Vivian Kuczynski lança EP “KUCZYNSKI” e marca virada rumo à eletrônica experimental
Ainda lembro quando o Alexandre Giglio, do Minuto Indie, comentou comigo sobre uma artista paranaense que tinha enviado um e-mail com suas músicas em uma conta fechada no SoundCloud. Ele tinha ficado impressionado pela criatividade e experimentação do projeto. Algo normal em nossa convivência é, justamente, esse hábito de enviar links para o outro com o intuito de amplificar e potencializar as curadorias de nossos projetos. Na época, Vivian Kuczynski ainda era uma promissora adolescente brincando com as possibilidades em suas primeiras produções caseiras.
Acredito que essas músicas não estão mais disponíveis na internet.
Após anos nos bastidores do pop brasileiro, produtora mergulha em estética eletrônica experimental
A artista acabou participando do 5 Bandas, projeto que, no ano passado, completou 5 anos, e conseguimos ver a movimentação e o interesse da indústria por seu talento como produtora. Kuczynski chegou ao mercado mainstream brasileiro e por lá teve a oportunidade de trabalhar ao lado de gigantes do mercado como Jão, Pabllo Vittar, Alice Caymmi, Carol Biazin, Teto, NX Zero e Forfun. Ainda em 2024 veio ao mundo seu último registro assinado com seu nome e sobrenome, o disco Copas & Estopim, explorando ambiências e uma estética que atravessam o que o mercado convencionou a chamar de brasilidades.
Agora, vivendo em Los Angeles, nos Estados Unidos, a produtora e compositora volta, de certa forma, às suas raízes criativas e experimentais com o EP KUCZYNSKI. É justamente essa ânsia pela construção da música e seus processos, entre equipamentos, arranjos, colagens, ambiências e softwares, que atravessa todo o lançamento.
“Esse lançamento marca o início da minha identidade como artista, conectando toda a minha trajetória nos bastidores a uma visão autoral que agora começa a ganhar forma”, comenta Vivian no release.

KUCZYNSKI marca esse novo capítulo
Entre timbres, experimentações na construção da linguagem, música eletrônica e um olhar para as origens da música moderna, referências atemporais como as do Kraftwerk norteiam o lançamento. É até interessante pensar como esta referência mesmo quase 60 anos depois continua ressoando na música pop, seja na soul music quanto no funk carioca. Da repetição ao minimalismo, a estética do projeto alemão continua se fazendo presente na evolução da música eletrônica. Seja em ritmos populares quanto em gêneros mais nichados, como a Darkwave e o Synth-Pop.
Essa verve de experimentar o post-punk e seus gêneros musicais correlacionados também aparece ao longo dessa jornada de reconstrução de identidade do projeto que agora é assinado apenas pelo seu sobrenome em caps lock: KUCZYNSKI.
A experiência de ouvir as seis faixas, em pouco mais de 18 minutos, é bastante imersiva e propositiva. O EP explora o impacto das batidas, permeia a desconexão com o externo e conduz as sensações do ouvinte por meio de frequências minimalistas. A artista também retorna às origens e opta por cantar em inglês.
Sem se pautar pelo mercado, a experimentação e as possibilidades de digressão sonora reverberam ao longo da experiência auditiva. “WE ARE GONNA LAND IN HOUSTON” é praticamente um tributo ao Kraftwerk.
Esse exercício que mistura o digital com o analógico permite uma conexão entre as emoções e o industrial. Quem gostou de ouvir discos como Nine Inch Noize, projeto colaborativo de 2026 entre a banda industrial Nine Inch Nails (Trent Reznor/Atticus Ross) e o produtor alemão Boys Noize (Alexander Ridha), vai conseguir navegar por suas camadas com fluidez em canções densas como “DOLLARS” e “GOD MADE US THIS WAY”.
Assim como quem gosta do revival do post-punk, amplamente marcado mundialmente pelo sucesso meteórico de bandas russas para a nova geração terá uma grata surpresa. Isso se vê com força e nostalgia, um tanto quanto New Order, em “HAPPILY EVER AFTER”. Faixas como “STEALING IS A BAD THING” irão agradar fãs do projeto experimental de Julian Casablancas, THE VOIDZ e quem se apaixonou por Charli XCX, no álbum BRAT (2024).
O resultado pode ser considerado tanto um renascimento artístico quanto um retorno às suas raízes. Nele, ela explora o que de mais interessante seus estudos, repertório e abstração trouxeram nos últimos anos. Com liberdade criativa e parecendo se divertir, isso faz toda a diferença em um mercado que muitas vezes sufoca a criatividade.
