Ludovic apresenta a primeira canção do primeiro disco em 20 anos. - Foto Por: José Menezes
“Desde que Eu Morri”: Ludovic transforma angústia, fúria e sobrevivência em música
Quando falamos em legado, a relevância artística acompanha como um complemento. De inspirar a ser referência, seja pela atitude nos palcos, seja pela capacidade de elucidar uma quantidade de sentimentos intangíveis em sua poesia, o Ludovic é daquelas bandas que têm um carinho especial dentro do cenário da música alternativa brasileira.
Seus dois discos têm mais do que o reconhecimento da crítica: transbordam para a relação emocional dos fãs que acompanham a trajetória como um todo. Suas idas e vindas sempre trouxeram shows com uma carga intensa e noites inesquecíveis, como o show no SESC Pompeia que resenhamos por aqui. Assim como os clássicos shows em locais insalubres, onde a música era um acontecimento e tudo podia acontecer. Dias de juventude, espírito punk e ativismo que transborda.
No período, Jair Naves continuou ativo com seu projeto solo, assim como Eduardo Praça, com Quarto Negro e Apeles, e Ezekiel Underwood com Reffer, Mudhill, Shed e Single Parents.
Vinto anos após Idioma Morto, sobre o qual fizemos uma matéria aos 15 anos do disco, o novo trabalho agora aparece no radar, com lançamento realizado pela Balaclava Records. A proximidade com o selo paulistano aconteceu antes, com o relançamento em vinil de Servil, nos 20 anos do álbum (2024).
O apego à vida, apesar dos altos e baixos, a necessidade de manter a calma quando a realidade aperta e a dificuldade de expor questões de saúde mental para os mais próximos são traços presentes na composição. Uma canção que transborda sinceridade e mostra como aquilo que, aos olhos da sociedade, simboliza fraqueza é, por si só, um ato de coragem e hombridade.
Ao quebrar barreiras invisíveis que ajudam a superar obstáculos, ranhuras e o estado de angústia, é possível sentir toda essa carga na voz sincera e na fúria que emula processos dolorosos de ruptura, entre delírios, descontrole e inquietação. Essa sensibilidade de Jair explicita o que está no horizonte de milhões de pessoas mundo afora, que lutam contra demônios silenciosos entre crises, abuso de substâncias, sessões de terapia e questionamentos sobre a vontade de permanecer.
“Em termos de sonoridade, creio que reúne as características que as pessoas normalmente associam ao Ludovic, com alguns elementos novos. Tem um pouco de tudo que estamos explorando em todo o repertório novo. Foi a primeira faixa que finalizamos no processo do álbum novo. Acho bem simbólico iniciarmos essa nova fase lançando justamente essa como single”, comenta Jair Naves, vocalista e compositor da faixa.
A sonoridade escolhida evidencia justamente esses balanços, entre idas e vindas de uma mente que, num dia, está bem e, no outro, tudo parece transbordar. Entre ataques de fúria, vontade de colocar um fim e pensamentos intrusivos. A leveza está justamente na sensibilidade que o músico teve ao abordar um assunto que está longe de ser simples e que ainda precisa de mais diálogo em uma sociedade individualista e, muitas vezes, desumana.
O novo disco foi gravado, mixado e masterizado por Fernando Sanches, no Estúdio El Rocha, com assistência de Maiane Sousa e Vinícius Lunardi. Na bateria, aparece Rodrigo Montorso, que já havia colaborado anteriormente em turnês. Jair, além de cantar e tocar baixo, também contribui no sintetizador. Eduardo Praça e Ezekiel Underwood assinam as guitarras.
Eu me agarrei à decisão
por mais um dia existir
E me mantive vivo por um triz
Eu me impus essa missão
por mais um dia, eu vou existir
E me mantive vivo por um triz
Vem cada vez mais alto, (x3)
vem cada vez mais
Amanhece o que foi uma noite de desespero
Deixa eu sentir
São tantas dores, qual surgiu primeiro?
Deixa eu sentir
A chuva leve me encoraja como um beijo
Deixa eu sentir
Amanhece o que foi uma noite de desespero
Deixa eu sentir
Corre sob a pele algo que eu não ignoro mais (x4)
Eu me agarrei à decisão
de por mais um dia existir
E me mantive vivo por um triz
Eu me impus essa missão
por mais um dia, eu vou existir
E me mantive vivo por um triz
(Cuidado com o que você diz pra si mesmo)
No meu pacato sonambulismo,
chegou de maneira imperceptível
aos meus ouvidos cansados, quase inaudível
a equilibrada discrição de um caminhar felino
E então ordenou:
Que desabe tudo de uma vez só
Minha loucura, minha sensatez
se tornaram quase iguais
Minha sobriedade, minha embriaguez
se tornaram quase iguais
Soterrado por uma avalanche de sentimentos
que eu nunca me permiti sentir
Que tudo desabe de uma vez só)
Eu me agarrei à decisão
por mais um dia existir
E me mantive vivo por um triz
Eu me impus essa missão
por mais um dia, eu vou existir
E me mantive vivo por um triz
Protege a minha confissão,
é sempre tão difícil eu me abrir
Eu não me via tão bonito
desde que eu morri
Eu não ouvia o som do meu próprio riso
desde que eu morri (x3)
Eu me agarrei à decisão
por mais um dia, eu vou existir
E me mantive vivo por um triz
This post was published on 3 de fevereiro de 2026 12:00 am
Rancore lança novo álbum BRIO após 15 anos. Banda detalha bastidores do retorno, processo criativo…
A indústria do streaming, cada vez mais orientada por números nas primeiras horas após um…
Alcançando 25 anos de trajetória ininterrupta na música independente, o Mombojó transforma resistência em marco…
Uma estranha nostalgia guia Animal Invisível, álbum instrumental de Guri Assis Brasil que conecta passado…
O Roxette voltou ao Brasil para um show em São Paulo que marcou uma nova…
A banda Crise, de Sorocaba, lança o álbum de estreia “por favor, me perdoe. às…
This website uses cookies.