Os 15 anos do clássico do Ludovic, “Idioma Morto”

 Os 15 anos do clássico do Ludovic, “Idioma Morto”

Ludovic em show especial no Sesc Pompeia. – Foto Por: Rafael Chioccarello (Hits Perdidos)

No dia 7/09 o disco Idioma Morto completou 15 anos do seu lançamento. Assim como seu antecessor, Servil (2004), o material é um dos grandes marcos da cena independente paulistana e os shows catárticos contribuíram para que as lembranças deste momento fossem imortalizadas em quem teve a oportunidade de comparecer.

Com zero glamour e num momento incerto, talvez seja sua intensidade e seu apelo emocional aguçado que tenha conectado tantos no momento de seu lançamento mas foi a redescoberta por uma nova geração de músicos que fez com que ele Idioma Morto permanecesse tão vivo. É comum bandas do rock triste, e outras influenciadas pelo subgênero, como por exemplo, os cariocas do gorduratrans, citarem os discos do Ludovic como fundamentais para a existência do grupo. De banda outsider de uma fase do emo em voga, mas que não declinava um convite para se apresentar, seja ao lado de bandas de metal ou guitar bands, eles acabaram plantando sementes no cenário independente que persistem até os dias de hoje.

“Lembro que, quando estava escolhendo um nome pro disco, pensei: ‘a gente tá falando um idioma que ninguém fala’. E não é nem num sentido arrogante, de gênio injustiçado ou qualquer merda assim. É mais um ‘nossa, a gente tá fodido, porque isso aqui ninguém vai ouvir'”, diz Jair em entrevista para a VICE em 2016.

A temática como Jair Naves nos conta é justamente sobre a chegada a vida adulta, as pazes com o passado e o autodescobrimento. Dores inerentes a todo ser em determinado momento da vida onde as cobranças e responsabilidades apertam.

Assistir ao Ludovic na época era uma caixinha de surpresas, feito ver o The Replacements, podia ser o show que você voltaria em êxtase para casa ou um show que gostaria de não ter visto, fato é que a entrega e a energia faziam você querer voltar. O DIY era a locomotiva, de fato. Você poderia ver um show em uma casa de shows, em uma casa, estabelecimento ou espaço improvisado, as histórias são muitas. Pouco tempo depois a banda viria a entrar em estúdio para o terceiro disco, chegaram a gravar as “prés”mas o disco nunca existiu de fato. Eles até chegaram a comentar sobre ser um alívio o fato justamente por não estarem contentes com o resultado.


Ludovic se apresente no Sesc Pompeia, reunião em que tocou os discos “Servil” e “Idioma Morto”
Ludovic em show de reunião no Sesc Pompeia com a “formação clássica”. – Foto Por: Rafael Chioccarello (Hits Perdidos)

Os 15 anos do Idioma Morto, o segundo disco do Ludovic

Para revistar a obra, nada como conversar com Jair Naves sobre as nuances do Idioma Morto, o momento do cenário independente, a transformação, os shows, seu legado e conexão com o Brasil atual.

Conte mais sobre o contexto do “ninguém vai ouvir” por trás do disco, os bastidores e o momento que a banda vivia naquele ano de 2006.

Jair Naves: “É estranho pensar nisso agora, nessa ocasião, iniciando uma entrevista sobre um disco lançado há quinze anos e para o qual não tínhamos grande expectativas de retorno. Mas acho que fazia sentido termos essa impressão, considerando tudo que vivemos a partir do lançamento do disco de estreia.

Nosso primeiro álbum, Servil, foi originalmente lançado em 2004 pelo Teenager in a Box, selo tocado pelo pessoal do Dance of Days. Por causa dessa conexão, acabamos abrindo diversos shows deles, o que nos posicionou por acidente no meio de toda a onda emo, que naquela época vivia uma ascensão de popularidade sem muitos precedentes na história do underground brasileiro. Evidentemente, nossa sonoridade, letras e mesmo postura no palco não era muito compatível com o que o público interessado naquele movimento em particular apreciava, então muitas vezes vivenciávamos todos um enorme estranhamento quando tínhamos que encarar um ao outro.

Da mesma maneira que não nos encaixávamos muito bem ali, não tínhamos também uma cena específica em que nos sentíssemos em casa. Não que nos sentíssemos superiores aos outros, nenhuma síndrome de “gênio incompreendido” ou qualquer besteira assim. Não é nem de longe o que se passava, mas ainda assim demorou um pouco a acharmos artistas com quem tivéssemos uma afinidade artística e pessoal maior.

