Barret tomasse algumas e soltasse a mão feito um punk. A voz rouca ainda deixa tudo um tanto quanto mais boêmio, aliás que noite de vozes roucas que o Cecília recebeu, não é mesmo?

A tarde de domingo ainda contou com uma barraquinha de discos de vinil onde alguns presentes puderam sair com seu novo disco direto para a vitrola de casa. Espero que venham mais edições da Crush Em Hi-Fi em breve com o mesmo conceito: domingo, boa música, cerveja gelada e excelentes hambúrgueres na mão.

blear
O quarteto Blear foi o responsável por abrir a noite de Raro Zine Sessions na Associação Cultural Cecília.

Se o dia era da Proclamação da República, a noite era da Proclamação da República do grunge paulista. Brincadeiras à parte terça-feira (15) era dia de Raro Zine Sessions na Associação Cultural Cecília. Aliás eu gostaria de destacar o trabalho de produção de sessions e festivais que German organiza em paralelo ao seu site, o Rarozine.

E que coincidência no mesmo feriado, dois portais de conteúdo online organizando eventos independentes. Será este o futuro da cena? A internet além de ser a principal ferramenta de divulgação, também responsável por produzir eventos? Algo a se observar mas o que importa é que estão colocando a mão na massa tanto na hora de informar como na hora de propagar o conteúdo artístico e ideológico dos artistas e bandas.

A chuva na terça-feira que acompanha os paulistanos desde quarta-feira da outra semana veio, porém em menor escala que nos dias anteriores. Desta forma prejudicando menos a quem quis comparecer as sessions.

Mas nem tudo foram flores, o underground é feito também de imprevistos. E que susto que a galera da banda gaúcha Cattarse nos deu. Pelo que foi informado, eles estão em estrada realizando uma porção de shows ao redor do país e na noite da segunda-feira sofreram um acidente. Podem ficar tranquilos que eles estão bem, porém isto fez com que tivessem que cancelar o show que realizariam na Raro Zine Sessions.

Aos 45 do segundo tempo foi escalada a banda Sky Down do ABC que prontamente aceitou e não fez feio na noite desta terça-feira. Mas vamos seguir a ordem cronológica dos acontecimentos da noite, claro.

Por volta das 19:30 subia ao palco o Blear. Felizmente eu já saberia o que poderia esperar, visto que pude conferir o som deles ao vivo durante Dinamite Festival em resenha que foi até compartilhada na época pelo portal parceiro, Nada Pop.

A noite a partir daquele momento começava a ganhar contornos sujos e barulhentos dignos dos anos 90. Aquele grunge ensebado e impiedoso cheio de letras fortes e pancadas na cara. Algo que bandas como Loomer, Mudhill, Troublemaker, Twinpine(s), Wiseman e Loyal Gun fazem com supremacia.

Devidamente vacinado e preparado para a fúria dos acordes que remetem ao tempo do lendário Sunny Day Real Estate, Nirvana, Mudhoney e seus infernos pessoais o show do Blear já começou explosivo.

Entre berros e vocais mais ríspidos era como se voltassemos aquela década tão transgressora. Em certas canções o volume das pedradas na pele bateria dava uma energia extra a apresentação e funcionava como força motriz para as guitarradas cirúrgicas do quarteto. Inclusive uma das guitarras usadas era justamente cerrada, fato que me chamou a atenção tanto pelo design como pela fúria em executá-la.

Com certeza um show que merece ser visto e revisto sempre que possível pela sua catarse emocional e sonora. Fico imaginando se o show tivesse a duração de 1:30h e os membros saindo com a mão ensanguentada de tanto tocar a guitarra com a velocidade da luz.

Inclusive uma faixa me chamou a atenção justamente por isto, em 1 minuto certeiro eles mostraram toda a fúria do punk rock alternativo da década que consagrou artistas como Dinosaur Jr., Sonic Youth, Sebadoh, Nirvana, Gumball e Pixies. Deixo aqui acima um vídeo da apresentação, para mais confira no instagram do Hits Perdidos.

sky-down
A banda Sky Down foi a responsável por fechar a noite de Raro Zine Sessions.

O Sky Down é um velho conhecido de guerra também. A primeira vez que pude vê-los foi ainda no Dinamite Studios lá na zona sul de São Paulo. Neste ano inclusive eles tocaram na Festa Gimme Danger quando finalmente pude conferir o som da banda com a nova formação. Com Amanda Butler agora no baixo do trio do ABC paulista.

Fico feliz também que nesta mega resenha do feriadão de proclamação da república conter dois participantes do O Pulso Ainda Pulsa. Já que Pedroluts e Sky Down participaram do disco.

Mas voltando ao que importa: o show. A energia e vitalidade continuam sendo o forte do som impactante do Sky Down. Não é incomum ver Caio correndo de um lado para o outro do palco tendo quase que breves ataques epiléticos, André fazendo caretas enquanto desce a marreta na bateria e amanda pulando sem parar.

Um show já começa com “Low” sabe bem o que promete: velocidade, descarga elétrica e muito suor derramado. As canções do primeiro disco Nowhere vislumbram boa parte do set que é afiado e um tanto quanto treinado para surpreender pela vitalidade.

Canções como “Liar” e “Nowhere” sempre tiram a poeira para o alto no set que por muitas vezes premia o público com performances inusitadas. Como por exemplo Amanda tocando baixo de joelhos no chão e Caio erguendo as mãos pro alto ajoelhado (foto). Além claro de duelar com a caixa de som, abusar dos efeitos sonoros dos pedais e microfonia, o que cativa e já é clássico das apresentações do trio.

A noite é brindada pelo grunge mas isso não quer dizer que o post-punk não seja uma peça fundamental para o som do Sky Down. Não é incomum ver Caio fazendo covers de Siouxsie and the Banshees, The Damned, Bauhaus, Pixies e afins por aí. E para quem está informado sabe que eles gravaram uma session no Estúdio Aurora que contou com “A Forrest” do The Cure no set.

Tanto que no sábado no palco do 74 Club (clube do ABC) a mega banda formada por membros do Sky Down, Der Baum e Orquestra Operária chamada A Cura subiu ao palco para mandar os hits da banda de Robert Smith. Ainda no embalo o Sky Down escolheu o polêmico single “Killing An Arab” do The Cure para fechar de maneira sombria o show.

E é desta forma que nos despedimos fazendo um apelo: leiam sim os sites e blogs para se informar do que está rolando no cenário alternativo, deem like nas páginas do facebook das bandas mas principalmente compareçam aos eventos. São coisas como esse descaso que fizeram com que o Alemão do Hangar 110 tenha tomado aquela decisão de encerrar as atividades no ano que vem.

Todos os shows que pude conferir no feriadão apesar de bem executados e de tirar o fôlego contaram com um público aquém do que mereciam. Mas essa mentalidade tem que mudar e vamos continuar não apenas cobrindo a cena através das resenhas como também comparecendo aos eventos. E viva a música independente!

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