Nos primeiros anos, tínhamos o La Carne e as bandas do coletivo Sinfonia de Cães, com quem tínhamos enorme camaradagem e por quem nutríamos muita admiração, mas pelo que me lembro era meio que isso. Me lembro de uma matéria que chegou a classificar esse nosso cenário de “underground do underground”, o que também contextualiza um pouco do que você mencionou na pergunta. Por um lado, sempre fomos bem vindos em diferentes nichos da cena independente daquela época, o que me deixa bem orgulhoso, mas quase sempre nos sentíamos meio alheios e deslocados, percebíamos que a plateia nem sempre tinha a mesma boa vontade conosco que os artistas responsáveis pelos convites.

Me lembro de um fim de semana em especial que ilustra bem isso, em que tivemos três shows em sequência: sexta com o Wry no Studio SP da Vila Madalena, sábado com uma banda cover de heavy metal no Black Jack e domingo num festival de hardcore/emocore numa casa de shows gigante na Penha. Esse recorte traduz o quanto queríamos aproveitar toda e qualquer oportunidade de tocar, ainda que de vez em quando nos desse uma incômoda sensação de não conseguirmos nos fazer entendidos em toda oportunidade que tínhamos.”

Qual o motivo por trás de ter lançado o disco em pleno 7 de Setembro?

Jair Naves: “A previsão dos CDs voltarem da fábrica era para o começo de setembro. Conseguimos essa data no Belfiore, antiga casa de shows na Barra Funda, em que dividiríamos o palco com o Space Invaders. Calhou de o evento acontecer no feriado e de ser a primeira apresentação em que teríamos as cópias físicas disponíveis. Não houve nenhuma intenção de associar o disco a esse dia para simbolizar qualquer metáfora ligada à ideia de independência, nenhuma motivação ufanista, de maneira alguma.”


Ludovic em show na época do Idioma Morto
A intensidade dos shows do Ludovic. – Foto: Reprodução/Facebook

Como é olhar para trás e lembrar do momento que a cena independente estava vivendo?

Jair Naves: “Eu acho que é a mesma sensação de, estando inserido na realidade pavorosa do Brasil de 2021, pensar no momento do país como um todo em 2006. Impossível não ficar com um gosto amargo ao comparar as duas situações. Era outra realidade, outro momento histórico, condições muito mais favoráveis, outro tipo de perspectiva com relação ao que o futuro parecia oferecer.

Naquela época, notava-se uma euforia enorme entre os músicos do circuito. O cenário oferecia novas possibilidades de turnês e casas de show espalhadas por todo o país; era o período de ápice dos festivais independentes; a economia possibilitava turnês internacionais, melhores equipamentos, para alguns até gravações em estúdios estrangeiros; como já foi dito anteriormente, muitas bandas independentes foram captadas por gravadoras de grande porte na onda do emocore; o CSS (leia entrevista com o Adriano Cintra) tinha acabado de assinar com a SubPop e conseguir um destaque internacional inédito desde o Sepultura; a MTV dava enorme visibilidade para os independentes; existia até mesmo uma plataforma brasileira de streaming e download, a Trama Virtual, que era muito benéfica para nomes ainda buscando alguma projeção…  enfim, para muita gente, o céu realmente parecia o limite. Tudo dava a entender que era o início de uma fase de profissionalização do circuito.

Ainda assim, continuando o que eu vinha contando antes, nunca tivemos essa sensação, de que o que vínhamos fazendo poderia ser um passaporte para coisas maiores. Não pensávamos em estratégias ou consequências. Soa bem ingênuo dizer isso, e acho que o fator ingenuidade, romantismo ou seja lá qual for o termo mais adequado, era muito presente em tudo que envolveu o Ludovic, mas realmente fazíamos tudo meio que para nós mesmos. Era quase surpreendente quando víamos mais alguém realmente empolgado com o que estávamos fazendo.”

Vocês sempre tiveram o espírito de tocar nos lugares mais inusitados e trazer uma energia caótica, principalmente nesta época, como vem isso hoje em dia? Com o momento do fechamento de várias casas de show, acredita que o rolê independente vai voltar para palcos menores e até mesmo improvisados?

Jair Naves: “Muitas das melhores lembranças que tenho dessa época são justamente desses shows que você mencionou. Foi onde aprendi algumas das lições mais importantes, onde cometi os erros que mais me ensinaram, onde vi alguns dos mais marcantes shows da minha vida, de bandas que tocavam conosco nessas ocasiões. Nos tornamos músicos e pessoas melhores, acredito eu, por termos vivido todo tipo de situação com a banda, pisado em todo tipo de palco. Também foi fundamental para apresentar nossa banda a pessoas que jamais teriam nos conhecido de outra forma.

No mais, acho que você foi muito lúcido nessa análise sobre o que o futuro reserva aos músicos inseridos nesse nosso contexto. Certamente viveremos todos um momento de reconstrução, de necessidade de achar saídas em um cenário totalmente árido, pouco receptivo. A saída fatalmente passará por aí.’


Ludovic no Sesc Pompeia - Show da volta tocando “Idioma Morto”
Ludovic em show especial no Sesc Pompeia. – Foto Por: Rafael Chioccarello (Hits Perdidos)

Em relação as letras, como enxerga elas hoje em dia? Teve alguma que gerou uma identificação dos fãs de virem contar histórias?

Jair Naves: “Como eu nunca ouço meus próprios discos depois que eles são lançados, fiquei muitos anos sem ouvir o material do Ludovic. Quando resolvemos fazer uns shows de reunião, meu primeiro pensamento foi “putz, espero que não tenha nenhuma letra que seja muito embaraçosa”, já que eu escrevi muita coisa do Servil quando era bem novo, com 18 ou 19 anos. Foi uma ótima surpresa o fato de que não teve um verso sequer que me causasse repulsa ao ponto de eu não conseguir cantá-lo. Pelo contrário, fiquei feliz por ter achado as letras boas, bem escritas e tudo mais. Acho que no geral aquelas canções envelheceram bem, o que me deixa bem contente.

A identificação das pessoas com as músicas às vezes se dá de uma maneira muito profundo, muito pessoal, de forma que pode até ser meio assustadora. “Poço de hombridade”, por exemplo, que descreve um sonho que eu tive durante boa parte da minha vida. Muita gente me abordou durante os anos dizendo que tinha o mesmo sonho. “Unha e carne” costuma ser muito mencionada nesse sentido também. Lembro que “Qorpo-Santo de  Saias” deixava as pessoas muito intrigadas, muita gente não tinha a menor ideia do que eu estava falando, já que o dramaturgo citado no título da canção não é lá tão conhecido assim. Já ouvi todo tipo de interpretações sobre essa, mesmo em resenhas e matérias a respeito do disco. Sempre é interessante ouvir a leitura que as pessoas fazem das letras. Muitas vezes elas me mostram possibilidades que eu jamais imaginaria.”

“Janeiro Continua Sendo o Pior dos Meses” é uma das mais lembraras e ecoadas nos shows de reunião do Ludovic, trazendo um momento de catarse, conte mais sobre o momento da composição e como vê esse processo dela ter virado um hino da banda.

Jair Naves: “O fato das pessoas terem tanto carinho por essa música em especial é motivo de enorme satisfação para mim, porque ela é uma exceção na nossa discografia. Foi a única faixa composta em conjunto pelo Eduardo Praça, pelo Zeek Underwood (ambos guitarristas) e por mim. E ela definitivamente não existiria se não fosse por eles. Acho um simbolismo muito bonito, representa muito a importância de cada um dos dois para a banda. O Eduardo foi o integrante mais longevo da banda, começou a tocar conosco quando tinha só dezesseis anos e passou por praticamente todas as fases, todos os momentos, dos melhores aos piores. O Zeek, quando entrou, mudou muito do que era o Ludovic. Nos tornou uma banda melhor, nos fez acreditar mais em nós mesmos, mostrou uma dedicação e uma ética de trabalho que realmente foi transformadora para o que viríamos a produzir. Então é bonito ver algo que não existiria sem uma das partes envolvidas, uma das poucas faixas criadas coletivamente num repertório feito em sua enorme maioria de forma muito solitária, significar tanto para outras pessoas.

Sobre a letra, com essa ocorreu algo parecido com o que houve com o EP Araguari, meu primeiro lançamento solo. Nos dois casos o teor é profundamente pessoal, a tal ponto que eu cheguei a duvidar que qualquer outro ouvinte poderia se identificar com aquilo. E em ambos ocorreu o oposto do que eu esperava. Me mostrou que, falando de algo muito íntimo, que a princípio pode parecer quase indecifrável para alguém de fora, você pode conseguir uma conexão ainda mais forte com quem te ouve. É um ensinamento que carrego comigo até hoje.”

15 anos depois e o álbum traz versos assustadoramente atuais, para você o que faz com que um disco consiga essa carga de atemporalidade?

Jair Naves: “Essa é bem difícil. Idioma Morto é um disco sobre o choque com a vida adulta, sensação de deslocamento, tentativas de reconciliação com figuras importantes do passado, do processo da nossa formação pessoal, sobre autodescobrimento, enfim… todos esses temas são muito comuns e presentes na vida de quase todos nós. E foram todos abordados da forma mais honesta que me era possível, com uma entrega que beirava o autodestrutivo. Não sei se sou a pessoa mais adequada para essa análise, mas creio que pode passar por aí.”

Na época a cena independente estava ainda carente da profissionalização, problema que de certa forma ainda persiste. O que acha que deveria ser feito para que projetos com potencial não acabassem prematuramente?

Jair Naves: “Quem me dera ter essa resposta. Eu falei um pouco disso numa das perguntas anteriores, mas acho que nesse sentido regredimos com relação a onde estávamos em 2006 – como em quase todo o resto da sociedade brasileira.  Uma coisa caminha com a outra, acredito. Não existe sociedade saudável sem espaço para as artes, sem a valorização do pensamento, da criação, da expressão pessoal e da diversidade de vozes.

A vilanização de artistas iniciada uns anos atrás de forma oportunista por figuras políticas e religiosas então emergentes foi devastadoramente nociva para o país como um todo. Deu espaço a um pensamento primitivo que está nos custando o que tínhamos de melhor. Que possamos nos reorganizar, salvar o que for possível ou reconstruir tudo do zero, se for isso o que nos restar quando passar essa fase tenebrosa.”

“É o maior fiasco de que se tem notícia”, trecho de Qorpo-Santo. De certa forma, é uma frase que em nossos dias parece (infelizemente) se renovar a cada nova notícia que chega do nosso país. Como enxerga esse processo das canções reverberarem diferente a cada ouvinte e a cada época que um jovem (re)descobre uma obra como “Idioma Morto”?

Jair Naves: “Esse é o principal motivo pelo qual eu evito ao máximo explicar o que tinha em mente quando escrevi uma determinada letra. É preciso deixar espaço para que as pessoas façam suas próprias projeções e leituras de acordo com a sua história, com o que estão vivendo, com o que precisam ouvir de uma música naquele momento específico. Eu mesmo tenho a minha própria interpretação de algumas das minhas músicas preferidas, que provavelmente não tem muita ligação com a intenção original do autor. E isso é ótimo. Muito da mágica que ainda existe em músicas, filmes, livros, poemas e por consequência na vida reside aí. E acho que nunca precisamos tanto de um pouco de mágica quanto agora.”

Curiosidades sobre O Idioma Morto

Após a publicação em sua conta no instagram Jair Naves trouxe mais detalhes sobre o disco, confira.

“Hoje, emocionado por ver a matéria publicada, lembrei de alguns causos curiosos, amigos que tornaram esse disco possível e que eu não posso deixar de mencionar. Lembrei, por exemplo, de como juntamos dinheiro para alugar um amplificador para gravarmos as guitarras do disco, já que nenhum de nós dispunha de equipamento que julgássemos bom o suficiente.

Como a nossa verba era curta, gravamos todas as bases e solos, dos dois guitarristas, num só fim de semana. Também voltou a noção do bem que a entrada do Julio fez para a banda. Dos muitos ensaios que o Edu, o Zeek e eu fazíamos no apartamento em que eu morava, tentando acertar os desafiadores arranjos das cordas.

Recordei também de como o Ailton, da Travolta Discos, chegou com a primeira leva de CDs direto da fábrica durante a passagem de som do show de lançamento. Me lembro de como três selos de diferentes partes do Estado uniram esforços para nos ajudar a financiar esse disco (além dos longevos parceiros da Travolta, o Daniel de Mogi e o Gustavo AZ e o Studio Eleven de Franca também nos auxiliaram tremendamente).

Sem contar a enorme contribuição da Tereza Miguel, do TC Studio, que nos gravou com a maior boa vontade do mundo mesmo sem entender direito o que estávamos fazendo ou onde queríamos chegar. E tantos outros amigos que nos auxiliaram com seus conselhos, opiniões e incentivo.

Muita gente fez esse disco acontecer, e acho que a minha intenção por trás desse texto enorme é dividir com essas pessoas um pouco da alegria em notar que, quinze anos depois, tanta gente ainda se importa com o que construímos juntos naquela época. Obrigado por fazerem parte disso.”, relembra Jair Naves


Rafael Chioccarello

Editor-Chefe e Fundador do Hits Perdidos.

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